ESPECULAÇÕES

Julho 17, 2008

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Tempo e memória by Joan Brossa

Tempo e memória by Joan Brossa

“Não vou me preocupar em ver,

seu caso não é de ver pra crer

– tá na cara!”

(Arnaldo Passos & Monsueto Menezes, Mora na Filosofia)

Mesmo para o mais ingênuo dos espectadores, é evidente que houve, ou talvez se deva “gerundizar”, está havendo, um gigantesco “acordão” envolvendo os quatro poderes da República, Executivo, Judiciário, Legislativo e imprensa: vamos abaixar o fogo, baixar a pressão, que se o caldeirão entorna muita gente vai sair escaldada ou coisa pior; e vamos tratar de “coibir abusos” – leia-se, quebrar os braços e as pernas – de órgãos importunos como Polícia Federal (ou parte dela), Ministério Público Federal, juizados de primeira instância e, para não perder a viagem, Ministério Público do Trabalho e IBAMA.

Até agora, o “acordão” implicou a degola de alguns delegados da PF, mas isso, em arranjos de tal porte, é trocado miúdo. Especula-se que, pelo sim pelo não, um certo procurador e um certo juiz, ambos federais e de sobrenomes semelhantes, talvez devessem pôr as metafóricas barbas de molho e adotar o “silêncio obsequioso”.

Não se sabe ao certo o que foi alegadamente encontrado em um suposto esconderijo durante a busca e apreensão realizadas na residência do Sr. Daniel Dantas; pode-se apenas especular que não terá sido algo como uma coleção da revista O Cruzeiro. Tampouco se sabe exatamente o que foi conversado no encontro entre o Presidente da República, o Ministro da Justiça e o Presidente do Supremo Tribunal Federal; pode-se apenas especular que o tema central não terá sido a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Milan.

Especulações, especulações. Palavra que, aliás, é correlata de “espectador” e de “espetacularização”, e também de “espelho”.

A quem especular mais queira, uma sugestão. Levantar o histórico, digamos de 1994 em diante, dos dois entre os supracitados que, nos últimos dias, mais freqüentaram as manchetes dos jornais, e de alguns outros personagens que também são, ou no mesmo período foram, figuras de destaque no noticiário político. E cotejar quem fez o quê, quando e onde.

© Carlos Eduardo Martins é economista.


TOM STOPPARD e 1968(2)

Julho 7, 2008

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos - exposições, shows de música, happenings, leituras de poesia - em endereços mal iluminados em torno de Covent Garden e em outros locais, e aqui a palavra “revolução” adquire, ao meu ver, uma certa substância. Não foi uma revolução social, e nem se limitou a 1968, mas havia a sensação de uma revolução cultural em curso naquele momento.

Infelizmente, também isso me deixava constrangido. Eu adorava a música e a liberdade para me vestir de maneira inventiva, mas não conseguia me acostumar com os diálogos, uma gíria redutiva composta de jargão militante e sabedoria de araque derivada da má compreensão das religiões orientais.

Esta última frase tomei de volta de um personagem da minha última peça, Rock’n'Roll, que começa em 1968. Ironicamente, a pessoa que fala por mim acerca dessa revolução é um marxista, um comunista de Cambridge chamado Max que aparece falando do passado em 1990, quando tem mais ou menos a mesma idade que tenho agora. A seu ver, os anos 50 foram o último período em que a liberdade só chegava depois que você deixava a juventude para trás. Em meados dos anos 60, os jovens já tinham muito mais liberdade do que sabiam usar, mas a confundiram com libertação sexual e liberdade de ficar doidão, de maneira que foi tudo um desperdício - melhor dizendo, desperdiçado numa revolução cultural, e não numa revolução social. “Teatro de rua” é como Max define o período. Alterar a psique era um suposto caminho para a mudança da estrutura social, mas como marxista ele sabia que na verdade as coisas funcionavam ao contrário: mudar a estrutura social era a única maneira de transformar a psique. A idéia de que “faça o amor, não faça a guerra” seja uma palavra de ordem mais prática do que “trabalhadores do mundo, uni-vos” é tão vazia de substância quanto o I Ching.

Eu queria ter conhecido esse homem em 1968. Nos entregaríamos ao constrangimento enquanto contemplássemos o espetáculo. O personagem combatera o fascismo nos cortiços e na Espanha, e quando observasse em tom sarcástico que a sua filha hippie “acha que fascista é um policial a cavalo na Grosvenor Square”, eu poderia ter dito “É isso aí!” ou “Estou de pleno acordo”.

Por outro lado, ele também poderia ter mudado a minha opinião sobre algumas coisas, a começar pela sociedade de que eu me sentia, e ainda me sinto, grato por fazer parte. E os abusos e maustratos? Serão de fato excepcionais ou endêmicos do sistema? E em que ponto o trabalho de edição pode se confundir com uma censura auto-imposta diante de pressões reais ou imaginadas?

Estas são perguntas que eu não me faria em 1968. Mas não fui o único a mudar. A sociedade também mudou. Em 2005, entrevistei um cineasta na Belarus que os órgãos estatais de segurança tinham espancado pelos motivos de sempre, e ele me disse algumas coisas notavelmente parecidas com um monólogo que eu acabara de escrever para um anglófilo tcheco em Rock’n'Roll… “Eu sonho com o que vocês inventaram”, diz Jan a Max. “Vocês podem xingar os governantes de idiotas e criminosos, mas a lei defende a liberdade de manifestação, e se o governo não gostar, que se foda, não pode pôr a mão em vocês…” E o cineasta em Minsk me disse: “O fato de vocês poderem chamar o primeiro-ministro de mentiroso e assassino não é uma virtude dele, é uma virtude de vocês.” Esse meu artigo sobre a Belarus foi publicado quase no mesmo dia em que Walter Wolfgang foi expulso à força da convenção do Partido Trabalhista inglês. Recebi um jubiloso cartão postal de Harold Pinter.

