Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

-=—=-=-=

Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

* * *

=-=-=-=
Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

ROBERTO MACHADO – ENTREVISTA

ENTREVISTA  À REVISTA FILOSOFIA
Interdisciplinaridade para a Filosofia da diferença
Roberto Machado, que foi aluno e hoje é estudioso de Deleuze, explica como filósofo francês usa a união de vários pensamentos e disciplinas, como arte e a ciência, para a construção da singularidade e do pensar diferente

POR PATRÍCIA PEREIRA

 
 
FOTOS: SILVIA CONSTANTI
“Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por meio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados -principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamentoda diferença “

Há uma famosa frase de Foucault que diz que “um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Para Roberto cabral de Melo Machado, autor de Deleuze e a Filosofia – já esgotado – e Deleuze, a Arte e a Filosofia, a ser lançado em agosto deste ano, isto não é possível: “Foi uma brincadeira que Foucault fez”, afirma. Machado explica que não tem sentido ser deleuziano, pois, como Nietzsche e Foucault, Deleuze é um filósofo da singularidade, a quem não caberia ter discípulos. Seus escritos devem ser usados, por seus seguidores, como instrumentos para que cada um crie seu próprio pensamento. Machado é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade católica de Louvain, na Bélgica, tendo feito seu pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com Deleuze. “Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar.” hoje, professor titular do Instituto de Filosofia e ciências Sociais da UFRJ (IFcS/UFRJ), Machado diz nesta entrevista que, para Deleuze, há ressonâncias entre a arte, a ciência e a Filosofia, sem que haja prioridade de uma sobre as outras. as três seriam atividades criadoras, com interferências mútuas. ou seja, no “saco” da Filosofia também podem entrar ideias vindas da arte e da ciência. Também aponta como a Filosofia de diferentes pensadores aparece na criação de conceitos por Deleuze: “Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia.”

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – O que mais o instiga em Deleuze? O que o motiva a estudá-lo e publicar livros sobre ele?
Roberto Machado – Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. Admiro-o muito como alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, preparando intensamente seus cursos, transformando esses cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, ele era alguém profundamente comprometido com as questões atuais do mundo, às quais dava respostas originais e muito sugestivas. Fui tocado pela maneira como pensou o socialismo e o capitalismo, a questão palestina, a importância do chamado terceiro-mundo, o movimento de maio de 68, as minorias, as drogas, etc. O que me levou a estudá-lo foi, antes de tudo, o encanto de suas aulas, cheias de sugestões sobre como pensar filosoficamente esses e muitos outros temas. Mas, sobretudo, o desejo de compreender seu pensamento de modo sistemático, pois mesmo notando o quanto suas aulas e seus escritos eram sugestivos, senti necessidade de esclarecer o que possibilitava todas aquelas ideias. Deleuze é um dos filósofos mais complicados que li. Sentia que estávamos maravilhados com o que ele dizia, mas compreendíamos superficialmente seu pensamento. Por isso resolvi estudar sua Filosofia sistematicamente e esclarecer seu modo de pensar em todos os seus livros.

