ME AND YOU ARE (AN) ANIMAL, aren’t we?

Dezembro 8, 2008

PELO MENOS 26 MIL ANIMAIS FORAM AFETADOS PELAS ENCHENTES EM SANTA CATARINA; ENTIDADES DE SÃO PAULO ORGANIZAM CAMPANHA PARA DESABRIGADOS

Tobias Mathies/AFPPhoto

Equipe de resgate em busca de sobreviventes
eles precisam de ajuda

por Flávia Gianini

Durante 11 dias, um grupo percorreu a região de Itajaí, a mais afetada pelas chuvas em Santa Catarina, atrás de animais. Era uma caçada do bem. Na peregrinação, conseguiram salvar 80 bichos. Todos eles estavam muito assustados. Alguns, presos em quintais de casas abandonadas. Outros, sobre telhados e carros. A maioria passava frio, fome e sede. Houve casos de cães afundados no meio da lama.

Eles foram alojados no canil da ONG Viva Bicho, que já soma um total de 650 animais. Para complicar a situação, a sede da entidade corre sério risco de desabar. “Isso parece um pesadelo”, desabafa Bianca Jung, 26, secretária da organização.

Vítimas silenciosas da tragédia, cerca de 26 mil animais domésticos foram afetados pelas enchentes, estima a Rede Catarinense de Solidariedade aos Animais (Resa). Analista de ações para catástrofes, o veterinário Werner Payne, da ONG Veterinários Sem Fronteiras, sobrevoou com a Defesa Civil a zona interditada do complexo do Baú, a mais atingida por desmoronamentos.

Cem mil animais, entre aves, porcos e bois, continuam presos na região, segundo estimativa do especialista. Muitos morreram afogados e soterrados.

“A água baixou e agora é possível ver os corpos jogados. Há ainda centenas deles vagando pelas ruas, famintos e com sede”, conta Halem Nery, 61, coordenador da Resa e secretário do Instituto Ambiental Ecosul. Existem bichos presos em casas vazias. Outros estão ilhados em árvores, sem poder se mexer ou se alimentar.

Em meio à tristeza, às mortes e ao sofrimento, a solidariedade promove a esperança. Entidades de defesa de São Paulo começam a organizar campanhas para ajudar os animais em Santa Catarina.

Até a noite da última quinta, cinco casos de leptospirose tinham sido confirmados. Amanhã, uma nova campanha de vacinação em massa deve ser realizada. Para conseguir salvar a vida dos animais abandonados, as entidades contam agora com mais um capítulo da solidariedade humana.

O que doar:
Água potável
Caixa de transporte
Casinha
Coleira
Material de higiene
Ração
Remédios (antibióticos, sarnicidas e anestésicos)
Utensílios médicos (máscaras, luvas, seringas e agulhas)
Vacinas

=-=-=-=-=-=-=

Onde:
Casa do Consolador

(www.casadoconsolador.com.br).

Rua Guapiaçu, 75.

Pet Center Marginal (www.petcentermarginal.com.br). Av. Presidente Castelo Branco (marginal Tietê), 1.795, tel. 2797-7400.

Posto de Coleta. Av. Marechal Mario Guedes, 301, Jaguaré, tel. 3768-1977

E ainda tem mais este que tirei daqui da Fal:

“Eu não fico aqui fazendo altas campanhas, porque acredito do fundo do coração que cada um sabe o que fazer. Mas enfim, a Cora falou, a Jã me escreveu pra reforçar e eu acho que não existe causa mais meritória: os bichinhos de Santa Catarina também são vítimas da tragédia e a gente vive esquecendo deles.
Bianca, da ONG Viva Bicho
(47) 8425-1459 | 9903-5441

Para ajudar a ONG com doações em dinheiro: (porque nessas horas, meus caros, a gente pecisa mesmo é de grana)

Banco do Brasil Ag. 1489-3 cc 20793-4
Associação Viva Bicho
CNPJ 06 156 776 / 0001 – 81

*
É quase sábado, corações, e eu tou voando baixo aqui.”

A Fal é TUDA mesmo, né? Vocês tão lendo e acompanhando a Fal lá no IG, tão ou não tão?. Tá bombando. Tá lindo.
Pois é, imaginem se iam esperar por mim.
Aqui ó:
Esse de hoje, está o fino, quer dizer, o máximo, baratotal, como só ela escreve.
.
Me esperem só um tiquinho mais. Tá, amores?


Sobre Graciliano Ramos (por Isabela)

Novembro 24, 2008

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted.

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?
Meus pais moraram durante alguns anos em Palmeira dos Índios (município onde Graciliano Ramos foi prefeito) e foi lá onde nasci e morei até os doze anos. Eu também ia muito à Quebrangulo, cidade natal do escritor. Aos oito/nove anos de idade, quase todos os dias, quando voltava da escola, passava (e entrava) na Casa Museu Graciliano Ramos e foi lá na biblioteca onde li vários livros (não podia pegar emprestado pois era muito pequena), como Robinson Crusoe, Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo e várias estórias infantis. De Graciliano, o primeiro que li foi “São Bernardo”, que adoro, mas já estava com dezessete anos, mais ou menos.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura (”leitura difícil”)?
Não.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Penso que é um autor conhecido, traduzido, mas não é popular no sentido que você apresenta, como Paulo Coelho, não é? Também acho que por ser autor de leitura “obrigatória” para o vestibular, fica difícil não ler ao menos uma de suas obras (ou um resumo).