Essa coisa que “nós inventamos”, a autonomia do indivíduo, percebo que ecoa em tudo que já escrevi. Em The Coast of Utopia,5 usei as palavras do próprio Alexander Herzen6 sobre os ingleses oitocentistas: “Eles não dão asilo por respeitar quem lhes pede asilo, mas em sinal de respeito por si mesmos. Inventaram a liberdade pessoal sem formularem qualquer teoria a respeito. Dão valor à liberdade pela liberdade.”

Se eu soubesse em 1968 o que iríamos malbaratar, mais aceleradamente depois de 2001, bem antes da desculpa do 11 de Setembro, eu poderia ter me juntado àquela farra com menos embaraço, com menos a perder. Mas àquela altura tudo que ocorria me parecia frívolo em comparação com as liberdades que inventamos - ou, talvez deva dizer, as liberdades que os ingleses inventaram? Eu tinha 31 anos, vinha ganhando a vida desde os 17, era velho demais, encabulado demais, monógamo demais, medroso demais em relação às drogas, apaixonado demais pela Inglaterra e tenso demais para relaxar e aproveitar a fundo aquilo tudo.

Sir TOM STOPPARD, é dramaturgo e adora  rock’n'roll.

Olhem só:

Na página do British Council.

No Rock.


TOM STOPPARD e 1968 (1)

Julho 7, 2008

Em 1968 eu levava uma vida confortável, ao lado de minha primeira mulher e meu primeiro bebê na nossa primeira casa, graças ao sucesso da minha primeira peça, e começava a ser visto pelos meus pares como uma pessoa politicamente ambígua.

Ainda faltavam alguns anos para que um conhecido diretor de esquerda, quando lhe perguntaram qual seria uma boa peça para montar no Royal Court Theatre, 1 respondesse “uma peça que não tenha sido escrita por Tom Stoppard”. Na ocasião, eu já tinha consciência de um sentimento que me afastava do espírito reinante de rebelião, quando era uma glória estar vivo naquele amanhecer, mas ser jovem é que era o barato.

O sentimento a que me refiro era o constrangimento. Eu me sentia constrangido com as palavras de ordem e as posturas de rebelião numa sociedade que, tanto em Londres quanto em Paris, progredira muito desde a juventude de Wordsworth, e oferecia aquele que me parecia o menos ruim dos sistemas em que uma pessoa podia nascer - a democracia liberal aberta, cuja essência era a tolerância à dissensão.

Eu não tinha nascido nesse sistema. E ninguém precisa ser um grande especialista em psicologia para deduzir que, na Inglaterra de 1968, 22 anos depois de lá ter chegado, eu me sentia muito mais disposto a defender meu país adotivo do que a apontar os seus defeitos. Até onde eu sabia, caso o meu pai tivesse sobrevivido à guerra (ele foi morto no Extremo Oriente), era sua intenção levar a família de volta para o lugar onde nasci, a Tchecoslováquia. Chegaríamos em 1946, e eu teria crescido sob a ditadura comunista que lá se instalou dois anos depois.

Como a maioria das pessoas, eu tinha noção que nem tudo eram flores nos jardins do Ocidente, e é claro que não conhecíamos - ninguém jamais conhece - da missa a metade. No entanto, quando em agosto as forças do Pacto de Varsóvia invadiram e ocuparam a Tchecoslováquia, num ato que era uma confirmação cabal e enfatizada da ocupação em curso na Europa Oriental, o meu constrangimento diante da “revolução” dos nossos polichinelos da agitprop converteu-se em repulsa.

O que me repelia era a identificação implícita entre dois casos radicalmente diversos. O “Ocidente livre”, sabe Deus, também estava muito desfigurado pela corrupção e injustiça, mas no nosso caso os abusos representavam as situações em que o modelo não funcionava, e eram apontados como exemplos das suas deficiências. Já no Leste, os abusos representavam o modelo em plenas condições de funcionamento. Quarenta anos mais tarde eu não faria essa distinção com a mesma facilidade, mas àquela altura nada me parecia mais claro.

Um pequeno incidente que deve ter confirmado as piores suspeitas cultivadas por alguns a meu respeito ocorreu quanto me pediram para assinar uma declaração contra a “censura” depois que um jornal se recusara a publicar o manifesto de alguém. “Mas isso não é censura”, respondi. “É decisão editorial. Na Rússia você vai preso se tiver um exemplar de A Revolução dos Bichos. Isso sim é censura.” A “normalidade” do comunismo baseava-se na distorção da linguagem, e o meu novo herói, George Orwell, já diagnosticara fazia tempo essa doença na sua própria sociedade, de maneira que eu levava esse tipo de coisa muito a sério.

E é claro, em seguida ainda houve Paris.

