IVAN LESSA sobre “Tropa de Elite”

Entropando elitizado

Na sexta-feira, 5 de outubro, eu também, como cariocas e paulistanos, estive presente à estréia do controvertido filme nacional Tropa de Elite, do diretor José Padilha, cineasta que admiro desde que assisti, no conforto de minha casa, ao supremo desconforto do documentário Ônibus 174, aquele do ônibus seqüestrado no Jardim Botânico.
A estréia, na verdade, tanto para Rio e São Paulo, estava marcada para sexta-feira, 12 de outubro. Deu-se porém que, por um desses mistérios que só os filmes de ficção e documentários brasileiros explicam, os camelôs, a serviço de alguma misteriosa e por certo poderosa organização, venderam adoidados cópias piratas em DVD do filme em questão.

Segundo os jornais, só em São Paulo cerca de 1,5 milhão assistiram ao longa antes de sua entrada em cartaz. Contando o Rio – e nunca se deve descontar o Rio em coisa alguma – esse número chegaria fácil aos 5 milhões, teria declarado o diretor do filme, José Padilha.

Há, pois, uma demanda por esse tipo de filme, li em outro lugar. Ou vários lugares. Que tipo de filme é esse? Um filme sobre nós mesmos, coisa rara e recente. Um filme sobre a terrível realidade da luta, melhor dizendo guerra, entre a lei e a desordem, ou seja, entre polícia e criminosos. Estes últimos, favelados traficantes de drogas.

Presença em espírito

O filme foi para as telas de salas de exibição do Rio e São Paulo com 140 cópias. No dia 12, será exibido no resto do país. É mais do que possível que aqueles que viram Tropa de Elite em DVD, por certo em cópias mal ajambradas, paguem mais alguns reais para assisti-lo em tela grande, com som estereofônico e pipoca. Em certas cidades – quem sabe? – talvez um baseadinho.

Estou entre os que compareceram apenas em espírito à noite de estréia do filme de Padilha. Um amigo do peito, de passagem por Londres, cedeu-me uma das tais cópias piratas de Tropa.

Em memória dos bons tempos passados no Rio, e em sinal de respeito aos dias amargos que a mesma cidade vive hoje, praticamente cronometrei a exibição de meu DVD para o que seria a primeira sessão do Roxy, ali na esquina da Bolivar: 8 da noite no Rio, meia-noite em Londres.

Minha cópia tinha 159 minutos e umas poucas palavras introdutórias em inglês. Felizmente não era dublado. Os trechos em inglês são uma pista para onde se deu o vazamento original do filme, se vazamento houve.

Sem cigarrinho, mesmo o “comercial” (deixei há 6 anos), quase que naquela perfilação dos jogadores de nossa seleção antes do início da contenda, assisti atento às quase três horas de filme.

Foi bom. O fato de me saber em estado de transgressão, colocou-me no espírito da coisa, além de me trazer à mente lembranças amargas mas caras, bem caras. Uns oito contos o papelote, se é que me lembro bem. Estava eu no estado ideal para enfrentar uma tropa de elite.

Tudo certinho

Na verdade, passados uns 70 minutos, comecei a me dar conta que era exatamente um filme sobre aquilo que se dizia ser, uma tropa policial de elite.

Vieram-me à mente, conturbada como de hábito, vários outros filmes ou séries de televisão, de Os Intocáveis a Nascido para matar, de Stanley Kubrik, principalmente na primeira metade, a do treinamento da scuderie, digo, esquadrão motorizado, digo, tropa de elite.

O filme enfatiza o treinamento intenso e rigoroso, sobre-humano mesmo, de soldados da Polícia Militar que formam o BOPE – e paro por aqui já que não deve haver brasileiro vivo que não saiba de que se trata.

Achei tudo certinho. Quer dizer, a câmera estava quase sempre no lugar certo, os atores tinham suas falas decoradas, muitas obviamente improvisadas, a narração fluía, inda que, como num riacho (de sangue?) encontrasse, aqui e ali, uma obstrução.

Só que faltava qualquer coisa. E não era a minha presença no Brasil pelos últimos 30 anos. Daí me deu o estalo de cinéfilo viciado como os fregueses da turma do morro.

Eu queria era ver sangue. Muito sangue mesmo. Jorrando como nos Saw 1, 2, e 3, que espero que vocês conheçam. Queria assistir maldades horrendas. Queria torturas horripilantes. Gente estourando, miolos espalhados pelas paredes, olhos sendo vazados, estampidos de balas sacudindo minha sala.

Um sujeito só carbonizado numa pira de pneus e dois ou três caras sufocando com a cabeça em sacos plásticos era pouco. Qualquer Tarantino, John Carpenter, Robert Rodriguez ou George A. Romero dariam um banho – sempre de sangue – em matéria de tortura e maldade. Cadê as degolas? Cadê o arrancar de unhas? Os olhos furados? As vísceras expostas? O garrote-vil? Problemas meus apenas?

Ou do espectador acostumado às manipulações do moderno cinema americano? Vá lá que seja, o culpado sou eu apenas. Feito um mordomo em livro inexistente da Agatha Christie. Tinha mais um trocinho, no entanto. Ou menos um trocinho.

Cadê gente?

Em nenhum momento, eu consegui me interessar por pessoa alguma que passou pelo filme pirata que vi na tela de minha televisão. Um homem tenso diante do espelho, ou terno diante da mulherzinha grávida é pouco, muito pouco. “They are all dead”, como diria, com seu fiapo de voz, Clint Eastwood, os olhos semi-cerrados, a boca crispada.

Nenhum dos presentes atuantes foi agraciado com o propalado “sopro de vida”. Ninguém me despertou interesse. Pena ou asco. Do lado do “Bem” ou do lado do “Mal”.

Achei tudo de um cinza anódino. Os bandidos, os traficantes, viviam daquilo, e naquela, como num faroeste do Sergio Leone. Poderiam estar no saloon derramando umas e outras enquanto as balas do mocinho não chegam.

Faltou gente, sobrou patente. Fiquei esperando os cartões postais do Rio. Nem esses tinham. Não reconheci nada nem ninguém. A não ser a Figueiredo de Magalhães e assim mesmo porque numa cena mostravam a placa com o nome da rua. Foucault foi mencionado, única hora em que senti um frio na boca do estômago.

Devo estar fora há muito tempo. Essa a única explicação para minha ausência instintiva e intelectual. Deus, que é brasileiro, e joga por nossa seleção, como todos sabem, além de castigar quem abandona por muito tempo o país, passa a bola entre as pernas daqueles que compram ou aceitam de presente DVD pirata.

Ou então foi o tempo que fez de mim esse troço de que tanto falam: “fascistóide”.

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Millôr : O La Fontaine de Ipanema

15 de Setembro de 2007

”Sou um crente porque creio na descrença”

Millôr Fernandes permanece, aos 83 anos, como um dos mais finos pensadores brasileiros

Por Ubiratan Brasil

Aos 83 anos, Millôr Fernandes não revela sinais de desgaste. Se sua obra continua a frutificar – a Desiderata, por exemplo, acaba de reunir em uma caixa os volumes Novas Fábulas Fabulosas e Novos Contos Fabulosos, seleção de artigos inéditos em livros -, ele se mantém como um dos mais finos pensadores brasileiros. Autor de uma obra cujo conjunto soma mais de cem peças, uma infinidade de desenhos, traduções e meia centena de livros, Millôr passa boa parte do dia em seu confortável estúdio, no bairro carioca de Ipanema.

Ali, onde uma televisão vive constantemente ligada, mas sem som (“De vez em quando, dou uma espiada e, por conta da falta de qualidade, volto correndo ao meu trabalho”), Millôr conversou com o Estado na tarde de quarta-feira, quando a sessão secreta do Senado absolveu o presidente da casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele soube do resultado pelo telefonema de um amigo, segundos antes do anúncio pelas emissoras.