Sobre citações:
Você tocou em um ponto interessante, realmente, ele não é tão citado. Fiz uma pesquisa no Google (com os nomes entre aspas), veja o que deu:

Autor                              Citações (04/11)              Hoje (24/11)

Graciliano Ramos                    387.000                        397.000
Guimarães Rosa                      696.000                        746.000
Machado de Assis                1.900.000                     2.070.000
Jorge Amado                      17.300.000                   10.700.000

Claro que esses resultados não são apenas de citações, textos, frases ou “pensamentos” mas pode dar uma idéia. Agora, Jorge Amado, ganha até de Paulo Coelho (7.310.000) e de Fernando Pessoa(!!) (3.000.000) que eu imaginava que seria o campeão, mas também não é muito “citado” do tipo “como diz Jorge Amado” em blogs e sites de “frases e pensamentos”. Ah, e Manoel de Barros, que é mais “desconhecido” do público e teve 162.000 citações no Google, acho que é muito mais citado dessa forma. Por falar nisso, uma frase bastante comum na net (707 resultados entre aspas) atribuída a Graciliano Ramos é:

“Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada”.

Você sabe se é, realmente, dele?

Beijos.


Uma vida fabiana

Novembro 24, 2008

Escrito por Isabela Gonçalves de Menezes
Publicado originalmente na Revista Autor, em 01-Nov-2008

Em “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, encontramos Fabiano, um retirante que foge da seca acompanhado de seus dois filhos e de sua mulher. Este é descrito como um homem vermelho, queimado do sol, de olhos azuis, barba e cabelos ruivos. Um homem de coração grosso, duro como cururu, que vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios; que na caatinga às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se, tirando o chapéu na presença dos homens da cidade. Um homem que pensava pouco, desejava pouco e obedecia. Um sertanejo ensimesmado, fechado na ignorância e no analfabetismo, quase incapaz de expressar seu pensamento com palavras.

Porém, no segundo capítulo do livro, depois de enfrentadas seca e estrada, encontramos um Fabiano trabalhando de vaqueiro, às vezes feliz, satisfeito. “Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes [...] – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha” (Ramos, 2006: 18-19). Fabiano já anda com firmeza no chão rachado do semi-árido e, empolgado, ‘exclama’ em voz alta que é um homem, mas, ao lembrar que seus filhos estão perto e que poderiam se admirar ouvindo-o falar sozinho, contem-se e a baixa auto-estima volta: não, não é um homem. Então corrige a frase imprudente e ‘murmura’ que não passa de um bicho.

Além de falar pouco, Fabiano às vezes utiliza nas relações com as pessoas exclamações, onomatopéias. Mas admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, chegando até mesmo a reproduzir algumas, em vão, pois sabe que são inúteis e, talvez, perigosas.

Certa vez, um de seus filhos lhe faz uma pergunta. Não compreendendo o que o filho deseja, repreende-o, repele-o envergonhado, vira o rosto para fugir à curiosidade infantil. Para ele, o menino estava ficando muito curioso e, se continuasse assim, como iria acabar? Fabiano acha que não tem o direito de saber, pois, se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender sempre mais, nunca ficaria satisfeito. Indispensável mesmo era que os filhos entrassem ‘no bom caminho’: aprender a cortar mandacaru para o gado, consertar cercas e amansar animais bravos. Entretanto, a partir da indagação do filho, lembra de um conhecido que deixou para trás, seu Tomás da bolandeira. Na verdade, tem sentimentos contraditórios: nutre especial admiração, até certa inveja pela facilidade com que seu Tomás da bolandeira se expressava e, às vezes, repudia seu conhecimento:

Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só se era porque lia demais [...] Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros. [...] [Mas,] certamente aquela sabedoria inspirava respeito. (Ramos, 2006: 22).

De vocabulário reduzido, mais grunhido do que falado, deseja imitá-lo. Decora algumas palavras que considera difíceis, mas as emprega fora de contexto, truncando tudo. Convencido, chega a pensar que melhora para logo depois se considerar um tolo, pois um sujeito como ele não nasceu para falar certo.  “Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?” (Ramos, 2006: 98-99).

Quando vai à cidade, desconfia que caçoam dele e, assim, evita conversas e fica carrancudo. Acredita que os habitantes da cidade são pessoas sabidas e ruins que só lhe falam com palavras bonitas e difíceis com o intuito de se aproveitar de sua ignorância para obter logro, encobrir ladroeiras e que, finalmente, matutos como ele não passam de cachorros.

Por não ter instrução, Fabiano se considera inferior e não consegue falar com as pessoas em condição de igualdade. É assim com seu patrão, que lhe explora, da mesma forma com o fiscal da prefeitura e com o “soldado amarelo”. Quando é preso, para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra paredes e grita, porém não consegue se explicar: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares” (Ramos, 2006: 35).

Contudo, quando a família segue em direção ao sul, mais uma vez fugindo da seca, para uma cidade grande, desconhecida e civilizada, pensa nos filhos na escola, aprendendo coisas difíceis e necessárias, quando a situação mudar.

