Oscar Wilde, a arte é inútil?

‘A Portrait of Oscar Wilde’ sai em edição de luxo

Primorosos 525 exemplares foram costurados manualmente, com fac-símiles de manuscritos do autor irlandês

06 de novembro de 2010 | 6h 00

A ideia de que a “arte é inútil” não nasceu exatamente com o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), mas foi ele quem, no prefácio de seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, deixou registrada a frase que provocou enorme desconforto entre seus leitores, um deles aluno de Oxford. Em abril de 1891, Bernulf Clegg lhe escreveu uma carta perguntando em que outro livro havia desenvolvido essa teoria sobre a inutilidade da arte. Wilde respondeu de modo enviesado ao missivista, afirmando que a arte é inútil porque não foi feita para instruir ou motivar ações. Sua natureza seria soberbamente estéril, conclui Wilde. O manuscrito dessa carta é uma das preciosidades incluídas no magnífico A Portrait of Oscar Wilde, que será lançado na quarta-feira, a partir das 20h, na galeria AGain (Rua Alagoas, 651, Higienópolis), de Attilio Baschera e Gregorio Kramer, amigos de Lúcia Moreira Salles – responsável pela edição da obra, em inglês, de tiragem limitada e numerada de 525 exemplares, dos quais 280 estarão à venda por R$ 1 mil.

Reprodução
Reprodução
Wilde, em caricatura de Alfres Bryan de 1881

A patrocinadora do livro, terceira mulher do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, viveu até 2009 para assinar cada um dos volumes. A renda proveniente da comercialização será revertida para o projeto Brasileirinho da ONG Riovoluntario ((www.riovoluntario.org.br), da qual era a principal mantenedora. Cada exemplar terá o nome do comprador catalogado pela instituição norte-americana Morgan Library & Museum, proprietária de vários manuscritos de Oscar Wilde (inclusive de O Retrato de Dorian Gray), para a qual Lúcia doou os originais de poemas, contos e cartas do escritor pertencentes a ela e ao marido, que tinham uma coleção de manuscritos (leia texto a respeito na página seguinte).

O único neto vivo de Oscar Wilde, Merlin Holland, ao ser convidado por Lúcia para escrever sobre essa raridade destinada a bibliófilos, sabia se tratar de uma edição fac-similar de luxo, mas atenta aos detalhes. “Sinto que ele aprovaria a publicação”, diz Holland no prefácio. “Mais que um volume útil, o livro aspira ao reconhecimento de um belo objeto”, conclui, referindo-se com ironia à frase sobre a inutilidade da arte cunhada pelo avô esteta.

De fato, Holland, descendente de Vyvyan Holland, segundo filho de Wilde, tem consciência de que os manuscritos doados à Morgan não são só peças históricas, mas textos úteis para analisar suas escolhas estéticas e sintáticas. Cortes feitos pelo escritor nos originais de poemas e de contos são reveladores o suficiente para desacreditar essa sua crença na esterilidade da arte. A Wildeana da Morgan ganhou, ao contrário, um testemunho de sua fertilidade.

Desconcertantes fragmentos poéticos revelam, por exemplo, que Wilde se dedicava em Oxford não apenas a traduzir os clássicos gregos, mas a experiências sexuais nem sempre gratificantes. Os manuscritos do poema La Dame Jaune (1889), por exemplo, conta uma delas, o encontro com uma prostituta que lhe transmitiu sífilis. O episódio é confirmado na melhor biografia do escritor, a de Richard Ellmann, que comenta as afinidades de Wilde não só com os amigos religiosos como com a Grécia pagã. Ellmann mostra um Wilde dividido entre a conversão ao catolicismo e o chamado à lascívia, destacando como o escritor foi capaz de sair de uma audiência com o papa Pio IX direto para o túmulo do romântico e boêmio John Keats (1795-1821), compondo em seguida um subversivo poema herético em que compara o poeta morto “ao mártir e belo” São Sebastião. Entre a pureza e a autorrealização, Wilde ficou com a última. A Roma papal, observa Ellmann, perdeu para a pagã. É isso que a composição poética monocromática La Dame Jaune (A Dama Amarela) copia de Keats, cujo Sonet on Blue, observa Holland, influenciou seu avô mais do que talvez o desejasse. De fato, assim como Keats, que usa a cor azul para identificar os olhos da amada, Wilde usa a cor amarela para associar a dama de cabelos finos (a prostituta) à decadência, a filetes de ouro de um copo veneziano.