“É por isso que minhas fábulas são amorais”, divertiu-se Millôr, responsável pela valorização de um gênero literário tão conhecido universalmente mas que, sob sua ótica, se transformou em sátira da grande esculhambação que é a vida humana. Autor de frases inesquecíveis que bem traduzem o cotidiano (“Generalizando-se a corrupção, restabelece-se a Justiça” e “Todos os países são difíceis de governar. Só o Brasil é impossível” são algumas), ele consegue tratar de qualquer assunto sem perder a esportiva.

Millôr iniciou sua carreira aos 14 anos, na revista O Cruzeiro. Criou publicações que se tornaram referência como Pif Paf e foi um dos fundadores do Pasquim. É autor de 24 peças, entre elas Flávia, Cabeça, Tronco e Membros, É… e Liberdade, Liberdade. Deve-se a ele a tradução no Brasil de importantes clássicos do teatro, especialmente da obra de Shakespeare.

Artista de tantas ferramentas e com um raciocínio tão rápido que, às vezes, atropela as próprias palavras, Millôr conversou sobre quase tudo, pontuando as falas com uma gargalhada marota, como se observa a seguir nos seguintes tópicos.

PASQUIM

A reedição do Pasquim, que muitos teriam feito algo terrível, solidificou o espírito do jornal, em bela seleção feita pelo Sérgio Augusto e Jaguar. O Ziraldo, que é um maluco, não percebeu que o período histórico tinha acabado e tentou reeditar o Pasquim, o que só desmoralizou o jornal.

IVAN LESSA

Nós o cultivamos como escritor maldito e ele gosta disso.

FÁBULAS E CONTOS

Não participei da seleção, deixei tudo por conta da editora (Marta Batalha) que pesquisou em meus arquivos. Mas tenho impressão que deve ser um material de quinta ordem e, por isso mesmo, vai vender muito.

PAULO COELHO

Ele deve ter razão no que diz e escreve, pois vende 200 milhões de livros, viaja na Transiberiana. O mundo é feito assim. Mas continuo achando seus livros uma merda.

SARNEY E FERNANDO HENRIQUE

A obra do Fernando Henrique é uma porcaria, escrita por um Sarney barroco. Tenho uma amiga que estudou com ele e o achava admirável, mas logo se decepcionou. Para mim, a figura do scholar, do grande erudito, não existe no Brasil.

MACHADO DE ASSIS

Desde a escola, somos condicionados a acreditar que se trata de um grande escritor. Assim, todo mundo repete isso, mesmo sem ter lido uma linha. Eu nunca disse que não gostava de Machado de Assis, mas o considero um escritor de segunda – afinal, na época dele tínhamos o Proust. Machado era um burocrata. Não entendo, por exemplo, por que tanta discussão sobre a possível traição em Dom Casmurro – só faltam encomendar agora o teste de DNA da criança para tirar a dúvida. Afinal, a se julgar pelas cartas que escreveu para o Escobar, o Bentinho era uma bicha louca, que só não saiu do armário porque não era comum na época.

RENAN CALHEIROS

Sua absolvição não é um fato ocasional. Ele é um subletrado, dono de uma mentalidade que representa um tipo de político que ainda existe no Brasil. Aquele que não pode deixar o poder sem ter se beneficiado.

MEMÓRIAS

Não preciso escrever, pois basta juntar meu trabalho. Comecei na imprensa com 14 anos. Costumo dizer que nunca conheci ninguém famoso porque todos grandes nomes do jornalismo brasileiro já eram meus conhecidos antes da fama. Logo todos viraram vedetes. Inclusive eu. Mas de um assunto sobre o qual eu jamais vou falar é minha vida pessoal. Nunca tive nenhum problema (muito pelo contrário), mas não acho que interesse a alguém.

ESCRITOR

Não me considero um autor. Minha vocação sempre foi a de ser atleta. Era um grande nadador. Eu gostava de me meter em tudo, até boxe. Mas em tudo que me meti, fui um medíocre.

TEATRO

Uma das melhores peças que escrevi foi Flávia, Cabeça, Tronco e Membros, que tem 23 personagens. Nem sempre, porém, é compreendida pelos encenadores. Escrevi também algumas que não foram encenadas. É o caso, por exemplo, de Duas Tábuas e Um Caixão, que escrevi para a Fernanda Montenegro. Ela interpretaria uma mulher que vem da Inglaterra e que pretende trabalhar no teatro, ao lado de um jovem ator. Em um determinado momento, a mulher começa a falar sobre a espera da morte. Acho que, com Fernanda interpretando, seria arrepiante. Não sei por que minhas peças são encenadas e também por que não são encenadas. Lembro de um texto, Um Elefante no Caos, que ficou anos sem nenhum diretor se interessar até que um grande amigo, João Bethencourt, se interessou. Acho que a demora é explicada pelo absurdo da história sobre um incêndio que consome um imóvel durante seis meses, porque na hora em que os bombeiros quase conseguem apagá-lo falta água para terminar o trabalho. Eu sempre a achei divertida, especialmente cenas como a que aparece um bombeiro comendo bolinho de bacalhau, como se nada tivesse acontecendo. E tem também um bando de terroristas que, para despistar, começa a falar na língua do P. Eu ainda colocava, na porta do teatro, as piores críticas – lembro até que o Paulo Francis escreveu, pomposo: “Millôr é pré-marxista, preso ao sistema ético familiar.”

LIBERDADE

Tudo o que eu gostaria de dizer está publicado no texto que escrevi para a edição do livro Areopagítica, clássico de John Milton. Ali eu prego pela liberdade de descrença em frases como “Só existe uma liberdade de ser livre: ser o opressor”, “A liberdade absoluta só existe em momentos limites, quando não se tem mais nada a perder”, “O carcereiro não pode vigiar o prisioneiro o tempo todo: o encarcerado pode fugir, donde o prisioneiro ser filosoficamente mais livre que o carcereiro”, “As prisões mais sujas, todos sabem, são as mais limpas”. Lembro ainda de uma conversa que tive com Odylo Costa, Filho, quando trabalhávamos no Cruzeiro. Ele me disse: “Millôr, eu conheço tua bandeira (eu nunca soube que tivesse uma!), mas pode ficar tranqüilo que te dou toda liberdade.” Eu respondi: “Odylo, me perdoe, mas você não pode me dar toda liberdade – você apenas pode tirá-la.”

HUMOR

O tipo de humor que eu gosto está resumido na epígrafe que inventei para a edição completa dos meus pensamentos e frase. Diz o seguinte: “Tenho quase certeza que, no Méier, em certa noite de tempestade, fui barbaramente assassinado. Mas isso faz muito tempo.” Depois disso, quem disse que eu preciso de psicanalista?

PSICANÁLISE

Sou um ser humano auto-analisado, não preciso fazer análise. Inveja todo mundo tem, por que eu deveria acreditar ser um defeito? Somos fracos, vaidosos, mas podemos conter isso. Sempre gostei de notoriedade, mas popularidade, por outro lado, é vulgar.

SHAKESPEARE

Sou um dos maiores vendedores das peças de Shakespeare no Brasil. Sei, por exemplo, que Rei Lear vendeu mais de 70 mil exemplares. Hamlet, 50 mil. Já os meus livros não vendem tanto. O que gosto nesse trabalho é mostrar as brincadeiras lingüísticas que Shakespeare fez no inglês. Como, por exemplo, os trocadilhos de Hamlet: em uma determinada fala, ele responde de forma genial à mãe, que o trata por ?primo?: “Perfila-me como primo porque não primo como seu filho.”