No Dicionário Aurélio, o substantivo ‘fabiano’ significa indivíduo inofensivo; pobre-diabo; indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância, um joão-ninguém. Parafraseando Melo Neto (2000), em seu poema “Morte e vida severina”, diante de personagem de tão baixa auto-estima, pode-se pensar sua história como “uma vida fabiana”.

Uma crítica filosófica

O desejo por instrução decorre de conceitos positivistas, que associam o conhecimento a progresso, desenvolvimento e, principalmente, poder. Poder e conhecimento são sinônimos. Francis Bacon, o pai da filosofia experimental, disse que a “superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida”  (Horkheimer e Adorno, 1985: 19).

Para Kant, a emancipação intelectual ou esclarecimento é um “processo resultante, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro lado, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectualmente menores por seus maiores” (idem: 7). É a saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. Entendimento sem a direção de outrem é o entendimento dirigido pela razão.

Em uma das passagens de “Vidas secas”, Fabiano é preso pelo soldado amarelo. Como não tem instrução e por isso se sente inferior, não consegue se defender. Para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra as paredes da cadeia e grita.

Nesta deficiência de Fabiano em desenvolver um pensamento articulado que, manifestado em discurso, buscasse sua defesa e seus direitos, encontra-se um anti-exemplo da definição de esclarecimento como emancipação intelectual, pois a condição para ser homem é pensar por si mesmo, dizia Kant.

Entretanto, uma fundamentada e radical crítica a estes conceitos está em “Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos” de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Sobre esta obra, pode-se dizer que introduziu uma mudança de paradigma rica de conseqüências para a teoria social. Pois, até então, o pensamento do esclarecimento, da forma como se desenvolvera no século XVIII, era tomado como o legado positivo comum da modernidade (Kurz, 1997).

Este aprofundamento crítico explicita a desilusão no otimismo iluminista, com sua crença no progresso humano através do domínio da natureza. Apesar de não alimentarem dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor, os autores acreditam, contudo, ter reconhecido que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contêm o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda a parte.

Desse modo, a principal crítica que a obra traz diz que, apesar de toda racionalização, a sociedade permanece irracional. O mito do esclarecimento jaz na mimese compulsiva dos consumidores pois, com o advento e triunfo da publicidade no capitalismo cultural, o que se busca é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor, divertir-se e não ter que pensar nisso. Ou seja, a estereotipia é o pão dos homens, o progresso converte-se em regressão e a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.

Ao fim, pode-se inferir a partir de “Dialética do esclarecimento” que o Fabiano duvidoso e dúbio – pois, ora a cidade é lugar de homens fortes, ora é lugar de gente ruim que quer lhe explorar, que ora deseja imitar seu Tomás da bolandeira, ora repudia seu conhecimento, ora se sente bicho, ora homem – revela-se em sujeitos modernos e esclarecidos que, mesmo tendo estudado, são massa de manobra.

Apesar do “esclarecimento”, como criticar se também somos fabianos a imitar os zés da bolandeira, às vezes sem entender significados, signos e significantes, mas falando, usando, repetindo, perpetuando? Na verdade, “o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como progresso” (Horkheimer e Adorno, 1985: 54).

Referências

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. São Paulo: Editora Positivo, 2004.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

KURZ, R. Até a última gota. Como o Esclarecimento tornou-se mito e a promessa de liberdade converteu-se em ‘total empulhação das massas’. São Paulo, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 24 ago 1997.

MELO NETO, J. C. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RAMOS, G. Vidas secas. 99. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Nota: este ensaio é uma homenagem ao aniversário de setenta anos de “Vidas Secas” (1938-2008). Publicado em vários países, em 1962 recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA) como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.

Isabela Gonçalves de Menezes: especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior, é professora de Metodologia do trabalho científico do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade São Luís de França.

Post relacionado: Uma vida fabiana (Sub Rosa – Flabbergasted)


Sobre Graciliano Ramos, por Rose Prado

Novembro 17, 2008

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted

Sobre Graciliano Ramos por Rose Prado. (*)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?

Li Graciliano com uns 20 anos.
O primeiro contato foi acachapante, fiquei horrorizada, cheia de poeira, sede, poeira por dentro. Lágrima por dentro que não sou de chorar.
Ainda que o livro seja linear, diz um caminho a pé, seguindo o trajeto imaginado.
Eu sofri. Eu me identifiquei com Graciliano, na busca da água. E com o Menino Mais Velho, o Menino Mais novo. Porque me faltam palavras.
Li como se o livro fosse eu. Sofri com a morte da Baleia. Faltou água pra eu chorar.
E aquele sangue que Sinha Vitória lambia era eu. Porque a vida que levo é seca, tão seca.
A segunda vez, eu já tinha os conceitos, a Literatura, a estrutura. Então não vou falar sobre o estilo de Graciliano, que não carece.
É o relógio, a faca, o sol pontuando, sem sombra, sem trégua.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura “leitura difícil”)