Os fragmentos poéticos constituem a segunda parte de A Portrait of Oscar Wilde. Na primeira, Roses and Rue, a presença de Keats é ainda mais flagrante. Trata-se de um poema escrito quando Wilde já estava fora de Oxford, em 1885. Ele conhece a amante do príncipe de Gales, a bela Lillie Langstry, seu passaporte para o mundo aristocrático, e convence a amiga a ser atriz – além de mostrar a ela como sua cama era confortável (mais um dos casos heterossexuais de um escritor identificado exclusivamente como gay). Publicado em 1885, quando Wilde já estava casado e com o primeiro filho (Cyryl) no colo, Roses and Rue teve o título alterado para Midsummer Dreams, tentativa vã de não dar crédito aos versos de Swindburne que também o inspiraram. É um poema com “versos ruins, mas sentimentos legítimos”, como bem definiu seu biógrafo Richard Ellmann.

Nem todos os poemas cujos manuscritos originais estão no livro são, de fato, bons e Under the Balcony não está entre os melhores. Escrito um ano antes de Roses and Rue, certamente pertence ao segmento de textos românticos em que a lua, o mar e os passarinhos são protagonistas. Wilde, recém-casado e em plena lua de mel, fez o poema para um festival shakespeariano de caridade no Royal Albert Hall.

Amigos não perderam a oportunidade de parodiar seus versos, especialmente Robert Hichens (1864-1950) na escandalosa novela The Green Carnation, retirada de circulação em 1895. Nela, ele elege dois personagens, o dândi Esmé e seu lorde Reginaldo, que são, na verdade, Wilde e seu amante lorde Alfred Douglas. O livro acabaria sendo usado no julgamento do escritor, condenado a dois anos de trabalhos forçados por obscenidade e sodomia (a prática homossexual era considerada criminosa na Inglaterra).

O quarto capítulo do livro, que traz o manuscrito de O Gigante Egoísta, surpreende por ter não a letra de Wilde, mas de sua mulher Constance – e, dizem, não só a letra, mas passagens do alegórico conto, que lida com temas cristãos. O neto Merlin Holland afirma que seu pai Vyvyan nunca ouviu o avô Oscar contar para ele tal história. Isso descarta a versão oficial de que O Gigante Egoísta tenha sido escrito para crianças ou especialmente para os filhos de Wilde. Considerando o tema, é de fato um conto extremamente simbólico, em que o tal gigante do título impede crianças de brincar em seu jardim, sofrendo como consequência o rigor de um interminável inverno, até que os pequenos voltam sorrateiramente e trazem com eles a primavera, comovendo-o a ponto de ajudar o menor deles a subir numa árvore. Prestes a morrer, ele reencontra o garoto, então com chagas nas mãos e nos pés, pronto a levar o gigante ao Paraíso. Na manhã seguinte, as outras crianças o encontram morto, todo coberto de flores brancas.

Conto moral. Há, segundo o neto de Wilde, poucas correções no manuscrito original, mas ele acredita firmemente que a avó Constance colocou a mão no “conto moral” do avô, publicado em O Príncipe Feliz e Outras Histórias. Merlin Holland observa que ele representa o fim do primeiro período de criação do escritor – Wilde produziu em tempo relativamente curto (de 1887 a 1895) e teria, segundo o neto, desenvolvido o tema infantil pensando no contexto de uma Irlanda de latifundiários opressores e hostis à reforma agrária. Nunca é demais lembrar que Wilde defendia ideais socialistas, a despeito de seu dandismo e pompa aristocrática.