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Marcel Marceau (r.i.p)

Paris, 23 set (EFE) – Marcel Marceau, o mímico mais famoso do
mundo, morreu aos 84 anos no último sábado, depois de seis décadas
ultrapassando fronteiras com seus gestos melancólicos e as histórias
mudas de seu famoso personagem Bip.

A família do artista francês, que inicialmente não forneceu mais
detalhes sobre a morte de Marceau além de que tinha ocorrido no
sábado, anunciou que ele será enterrado no cemitério de Père
Lachaise, em Paris, nos próximos dias.

Reuters

Reuters

O mímico francês Marcel Marceau (1923-2007)

O gênio da mímica, que foi responsável por revitalizar a arte a
partir do final dos anos 40, se inspirava nos grandes atores do
cinema mudo, como Buster Keaton, Harry Langdon e sobretudo Charles
Chaplin, pelo qual desde criança já mostrava admiração e que gostava
de imitar.

O artista francês nasceu em Estrasburgo em 22 de março de 1923.

Em 1944, fez parte da resistência contra a ocupação da França pelos
nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, depois que seu pai, de
origem judaica, foi detido e levado ao campo de concentração de
Auschwitz, onde morreu.

Foi durante este conflito que, para escapar da perseguição
anti-semita, mudou seu sobrenome de Mangel para Marceau.

Após o fim da Guerra, começou a estudar artes decorativas em
Limoges, mas se voltou para o teatro após ingressar na Escola de
Arte Dramática Charles Dullin, onde estabeleceu um forte vínculo com
um de seus professores, Etienne Decroux, que foi fundamental para a
sua inclinação à mímica.

O ano de 1947 marcou uma inflexão em sua carreira, com a fundação
de uma companhia própria.

Neste ano também foi criado o personagem Bip, que o acompanhou
pelo resto de sua vida, identificado por seu perfil delgado, seu
rosto pintado de branco, as calças largas de palhaço, a camisa de
marinheiro e uma expressão corporal aparentemente frágil, mas cheia
de vitalidade.

Marceau tornou Bip um ser marcado pela sensibilidade, pela
melancolia e pela poesia que surgia da representação através dos
movimentos corporais e que permitiu que explorasse a sociedade
moderna focando sua dimensão trágica.

Seus espetáculos, entre o teatro e a dança, alcançaram fama
internacional a partir de meados dos anos 50 e constituíram uma
revisão moderna da tradição da dramaturgia da “Commedia dell’Arte”
italiana.

Rapidamente se tornou famoso na França e em países como o Japão e
Estados Unidos, onde sua “caminhada contra o vento” se tornou uma
das bases técnicas da dança de Michael Jackson.

O mestre da mímica levou alguns de seus passos ao cinema e teve
papéis de destaque em “Barbarella”, de Roger Vadim (1968), e “A
Última Loucura de Mel Brooks” (1976).

Em 1978, quando estava no auge de sua carreira, fundou em Paris
uma Escola Internacional do Mimodrama para garantir um substituo em
sua arte do gesto, à qual acrescentava também técnicas de dança, de
acrobacia com bastão e de teatro, com o foco no que ele mesmo chamou
de “criação total”.

Marcel Marceau, que recebeu as máximas distinções oficiais na
França, como a Legião de Honra e as condecorações da Ordem Nacional
do Mérito e das Artes e das Letras, não conseguiu sustentar o centro
de formação, que fechou em 2005 por falta de financiamento.

Graças a sua energia, continuou subindo aos palcos quase até o
final de sua vida.

Desta forma, em 2000 organizou uma turnê intitulada “Les Premiers
Adieux de Bip” (As primeiras despedidas de Bip), que foi seguida em
2002 por “Le retour du mime Marceau” (A volta do mímico Marceau), e
por uma nova turnê pela América Latina em 2005 com “Le meilleur de
Marceau” (O melhor de Marceau).

O gênio da mímica, que gostava muito de conversar, afirmava que,
apesar de tudo, “a palavra não é necessária para expressar o que se
tem no coração”.

Ao ser anunciada a notícia de sua morte, muitas personalidades o
homenagearam, entre elas o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que
manifestou “emoção, admiração e respeito” pelo mímico, o qual chamou
de “um dos embaixadores mais eminentes” do país.

O primeiro-ministro, François Fillon, lembrou o “artista”, o
“mestre” e o “resistente”, e lembrou que suas “histórias sem
palavras” tinham o dom raro de poder se comunicar pelo mundo todo
além da barreira da linguagem.

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Retirado daqui: UOL

LAN, DOCE LAN

21/09/2007 – 09h10

Veja matéria  e fotos  aqui:
Jovens esquecem casa e dormem em lan house

Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo

Domingo, 6h30, do lado de fora, os passarinhos cantam para os primeiros raios de sol. Lá dentro o que canta é a porrada. “Mete a faca no truta”, “Fala agora, arrombado”, “Dá um tiro no meio da idéia dele”, são os gritos saídos da escuridão da lan house Immersion. São os amigos Cromadinho, Tripa, Tucano e Edinho, que entraram madrugada a dentro se desafiando no Counter Strike, game de polícia versus terroristas.

LAN, DOCE LAN

Após 18 horas seguidas no local, Carlos André dorme no amanhecer de domingo

Em outra lan, jovem cochila em sofá por três horas após pagar R$ 1 por uma hora

Melhor cliente, o recordista de horas Luis Fernando posa ao lado de sócia de loja

Grupo deixa lan de manhã para pegar ônibus rumo ao bairro de Campo Limpo
O fenômeno lan house (lan é sigla para local área network) começou em 1996 na Coréia do Sul, onde existem atualmente 22 mil lojas – mais até do que nos EUA. No Brasil, elas chegaram em 1998 e hoje são quase quatro mil, sendo que em São Paulo são mais de 700. Elas se espalharam tanto que lojas em pequenas cidades foram usadas como base para golpes de hackers – outro problema delicado envolvendo o setor, fora a relação com os menores de idade.
Na cidade-dormitório de Taboão da Serra (Grande São Paulo), eles se negam a descansar. Quando muito, cochilam nos sofás do local e pescam diante dos computadores. Como Carlos André, o Ceará, que sonha com a mão no mouse às 7h15. Com o amigo Bruno Gabriel, está desde o meio-dia do sábado no mundo virtual e já pagou para ficar até o mesmo horário de domingo.

Bruno tem 17 anos, já repetiu de ano três vezes, sonha em ser advogado, trabalha na lanchonete da mãe no Jardim Dracena e, com o que ganha, paga as horas na lan e os salgadinhos, chocolates e refrigerantes que garantem a sobrevivência longe do lar.

“Já cheguei a ficar quatro dias seguidos sem voltar para casa. Para dormir, colocava os pés em cima da mesa, descansava duas horas e seguia jogando”, conta, para depois descrever a reação de sua mãe-patroa com a ausência. “Ela falou uma penca de coisas, mas na semana seguinte eu estava de volta na lan.”

Mas o recorde, certificado pelo proprietário do estabelecimento Nobuki Yamazaki, é de Luis Fernando Lopes, 22. Nas férias (ele trabalha como técnico em eletrônica em uma lan vizinha, mas que não opera 24 horas), ele ficou de uma manhã de segunda até sábado de manhã sem voltar para casa. “Não conheço ninguém no litoral, nem fora de São Paulo. Então, minha praia é aqui”, confessa.

Sua rotina nesses dias só incluía de diferente uma escapada para a academia vizinha, duas horas de manhã e mais duas à tarde. Uma muda de roupa para o exercício, outra para o mundo virtual. Dormir só diante do computador. Comida só x-salada e pastel do boteco vizinho. “Sinto larica por jogar. Meus pais sabem disso, mas eles até gostam que eu venha aqui porque assim não dou trabalho em casa.”