Não acho. E penso nos alunos. Eles lêem bem, sem dificuldade. Aquela que encontram no Rosa.
Mas não acho que aos 18 anos tenham ( alguns sim) a compreensão larga. Ainda não sabem da seca. Seca em nós, viventes.
Concordo com o filósofo Savater que propõe que se peçam leituras adequadas à faixa etária.
No nosso tempo, questionávamos, Meg. Os jovens de hoje carecem (!) de leituras com que se identifiquem.
Quando tinham de ler A hora da Estrela, ficavam desesperados. O texto de Lispector é cheio de nuances quase inacessíveis ao jovem de hoje.
Quando eu lia com eles, junto, dramatizava, explicada. Então, entendiam e iam sozinhos. Gostavam.
Quando ao livro de Graciliano: não têm dificuldade alguma. Lêem com tranqüilidade. Porque, embora Vidas Secas não seja contemporâneo, no sentido de contar a vida deles pra eles, é universal e tanto que compreendem. Por causa da brasilidade, por causa do problema da seca, que eles não sabem ser também a seca existencial. Eles entendem porque conhecem – de ler – a miséria do povo brasileiro.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
É popular sim, não exatamente pop. Popular por apontar a cultura do povo. Mas popular, assim como a Semana Santa, o Carnaval? Não acho que seja, não. Acabou ficando porque é leitura obrigatória do vestibular e das aulas de Literatura. Pode ser popular, poderia, se a Literatura fosse ensinada como devia. Não é.

Como tornar essa leitura popular? Usando metodologias que usassem intertextualidade.Ou mesmo que associasse outras linguagens.

O filme (de Nelson Pereira dos Santos) ajuda o pessoal a entender.

Se eu trabalhasse em escola, faria teatro, leitura em voz alta, filmes, jogos. Aí o livro ficava popular. Do jeito que é só mesmo a obrigatoriedade na escola o faz popular.

Sobre citações:
Quem cita geralmente o faz porque as frases de Machado e Guimarães Rosa já estão na boca do povo. Mas povo aí é palavra perigosa. São letrados de classe-média que ouvem cantar o galo mas não desconfiam que era uma gravação.

Não vejo citações de Graciliano. Porque o livro dele embora de leitura circular não é dado ao ato de despedaçar. O todo é a seca, os passos, o olho no texto, nas pegadas de Fabiano e Sinha Vitória. Não dá pra arrancar pés, olhos, braços, rabo, sangue.

Vidas Secas é um caleidoscópio cuja haste não sai sob pena de destruir o livro.
Não acho que haverá citações de frases .

*Editado

*************************

Obrigadíssima, Rose.

Belíssimo trabalho.

Você é “fera”. ;-)


Graciliano Ramos (1)

Novembro 6, 2008

Saint-John PERSE – Amers: marcas marinhas

Novembro 6, 2008

Zero Hora / Data: 21/2/2004
Perse é um Rimbaud adulto

Fabrício Carpinejar

O que seria da poesia de Rimbaud, que abandonou a literatura aos 20 anos, se ele continuasse a escrever? Ele realizaria o que Saint-John Perse alcançou. Essa crença leva em conta a língua como resultado de seus habitantes, a evolução de um poeta a outro, a reencarnação de livros e temas. Perse é um Rimbaud adulto; Rimbaud é um Perse jovem. O mesmo destemor oracular, as mesmas fagulhadas precisas, incisivas, simbólicas. Ambos chegaram tão próximo da verdade que ultrapassaram a loucura. O primeiro retratou o inferno; o segundo, o paraíso. Rimbaud denuncia; Perse celebra. Somando os dois, tem-se uma nova Divina Comédia.

Natural da ilha de Guadalupe, Prêmio Nobel de Literatura de 1960, Saint-John Perse (1887-1975) foi uma das expressões mais puras da língua francesa. Sua importância pode ser avaliada pela qualidade de seus tradutores: T.S Eliot em inglês (que confessou que seu conhecimento de inglês e de francês não abarcava o potencial do estilo), Ungaretti em italiano, Lezama Lima em espanhol, Walter Benjamin em alemão. O nome do poeta, na verdade, é Alexis Léger. O pseudônimo foi escolhido ao acaso e às pressas para sua estréia e gerou a independência de visão de mundo, diferenciando o escritor do diplomata.

Ninguém é capaz de repetir as miragens de Perse. O autor queima consigo as possibilidades de sua fórmula. Percebia a poesia como o território mais próximo do real absoluto, um real mítico, escapando de qualquer demarcação histórica, pessoal e geográfica. Não imita a realidade, mas a transfigura, recenseando as dimensões do sonho e do inconsciente. A manifestação lírica emerge avulsa, autônoma, como nascimento de um corpo, contra a abstração e tratando a métrica ora como movimento marítimo, ora como as dunas dos deserto. Sua fala se derrama em mágica oralidade e se desdobra em imagens alucinantes. A claridade disputa espaço com a clareza, como lâmpadas acesas durante o dia.