FILOSOFIA – Em 1990, o senhor publicou o livro Deleuze e a Filosofia. Em agosto deste ano, irá publicar Deleuze, a Arte e a Filosofia. Em que sentido o segundo livro complementa o primeiro?
Machado – Logo depois que fiz concurso para professor titular da UFRJ, em 1984, com a tese que foi publicada em livro com o título Nietzsche e a verdade, dediquei meus cursos e minha pesquisa à Filosofia de Deleuze. Foi assim, por exemplo, que fiz pós-doutorado com ele no ano letivo de 1985-1986, na Universidade de Paris VIII, onde ele ensinava. Em 1990, publiquei o livro Deleuze e a Filosofia, que é o resultado desses estudos. As principais hipóteses desse livro, há muito esgotado, são as seguintes: 1) O tema central da Filosofia de Deleuze é o pensamento, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia: filósofos, cientistas, artistas são pensadores, mesmo que pensem com elementos diferentes; 2) Ao estudar a Filosofia ou saberes não filosóficos, Deleuze busca elaborar o conceito de pensamento diferencial e fazer a crítica do pensamento representativo, aquele que subordina a diferença à identidade; 3) Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por intermédio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados – principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamento da diferença. Depois que terminei meu estudo, Deleuze (que morreu em 1995) ainda escreveu alguns livros. Ora, lendo seus novos livros, ou relendo mais atentamente livros que ele havia escrito sobre a pintura, o cinema e a Literatura, que eu não havia analisado, descobri ser possível mostrar que as hipóteses que eu procurava comprovar levando em conta seus textos sobre filósofos, também podiam ser confirmadas pelos textos não analisados anteriormente. Desse modo, levando em consideração tudo o que Deleuze escreveu, cheguei à conclusão nesse meu novo livro, Deleuze, a Arte e a Filosofia, que a questão central de sua Filosofia, “O que significa pensar?”, tem sempre como resposta a afirmação da divergência e da disjunção. Isto é, o que lhe interessa é, antes de tudo, o estabelecimento da relação entre termos, ou entre séries, como uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Enunciado assim, isso pode parecer enigmático, e realmente a Filosofia de Deleuze é muito complicada. Mas, felizmente, fui capaz de mostrar, no que diz respeito a cada um de seus livros e à totalidade do que ele escreveu, o que isso quer dizer.

NÃO HÁ CONCEITOS ETERNOS. POR ISSO A FILOSOFIA CONTINUA VIVA, SEMPRE SE TRANSFORMANDO, SEMPRE PENSANDO NOVOS PROBLEMAS E NOVAS QUESTÕES: SEMPRE CRIANDO NOVOS CONCEITOS

 

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – De acordo com Deleuze, o pensamento não é privilégio da Filosofia. Ele também é produzido pela Arte e pela Ciência. Mas qual seria a diferença entre as três formas de pensar: são estruturas diferentes de produção de pensamento (maneiras diferentes de pensar os mesmos temas) ou formas de pensamento com focos distintos (cada uma se volta para certos temas)?
Machado – Há uma tendência da Filosofia moderna, desde Kant, de distinguir a Filosofia dos outros saberes por uma diferença de nível, o que faz da Filosofia um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação. É essa, por exemplo, a posição do neopositivismo, da Epistemologia francesa, da Filosofia Analítica da linguagem. Diferentemente dessas correntes, a Filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a Filosofia com relação às Ciências e às Artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes produziriam conhecimento e a Filosofia seria uma reflexão sobre esses conhecimentos da Ciência, das Artes, da Literatura. Para Deleuze, a Filosofia é criadora e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas isso não significa assimilar os diferentes domínios de saber, pois o poder criador da Filosofia é específico. A diferença é que o objetivo da Ciência é criar funções, o objetivo das Artes e da Literatura é criar agregados sensíveis, sensações, e o objetivo da Filosofia é criar conceitos. Assim, há especificidade dos saberes, no sentido em que cada um responde às suas próprias questões ou procura resolver com seus próprios meios – conceitos, funções, sensações – problemas semelhantes aos colocados pelos outros saberes.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

Sobre Graciliano Ramos (por Isabela)

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted.

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?
Meus pais moraram durante alguns anos em Palmeira dos Índios (município onde Graciliano Ramos foi prefeito) e foi lá onde nasci e morei até os doze anos. Eu também ia muito à Quebrangulo, cidade natal do escritor. Aos oito/nove anos de idade, quase todos os dias, quando voltava da escola, passava (e entrava) na Casa Museu Graciliano Ramos e foi lá na biblioteca onde li vários livros (não podia pegar emprestado pois era muito pequena), como Robinson Crusoe, Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo e várias estórias infantis. De Graciliano, o primeiro que li foi “São Bernardo”, que adoro, mas já estava com dezessete anos, mais ou menos.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura (“leitura difícil”)?
Não.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Penso que é um autor conhecido, traduzido, mas não é popular no sentido que você apresenta, como Paulo Coelho, não é? Também acho que por ser autor de leitura “obrigatória” para o vestibular, fica difícil não ler ao menos uma de suas obras (ou um resumo).