Os casos de morte na Coréia do Sul e na China de maratonistas virtuais não o abalam. Nem o caso do garoto brasileiro que espancou a mãe que o interrompeu seu jogo quando estava trancado em seu quarto. “Isso acontece com quem é fraco da cabeça. Ninguém mexe com meu cérebro”, argumenta em sua lógica própria. Também não estranha a notícia que no Japão as lans viraram opção de hospedagem barata – de certa forma, se repete o fenômeno por aqui.

Ele aperta os botões “alt” e “tab” e lá está ele no orkut. Outro toque, e é a vez do msn. Assim se relaciona com o mundo. “Esse gordo é nóia. Se soubesse que ele não voltava para casa, trazia marmita e toalha para ele”, brinca o amigo Yukiassu Sakamoto, 19.

Os nomes dos estabelecimentos já dão indício do que se passa com seus freqüentadores: Immersion, Extreme e Hipnotic. As madrugadas custam em média R$ 5 (a sessão é chamada de Corujão), com diversão garantida por oito ou mais horas. Para ficar até o meio-dia, é acrescentar mais R$ 2.

Duas delas ficam do lado da delegacia do município, o que cria um campo de força contra um eventual assalto. Um pouco mais distante, a Hipnotic fecha a porta. Dentro, o funcionário escuta “Fear of the Dark”, clássico metaleiro do Iron Maiden. O medo, porém, é da luz da manhã. É uma noite eterna, a única luz vinda dos monitores. Qualquer lâmpada acessa atrapalha a nitidez da tela.

AMORES VIRTUAIS
Rodrigo Bertolotto/UOL
Rafael joga em lan com a namorada, Suellen, postada em seu colo por horas
Amores que começam pelo orkut por vezes não se livram de seu lado virtual. O programa de fim-de-semana dos namorados Rafael Assakura e Suellen Policarp, por exemplo, é se enfurnar em uma lan house e se postar por horas passando por games, fases e pontos ao lado de um grupo de amigos.

“Ela é tão viciada como eu. Se não, não conseguiria. Ponho no colo e jogo horas”, conta Rafael, 20. O programa pode incluir um jantar pouco romântico, encomendando um “prato feito” no restaurante ao lado. Os dois não estão sozinhos no costume: casais estão entre as minorias representadas na lan, cuja população hegemonicamente masculina e adolescente.
Na Extreme, as janelas são pintadas de preto. Uma fresta mostra um pátio de lava-rápido. Ao longe, os cânticos de uma igreja evangélica vizinha. Mas, no lugar do subúrbio e dos crentes, os adolescentes estão em campos medievais na companhia de elfos, mortos-vivos e gigantes do game Warcraft. Um rapaz dorme desde as 4h da manhã. Comprou uma hora por R$ 1 e dormiu as horas restantes – bem mais barato que uma pensão. O sono pesado resistia aos berros dos outros clientes (“Pedala, gótico” e “Cola aí, mano” são os menos ofensivos).

Sócia de uma lan, Ivani Yamazaki conta que já albergou cinco meninos dormindo em um sofá de três lugares. Outra vez, recebeu um menino de rua, lavou suas mãos, deu um pacote de salgadinho e deixou ele dormir por lá. Horas depois a mãe e a polícia buscavam o menino que há 15 dias estava fora de casa.

A regra é que menor de 12 anos não pode usar o serviço, e os corujões só podem ser freqüentados por adolescentes com autorização dos pais. Os meninos têm de informar o horário em que estudam, e estão bloqueados durante essas horas.

As brigas são raras. “Tem cara que chega aqui todo bonzão, todo pá. Esses arrumam treta”, diz Luis Fernando. Os palavrões, provocações e empurra-empurra são uma constante. Os funcionários se confundem com os clientes, afinal, estão jogando e xingando também – muitos freqüentadores acabam virando empregados, afinal, trabalho e diversão viram a mesma coisa. Os jogadores, na verdade, são trainees para os futuros expedientes diante dos computadores.

Para os que não seguem até o meio-dia dominical, a jornada acaba às 8h da manhã. Na rua, um rastro de copos plásticos e guimbas de cigarros da noitada no mundo em volta, que teve carros derrapando, escapamento de motos estourando, paquera na sorveteria e pileques nos bares vizinhos.

Eles não viram nada disso. Carregando o resto do refrigerante quente e sem gás, um grupo vai pegar o ônibus para o Campo Limpo, chegar em casa, se enfiar na cama para acordar na segunda-feira, quando o fim-de-semana vai ser só uma lembrança.

Madeleine entre Reino Unido e Portugal

14/09/2007
A cuidadosa encenação dos McCann
subtitulo = ‘Pais de Madeleine manipularam a crise com o apoio de contatos políticos e da mídia’; if (subtitulo.length > 2) { document.write (‘‘+subtitulo+’
‘) }; Pais de Madeleine manipularam a crise com o apoio de contatos políticos e da mídia

Miguel Mora e W. Oppenheimer
Em Lisboa e Londres

O caso Madeleine está abrindo uma fratura entre dois aliados históricos: Reino Unido e Portugal. Onde alguns vêem ineficácia policial, outros vêem pressões insuportáveis da mídia e um papel mal definido do governo britânico. Embora Londres tenha deixado claro que não tem intenções de interferir na investigação policial, a opinião pública portuguesa acredita que a equipe imbatível formada pelo governo de Sua Majestade e a mídia britânica interveio desde o primeiro minuto. Um dos detonadores dessa suspeita é o papel de um funcionário público chamado Clarence Mitchell, enviado pelo Ministério do Exterior britânico no fim de maio à Praia da Luz para assessorar os McCann.

Mitchell é diretor da Media Monitoring Unit, um departamento pouco conhecido mas que faz um trabalho de valor extraordinário para o governo britânico: rastreia a mídia do mundo inteiro para coletar informações que possam interessar ao governo. Inclusive pretende rastrear os blogs mais em moda para detectar novas tendências.

Adrian Dennis/AFP - 10.set.2007
Jornalistas cercam carro que traz Gerry McCann (no banco de passageiro), pai de Madeleine

Quando Mitchell chegou ao Algarve no final de maio, o caso Madeleine já havia se transformado numa feira. O espetáculo alimentado pelos pais para facilitar a busca da pequena Maddie começava a repercutir em meio planeta. Com ele, elevou-se ainda mais o tom católico da missão (Fátima, Vaticano) e a lista da campanha de imprensa, propaganda e solidariedade alcançou níveis globais. O casal percorreu a Europa, foi ao Marrocos, voou a Madri para pedir ajuda ao ministro do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba.

Gerry se entrevistou com o ministro da Justiça dos EUA, Alberto Gonzales, já demitido. Carregando fotos, bonecos de pelúcia e roupas da menina, o casal foi abençoado pelo papa Bento 16. Celebridades como J.K. Rowling, José Mourinho ou David Beckham fizeram apelos e doações que ajudaram a arrecadar 1,4 milhão de euros.

Muitos portugueses crêem agora, diante das suspeitas reunidas pela polícia contra os McCann, que tudo aquilo não passou de uma gigantesca cortina de fumaça promovida pelos pais, dois médicos com contatos e credibilidade, respeitados e com boa situação social, que se agigantou devido à voracidade da mídia e à influência do governo britânico até alcançar um ponto sem retorno.

A impressão em Portugal é de que o clima mundial de opinião gerado por essa campanha político-midiática impediu a polícia de investigar com calma e neutralidade. Primeiro porque a onda de afeto provocada pelo desaparecimento de Madeleine transformou os McCann em um símbolo imaculado de sofrimento e angústia. Segundo, porque a exposição pública dos pais gerou o aparecimento incessante de pistas falsas.