Lá por agosto, a fumaça do maio parisiense já tinha dissipado. Ocorreram batalhas ferozes entre milhares de estudantes e as forças policiais, seguidas por uma ocupação da Sorbonne e uma greve geral, que durou cinco semanas. Foram acontecimentos enormes, pouco diminuídos, do meu ponto de observação num chalé modesto à beira de uma autoestrada, pela adesão pressurosa de filósofos famosos, atores e outros luminares de uma cultura generosamente subsidiada pelo Estado. Mesmo após quarenta anos, les événements de 1968 ainda conferem à versão inglesa daquele ano, mais contida, certa ressonância para quem não quer admitir o que aconteceu em Praga, e se furta a discutir as razões daqueles fatos. Mas eu vejo a nossa “revolução” - a ocupação da London School of Economics e do Hornsey College of Art, além de toda a agitação daqueles dias embriagantes - como pouco mais que uma Saturnália.

E era justamente esta uma das coisas que eu mais amava na Inglaterra. A versão inglesa das erupções do Continente sempre sugeria um caráter nacional em pleno controle de si mesmo. Na França, na Alemanha, na Itália e na Espanha o ativismo político, nos casos mais extremos, acabou desembocando em assassinatos, seqüestros e atentados a bomba. Meu editor italiano, uma das pessoas mais sofisticadas, encantadoras e carismáticas que jamais conheci, seria morto mais tarde por seus próprios explosivos enquanto tentava destruir uma torre de distribuição de eletricidade nos arredores de Milão.

Alguns quilômetros do outro lado do Canal, os choques entre manifestantes e a polícia envolviam carros em chamas, ônibus virados e edifícios em ruínas. No nosso caso, brigar na rua era só tema de rock’n'roll. Aqui, a rebelião tinha algo de envergonhada. As manifestações exibiam sempre certo ar carnavalesco. As nossas reuniões - e fui atraído a algumas delas - eram convocações a sério em que moradores de prédios invadidos e as pessoas que mais tarde viriam a ser conhecidas como “formadores de opinião” planejavam mudar a sociedade fundando uma revista e discutindo formas de atrair o apoio dos “trabalhadores”. A fascinante peça The Party,3 escrita por Trevor Griffith e cuja ação se passa em 1968, encenada no National Theatre com Laurence Olivier no papel de um militante da classe trabalhadora chamado para uma reunião num endereço caro de Londres decorado com um David Hockney dos primeiros anos na parede, é para mim a perfeita cápsula do tempo sobre o lado chique de 68.

Mas nem tudo era elegante, evidentemente.

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos - exposições, shows de música, happenings,


Pense nisso.

Maio 30, 2008


LOUISE LABÉ: criatura de papel?

Maio 9, 2008

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008


CRONOLOGIA (1968)

Maio 8, 2008

+ Cronologia

Outubro de 1967 - Jovens franceses realizam manifestações contra o Plano Fouchet, que visava à “eficiência do sistema universitário”. Nos EUA, protesto contra a Guerra do Vietnã reúne cerca de 35 mil pessoas

1968 - Na Tchecoslováquia, Alexander Dubcek assume a liderança do Partido Comunista e inicia reformas liberalizantes. A retomada da liberdade de expressão culmina com a Primavera de Praga: diversos setores da população passam a exigir mais abertura democrática. A experiência terminaria em agosto, com uma ocupação militar organizada por países comunistas

8 de janeiro - O estudante de nacionalidade alemã Daniel Cohn-Bendit lidera protesto na Universidade de Nanterre. Com 50 estudantes, Dany, o “Vermelho”, ataca verbalmente o ministro da Juventude e dos Esportes, François Missoffe, comparando ao nazismo as novas normas de segurança em vigor nas universidades

22 de março - Estudantes, denunciando a repressão a protestos anteriores, ocupam a administração de Nanterre. As aulas são suspensas até 1º de abril

4 de abril - O pastor e ativista Martin Luther King Jr. é assassinado em Memphis (EUA). Conflitos raciais emergem em dezenas de cidades do país

2 de maio - Nanterre suspende aulas em dia de manifestação

3 de maio - Após protesto na Sorbonne, conflitos com a polícia no Quartier Latin deixam mais de cem feridos e 500 presos

6 de maio - Manifestações espalham-se por universidades francesas; nos dias seguintes, protestos reúnem dezenas de milhares de pessoas

10 de maio - A Noite das Barricadas: estudantes reivindicam a soltura de colegas e fecham ruas do Quartier Latin; a polícia intervém violentamente

11 de maio - Sindicatos convocam greve geral. O primeiro-ministro Pompidou concorda em anistiar estudantes presos, retirar forças policiais do Quartier Latin e reabrir a Sorbonne

13 de maio - Irrompe a greve geral: a maioria das universidades francesas adere, junto com os dois maiores sindicatos do país

19 de maio - O Festival de Cinema de Cannes interrompe os eventos. Não há premiado no ano

21 de maio - O total de grevistas chega a 10 milhões. O líder estudantil Cohn-Bendit é expulso do país, suscitando novos conflitos

22 de maio - Parlamento rejeita derrubada do presidente De Gaulle, proposta pela esquerda

27 de maio - Governo, empresas e lideres sindicais entram em acordo sobre aumento de salários e melhoria de condições de trabalho, mas trabalhadores permanecem em greve

30 de maio - Em discurso transmitido por rádio, De Gaulle se recusa a renunciar e clama por apoio de seus eleitores. Manifestações pró-governo juntam quase 1 milhão de pessoas

1º de junho - Abastecimento começa a se normalizar. Até meados do mês, serviços e indústria voltam a funcionar como antes