O escritor Bruno Palma devotou três décadas para traduzir Amers, obra central de Perse, com a experiência de ter trazido a lume Anábase, em 1979, pela Nova Fronteira, Prêmio Jabuti na época. Em 1971, pela editora Grifo, verteu excertos do livro em antologia do poeta francês com o título Marimarcas. Repensou a opção e escolheu para a edição o nome de Marcas Marinhas, favorecendo a leitura do sentido original em detrimento do neologismo. O trabalho é monumental, vencendo adversidades como a sucessão interminável de elipses, as orações intercaladas e a pontuação sistêmica do universo persiano. O resultado recompensa. Palma ressuscitou arcaísmos e se valeu do Glossário de Terminologia Marítima Internacional para preencher lacunas. Houaiss e Merquior ovacionaram os achados. “La Mer errante prise au piège de son aberration” passa a ser “o Mar errante apanhado na armadilha da sua aberração”, mantendo a gravidade das aliterações e a fluência das vogais. Assim como a limpidez de “roueries d’ ailes rétives” continua potável em português, “ardis de asas arredias”, reforçando o recuo dos “erres”. Há momentos em que a versão supera a matriz: “les vieux flocons d’ écume jaunissante” vira “os velhos flocos de espuma amarelescente”.

O escritor Saint-John Perse empreendeu Marcas Marinhas (Ateliê, 333 páginas) em oito anos, de 1948 a 1956, cinco longos poemas publicados separados que se juntaram com a febre. Apesar de escritos em épocas diferentes, possuem uma unidade ímpar, dando a impressão de que foram compostos ininterruptamente em um único dia. A obra é um poema dramático, girando em torno de três figuras: o mar, o poeta e a multidão, com nove vozes que aparecem de vez em quando e pontuam a narrativa das águas, expressas nos discursos dos oficiais e os trabalhadores do porto, do mestre de astros e de navegação, das Trágicas, das Patrícias, da Poetisa, das Profetisas, das jovens e dos Amantes. Seguindo o formato circular das tragédias gregas, o coro resume a história poética, avaliando e pesando as profecias. Trata-se de um livro em que a autoria é do Mar. “É o mar em nós que sonhará.” O segredo da poética é incorporar o duelo entre homem e imensidão. Com inveja da extensão marinha, o homem não suporta permanecer na estreiteza do barco e do leito, assim como acaba esmagado na falta de limites. O que começa como desafio do amante frente às forças subterrâneas marinhas se encerra com seu despojamento humilde em Dedicação.

Diante do mar, não adianta sussurrar, cochichar, falar baixo. O mar pede o grito, a empostação da voz, a enxada do pulmão. “Há que gritar? Há que criar? – Quem pois nos cria neste instante? E contra a morte mesma não há senão criar?” Nesse sentido, o “oceano severo” exige o teatro proposto por Saint-John Perse, uma arena multifacetada que envolve tematicamente suas relações com o comércio, os amores, o alfabeto dos astros e com a religiosidade. “Há que gritar? Há que rezar?…” O mar é a seara escolhida entre o mundo físico e imaginário, capaz de revelar “o gosto de viver o homem, em toda a sua medida”. Depois da Odisséia de Homero e antes de Omeros do caribenho Derek Walcott, Saint-John Perse é o que melhor explorou o arquétipo como epicentro de façanhas e dos desastres humanos, caos disciplinado, elemento que vai integrar o seu repertório simbólico preferido, ao lado do vento e do deserto (Anábase). Sua linhagem é do poeta criador, inventor fora de si. Não descreve as coisas ou a paisagem, funda o mundo verbal. Estranha o viver, rompendo os costumes. Acredita que a missão do poeta é ser a “má consciência do seu tempo”, o que contesta a inércia visual. Nem que para isso custe sobrepassar o entendimento e conviver com as coisas ilícitas. Porque o mar que se abre à beleza é ainda o mar do transe e do delito. Perse não é maniqueísta, mostra a verdade sem apagar a crueldade e o mistério de sua busca, provando que o útil não é o verdadeiro.

Em sua cosmogonia, o poema é maior do que o escritor. Ao mesmo tempo em que apresenta uma liberdade metafórica excessiva, não abdica da construção formal rigorosa e exata. Instaura uma sensualidade líquida entre as palavras, canção derramada, marcha das marés, reproduzindo o fervilhar das correntes com a repetição das consoantes. Radicaliza o texto em vibrações, provocando uma leitura pela intensidade dos sismos. O poeta caminha em direção ao absoluto com a simplicidade de quem levanta a âncora. Barqueiro ébrio das metáforas, suas composições são desconcertantes, com uma solidez pictórica que materializa o fantasmagórico e o sobrenatural. “O relâmpago no mar busca a bainha do navio…” ou “até seus fins de vespas amarelas,/ O verão que perde memória nos roseirais brancos” são alguns exemplos de hiperatividade sensorial. O que para a maioria dos escritores seria gordura e excesso, em Perse é essencial como uma vértebra. A atmosfera suntuosa dosa ternura com ferocidade. A dificuldade de interpretação estimula a polissemia.