A mídia britânica formou um time com o casal de médicos assim que ocorreu o desaparecimento. Três dias depois da denúncia, o circo estava instalado junto ao Ocean Club. Este jornal visitou nessa semana a Praia da Luz; havia 33 jornalistas da Sky News e 18 da BBC. A Sky teve acesso à notícia do seqüestro antes da polícia portuguesa, como confirma uma fonte policial: “Alguém do círculo dos McCann telefonou do Ocean Club na noite do crime para a delegada da Sky News no Algarve. A ligação ocorreu às 22h11. Nós recebemos o aviso do desaparecimento meia hora depois, às 22h40”.

Pouco antes, às 22h, uma vizinha, que mais tarde depôs à polícia, se ofereceu para ligar para a Guarda Nacional ao saber que a menina não estava. “Kate, a mãe de Madeleine, lhe disse que não era preciso, que eles já haviam telefonado”, diz a polícia.

Essa mentira inicial e outros depoimentos contraditórios dos pais e amigos que jantaram juntos naquela noite no restaurante Tapas chamaram a atenção da polícia desde o primeiro dia. “Uma história mal contada”, foi o título do “Diário de Notícias” do dia 5, quando Maddie era apenas mais uma entre as milhares de crianças que desaparecem no mundo todos os anos.

“Havia muitas coisas estranhas”, recapitula um policial. “A mãe disse para a vizinha que já tinha nos telefonado e não era verdade; afirmou que alguém tinha entrado no lugar mas a janela estava forçada por dentro; disseram que a cada meia hora iam verificar as crianças mas os empregados do restaurante os desmentiram”. Para a polícia, o mais surpreendente é que a primeira preocupação dos pais foi avisar a imprensa antes da polícia. Também chamou sua atenção que Kate pediu à recepção do Ocean Club o telefone do padre do povoado.

Com as câmeras britânicas por testemunhas, os McCann e seus amigos, gente do norte em um povoado do sul, próximo da África, começaram a criticar os métodos da polícia: que demoraram quase uma hora para chegar ao apartamento e que destruíram provas ao tirar todas as evidências com o mesmo par de luvas. A polícia do Algarve, um lugar muito seguro ao qual todo ano chegam centenas de milhares de turistas britânicos, sabia o que esperar: uma vítima inglesa, suspeitos ingleses, tablóides ingleses… “Sempre contamos com isso”, diz um comandante regional.

Os agentes decidiram agüentar o temporal. Não havia outra opção, embora soubessem que algo cheirava muito mal em torno dos pais da menina e que a estatística não costuma enganar: os seqüestros de crianças em edifícios ocupados são praticamente inexistentes.

Junto com a tropa de jornalistas, chegaram à Praia da Luz o embaixador britânico em Lisboa, John Buck; Shree Dodd, a primeira assessora de comunicação enviada pelo Ministério do Exterior, que seria substituída semanas depois por Mitchell, e vários agentes da Scotland Yard. Buck pediu confiança na polícia. Dodd começou a espalhar pelo mundo a versão oficial do seqüestro. Mitchell acelerou a máquina. Surgiram os slogans (“Encontrem Madeleine”, “Devolvam Madeleine”, “Sabemos que está viva”, “Não deixaremos uma pedra sem levantar”…), a página na Web foi aperfeiçoada, começaram as viagens de fé. A fria desolação de Kate, sua beleza roubada pela desgraça, sua extrema magreza começavam a forjar a imagem de uma nova Lady Di.

Durante dois meses a polícia foi obrigada a investigar centenas de pistas falsas. Supostos avistamentos chegavam de toda parte: Chipre, Malta, Holanda, Grécia, Buenos Aires, Bélgica… Num dia, no final de maio, houve mais de 200 denúncias. Uma das mais confiáveis pareceu a de uma cidadã norueguesa, que disse ter visto Maddie com um homem de aspecto árabe em um posto de gasolina em Marrakech. Ela esqueceu de dar um detalhe: seu marido era de Leicestershire, o condado onde vivem os McCann.

Pouco a pouco a tensão foi diminuindo, o caso esmoreceu. Os McCann tinham convencido o mundo. Foi um seqüestro, e parecia não haver mais esperança. Depois de declarar formalmente suspeito e investigar sem êxito Robert Murat, um morador anglo-português da Praia da Luz que trabalhou como tradutor para a própria polícia, começou a ganhar forma a hipótese da morte da menina. A Scotland Yard sugeriu enviar dois cães (Eddie, 7 anos, e Keela, 3) especializados em detectar restos de sangue e cheiro de cadáver. Os spaniels, que ajudaram a resolver mais de 200 crimes no Reino Unido e nos EUA, encontraram as duas coisas: no apartamento e no carro alugado pelos McCann. A conclusão policial: na casa aconteceu um acidente ou talvez um incidente, Madeleine morreu, os pais e amigos decidiram esconder o cadáver e fingir um seqüestro, organizaram seu álibi, a cortina de fumaça cresceu tanto que não foi mais possível voltar atrás.

“Provavelmente se assustaram, pensaram que ninguém iria entender que, sendo médicos, sua filha tivesse morrido, não souberam como explicar que tinham ido tomar drinques durante três horas deixando as crianças sozinhas”, diz uma fonte policial. “Além disso, tinham uma reputação a defender”.

Qual deles? Gerry McCann, o cardiologista de olhar de gelo. “Logo percebemos que tinha amigos poderosos, parece que aspirava a um cargo importante no Ministério da Saúde, esperava fazer carreira política… Isso deve ter pesado em sua decisão”, reflete uma fonte policial.

Os ministros do Exterior e do Interior britânicos reiteraram que não se trata de um caso político. O primeiro-ministro português afirmou o mesmo anteontem a este jornal. O caso é que alguns cidadãos começaram a enviar cartas e mensagens eletrônicas a seus parlamentares e a Downing Street para protestar pela estreita ligação entre Mitchell e os McCann. Os leitores do jornal eletrônico Mirror.co.uk estão indignados. No sábado, um internauta escreveu: “Os McCann voltarão ao Reino Unido. A imprensa os apoiará até a náusea. As vozes dissidentes poderiam ser ignoradas nas páginas de cartas dos jornais e nos comentários a suas edições eletrônicas (o que já aconteceu). O público desinformado apoiará sua luta contra a polícia portuguesa e a mídia difamadora. Finalmente, o governo fará pressão contra o governo português para deixar o caso cair se não tiverem provas 100% concludentes […] O que poderá ser fácil neste caso”.

Até hoje Maddie continua desaparecida. Nós a conhecemos, vimos suas fotos, seu sorriso, seus vídeos, sua íris retangular. Lembraremos dela por muito tempo. Conheceremos algum dia a verdade? Ela aparecerá para dizer a última palavra?

“Observador neutro”
Clarence Mitchell, que já está em Londres, sabia no sábado que os McCann voltariam para casa no dia seguinte. Segundo a agência Associated Press, Mitchell aconselhou os McCann a partir depois de serem declarados suspeitos. Ele nega: “Não é verdade. Eles tinham decidido que preferiam voltar e foi o que informaram à polícia judiciária”, declarou ontem a este jornal.

Ele não vê problemas em seu papel de assessor dos McCann. “É normal que um cidadão britânico com problemas no estrangeiro receba assistência consular; quando a família contratou um representante particular, o governo decidiu que não fazia sentido continuar gastando o dinheiro dos contribuintes”, disse.

“Agora já não tenho qualquer papel oficial com eles”, esclarece Mitchell, que levou o casal até o então vice-primeiro-ministro John Prescott e ao atual primeiro-ministro, Gordon Brown, escocês como Gerry McCann. Ao se despedir, salienta: “Não trabalho para eles. O governo britânico é um observador neutro da situação”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Entrevista: Philip Roth

 Retirado da Folha de São Paulo

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A.