30 de junho - Os partidários de Charles de Gaulle vencem as eleições legislativas. O presidente, no entanto, não garante sua estabilidade: no ano seguinte, os eleitores votam contra um referendo proposto pelo general, que acaba renunciando à Presidência em seguida

http://uol.com.br/fsp


Pais de Aluguel

Maio 8, 2008

FAMÍLIA SE DEMOCRATIZOU, MAS PERDEU REFERÊNCIA SIMBÓLICA

Nascido em Paris em 1949, Alain Finkielkraut é ensaísta, produtor da rádio France-Culture e professor de história das idéias na Escola Politécnica.
Midiático e polêmico, é considerado uma das referências do pensamento de direita na França. Em 2005, criticou a onda de revoltas juvenis ocorrida nos subúrbios franceses.
Também afirmou que a seleção francesa de futebol não era “Branco, Azul e Vermelho” nem “Branco, Preto e Pardo” (como se diz desde a Copa de 98), mas sim “Preto, Preto e Preto”. Nesta entrevista concedida a Aude Lancelin, do “Nouvel Observateur”, o autor de “A Ingratidão” (Objetiva) e “A Humanidade Perdida” (Ática) comenta as influências de 1968 sobre a família.  

PERGUNTA - Em 1977, em “Le Nouveau Désordre Amoureux” [A Nova Desordem Amorosa], o sr. escreveu que tínhamos passado de uma era de “repressão sexual” para uma espécie de imperativo categórico de gozar, que era igualmente coercivo. Tudo o que aconteceu desde então confirmou sua opinião?
ALAIN FINKIELKRAUT
- Aquele foi um livro anti-1968 habitado pelo espírito de 1968. Era a época do “tudo é político”, e o discurso sobre o sexo remetia ao registro judiciário da acusação.
Na contramão disso, optamos pelo gênero da celebração, especialmente pelo elogio do gozo feminino. Sem a liberação sexual, não poderíamos ter escrito esse livro. Mas o escrevemos para libertar o amor do domínio do discurso da libertação. De fato, o que é o desejo amoroso senão a experiência de uma maravilhosa sujeição?

PERGUNTA - O filósofo americano Allan Bloom, nos anos 1990, disse: “Você pode ser um romântico hoje, se quiser, mas isso seria um pouco como ser uma virgem num puteiro”. O sr. pensa, como ele, que o amor hoje em dia está comprometido?
FINKIELKRAUT
- O que compromete o amor é o fato de não se enxergar senão um confronto entre as exigências do desejo e sua repressão. É essa a razão pela qual, em “A Nova Desordem Amorosa”, Pascal Bruckner [co-autor do livro] e eu quisemos reintroduzir o personagem esquecido do amado.
Contudo, se hoje fosse escrever uma seqüência para esse livro, começaria por um elogio erótico ao pudor. Este não é apenas uma restrição arcaica, o resquício de um preconceito burguês -pelo contrário, eu o vejo como um atributo ontológico da mulher.

PERGUNTA - Um autor como Michel Houellebecq propaga uma visão segundo a qual 1968, longe de ter dado início a uma era de libertação sexual real, teria estendido o domínio da luta capitalista para o próprio sexo, de tal modo que cada um se torna substituível, em estado de insegurança permanente. O sr. concorda com essa visão?
FINKIELKRAUT
- Quisemos acreditar que a libertação sexual iria suprimir a dimensão da infelicidade. Mas não é porque tudo é permitido que tudo é possível, Houellebecq teve o mérito imenso de ter chamado a nossa atenção para isso. O desejo é uma escolha, e escolher é excluir.
Sem dúvida hoje, mais do que nunca, é difícil ser feio, tímido ou antiquado. A proibição era um álibi para o fracasso. Nossa época é mais livre e, portanto, de certa maneira, mais cruel.

PERGUNTA - Ensaístas como Michel Schneider ou Eric Zemmour denunciam hoje uma confusão ou sobreposição das identidades sexuais e tendem a atribuir às mulheres as desordens que, segundo eles, solapam a sociedade ocidental. Como o sr. vê esse tipo de receio?
FINKIELKRAUT
- Não vejo como certo que a sexualidade seja a instância última de todos os nossos comportamentos.
Em outras palavras: não sou freudiano. Assim, não penso que a crise atual da transmissão em nossas sociedades proceda mecanicamente de um desaparecimento da função “viril”, nem, a fortiori, de uma conspiração feminina.
Em contrapartida, observo que se perdeu uma certa idéia do pai. E o problema não se reduz à questão de saber se os pais estão certos ou errados em trocar as fraldas de seus filhos -a meu ver, estão certos. A família tornou-se lugar de uma negociação perpétua.
Hoje tudo acontece num registro puramente afetivo, e não mais simbólico. Maio de 1968 não terá sido, em tudo isso, mais que um momento de aceleração do processo democrático que nos carrega há muito tempo.
A democracia -como afirmação da igualdade de todos os indivíduos, como passagem de uma vida suportada para uma vida desejada- se adapta muito dificilmente à partilha dos papéis. Assim, a família deixa de ser uma instituição para converter-se em uma associação precária. Se isso é bom ou mau, não posso dizer.


A íntegra desta entrevista foi publicada no “Nouvel Observateur”. Aude Lancelin (c) 2008 “Le Nouvel Observateur”. Tradução de Clara Allain .