O escritor transforma o verso em versículo, em altissonante timbre profético. Exulta o mar como uma pátria autêntica. Uma monarquia onírica. Não é uma poesia que se define, mas que se multiplica na dúvida, no escoamento de hipóteses. Segundo ele, a poesia é filha da interrogação mais do que a filosofia. Perguntar para Saint-John Perse é se maravilhar. Desloca vogais, migra sílabas, acumulando anáforas, denotações e conotações. Em Marcas Marinhas, o mar é apanhado em frenética metamorfose. A toda hora, “muda de dialeto”. Para acompanhar, o poeta habita a mutação, o fulgor. Do lento artesanato das ondas, o mar aparece em diversas roupagens, como “uma pele de búfalo”, “cor de pedra de estábulo’, “carne de romã, figo da África e fruto da Ásia”. Fixa-se ao mudar, revirando as vagas, captando o insondável, das sandálias deixadas nas areias pelos afogados até as naus encalhadas das estrelas. Perse acorda as lendas, atravessando as águas e suas efêmeras vidas. Seu tema de meditação é a água salgada, selvagem, de início longínquo. Se a água doce é reflexo, a matéria viva persiana não permite a cristalização, espelhamento, cresce proporcional às distorções produzidas.

O mar trabalha no descanso. Surge como um ente incorruptível, cruel e generoso no julgamento, fazendo o homem sangrar como um galo ou se reencontrar na alga da mulher. Converte o medo em aventura, o receio em excitação. “Do mar também, sabias tu? Nos vem às vezes esse grande pavor de viver.” O homem louva o mar, como um cego. Não existe uma condição de impotência humana, mas de respeito e reverência ao que não se entende o suficiente para opinar. Quem vive perto do mar, demonstra Perse, absorve o seu cheiro e a fome de eternidade. Torna-se para sempre cúmplice de seus crimes e desejos. “E de um odor de mar em nossa roupa e em nossos leitos, no mais íntimo da noite.”

Repassar Saint-John Perse para o português é comparável a traduzir o cubano José Lezama Lima e o neobarroco Paradiso (missão cumprida pela poeta Josely Vianna Batista). Se a poesia é “fotografia da respiração” (Lezama Lima), respira-se com Perse o oxigênio letal da profundeza.

Sobre o autor:

PERSE, SAINT-JOHN

Né à Pointe-à-Pitre (Guadeloupe) le 31 mai 1887, Alexis Saint-Leger Leger est appelé à parcourir le monde en tant que diplomate. Il rencontre Claudel et le groupe de La Nouvelle Revue Française. En 1940, il quitte la France pour les États-Unis et le gouvernement de Vichy le déchoit de la nationalité française. Rétabli dans sa dignité d’ambassadeur de France, il reçoit le Grand Prix national des Lettres en 1959 et le Prix Nobel de Littérature en 1960. Il meurt à Giens le 20 septembre 1975.


08/08/08 – BOS – EXTINCTION IS FOREVER, PLEASE HELP THEM

Agosto 6, 2008

Leia aqui:

APENAS LEIA

Ou veja:


ESPECULAÇÕES

Julho 17, 2008

.

Tempo e memória by Joan Brossa

Tempo e memória by Joan Brossa

“Não vou me preocupar em ver,

seu caso não é de ver pra crer

– tá na cara!”

(Arnaldo Passos & Monsueto Menezes, Mora na Filosofia)

Mesmo para o mais ingênuo dos espectadores, é evidente que houve, ou talvez se deva “gerundizar”, está havendo, um gigantesco “acordão” envolvendo os quatro poderes da República, Executivo, Judiciário, Legislativo e imprensa: vamos abaixar o fogo, baixar a pressão, que se o caldeirão entorna muita gente vai sair escaldada ou coisa pior; e vamos tratar de “coibir abusos” – leia-se, quebrar os braços e as pernas – de órgãos importunos como Polícia Federal (ou parte dela), Ministério Público Federal, juizados de primeira instância e, para não perder a viagem, Ministério Público do Trabalho e IBAMA.

Até agora, o “acordão” implicou a degola de alguns delegados da PF, mas isso, em arranjos de tal porte, é trocado miúdo. Especula-se que, pelo sim pelo não, um certo procurador e um certo juiz, ambos federais e de sobrenomes semelhantes, talvez devessem pôr as metafóricas barbas de molho e adotar o “silêncio obsequioso”.

Não se sabe ao certo o que foi alegadamente encontrado em um suposto esconderijo durante a busca e apreensão realizadas na residência do Sr. Daniel Dantas; pode-se apenas especular que não terá sido algo como uma coleção da revista O Cruzeiro. Tampouco se sabe exatamente o que foi conversado no encontro entre o Presidente da República, o Ministro da Justiça e o Presidente do Supremo Tribunal Federal; pode-se apenas especular que o tema central não terá sido a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Milan.

Especulações, especulações. Palavra que, aliás, é correlata de “espectador” e de “espetacularização”, e também de “espelho”.

A quem especular mais queira, uma sugestão. Levantar o histórico, digamos de 1994 em diante, dos dois entre os supracitados que, nos últimos dias, mais freqüentaram as manchetes dos jornais, e de alguns outros personagens que também são, ou no mesmo período foram, figuras de destaque no noticiário político. E cotejar quem fez o quê, quando e onde.

© Carlos Eduardo Martins é economista.


TOM STOPPARD e 1968(2)

Julho 7, 2008

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos – exposições, shows de música, happenings, leituras de poesia – em endereços mal iluminados em torno de Covent Garden e em outros locais, e aqui a palavra “revolução” adquire, ao meu ver, uma certa substância. Não foi uma revolução social, e nem se limitou a 1968, mas havia a sensação de uma revolução cultural em curso naquele momento.