“Isso que temos agora é um desastre”, diz Philip Roth; sobre a próxima eleição presidencial, escritor afirma que os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos

PHILIP ROTH, um dos maiores escritores norte-americanos vivos, diz que que George W. Bush “não tem capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados” e que a agenda do Partido Republicano é “combater os anos 60”. Estamos em setembro de 2000, no escritório de seu agente, em Manhattan. Seu livro “Casei com um Comunista” acaba de ser lançado no Brasil. O autor está animado: acha que Al Gore ganhará as eleições do final do ano.
Corte.
Roth, agora aos 74 anos, reencontra o repórter no mesmo local para falar de “Homem Comum”, que sai no Brasil. Com voz mais fraca e aspecto mais cansado, está desanimado. Diz estar “perplexo com realidade à vista”. Volta a atacar Bush e repete, sobre a velhice, o que escreveu no livro: “É um massacre”.

SÉRGIO DÁVILA
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

Leia a seguir a entrevista que o escritor norte-americano Philip Roth concedeu à Folha, na semana passada, em encontro no escritório de seu agente, no centro de Manhattan, Nova York.
 
FOLHA – A última vez que nós conversamos, quando “Casei com um Comunista” estava sendo lançado no Brasil, foi há sete anos, em setembro de 2000. Falamos sobre a disputa dos candidatos George W. Bush e Al Gore, o sr. disse como os republicanos estavam tentando apagar os anos 60 do mapa e que Al Gore seria eleito.
PHILIP ROTH –
[Risos] Éramos dois sujeitos espertos!FOLHA – O sr. disse também que Bush não teria capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados, quanto mais comandar um país. O que o sr. diz, sete anos depois?
ROTH –
[Resignado] Eu estava errado. É trágico. Eu estava tragicamente errado…

FOLHA – O pior, segundo sua previsão, aconteceu: o homem que não “tinha capacidade para dirigir um armazém” está no final de seu segundo mandato. Qual sua opinião hoje?
ROTH –
Bem, a primeira eleição foi um roubo. Ele nunca foi realmente legitimado como presidente, é o que me parece, para o primeiro mandato. No segundo mandato, o país o queria. Eles o escolheram… E ele é, sem dúvida, o pior presidente que nós já tivemos. O pior. Pior do que o pior. E a Guerra do Iraque é a principal prova disso. Essa guerra selvagem, cara, brutal e desnecessária.

FOLHA – E sobre a tentativa de apagar os anos 60 da história americana, o sr. acha que eles foram bem-sucedidos?
ROTH –
Bem… Tem havido uma dessecularização da esfera pública, e os anos 60 eram a secularização, entre outras coisas. Hoje em dia já não sei mais se eles estavam mesmo mirando os anos 60. O que Bush fez foi indicar dois juízes para a Suprema Corte que farão tudo o que puder para tornar o aborto ilegal, por exemplo. Então, pensando bem, sim, via guerra e pela nova formação da Suprema, eles tiveram um tremendo impacto em nossas vidas.

FOLHA – Bem, já que o sr. fez previsões tão acertadas há sete anos nesse campo, deixe-me perguntar de novo: quem o sr. acha que será eleito em 2008?
ROTH –
Sim, vá adiante, me dê uma nova chance para eu fazer papel de bobo. [Risos] Não tenho a menor idéia. Não tenho idéia de quem será o candidato democrata e não tenho idéia de quem vai ganhar as eleições.

FOLHA – O sr. não acha que a senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton é uma boa aposta, do lado democrata?
ROTH –
[Agora cauteloso] Eu simplesmente não sei…

FOLHA – Ok, deixe-me dizer dessa maneira: se as eleições fossem hoje e ela fosse eleita, o que aconteceria segundo as pesquisas de intenção de voto atuais, o sr. acha que mudaria algo ou seria apenas o final de um clichê, a primeira mulher na presidência?
ROTH –
Não, não, não, acho que haveria uma mudança. Isso que temos agora é um desastre. Com os democratas vencendo, teremos de volta a política como sempre. Isso aqui agora é um desastre. Os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos. Vamos falar de literatura?

FOLHA – Vamos. Há sete anos, o sr. reclamou que seus amigos estavam morrendo…
ROTH –
[Gargalha] Pois isso não parou de acontecer!

FOLHA – Daí o livro [“Homem Comum” começa com um enterro e o tema principal e doença e morte]?
ROTH –
Sim, em grande parte. Foi publicado aqui em 2005. Bem, sim, eu tenho ido a muitos funerais e tenho perdido muitos amigos e eu comecei a escrever esse livro no dia seguinte ao funeral de Saul Bellow [escritor, 1915-2005]. O livro não trata de Saul, mas minha cabeça estava profundamente tomada pela inevitabilidade de que todo o mundo que eu conhecia e conheço vai morrer. Então, sim, escrevi como resposta à morte de meu amigo.

FOLHA – O livro começa com a descrição de um funeral. É parecido com o de Bellow?
ROTH –
Não. Nada.

FOLHA – É parecido com o que imagina que será o seu?
ROTH –
O meu próprio? Não… Era apenas um funeral padrão, era apenas uma maneira de introduzir a vida do homem, sua família, as pessoas que o amavam e o conheciam. Eu gostei de começar com o fim e então partir dali.

FOLHA – O papel das mulheres no livro é muito forte. Como o sr. acha que as mulheres reagirão em seu próprio funeral?
ROTH –
Nunca pensei nisso… Fui muito próximo de algumas mulheres. Algumas delas chorarão, outras não.

FOLHA – Por que “Everyman” [o título original]? Por que o empréstimo de uma peça inglesa do século 15?
ROTH –
O “Everyman” original é um conto de moralidade, é uma alegoria cristã sobre a morte. Não sou cristão, não suporto alegorias, então só peguei o título emprestado e fiz a minha própria peça sobre a morte. Só que a versão secular.

FOLHA – Por que o personagem principal não tem nome?
ROTH –
Ele não tem um nome porque originalmente eu não lhe dei um. E, quando eu estava trabalhando na segunda versão, percebi isso e pensei: “Não lhe dê um nome. Deixe ele ser conhecido por seus relacionamentos, como pai, marido, irmão, filho, amante, deixe ele viver por esses relacionamentos e tirar sua identidade por eles”. Que é como nós formamos nossa identidade, por aqueles que nos conhecem como realmente somos.

FOLHA – O sr. pensa muito em sua própria morte, no momento em que “não será mais”, como escreve no livro?
ROTH –
Bem, depois de uma certa idade, é difícil não pensar mais na morte de maneira mais freqüente do que antes. Aos 60, você começa a pensar freqüentemente e, aos 70, a coisa fica realmente séria. Você olha adiante e vê que não tem mais tanto tempo. E esse é um sentimento muito perturbador.

FOLHA – Mas o sr. não tem medo de morrer?
ROTH –
Não tenho? Você que está dizendo isso. Eu estou perplexo pela realidade à vista.

FOLHA – Numa das passagens mais marcantes do livro, o sr. escreve: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”.
ROTH –
Você não concorda? Vá a um hospital e dê uma olhada ao redor… [Fica em silêncio]

FOLHA – Eu o deprimo com toda essa conversa?
ROTH –
Ah, não, é preciso muito mais do que isso para me deprimir.