Lembranças de Maio

Maio 8, 2008

O HISTORIADOR INGLÊS PETER BURKE RECORDA O IMPACTO DAS MOBILIZAÇÕES NA FRANÇA E NA TCHECOSLOVÁQUIA E AS CONQUISTAS PARA O FEMINISMO, OS COSTUMES E OS DIREITOS CIVIS

PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

Uma das datas da qual os membros da minha geração jamais vão se esquecer é 1968, graças a dois acontecimentos, um em Praga e o outro em Paris.
O primeiro foi a chamada Primavera de Praga -em outras palavras, o “socialismo com face humana” incentivado por Alexander Dubcek, que se tornou primeiro secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia em janeiro daquele ano.
O segundo acontecimento memorável ou, melhor dizendo, série de acontecimentos -”os acontecimentos”, como os franceses os descreveram na época- se deu em Paris, dentro e em volta de duas universidades: Sorbonne, no centro da cidade, e Nanterre, em sua periferia.
Os estudantes foram liderados por trotskistas (expulsos da União dos Estudantes Comunistas Franceses em 1965), maoístas e anarquistas (sobretudo o carismático Daniel Cohn-Bendit, que se tornaria um respeitável deputado no Parlamento Europeu).
Os estudantes se revoltaram, hastearam bandeiras vermelhas, atiraram coquetéis Molotov, lutaram contra a polícia ou fugiram dela, arrancaram paralelepípedos das ruas, ergueram barricadas (pela primeira vez desde a Segunda Guerra), atacaram os escritórios da American Express e do banco Chase Manhattan em Paris e, no dia 10 de maio de 1968, ocuparam a Sorbonne, convertendo-a numa espécie de comuna estudantil.
De Gaulle queria enviar o Exército para intervir, mas foi persuadido a não fazê-lo, já que os soldados, em sua maioria rapazes que cumpriam o serviço militar obrigatório, poderiam querer se confraternizar com os estudantes.
As principais armas empregadas contra eles foram investidas com gás lacrimogêneo e cassetetes.

Slogans e pichações
As revoltas estudantis não costumam conquistar a simpatia do público, mas esses fatos o fizeram. Mesmo as pichações nos muros foram fotografadas e reproduzidas na imprensa, sendo imitadas em outras cidades, como Oxford.
Algumas daquelas pichações são recordadas até hoje, especialmente “A imaginação ao poder!”. Algumas delas seguiam a tradição das revoluções: “Abaixo o Estado”, por exemplo, ou “Abolição da sociedade de classes!”.
Outras expressavam críticas à tradição revolucionária, exortando ao sexo em vez do trabalho e à espontaneidade em lugar da disciplina (”Aqui se “espontaneiza’”).
Outras pichações, ainda, defendiam posturas francamente hedonistas (”Viver o presente” ou “Trabalhadores do país, divirtam-se!”), expressando um pouco do espírito carnavalesco dos próprios acontecimentos.
Algumas pichações eram citações, reconhecidas ou não, de Bakunin, Nietzsche, Unamuno, Heráclito etc. Outras ofereciam epigramas originais, como “As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes” ou “A barricada fecha a rua, mas abre a via”.
Vistas em conjunto, essas inscrições transmitem de maneira vívida uma crítica veemente à religião, ao Estado (especialmente a polícia), ao sistema educacional e à sociedade de consumo (”A mercadoria é o ópio do povo”).
A inspiração de muitas dessas pichações, assim como dos acontecimentos como um todo, veio do chamado “situacionista” Guy Debord, autor de “A Sociedade do Espetáculo” (1967), de intelectuais de esquerda como Henri Lefebvre, Louis Althusser, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, de Mao Tse-tung, tão popular entre a esquerda nos anos 1960, e, voltando mais atrás, de Marx, Lênin e Trótski.

Alguma revolução
Hoje, 40 anos depois, seria interessante que alguém entrevistasse os autores das pichações -se soubéssemos quem são!- para lhes perguntar o que pensam hoje das idéias e dos sentimentos que, na época, expressaram publicamente com tanta pungência.
O que essas pichações tornam muito claro é o desejo ou a esperança de muitos de seus autores por alguma espécie de revolução política ou social, um novo 1789 ou, quem sabe, um novo 1848 ou mesmo uma revolução cultural como a que estava acontecendo na China, enquanto ocupavam a Sorbonne e eram elogiados por alguns intelectuais franceses, incluindo Jean-Luc Godard. Até que ponto essa revolução teve êxito?
A pergunta era muito difícil de responder na época, mas hoje, passados 40 anos, algumas coisas já se tornaram mais claras. Os acontecimentos ajudaram a derrubar o presidente Charles de Gaulle, que renunciou ao cargo em abril de 1969.
Por outro lado, De Gaulle foi sucedido por seu antigo primeiro-ministro, Georges Pompidou, que não era mais aberto que seu antecessor às idéias dos estudantes.

Ganhos indiretos
Os acontecimentos de 1968 instigaram o governo a empreender uma reforma das universidades, multiplicando o número de estudantes, mas não conseguindo ampliar a infra-estrutura acadêmica de modo a satisfazer as suas necessidades.
É possível que as conseqüências mais duradouras do Maio de 1968 tenham sido indiretas, de natureza cultural, mais que estrutural.
O exemplo dos estudantes parece ter encorajado o movimento feminista francês, além de aumentar a consciência política de alguns intelectuais, como foi o caso de Michel de Certeau [1925-86].
Num artigo publicado algumas semanas apenas após os acontecimentos, ele -com um entusiasmo talvez inesperado, em se tratando de um jesuíta de meia-idade- escreveu que “em maio de 1968, tomou-se a palavra como tomou-se a Bastilha em 1789″.
A interpretação que Certeau fez dos fatos do Maio de 1968 pode ser aplicada a ele próprio. Antes de 1968, ele era um historiador da espiritualidade que também se debruçava sobre a reforma da igreja.
Depois de escrever esse célebre artigo sobre 1968, porém, Certeau foi projetado para sua segunda carreira, a de analista da sociedade contemporânea, discutindo e criticando as idéias de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, tendo escrito “A Cultura no Plural” (1974) e “A Invenção do Cotidiano” (1980), além de dar palestras nos EUA, no Brasil e em outros países.
Em suma, como é o caso de revoluções em escala maior, os acontecimentos de 1968 incentivaram algumas pessoas a alimentar pensamentos novos, dando asas a sua criatividade.
Para deixar a última palavra às pichações, “a revolução é uma iniciativa”. “Criemos comitês de sonhos.” “A ação não deve ser reação, mas criação.” “Criem!”