Infelizmente, também isso me deixava constrangido. Eu adorava a música e a liberdade para me vestir de maneira inventiva, mas não conseguia me acostumar com os diálogos, uma gíria redutiva composta de jargão militante e sabedoria de araque derivada da má compreensão das religiões orientais.

Esta última frase tomei de volta de um personagem da minha última peça, Rock’n'Roll, que começa em 1968. Ironicamente, a pessoa que fala por mim acerca dessa revolução é um marxista, um comunista de Cambridge chamado Max que aparece falando do passado em 1990, quando tem mais ou menos a mesma idade que tenho agora. A seu ver, os anos 50 foram o último período em que a liberdade só chegava depois que você deixava a juventude para trás. Em meados dos anos 60, os jovens já tinham muito mais liberdade do que sabiam usar, mas a confundiram com libertação sexual e liberdade de ficar doidão, de maneira que foi tudo um desperdício – melhor dizendo, desperdiçado numa revolução cultural, e não numa revolução social. “Teatro de rua” é como Max define o período. Alterar a psique era um suposto caminho para a mudança da estrutura social, mas como marxista ele sabia que na verdade as coisas funcionavam ao contrário: mudar a estrutura social era a única maneira de transformar a psique. A idéia de que “faça o amor, não faça a guerra” seja uma palavra de ordem mais prática do que “trabalhadores do mundo, uni-vos” é tão vazia de substância quanto o I Ching.

Eu queria ter conhecido esse homem em 1968. Nos entregaríamos ao constrangimento enquanto contemplássemos o espetáculo. O personagem combatera o fascismo nos cortiços e na Espanha, e quando observasse em tom sarcástico que a sua filha hippie “acha que fascista é um policial a cavalo na Grosvenor Square”, eu poderia ter dito “É isso aí!” ou “Estou de pleno acordo”.

Por outro lado, ele também poderia ter mudado a minha opinião sobre algumas coisas, a começar pela sociedade de que eu me sentia, e ainda me sinto, grato por fazer parte. E os abusos e maustratos? Serão de fato excepcionais ou endêmicos do sistema? E em que ponto o trabalho de edição pode se confundir com uma censura auto-imposta diante de pressões reais ou imaginadas?

Estas são perguntas que eu não me faria em 1968. Mas não fui o único a mudar. A sociedade também mudou. Em 2005, entrevistei um cineasta na Belarus que os órgãos estatais de segurança tinham espancado pelos motivos de sempre, e ele me disse algumas coisas notavelmente parecidas com um monólogo que eu acabara de escrever para um anglófilo tcheco em Rock’n'Roll… “Eu sonho com o que vocês inventaram”, diz Jan a Max. “Vocês podem xingar os governantes de idiotas e criminosos, mas a lei defende a liberdade de manifestação, e se o governo não gostar, que se foda, não pode pôr a mão em vocês…” E o cineasta em Minsk me disse: “O fato de vocês poderem chamar o primeiro-ministro de mentiroso e assassino não é uma virtude dele, é uma virtude de vocês.” Esse meu artigo sobre a Belarus foi publicado quase no mesmo dia em que Walter Wolfgang foi expulso à força da convenção do Partido Trabalhista inglês. Recebi um jubiloso cartão postal de Harold Pinter.

Essa coisa que “nós inventamos”, a autonomia do indivíduo, percebo que ecoa em tudo que já escrevi. Em The Coast of Utopia,5 usei as palavras do próprio Alexander Herzen6 sobre os ingleses oitocentistas: “Eles não dão asilo por respeitar quem lhes pede asilo, mas em sinal de respeito por si mesmos. Inventaram a liberdade pessoal sem formularem qualquer teoria a respeito. Dão valor à liberdade pela liberdade.”

Se eu soubesse em 1968 o que iríamos malbaratar, mais aceleradamente depois de 2001, bem antes da desculpa do 11 de Setembro, eu poderia ter me juntado àquela farra com menos embaraço, com menos a perder. Mas àquela altura tudo que ocorria me parecia frívolo em comparação com as liberdades que inventamos – ou, talvez deva dizer, as liberdades que os ingleses inventaram? Eu tinha 31 anos, vinha ganhando a vida desde os 17, era velho demais, encabulado demais, monógamo demais, medroso demais em relação às drogas, apaixonado demais pela Inglaterra e tenso demais para relaxar e aproveitar a fundo aquilo tudo.

Sir TOM STOPPARD, é dramaturgo e adora  rock’n'roll.

Olhem só:

Na página do British Council.

No Rock.


TOM STOPPARD e 1968 (1)

Julho 7, 2008

Em 1968 eu levava uma vida confortável, ao lado de minha primeira mulher e meu primeiro bebê na nossa primeira casa, graças ao sucesso da minha primeira peça, e começava a ser visto pelos meus pares como uma pessoa politicamente ambígua.

Ainda faltavam alguns anos para que um conhecido diretor de esquerda, quando lhe perguntaram qual seria uma boa peça para montar no Royal Court Theatre, 1 respondesse “uma peça que não tenha sido escrita por Tom Stoppard”. Na ocasião, eu já tinha consciência de um sentimento que me afastava do espírito reinante de rebelião, quando era uma glória estar vivo naquele amanhecer, mas ser jovem é que era o barato.