Sobre citações:
Você tocou em um ponto interessante, realmente, ele não é tão citado. Fiz uma pesquisa no Google (com os nomes entre aspas), veja o que deu:

Autor                              Citações (04/11)              Hoje (24/11)

Graciliano Ramos                    387.000                        397.000
Guimarães Rosa                      696.000                        746.000
Machado de Assis                1.900.000                     2.070.000
Jorge Amado                      17.300.000                   10.700.000

Claro que esses resultados não são apenas de citações, textos, frases ou “pensamentos” mas pode dar uma idéia. Agora, Jorge Amado, ganha até de Paulo Coelho (7.310.000) e de Fernando Pessoa(!!) (3.000.000) que eu imaginava que seria o campeão, mas também não é muito “citado” do tipo “como diz Jorge Amado” em blogs e sites de “frases e pensamentos”. Ah, e Manoel de Barros, que é mais “desconhecido” do público e teve 162.000 citações no Google, acho que é muito mais citado dessa forma. Por falar nisso, uma frase bastante comum na net (707 resultados entre aspas) atribuída a Graciliano Ramos é:

“Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada”.

Você sabe se é, realmente, dele?

Beijos.

LOUISE LABÉ: criatura de papel?

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
 =-=-=-=-=-=

Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008

PARA LER COMO UM ESCRITOR

PARA LER COMO UM ESCRITOR – UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVÊ-LOS

É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que, sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa, em busca do segredo do ‘escrever bem’. De cada um, extrai lições.

A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividadenão pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso Perdido, ou Kafka suportando um seminário em queseus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeitoacorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não osconvence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo?Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendouma fraude criminosa.

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frasee identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que afrase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada:clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiropúblico real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópiapermitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nossotrabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a sermeu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mimfoi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimuladapela ânsia que tinham de ouvir mais.

Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoasque me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma ofi cina podeser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que oajudará e sustentará.

Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendia escrever.

Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendoe lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente dealguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores.Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero,comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases clarasde Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhoresprofessores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio,tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres deuma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continha, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentementeuma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em quecito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagensde suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco maisfluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de quemais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneiramais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como oescritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregandodetalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgulade volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderandocada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução,posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particularesda arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode serensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemosa escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que desejaser escritor a compreender como um escritor lê. (…)

A fé de Arthur C. Clarke (do NYT)

Ficção científica do britânico, morto na última quarta-feira, é permeada de linguagem religiosa

Divulgação
2001.jpg
Cena de “2001: Uma Odisséia no Espaço” em que o comandante Dave Bowman (Keir Dullea) é surpreendido por HAL 9.000

EDWARD ROTHSTEIN
DO “NEW YORK TIMES”