Entre os manuscritos das cartas enviadas por Oscar Wilde a amigos e amantes, duas se destacam no livro: na primeira delas, endereçada a George Herbert Kersley, o escritor convida o poeta para tomar chá, em 1888; a segunda é uma das raras cartas a lorde Alfred Douglas que sobreviveram – como a prática homossexual era crime, muitos chantagistas usavam esses documentos para conseguir dinheiro, inclusive do amante de Wilde, que, em 1892, teria escrito a ele pedindo ajuda para pagar os vigaristas. Sobre a carta do obscuro poeta George Herbert, o neto diz que o avô tinha atração por rapazes bonitos e que ele pertence a uma das “muitas áreas cinzentas” na vida de Oscar Wilde, separando os meninos em três categorias: os casos de longa duração, como Douglas, os garotos de programa e os jovens com pretensões a poeta, como George, que acabou casando com a filha de um capitão do Exército inglês.

A última parte do livro tem cinco dos seis poemas em prosa escritos em Paris no ano mais produtivo de Wilde, 1891, quando publicou romance O Retrato de Dorian Gray e o livro de contos O Crime de Lorde Saville. Um dos poemas em prosa, A Casa do Julgamento, reproduzido no último, expressa a crítica impiedosa que Wilde faz à sociedade londrina por meio de uma parábola sobre o encontro de Deus com um pecador. Condenado ao inferno, ele desdenha do Criador, dizendo que isso não era novidade para ele, acostumado à vida terrena. Liberado para o céu, ele ironiza novamente o supremo juiz, dizendo que seria incapaz de imaginar um lugar como esse. Wilde, convertido à beira da morte, deixou um último poema em prosa soberbo, O Mestre da Sabedoria, sobre um eremita que tenta transmitir o conhecimento de Deus a um ladrão de caravanas. Infelizmente, o manuscrito não faz parte do volume que será lançado na próxima semana, mas a versão impressa foi incluída. Um fecho de ouro.

A Portrait of Oscar Wilde
Edição: Lúcia Moreira Salles, Juan Pablo Queiroz
Prefácio: Merlin Holland
(185 págs., R$ 1 mil)

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FONTE: ESTADÃO – Cultura

Cinema de boca em boca – Inacio Araujo

Le cinéaste américain Samuel Fuller à Deauvill...

Samuell Fuller -Image via Wikipedia

Antologia compila estilo enfático de Inácio Araujo
Coletânea traz textos do crítico de cinema publicados na Folha entre 1983 e 2007
Mais de 280 artigos foram selecionados entre mais de 5.000 títulos e organizados cronologicamente

SILVANA ARANTES – EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Era um texto de despedida. Em 99 linhas, o crítico de cinema da Folha Inácio Araujo aquilatava a obra do diretor Samuel Fuller, que morrera aos 85 anos.
“Há o cineasta que se admira e há o cineasta que se ama”, afirmava, para desembocar na conclusão: “Amar Fuller e compreender o cinema é quase a mesma coisa”.
Esse adeus em forma de artigo fez de Juliano Tosi, então estudante de jornalismo, um “leitor assíduo” do crítico. A familiaridade com a produção de Araujo o credenciou a selecionar, entre mais de 5.000 textos publicados pelo crítico de 1983 a 2007, os 286 que integram a antologia “Cinema de Boca em Boca”.
“Morte de Fuller é como Perder o Pai”, publicado originalmente em 3/11/97, ocupa a página 381. São 678. “Embora seja a mais óbvia, a ordem cronológica [de edição dos textos] é a mais interessante porque permite notar a linha evolutiva da escrita para jornal”, diz Tosi, organizador do volume.
Não é bem como evolução que Araujo classifica as transformações na relação entre o jornal e seus leitores. “Antes, havia um leitor. Hoje, há um consumidor que se recusa a fazer esforço [de compreensão]. É como se a ignorância fosse uma virtude. Percebo nesse fenômeno uma queda da civilidade.” Se há uma marca no estilo de Araujo, é a ênfase. Enfático na defesa dos filmes que ama como no desapreço pelos que rejeita, ele acumula sentenças ressoantes.
Exemplos: “A pornochanchada é o divã do pobre. Não há mal nisso. Os letrados é que são pudicos”; “”Vertigo” é seguramente o maior filme já feito sobre o cinema”.
Em crítica que se converteu em polêmica com a produtora Conspiração Filmes, asseverou: “A supervalorização do cinema publicitário no Brasil deveria ser tema de um estudo antropológico, antes de cinematográfico.
(…) A pergunta que o espectador de cinema pode legitimamente se fazer ao longo de “Gêmeas” é: afinal, este filme está anunciando o quê?”.