O sentimento a que me refiro era o constrangimento. Eu me sentia constrangido com as palavras de ordem e as posturas de rebelião numa sociedade que, tanto em Londres quanto em Paris, progredira muito desde a juventude de Wordsworth, e oferecia aquele que me parecia o menos ruim dos sistemas em que uma pessoa podia nascer – a democracia liberal aberta, cuja essência era a tolerância à dissensão.

Eu não tinha nascido nesse sistema. E ninguém precisa ser um grande especialista em psicologia para deduzir que, na Inglaterra de 1968, 22 anos depois de lá ter chegado, eu me sentia muito mais disposto a defender meu país adotivo do que a apontar os seus defeitos. Até onde eu sabia, caso o meu pai tivesse sobrevivido à guerra (ele foi morto no Extremo Oriente), era sua intenção levar a família de volta para o lugar onde nasci, a Tchecoslováquia. Chegaríamos em 1946, e eu teria crescido sob a ditadura comunista que lá se instalou dois anos depois.

Como a maioria das pessoas, eu tinha noção que nem tudo eram flores nos jardins do Ocidente, e é claro que não conhecíamos – ninguém jamais conhece – da missa a metade. No entanto, quando em agosto as forças do Pacto de Varsóvia invadiram e ocuparam a Tchecoslováquia, num ato que era uma confirmação cabal e enfatizada da ocupação em curso na Europa Oriental, o meu constrangimento diante da “revolução” dos nossos polichinelos da agitprop converteu-se em repulsa.

O que me repelia era a identificação implícita entre dois casos radicalmente diversos. O “Ocidente livre”, sabe Deus, também estava muito desfigurado pela corrupção e injustiça, mas no nosso caso os abusos representavam as situações em que o modelo não funcionava, e eram apontados como exemplos das suas deficiências. Já no Leste, os abusos representavam o modelo em plenas condições de funcionamento. Quarenta anos mais tarde eu não faria essa distinção com a mesma facilidade, mas àquela altura nada me parecia mais claro.

Um pequeno incidente que deve ter confirmado as piores suspeitas cultivadas por alguns a meu respeito ocorreu quanto me pediram para assinar uma declaração contra a “censura” depois que um jornal se recusara a publicar o manifesto de alguém. “Mas isso não é censura”, respondi. “É decisão editorial. Na Rússia você vai preso se tiver um exemplar de A Revolução dos Bichos. Isso sim é censura.” A “normalidade” do comunismo baseava-se na distorção da linguagem, e o meu novo herói, George Orwell, já diagnosticara fazia tempo essa doença na sua própria sociedade, de maneira que eu levava esse tipo de coisa muito a sério.

E é claro, em seguida ainda houve Paris.

Lá por agosto, a fumaça do maio parisiense já tinha dissipado. Ocorreram batalhas ferozes entre milhares de estudantes e as forças policiais, seguidas por uma ocupação da Sorbonne e uma greve geral, que durou cinco semanas. Foram acontecimentos enormes, pouco diminuídos, do meu ponto de observação num chalé modesto à beira de uma autoestrada, pela adesão pressurosa de filósofos famosos, atores e outros luminares de uma cultura generosamente subsidiada pelo Estado. Mesmo após quarenta anos, les événements de 1968 ainda conferem à versão inglesa daquele ano, mais contida, certa ressonância para quem não quer admitir o que aconteceu em Praga, e se furta a discutir as razões daqueles fatos. Mas eu vejo a nossa “revolução” – a ocupação da London School of Economics e do Hornsey College of Art, além de toda a agitação daqueles dias embriagantes – como pouco mais que uma Saturnália.

E era justamente esta uma das coisas que eu mais amava na Inglaterra. A versão inglesa das erupções do Continente sempre sugeria um caráter nacional em pleno controle de si mesmo. Na França, na Alemanha, na Itália e na Espanha o ativismo político, nos casos mais extremos, acabou desembocando em assassinatos, seqüestros e atentados a bomba. Meu editor italiano, uma das pessoas mais sofisticadas, encantadoras e carismáticas que jamais conheci, seria morto mais tarde por seus próprios explosivos enquanto tentava destruir uma torre de distribuição de eletricidade nos arredores de Milão.

Alguns quilômetros do outro lado do Canal, os choques entre manifestantes e a polícia envolviam carros em chamas, ônibus virados e edifícios em ruínas. No nosso caso, brigar na rua era só tema de rock’n'roll. Aqui, a rebelião tinha algo de envergonhada. As manifestações exibiam sempre certo ar carnavalesco. As nossas reuniões – e fui atraído a algumas delas – eram convocações a sério em que moradores de prédios invadidos e as pessoas que mais tarde viriam a ser conhecidas como “formadores de opinião” planejavam mudar a sociedade fundando uma revista e discutindo formas de atrair o apoio dos “trabalhadores”. A fascinante peça The Party,3 escrita por Trevor Griffith e cuja ação se passa em 1968, encenada no National Theatre com Laurence Olivier no papel de um militante da classe trabalhadora chamado para uma reunião num endereço caro de Londres decorado com um David Hockney dos primeiros anos na parede, é para mim a perfeita cápsula do tempo sobre o lado chique de 68.

Mas nem tudo era elegante, evidentemente.

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos – exposições, shows de música, happenings,