PETER BURKE , 70, é historiador inglês, autor de “O Que É História Cultural?” (ed. Zahar). Escreve na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Clara Allain .
http:uol.com.br/fsp
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WOODY ALLEN : “A vida é trágica” - O sonho de Cassandra

Abril 30, 2008
 
Cineasta expõe sua “visão sombria e pessimista” sobre a condição humana e conta que o assassinato é um ato dramático que o “interessa muitíssimo”

Aos 72, Woody Allen lança “O Sonho de Cassandra”, que estréia hoje no Brasil, reclamando de Hollywood, da velhice, da crítica e até de seus filmes… Em entrevista a Bruno Lester, da International Feature Agency, nega que seja um “intelectual”: “Não me interesso por livros complicados”. Allen comenta ainda o lado trágico de “Cassandra”, em que Ewan McGregor e Colin Farrell vivem irmãos endividados que recebem proposta para cometer um crime. (DA REDAÇÃO)

PERGUNTA - Do que trata “O Sonho de Cassandra”? 
WOODY ALLEN 
- É simplesmente a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições. A intenção deles é boa. Eles foram educados com decência, mas os acontecimentos e seus próprios atos os conduzem a um final trágico.

PERGUNTA - Como “Crimes e Pecados”, é sobre morte e culpa. 
ALLEN 
- Sempre me interessei pelo assassinato e pelo lado sombrio do drama e da tragédia. O assassinato é uma das ferramentas que dramaturgos e cineastas vêm usando há séculos para elucidar o que querem mostrar, quer fossem tragédias gregas, Shakespeare ou, mais adiante, os suicídios nas peças de Arthur Miller. Tirar a vida é um ato muito dramático e que me interessa muitíssimo.

PERGUNTA - Fazia algum tempo que você não criava um drama. 
ALLEN 
- Acontece que meus pontos fortes mais evidentes sempre foram cômicos, mas eu sempre quis ser um escritor trágico -escritor de materiais trágicos. Finalmente, agora que estou ficando mais velho, estou tendo a chance de fazê-lo.

PERGUNTA - Você disse uma vez que a vida é “uma experiência bastante trágica”. 
ALLEN 
- Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica.

PERGUNTA - Por que você deixou de fazer filmes nos EUA? 
ALLEN 
- É mais fácil conseguir financiamento na Europa. Me dão mais liberdade, porque se respeita o artista mais do que nos EUA. Quando estúdios de Hollywood financiam meus filmes, eles interferem muito. Na Europa, me deixam fazer o que eu quiser. Além disso, aqui eu consigo fazer filmes a um custo mais baixo, e eles não ficam parecendo filmes feitos com pequeno orçamento.

PERGUNTA - “O Sonho de Cassandra” foi recebido com frieza em Veneza, em setembro do ano passado. Você lê as críticas de seus filmes? 
ALLEN 
- Não o faço há 30 anos. Elas não me ajudam. Também nunca assisto a documentários ou leio artigos a meu respeito, porque representam imagens de mim que não reconheço. Não fiz nada de diferente em “O Sonho de Cassandra” do que fiz em outros filmes anteriores.

PERGUNTA - Todo ano há um novo filme de Woody Allen. Como se explica você ser tão produtivo? 
ALLEN 
- É o que faço e tenho bastante tempo livre. Tenho metade do ano sem nada para fazer. Quando termino um filme, fico parado em meu apartamento, caminho pelas ruas, e então tenho uma idéia e penso: “Meu Deus, isso vai ser um outro “Cidadão Kane’!”. Começo a escrever e, em pouco tempo, estou com um roteiro. É claro que, quando o resultado está ali, não é nenhum “Kane”.

PERGUNTA - Você já recebeu 21 indicações e três Oscars (roteiro e direção de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e roteiro de “Hannah e Suas Irmãs”). O que está faltando? Você pensa em se aposentar algum dia? 
ALLEN 
- Enquanto puder continuar a fazer filmes, não vejo razão para não fazê-los. O que mais deveria fazer? Gosto de trabalhar. Sinto prazer em escrever, é meu hobby.

PERGUNTA - E sua saúde é boa. 
ALLEN 
- Nunca estive no hospital; ainda sou ativo. Tenho bons genes. Minha mãe chegou aos 98 anos; meu pai, aos 100. Mas envelhecer é uma coisa terrível. Minha vista já não é o que era, perdi um pouco da audição, a comida não tem o mesmo gosto. Não ganhei sabedoria nenhuma. Não há nada de bom em envelhecer. Você simplesmente deteriora e morre.