FOLHA – O sr. releu esse livro para nosso encontro, como fez da outra vez com “Casei com um Comunista”?
ROTH –
Não. Eu não releio meus livros, em geral

FOLHA – O que o sr. lê?
ROTH –
Nos últimos anos eu tenho mais relido do que lido. Na maioria autores que eu li quando tinha 20 anos e não li desde então. Grandes escritores. O mais recente é Joseph Conrad [escritor britânico de origem polonesa, 1857-1924].
Na semana passada reli “Under Western Eyes” (1911), antes disso eu li uma biografia sobre ele, antes disso quatro contos, antes disso “The Nigger of the

Narcissus” (1897), ótimo, ótimo, que grande livro. Há alguns meses eu estava relendo Ivan Turguêniev [escritor russo, 1818-1883]. Fiz isso por dois meses. É isso que eu tenho feito nos últimos dois anos.

FOLHA – Podemos esperar alguma influência dos dois no próximo livro?
ROTH –
Duvido. Sou ininfluenciável [Risos]. Só estou fazendo isso porque, em primeiro lugar, esses livros são maravilhosos, segundo porque eu não me lembrava deles: é muito boa a sensação de estar lendo pela primeira vez algo que você já sabe que é bom.

FOLHA – O sr. citou a biografia de Conrad. Em “Homem Comum”, seu personagem diz que, se um dia fosse escrever a biografia dele, o título que daria seria “A Vida e a Morte de um Corpo Masculino”. É o título que o sr. daria para a sua?
ROTH –
Não, não. Não tenho nenhuma vontade de escrever uma biografia, de jeito nenhum. Deus me livre. Eu tenho um biógrafo oficial, com o qual me encontro muito raramente, mas a coisa fica nisso.

FOLHA – Há algum assunto tabu nesses encontros?
ROTH –
Não, até agora não.

FOLHA – O ataque do 11 de Setembro aparece brevemente em “Homem Comum” e um pouco mais em “Exit Ghost”, seu livro mais recente. Quanto o evento o afetou?
ROTH –
Como autor? Nada. Como pessoa? Fiquei com raiva, sem fôlego, achei uma tragédia. Mas o pior de tudo foi o uso do ataque pelo governo de Bush, para justificar uma guerra desnecessária. Se o 11 de Setembro tivesse acontecido, mas não a Guerra do Iraque, as coisas seriam muito diferente, o ataque teria apenas o significado que realmente teve. Mas foi cinicamente explorado para justificar a guerra. Muito mudou, é claro, os americanos não se sentem mais tão confiantes quanto antes e o governo George W. Bush formou sua agenda em torno das conseqüências do ataque. Mas tudo poderia ter sido muito diferente…

FOLHA – Há alguns livros seus sendo adaptados para o cinema hoje. O sr. se interessa por isso?
ROTH –
Gostaria que fossem boas, mas não tenho nenhum controle. “Dying Animal” terá Penélope Cruz e Beng Kingsley. “American Pastoral” também. “Deception” está sendo adaptado por um diretor francês. Mas geralmente esse pessoal de cinema fica muito interessado em meus livros e depois desaparece.

FOLHA – O sr. vê os filmes? Liga para isso? Viu, por exemplo, “The Human Stain”, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman?
ROTH –
Horrível. Vamos ficar nessa palavra: horrível

FOLHA – Da última vez que nos encontramos o sr. mencionou que leu Machado de Assis. O sr. nunca esteve no Brasil, apesar de ter sido convidado algumas vezes. Pretende ir?
ROTH –
Eu não me lembro de ter sido convidado, talvez eu tenha sido. Mas já viajei muito quando tinha 40, 50 no começo de meus 60. Agora me cansei.

FOLHA – O sr. pode me dizer algo sobre seu próximo livro?
ROTH –
Não. Nada.

FOLHA – Então é isso.
ROTH –
Ok, temos um encontro marcado para 2014.

Ray Bradbury – Fahrenheit 451- Posfácio

EU NÃO SABIA, mas estava literalmente escrevendo um romance barato [dime novel, ou folhetim]. Na primavera de 1950, escrever e finalizar a primeira versão de The Fire Man, que mais tarde se tornou Fahrenheit 451, custou-me nove dólares e oitenta em moedas de dez centavos [dimes].
De 1941 até aquela época, eu havia datilografado todos os meus trabalhos em casa, na garagem, fosse em Venice, Califórnia (onde morávamos porque éramos pobres, não porque era o lugar “in”), ou nos fundos daquela em que minha mulher, Marguerite, e eu criamos nossa família. Eu era expulso da garagem por minhas adoráveis filhas, que insistiam em dar a volta até a janela de trás e cantar e batucar nas vidraças. O pai tinha de escolher entre terminar uma história ou brincar com as meninas. É claro que eu optava por brincar, o que punha em risco a renda familiar. Era preciso encontrar um escritório. Não podíamos pagar por um.
Finalmente localizei o lugar exato, a sala de datilografia no porão da biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ali, enfileiradas, havia vinte ou mais velhas máquinas de escrever Remington ou Underwood, que eram alugadas a dez centavos por meia hora. Você enfiava a moeda, o relógio tiquetaqueava feito louco, e você datilografava furiosamente para terminar antes que se esgotasse a meia hora. Assim, eu tinha uma dupla motivação; pelas crianças, eu era levado a sair de casa e, pelo cronômetro de uma máquina de escrever, eu deveria me tornar um maníaco no teclado. Tempo reamente era dinheiro. Terminei a primeira versão em cerca de nove dias. Com 25 mil palavras, era metade do romance que acabaria se tornando.
Entre investir em moedas e ficar maluco quando a máquina emperrava (pois lá se ia o precioso tempo!) e enfiar e arrancar páginas, eu ficava zanzando pela biblioteca. Ali eu vadiava perdido de amor, andando pelos corredores percorrendo as estantes, tocando os livros, tirando-os das prateleiras, virando as páginas, devolvendo-os aos seus lugares, afogando-me em todas as coisas boas que constituem a essência das bibliotecas. Que lugar, vocês não acham, para escrever um romance sobre a queima de livros no futuro!
Mas chega de passado. O que dizer de Fahrenheit 451 nos dias de hoje? Mudei de idéia sobre muita coisa que o romance me dizia, quando eu era um autor mais jovem? Só se por “mudar” vocês estiverem perguntando se meu amor pelas bibliotecas se alargou e aprofundou, para o que a resposta é um sim que ricocheteia pelas estantes e espalha o pó-de-arroz do rosto da bibliotecária. Depois de escrever este livro, percorri mais contos, romances, ensaios e poemas sobre escritores do que qualquer outro autor imaginável na história da literatura. Escrevi poemas sobre Melville, Melville e Emily Dickinson, Emily Dickinson e Charles Dickens, Hawthorne, Poe, Edgar Rice Burroughs e, ao longo do caminho, comparei Júlio Verne e seu louco capitão com Melville e seu igualmente obcecado marinheiro. Compus poemas sobre bibliotecárias, tomei trens noturnos com meus autores favoritos atravessando imensidões continentais, ficando a noite inteira acordado, tagarelando e bebendo, bebendo e batendo papo.

