Clarice

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

Para Ryta e para Vera.

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.,

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco.  Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então  vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos. Sua, Clarice”

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Não sei nada sobre a vida, mas…  a única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo. Tenho, às vezes, vontade, mas não, não tenho inclinação para o suicídio.
O resultado disso é que é espantoso:  viver, ter relações comigo mesma, descobrir tantas coisas, grandes e pequenas, não me esconder de mim mesma, (e às vezes, isso é terrível) me fez  desenvolver  uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Pessoas elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Aqui mesmo no Facebook, tenho descoberto a chamada banalidade do maldizer. Fora a transgressão e o crime… mas só estou enumerando para tornar significativo o meu olho para a delicadeza. Sei que parece meio infantil, meio idiota, mas eu sublinho, reforço, passo o highlight sempre na alegria de encontrar um mundo tecido de delicadezas.  E ser alvo de delicadezas.? E aí onde você estiver, tenho a certeza de que… E a política, Ryta,?  É algo que me atropela, e me mata, e  Verinha,   e o terror do  “mal-entendido… acho que é a unica coisa nesta vida que me faz desistir de tudo e achar que nada vale a pena. Quando prevalece o mal-entendido e o julgamento precipitado.  O mal-entendido e seu gêmeo, ‘o calar-se’, encerrar-se na ofensa (pretensa, muita vez)  não dizer nada.  Mal-entendido é para ser desfeito, ao menor sinal de dúvida, pergunte. Enfim, o que temos quase sempre: o horror! o horror!. E  um ror de coisas mais. Eu quero agradecer a vocês duas, hoje, e , por favor, recebam esse agradecimento, a vida é tão curta,  e se eu não aproveitar o momento, pode acontecer de eu nunca mais ter oportunidade de dizer como me sinto sendo alvo de uma atenção que se traduz por sentimentos de valia, eu que vivo sempre no limiar do achar que nada mais tem jeito.

Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolho o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restasse pouquíssimo tempo de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta, só quase viva.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom …  é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, às vezes, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, eles, os que são meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor. Anseio pelo melhor que cada um tem. Não por ética ou religião. Por instinto. Sou só no mundo (é assim que se é, mas …) Por isso sou ansiosa.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) A propósito, faço crítica literária. Ou seria melhor dizer  que “já fiz crítica literária?  E é terrível, porque, se não lidamos bem com o insucesso e perdas, parece que nos damos pior ainda com o sucesso, com alguém mostrando que somos *o cara*, que se é bom, em alguma coisa. As pessoas ficam embaraçadas, dizem que é “generosidade”, que não são isso que se diz; que “não são essa coca-cola toda” como me disse uma vez uma “criticada”-)) Agora, afora isso, há também os.que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce (ou mete) o “pau” hmmm… Masoch perde) Ambos os tipos esquecem algo sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim.

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(*) Você acha que existe alguém ‘modesto’?. Já existiu? Existirá? Dizem que há teorias tentando provar que modéstia, modéstia mesmo é coisa abstratissíssississima, que nunca existiu e dizem mesmo que ninguém sabe até hoje, quem foi que inventou: no que inventou, mentiu… dizem, eu não sei. Só sei que se for verdade, ninguém peca por imodéstia, não é?

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