Absolutamente nenhum rito religioso de qualquer tipo deve ser associado com meu funeral”, foram as instruções deixadas por Arthur C. Clarke, que morreu na última quarta-feira, 19 de março,  aos 90 anos. Isso pode não surpreender a ninguém que soubesse que esse escritor de ficção científica via a religião como um sintoma da “infância” da humanidade, algo a ser superado com o crescimento.
Mas esse fervor ainda destoa, porque, quando se trata das escrituras da ficção científica moderna, e da espantosa geração de inovadores proféticos que foram seus contemporâneos –Isaac Asimov, Robert Heinlein e Ray Bradbury-, os textos de Clarke foram os mais bíblicos, os mais preparados para amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo de religião: especular sobre o princípio e os fim, e como passamos de um ao outro.
O filme que Stanley Kubrick fez a partir de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Clarke -em parceria com o autor- assombra não pelo seu imaginário de inteligência artificial e engenharia de estações espaciais, mas por sua evocação das origens da humanidade e sua visão de um futuro transcendente, incorporada em um feto humano solto no espaço.
Até mesmo os títulos de algumas histórias de Clarke invocam a linguagem escritural. “If I Forget Thee, Oh Earth” (“Se Eu Esquecer a Ti, Ó, Terra”) fala de um menino em uma colônia lunar que é levado por seu pai para ver seu planeta-mãe, tornado inabitável pela guerra nuclear, uma experiência que inspira um sonho de retorno futuro a ser passado de geração em geração. Em “The Nine Billion Names of God” (“Os Nove Bilhões de Nomes de Deus”), monges de um convento de ares tibetanos acreditam que o grande desígnio da humanidade é escrever os 9 bilhões de permutações de letras que formam o nome secreto de Deus, um projeto assistido por representantes de uma empresa do tipo IBM, que fornecem o equipamento para que o projeto possa chegar a seu aguardado termo.
O simbolismo religioso nem sempre é benevolente, claro. Naquele que talvez seja o romance mais e perturbador de Clarke, “O Fim da Infância”, uma raça alienígena de Senhores Supremos, com aparente generosidade, estabelece uma utopia na Terra, eliminando as guerras e proporcionando uma era de bonança. Mas não é por acaso que, quando os Senhores Supremos são finalmente descritos, eles têm a aparência de criaturas satânicas, com asas, chifres e cauda pontiaguda.
Qualquer que seja a atitude -e quase sempre ela é ambígua-, a religião percola o reino de Clarke. Ele solicita a tela do Gênese e, sobre ela, encena seus experimentos mentais. Toda ficção científica faz isso até certo ponto, tentando imaginar universos alternativos: e se o carbono não fosse o elemento fundamental dos seres vivos? E se existisse uma sociedade que nunca tivesse visto uma noite?
A obra de Clarke, no entanto, toca as bordas dessa moldura: tenta examinar os momentos em que as coisas começam e quando elas terminam. No conto “Rescue Party” (“Equipe de Resgate”), alienígenas chegam para salvar a Terra de uma explosão solar iminente.
Eles descobrem que os humanos, uma espécie primitiva que descobrira como usar sinais de rádio meros 200 anos atrás, já salvaram a si próprios, lançando uma frota de espaçonaves rumo às estrelas, sabendo que sua jornada levaria centenas de anos. Os salvadores ficam chocados com a ousadia. “Esta é a civilização mais jovem do Universo”, um deles observa. “Quatrocentos mil anos atrás ela nem existia. Como será daqui a 1 milhão de anos?”
O conto profetiza o domínio dessa espécie -um domínio que, como Clarke nos faz sentir, nem sempre é bem-vindo.
Tal apocalipse é o feijão-com-arroz da ficção científica, mas às vezes, com Clarke, é também a comunhão, o momento de transcendência no qual algum destino se cumpre, alguma possibilidade se abre. Daí o feto em “2001”.
Esse lado do trabalho de Clarke talvez seja o mais sinistro, especialmente porque suas especulações místicas vêm acompanhadas de uma capacidade ímpar de imaginar mundos eminentemente plausíveis. Mas atos de racionalidade e especulação científica são apenas o começo de suas visões. A razão pura é insuficiente. Algo mais é necessário. Para qualquer um que tenha lido Clarke nos anos 1970 e 1980, quando a exploração espacial e a pesquisa científica tinham um apelo extraordinário, sua ficção científica tornou aquela empresa ainda mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, na qual os feitos de um punhado de décadas se encaixam numa visão de proporções épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é à toa que duas gerações de cientistas foram afetadas por seu trabalho.
Apesar de sua celebrada capacidade de fazer previsões, é incerto que Clarke soubesse precisamente o que via naquele futuro. Há algo de frio em suas visões, especialmente quando ele imagina a transformação evolutiva da humanidade. Ele deixa para trás tudo aquilo que nós reconhecemos e conhecemos e não dá muitas balizas para vivermos no mundo que reconhecemos e conhecemos. Nesse sentido, seu trabalho tem pouco a ver com religião.
Mas, no quadro maior, a religião é inevitável. Clarke ficou famoso por dizer que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia”. Talvez qualquer ficção científica suficientemente sofisticada, ao menos em seu caso, seja quase indistingüível de religião.

Retirado da Folha de S. Paulo – livre apenas para assinantes: Eis o endereço:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2303200804.htm