PAIXÃO
Embora dispostos em ordem cronológica, os textos conformam núcleos temáticos na opinião do organizador. Estão lá, em capítulos informais, “a paixão por Howard Hawks, por Hitchcock, pelo cinema japonês e pela nouvelle vague”, avalia Tosi.
A autocrítica, ou a relação de Araujo com o ofício, também poderia fazer parte da lista. Assunto recorrente em suas reflexões, motivou-o a um debate, nas páginas da Folha, com o colunista Marcelo Coelho, rebatendo um artigo deste, em 1992, com “O que Sair por Último, Por Favor Apague a Luz”. Cinco anos mais tarde, em entrevista ao ombudsman Mario Vitor Santos, Araujo define seu papel citando o crítico de artes Rodrigo Naves: “Um crítico só se afirma pelo que defende, nunca pelo que nega”.
O cinema que Araujo afirma é como o de Fuller, cujos filmes “sem heróis, agônicos, têm beleza e poesia que irrompem na tela, levados pela força, consistência e originalidade de seu olhar”. Alguém, enfim, que se aprende a amar, mais que admirar.

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Retirado de: Folha S. Paulo – Ilustrada

Ainda sobre Monteiro Lobato e o politicamente coreto

Aqui a crônica de Vivina de Assis Viana publicada no Primeiro Programa.

E um  dos melhores comentários recebidos e a expressão pessoal de uma brilhante e voraz leitora:

Meg,

tive uma leitura pouco orientada. Com o discernimento de uma traça, fui devorando livros e livros.
Livros de adulto, livros de criança. Literatura de primeira e livros de quinta. Quadrinhos, tiras, biografias, o escambau. O critério era: é de papel? Escrito em português? Então tá valendo!
Claro que algumas coisas, lidas sem a maturidade necessária tiveram (ou terão) de ser relidas. Mas não acredito que tenha tido muitos prejuízos com isso, pelo contrário.
Meus pais me puseram em contato com livros, e eu lia sem restrições. Em caso de dúvida, perguntava aos meus pais, tios, professoras, pesquisava na enciclopédia. E, no meio dessa bagunça toda, eu li as Caçadas de Pedrinho. E muitos outros livros do Lobato. Talvez quase todos, não tenho certeza.
É claro que retratava preconceito. Um preconceito que havia, aliás. Ou será um preconceito que há, mas que fazemos de tudo para esconder? O fato é que hoje em dia, na cantiga de roda, não se atira mais o pau no gato…
Da primeira vez que ouvi essa ignomínia, fiquei indignada. Quem deu autorização pra mudar a cantiga de roda, centenária? E pode ter certeza, eu nunca maltratei nenhum bichinho por causa da cantiga. Nem conheço ninguém que o tenha feito.
O que estamos querendo de nossas crianças quando pintamos para elas um mundo fora da realidade? Estamos sendo esmagados pelo politicamente correto. Beirando a alienação coletiva.
Primeiro, protegemos as crianças da realidade. Não as ensinamos a discernir. Escondemos o que julgamos errado, e pronto: o mundo inteiro se torna um grande Backyardigans.
Depois jogamos sobre elas uma quantidade violenta de informação. O problema é que sem discernimento, não se sabe diferenciar o certo do errado.
Daí para se estar incitando a violência ou os preconceitos por meio de redes sociais,é um pulo.
As crianças que estamos criando, parece, só terão dois destinos: ou serão adultos limitados, ou serão criaturas sem limites, por não saberem a diferença entre o certo e o errado.
Porque a literatura tem de ser fácil, mastigada para eles? Porque não podem aprender a discernir? Criticar?
Convivo muito com crianças e com suas mães. A julgar pelos padrões atuais, eu deveria ser irremediavelmente traumatizada. Afinal, li o que não devia, cantei as cantigas erradas, competi, ganhei, perdi, fiquei de castigo, pulei muro, fiz bagunça, levei palmada, fiquei sozinha em casa, comi o cachorro quente que vende na esquina.
Isso sem falar que vi o Pica Pau na tv. Todos os episódios: TODOS! Deveria estar morta, ou, no mínimo, pior que a Cristiane F. (aliás, li esse livro por volta dos 12 anos).
Mas, curiosamente, me sinto muito bem… Ou seja: na dúvida, dê o livro pra criança ler. Leia com ela. E discuta. Políticas de censura são burras e inadmissíveis num país livre.
Aliás, melhor Monteiro Lobato – literatura de qualidade – do que um livro qualquer sobre vampiros vegetarianos.