PERGUNTA - É mais fácil escrever comédias do que dramas? 
ALLEN 
- Sei mais sobre a comédia, então ela parece vir à tona a todo momento. É claro que quem escreve comédia pensa que a verdadeira essência do mundo está nas mãos dos escritores de dramas sérios. E não há nada que os autores de dramas sérios gostariam mais do que escrever comédias.

PERGUNTA - Por que você não anda atuando tanto quanto antes? 
ALLEN 
- Eu atuo apenas quando acho que sou a pessoa perfeita para o papel. Não sou realmente um ator. Sou muito, muito limitado. Sou capaz de dizer falas espirituosas curtas, e isso é divertido. Consigo representar o tipo de personagem nova-iorquino neurótico que se assemelha ao que sou na vida real.

PERGUNTA - Quando passa algum tempo sem atuar, sente falta disso? 
ALLEN 
- Não. Não me chatearia se eu nunca mais voltasse a atuar. Não ligo. Acho difícil avaliar minha própria performance quando estou na sala de edição. Quase sempre me odeio. É tão constrangedor ver sua imagem na tela grande, agindo como uma pessoa tola. Então, minha tendência é jogar fora muitas coisas que faço, enquanto outras pessoas dizem: “Oh, não tire isso do filme, isso é engraçado”. Então, o que você vê na tela -acredite se quiser- é a destilação do que eu consegui fazer de melhor. Portanto, você pode imaginar o que vai parar na máquina de picar papel!

PERGUNTA - Por que você não deixa seus atores lerem o roteiro inteiro? 
ALLEN 
- Constatei que, se eles não sabem o que está acontecendo, não representam o resultado de suas ações. Eles não atuam sabendo para onde vai o roteiro -atuam de maneira muito espontânea, porque não têm certeza do que está acontecendo. E, de fato, os personagens não devem saber o que está acontecendo.

PERGUNTA - Você é conhecido por não dar muita direção. 
ALLEN 
- Não gosto de sobrecarregar atores com muita conversa, análise e direção. Contrato as melhores pessoas, e então saio do caminho delas. Dou liberdade enorme aos atores.

PERGUNTA - “Vicky Cristina…” é estrelado por Scarlett Johansson. É o terceiro filme que fazem juntos. O que há de especial nela? 
ALLEN 
- Ela tem tudo: é linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa e boa para se trabalhar. Gosto de tudo nela. Se ela mantiver a cabeça no lugar nesse campo de trabalho maluco, o futuro será dela.

PERGUNTA - Como você se sente com a história de ela ser descrita como sua musa? 
ALLEN 
- Fico grato quando a chamam de minha musa, mas não é verdade. Com Diane Keaton, foi diferente. Fizemos oito ou nove filmes e tínhamos uma ligação especial. Mas gosto de trabalhar com Scarlett.

PERGUNTA - Você fica nervoso durante as filmagens? 
ALLEN 
- Nunca fico nervoso quando estou escrevendo ou dirigindo, mas o pânico se instala no momento da montagem, quando você vê tudo o que fez. É um banho de água fria.

PERGUNTA - Você não costuma ficar satisfeito com os resultados? 
ALLEN 
- Não. Quando está filmando, você sempre pensa que está fazendo história, e, quando termina, você diz: “Meu Deus, o que eu fiz?”. Sempre pensei que tenho um pouco de talento e muita sorte.

PERGUNTA - De quais filmes seus você se orgulha mais? 
ALLEN 
- Tenho três dos 39 filmes que fiz: “Match Point”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Maridos e Esposas”. Todos os outros, eu gostaria de refazer.

PERGUNTA - Alguma vez você já ficou tão decepcionado com um filme que não queria que estreasse? 
ALLEN 
- Fiquei muito decepcionado com “Manhattan”. Prometi ao estúdio que, se não o lançasse, eu faria o filme seguinte de graça. Mas o estúdio se recusou, e o filme teve bom desempenho. Com “Setembro”, foi o mesmo. Disse ao estúdio que queria refilmar tudo.

PERGUNTA - Você é admirado por outros cineastas. Você enxerga a sua influência no trabalho deles? 
ALLEN 
- Nunca senti que influenciei ninguém. Não quero que isso soe como falsa modéstia, mas sempre pude sentir a influência de meus contemporâneos -Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Steven Spielberg- e nunca vi minha influência sobre ninguém.

PERGUNTA - Quem o inspirou mais? 
ALLEN 
- Provavelmente os comediantes Groucho Marx e Bob Hope. 


Tradução de CLARA ALLAIN 

 

 

REtirado daqui: FSP


PELO DIA DA TERRA - Perguntas e Respostas

Abril 19, 2008

 

Urso-polar vasculha lixo no Canadá. O maior predador do Ártico está ameaçado pela redução da área de mar congelado, seu território de caça  (Foto de Norbert Rosing/National Geographic/Getty Images)

1. O que é o efeito estufa?

O efeito estufa é o fenômeno natural pelo qual a energia emitida pelo Sol - em forma de luz e radiação - é acumulada na superfície e na atmosfera terrestres, aumentando a temperatura do planeta. De suma importância para a existência de diversas espécies biológicas, o efeito estufa acontece principalmente pela ação de dióxido de carbono (CO2), CFCs, metano, óxido nitroso e vapor de água, que formam uma barreira contra a dissipação da energia solar. A maioria dos cientistas climáticos crê que um aumento na quantidade desses gases provoca uma elevação da temperatura da Terra.  