Adverti Melville, em um poema, a se afastar da terra (ela nunca foi sua matéria!), e transformei Bernard Shaw em um robô para colocá-lo a bordo de um foguete e fazê-lo despertar na longa viagem até Alfa do Centauro para ouvir seus prefácios canalizados de sua língua para meu deleitado ouvido. Escrevi um conto sobre uma Máquina do Tempo no qual volto ao passado para me sentar junto aos leitos de morte de Wilde, Melville e Poe, falar de meu amor e aquecer seus ossos em seus momentos finais. Mas chega. Como vocês podem ver, sou um louco de atirar pedra quando se trata de livros, autores e dos grandes celeiros onde estão armazenados seus espíritos.
Recentemente, dispondo do Studio Theatre Playhouse em Los Angeles, convoquei das sombras todos os meus personagens de Fahrenheit 451. O que há de novo, perguntei a Montag, Clarisse, Faber e Beatty, desde que nos vimos pela última vez em 1953?
Eu perguntei. *Eles* responderam.
Escreveram novas cenas, revelaram partes estranhas de suas almas e sonhos até então desconhecidos. O resultado foi uma peça em dois atos, encenada com bons resultados e, no geral, críticas simpáticas.
Beatty saiu lá do fundo dos bastidores para responder à minha pergunta: Como foi que começou? Por que você tomou a decisão de se tornar Chefe dos Bombeiros, um queimador de livros? A resposta surpreendente de Beatty veio numa cena em que ele leva nosso herói Guy Montag até o seu apartamento. Ao entrar, Montag fica admirado ao descobrir os milhares e milhares de livros que cobrem as paredes da biblioteca oculta do Chefe dos Bombeiros! Montag se vira e grita para seu superior:
– Mas o senhor é o Queimador-Chefe! Não pode ter livros em sua casa!
Ao que o Chefe, com um sorrisinho seco, replica:
– O crime não é *ter* livros, Montag, o crime é *lê-los*. Sim, é isso mesmo. Eu tenho livros, mas não os leio!
Montag, chocado, aguarda a explicação de Beatty.
– Você não vê a beleza, Montag? Eu nunca os leio. Nem um deles, nem um capítulo, nem uma página, nem um parágrafo. Eu *realmente* jogo com ironias, não é? Ter milhares de livros e jamais abrir um, voltar as costas para todos e dizer: Não. É como ter uma casa cheia de mulheres lindas e, sorrindo, não tocar… nenhuma delas. Então, você entende, não sou absolutamente nenhum criminoso. Se você algum dia me pegar *lendo* um, aí sim, pode me prender! Mas este lugar é tão puro quando o quarto bege de uma virgem de doze anos numa noite de verão. Esses livros morrem nas estantes. Por quê? Porque assim o digo. Eu não lhes dou sustentação, nenhum esperança com a mão, o olho ou a língua. Eles não valem mais do que a poeira.
Montag protesta:
– Não vejo como o senhor não possa ser…
– Tentado? – exclama o Chefe dos Bombeiros. – Ah, isso foi há muito tempo. A maçã foi comida e sumiu. A serpente voltou para sua árvore. O jardim virou mato e ferrugem de planta.
– Antigamente… – Montag hesita, depois continua. Antigamente o senhor deve ter amado muito os livros.
– Touché! – responde o Chefe dos Bombeiros. – Abaixo da cintura. No queixo. Bem no coração. Rasgando a tripa. Ah, olhe para mim, Montag. O homem que amava livros, não, o garoto que era ávido por eles, maluco por eles, que trepava nas estantes como um chimpanzé enlouquecido por eles. Eu os comia como salada, os livros eram meu sanduíche no almoço, meu lanche, jantar e gula da meia-noite. Eu rasgava as páginas, comia-as com sal, ensopava-as em tempero, mordia os cadernos, virava os capítulos com a língua! Livros às dúzias, vintenas e bilhões. Carreguei tantos para casa que durante anos fiquei corcunda. Filosofia, história da arte, política, ciências sociais, o poema, o ensaio, a peça grandiosa, o que você imaginar, eu devorava. E então… e então… – a voz do Chefe dos Bombeiros se enfraquece.
Montag insiste:
– E então?
– Ora, a vida me apanhou. – O Chefe dos Bombeiros fecha os olhos para se lembrar. – A vida. O de sempre. O mesmo. O amor que não dava certo, o sonho que azedava, o sexo que frustrava, as mortes que chegaram rápido para amigos que não mereciam, o assassinato de um ou de outro, a insanidade de alguém próximo, a morte lenta da mãe, o suicídio abrupto do pai: um estouro de manada de elefantes, um surto de doença. E, em parte alguma, em lugar algum, o livro certo na hora certa para enfiar na parede rota da represa para conter a inundação, dar ou tirar uma metáfora, perder ou encontrar um símile. E entre o final dos trinta e a proximidade dos trinta e um, recompus-me: cada osso partido, cada centímetro de carne arranhada, escoriada ou cicatrizada. Olhei no espelho e vi um velho perdido atrás da face assustada de um jovem, vi ali um ódio por tudo e por nada, o que você imaginar, droga.
E abri as páginas dos livros de minha ótima biblioteca e o que encontrei, o que, o quê?
Montag tenta adivinhar:
– As páginas estavam vazias?
– Na mosca! Vazias! Sim, as palavras estavam lá, é claro, mas passavam por meus olhos como óleo quente, sem significar nada. Não ofereciam nenhuma ajuda, nenhum conforto, nem paz, nem segurança, nem amor verdadeiro, nem cama, nem luz.
Montag rememora:
– Trinta anos atrás… a queima das últimas bibliotecas…
– Exatamente. – Beatty anui com a cabeça. – E sem emprego, sendo um romântico fracassado ou o diabo que fosse, candidatei-me a Bombeiro de Primeira Classe. Primeiro a subir os degraus, primeiro na biblioteca, primeiro no coração da fornalha acesa de seus compatriotas, encharque-me com querosene, passe-me a minha tocha! A aula acabou. Aí está, Montag. Agora, fora daqui!
Montag sai, mais curioso do que nunca sobre os livros, já a caminho de se tornar um pária, prestes a ser perseguido e quase destruído pelo Sabujo Mecânico, meu robô clone do grande cão dos Baskerville de Conan Doyle.
Na minha peça, o velho Faber, o professor-não-muitocomprometido, falando com Montag na longa noite (via uma radioconcha embutida na orelha), é vitimado pelo Chefe dos Bombeiros. Como? Beatty desconfia que Montag esteja sendo instruído por um dispositivo secreto desse tipo, arranca-o de seu ouvido e grita para o distante professor:
– Nós vamos apanhar você! Estamos na porta! Subindo as escadas! Pegamos você!
O que deixa Faber tão apavorado que ele tem um ataque cardíaco e morre.
Todos acréscimos de primeira. Tentadores, a essa altura.
Tive de brigar muito comigo mesmo para não incluí-los nesta nova edição do romance.
Finalmente, muitos leitores me escreveram protestando pelo desaparecimento de Clarisse, querendo saber o que aconteceu com ela. François Truffaut sentiu a mesma curiosidade e, em sua versão de meu romance para o cinema, resgatou Clarisse do esquecimento e a colocou entre os Homens-Livros que vagavam pela floresta, recitando repetidamente trechos de seus livros para si mesmos. Senti a mesma necessidade de salvá-la pois, afinal de contas, em muitos sentidos, foi ela, beirando a conversa boba de tietagem, a responsável por Montag começar a se perguntar sobre os livros e o que havia neles. Na minha peça, portanto, Clarisse surge para saudar Montag e dar um final um pouco mais feliz ao que era, basicamente, um material bem sinistro.
O romance, contudo, permanece fiel a sua personalidade anterior. Não sou adepto de interferir no material de nenhum jovem escritor, particularmente quando esse jovem escritor fui eu mesmo outrora. Montag, Beatty, Mildred, Faber, Clarisse, todos permanecem, atuam, entram e saem como o faziam trinta e dois anos atrás, quando pela primeira vez os coloquei no papel, a um dime a meia hora, no porão da biblioteca da UCLA. Não mudei nem um só pensamento ou palavra.
Uma última descoberta. Escrevo todos os meus romances e contos, como vocês já viram, num grande acesso de paixão prazerosa. Só recentemente, revendo o romance, percebi que Montag foi batizado com o nome de uma fábrica de papel.
E Faber, naturalmente, é um fabricante de lápis! Como meu inconsciente foi astuto ao dar esses nomes a eles.
E em não contar isso a mim!

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BRADBURY, Ray. Posfácio . In ____Fahrenheit 451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. S. Paulo: Globo, 2007

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Este post é dedicado, com carinhosa gratidão, a C.