Expresso aqui no Ainda podia ser pior de Marilia Jacquelyne.
Marilia é brilhante. Confira.

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E um link definitivo sobre Monteiro Lobato. Um conto: Negrinha.

Acachapante denúncia, gerida exposta. É ler e refletir. Mas isso parece ser muito difícil, mais fácil é censurar, olhyar sem ver. Nesta página, há uma breve exposição do que foi a vida pública e literária de Lobato

Enviado pela professora Rose Marinho Prado,  que sempre tem um olhar original, bem humorado, muitas vezes ácido e que nos traz uma compreensão poética  de seu mundo,  por intermédio de uma indiscutível maestria da escrita.

Confira o que eu digo, o pensamento de Rose Marinho Prado aqui.

E leiam também aqui., descobri só agora. Leitura em companhia (beleza de título)

PARA LER COMO UM ESCRITOR

PARA LER COMO UM ESCRITOR – UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVÊ-LOS

É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que, sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa, em busca do segredo do ‘escrever bem’. De cada um, extrai lições.

A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividadenão pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso Perdido, ou Kafka suportando um seminário em queseus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeitoacorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não osconvence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo?Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendouma fraude criminosa.

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frasee identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que afrase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada:clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiropúblico real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópiapermitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nossotrabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a sermeu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mimfoi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimuladapela ânsia que tinham de ouvir mais.

Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoasque me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma ofi cina podeser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que oajudará e sustentará.

Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendia escrever.

Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendoe lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente dealguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores.Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero,comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases clarasde Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhoresprofessores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio,tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres deuma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continha, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentementeuma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em quecito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagensde suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco maisfluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de quemais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneiramais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como oescritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregandodetalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgulade volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderandocada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução,posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particularesda arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode serensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemosa escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que desejaser escritor a compreender como um escritor lê. (…)

Escritora, feminista, Simone de Beauvoir, esquerdista militante

Crítica a Simone de Beauvoir marca o centenário da intelectual feminista

Octavi Martí
(Em Paris)

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros”. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68” citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

Arquivo Última Hora
Simone de Beauvoir ao lado do escritor Jorge Amado (centro) e do filósofo Jean-Paul Sartre

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -“A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -“Castor de Guerre”– pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

SOBRE O FEMINISMO

“Se ser feminista é ser um homem como qualquer outro, como queria Beauvoir, então não sou feminista!”Antoinette Fouque, fundadora do Movimento de Libertação daMulher, na França. ”

A leitura de seu livro ‘O Segundo Sexo’ me causou a impressão de ter-me colocado óculos para ver o mundo.” Wendy Delorme, escritora, atriz e militante das Panteras Rosa.