2. A emissão desses gases está aumentando?

Com o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis cada vez mais intensos, a concentração desses gases está aumentando, especialmente as de CO2 e metano. Desde 1800, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 30%, enquanto a de metano aumentou 130%. Analisando camadas de gelo da Antártica, cientistas europeus descobriram que o ritmo de aumento na concentração de CO2 é impressionante: nos últimos 150 anos, o gás propagou-se pela atmosfera do planeta cerca de 200 vezes mais rápido que nos últimos 650.000 anos.

3. Quais são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

Os maiores emissores de gases responsáveis pelo efeito estufa são Estados Unidos, União Européia, China, Rússia, Japão e Índia. Entre essas nações, os Estados Unidos - responsáveis por cerca de 36% do total mundial - lideram as emissões tanto em termos absolutos como per capita. Entre 1990 e 2002, os EUA aumentaram em 15% o nível de emissão de gases, chegando a 6 bilhões de toneladas ao ano. Para efeito de comparação, todos os países membros da UE emitiram, juntos, cerca de 3,4 bilhões em 2002. A China, terceira colocada no ranking, emitiu 3,1 bilhões de toneladas.

4. Quais são as evidências do aquecimento do planeta?

Há diversas evidências de que a temperatura global aumentou. Os termômetros subiram 0,6°C entre meados do século XIX e o início do século XXI - desses, 0,5°C apenas nos últimos 50 anos. Outra evidência é a elevação de 10 cm a 20 cm no nível dos oceanos nesse período. Além disso, as regiões glaciais do planeta estão diminuindo: em algumas zonas do Ártico, por exemplo, a cobertura de gelo encolheu até 40% em décadas recentes. Cientistas também consideram prova do aquecimento global a diferença de temperatura entre a superfície terrestre e a troposfera - zona atmosférica mais próxima do solo.  

5. Quanto a temperatura pode subir?

Os atuais modelos científicos prevêem que, se nada for feito, a temperatura global pode aumentar entre 1,4°C e 5,8°C até 2100. Cientistas menos otimistas acreditam que a temperatura de certas áreas do globo pode subir até 8°C no período, e que, mesmo com um corte radical na emissão de gases, os efeitos do aquecimento continuarão. Isso porque são necessárias décadas para que as moléculas dos gases que já estão na atmosfera sejam desfeitas e parem de acumular energia solar em excesso.

6. Os atuais modelos de previsão de clima são confiáveis?

Os debates em torno da eficácia e precisão dos atuais modelos de previsão climática são acalorados. Uma minoria científica crê que os sistemas computadorizados são demasiadamente simplificados, incapazes de simular as complexidades do clima real. Porém, a maior parte comunidade científica mundial defende que as atuais análises feitas em computador, apesar de precisarem ser aperfeiçoadas, já são confiáveis para simulações de futuro próximo - intervalos de 25 ou 30 anos.

7. Quais serão os principais efeitos do aquecimento?

Os cientistas climáticos são unânimes em afirmar que o impacto do aquecimento será enorme. A maioria prevê falta de água potável, mudanças drásticas nas condições de produção de alimentos e aumento no número de mortes causadas por inundações, secas, tempestades, ondas de calor e fenômenos naturais como tufões e furacões. Além disso, pesquisadores europeus e americanos estimam que, caso as calotas polares derretam, haverá uma elevação de cerca de 7 metros no nível dos oceanos. Outro impacto provável é a extinção de diversas espécies animais e vegetais.

8. Quais países serão mais afetados?

Apesar de os grandes responsáveis pelo aquecimento global serem as nações desenvolvidas da América do Norte e Europa Ocidental, os chamados países em desenvolvimento serão os que mais sentirão efeitos negativos. Isso acontecerá porque essas nações possuem menos recursos financeiros, tecnológicos e científicos para lidar com os problemas de inundações, secas e, principalmente, com os surtos de doenças decorrentes. A malária, por exemplo, deve passar a matar cerca de 1 milhão de pessoas ao ano com o aquecimento do planeta.

9. Quais espécies animais serão mais afetadas?

Segundo as estimativas da Convenção das Nações Unidas para Mudanças do Clima (UNFCCC), a maioria das espécies atualmente ameaçadas de extinção pode deixar de existir nas próximas décadas. As projeções indicam que 25% das espécies de mamíferos e 12% dos tipos de aves seriam totalmente banidos do planeta com o aumento da temperatura, que provocaria mudanças drásticas principalmente nos frágeis ecossistemas florestais e pantanosos.

10. Como impedir um aquecimento global exagerado?

Cientistas e engenheiros defendem que a solução para o aquecimento global exagerado está no desenvolvimento de tecnologias energéticas que emitam menos dióxido de carbono. Entre as mais pesquisadas atualmente estão a fissão nuclear, células combustíveis de hidrogênio, desenvolvimento de motores elétricos e também o aprimoramento de motores à combustão pela diminuição do consumo e pela diversificação de substâncias combustíveis. No Brasil, ganha destaque o desenvolvimento de matrizes energéticas de origens vegetais, como o etanol, o biodiesel e também o Hbio.

11. Qual a importância do Protocolo de Kioto para conter o aquecimento?

 O protocolo de Kioto - que entrou em vigor em fevereiro de 2005 e conta com a participação de 163 nações - prevê que até 2012 seus signatários reduzam as emissões combinadas a níveis 5% abaixo dos índices de 1990. A eficácia do acordo, contudo, é limitada, pois até o momento os Estados Unidos, maior emissor mundial de dióxido de carbono, não ratificaram o pacto. Especialistas acreditam que as resoluções de Kioto apenas combatem a camada mais superficial do problema do aquecimento global.   Retirado de http://www.uol.com.br