“É importante que tenha demonstrado que a masculinidade não estava reservada aos homens, mas era um signo cultural e social acessível a todas. Isso é o revolucionário.” – Marie-Hélène Bourcier, estudiosa e crítica da obra de Simone de Beauvoir.

“Depois de ler ‘O Segundo Sexo‘, sei tudo sobre a vagina da autora. É asqueroso.” François Mauriac, romancista

“A posição ética de Beauvoir me apaixona por seu radicalismo: ela prefere mudar a ordem do mundo do que mudar de desejos.”Danièle Sallenave, autora da biografia crítica de Beauvoir “Castor de Guerre“.

EL PAÍS –

JEAN PAUL SARTRE

Ciência: “O GENE EGOÍSTA” faz 30 anos

Estudo clássico da biologia faz 30 anos e ganha nova edição
Obra-prima do britânico Richard Dawkins chega com um ano de atraso ao Brasil

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Há uma anedota já clássica no gueto dos jornalistas científicos segundo a qual é possível sustentar qualquer tese sobre o papel dos genes no comportamento humano citando um trecho escolhido de “O Gene Egoísta“, de Richard Dawkins.
Como toda boa piada, esta é cruel, mas tem mais do que um fundo de verdade. Ela revela o barulho que o maior clássico moderno da biologia tem feito desde que saiu, em 1976, e a confusão que ainda causa: determinismo ou livre-arbítrio?

As idéias que permeiam o livro de Dawkins há muito vazaram do laboratório e foram canibalizadas pelo mundo da cultura. Viraram desculpa para um monte de coisas, de infidelidade conjugal a assassinato. E, recentemente, foram ecoadas por ninguém menos que James Watson, o pai do Projeto Genoma Humano, em suas declarações desmioladas sobre diferenças genéticas determinando diferenças de capacidade intelectual entre brancos e negros.
É em boa hora, portanto, apesar do atraso de um ano, que chega ao Brasil a edição comemorativa de 30 anos de “O Gene Egoísta”. Quem já leu pode aproveitar para desfazer mal-entendidos sobre o livro, numa atmosfera política menos carregada que a dos anos 1970. Quem não leu pode se deliciar com a prosa de Dawkins, então um pensador mais arejado (e menos chato) que o militante ateu de “Deus, um Delírio”.

A premissa básica do livro é que os genes são a “unidade” mínima da evolução e “agem” de acordo com o axioma da seleção natural darwinista: maximize sua sobrevivência. Sobreviver, aqui, equivale a espalhar o maior número possível de cópias de si mesmo. Para que isso aconteça em um ambiente em que vários genes competem entre si, é necessário eliminar rivais e recorrer a uma série de truques, tais quais criar “máquinas de sobrevivência” que protejam o DNA do contato direto com o mundo.
Essas máquinas somos nós, os organismos vivos, que Dawkins comparou a “gigantescos e desajeitados robôs”. O valor adaptativo de uma máquina de sobrevivência está em ser melhor que seus competidores na exploração do ambiente. Para o gene, não compensa ajudar outro organismo quando isso implica em custo.
Portanto, na evolução -e, por tabela, no comportamento humano-, impera a lei da selva. Parando por aí, fica-se com a impressão de que Dawkins cede ao determinismo. Mas, embora intencionalmente force a mão na linguagem, ele mesmo desmonta tal sugestão ao postular que o egoísmo dos genes montou uma máquina tão sofisticada -o cérebro e a consciência- que consegue se rebelar contra seus ditames.
A biologia mudou um bocado nestes 31 anos. Mas “O Gene Egoísta” continua sendo obrigatório. Não só para quem quer entender a genética mas também para qualquer um que se pergunte como é possível traduzir conceitos científicos complicados como quem escreve um romance.

 

 

 


O GENE EGOÍSTA
Autor: Richard Dawkins
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 55 (540 págs.)
Avaliação: ótimo

 

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