ESPECULAÇÕES

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Tempo e memória by Joan Brossa

Tempo e memória by Joan Brossa

“Não vou me preocupar em ver,

seu caso não é de ver pra crer

– tá na cara!”

(Arnaldo Passos & Monsueto Menezes, Mora na Filosofia)

Mesmo para o mais ingênuo dos espectadores, é evidente que houve, ou talvez se deva “gerundizar”, está havendo, um gigantesco “acordão” envolvendo os quatro poderes da República, Executivo, Judiciário, Legislativo e imprensa: vamos abaixar o fogo, baixar a pressão, que se o caldeirão entorna muita gente vai sair escaldada ou coisa pior; e vamos tratar de “coibir abusos” – leia-se, quebrar os braços e as pernas – de órgãos importunos como Polícia Federal (ou parte dela), Ministério Público Federal, juizados de primeira instância e, para não perder a viagem, Ministério Público do Trabalho e IBAMA.

Até agora, o “acordão” implicou a degola de alguns delegados da PF, mas isso, em arranjos de tal porte, é trocado miúdo. Especula-se que, pelo sim pelo não, um certo procurador e um certo juiz, ambos federais e de sobrenomes semelhantes, talvez devessem pôr as metafóricas barbas de molho e adotar o “silêncio obsequioso”.

Não se sabe ao certo o que foi alegadamente encontrado em um suposto esconderijo durante a busca e apreensão realizadas na residência do Sr. Daniel Dantas; pode-se apenas especular que não terá sido algo como uma coleção da revista O Cruzeiro. Tampouco se sabe exatamente o que foi conversado no encontro entre o Presidente da República, o Ministro da Justiça e o Presidente do Supremo Tribunal Federal; pode-se apenas especular que o tema central não terá sido a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Milan.

Especulações, especulações. Palavra que, aliás, é correlata de “espectador” e de “espetacularização”, e também de “espelho”.

A quem especular mais queira, uma sugestão. Levantar o histórico, digamos de 1994 em diante, dos dois entre os supracitados que, nos últimos dias, mais freqüentaram as manchetes dos jornais, e de alguns outros personagens que também são, ou no mesmo período foram, figuras de destaque no noticiário político. E cotejar quem fez o quê, quando e onde.

© Carlos Eduardo Martins é economista.

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TOM STOPPARD e 1968(2)

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos – exposições, shows de música, happenings, leituras de poesia – em endereços mal iluminados em torno de Covent Garden e em outros locais, e aqui a palavra “revolução” adquire, ao meu ver, uma certa substância. Não foi uma revolução social, e nem se limitou a 1968, mas havia a sensação de uma revolução cultural em curso naquele momento.

Infelizmente, também isso me deixava constrangido. Eu adorava a música e a liberdade para me vestir de maneira inventiva, mas não conseguia me acostumar com os diálogos, uma gíria redutiva composta de jargão militante e sabedoria de araque derivada da má compreensão das religiões orientais.

Esta última frase tomei de volta de um personagem da minha última peça, Rock’n’Roll, que começa em 1968. Ironicamente, a pessoa que fala por mim acerca dessa revolução é um marxista, um comunista de Cambridge chamado Max que aparece falando do passado em 1990, quando tem mais ou menos a mesma idade que tenho agora. A seu ver, os anos 50 foram o último período em que a liberdade só chegava depois que você deixava a juventude para trás. Em meados dos anos 60, os jovens já tinham muito mais liberdade do que sabiam usar, mas a confundiram com libertação sexual e liberdade de ficar doidão, de maneira que foi tudo um desperdício – melhor dizendo, desperdiçado numa revolução cultural, e não numa revolução social. “Teatro de rua” é como Max define o período. Alterar a psique era um suposto caminho para a mudança da estrutura social, mas como marxista ele sabia que na verdade as coisas funcionavam ao contrário: mudar a estrutura social era a única maneira de transformar a psique. A idéia de que “faça o amor, não faça a guerra” seja uma palavra de ordem mais prática do que “trabalhadores do mundo, uni-vos” é tão vazia de substância quanto o I Ching.

Eu queria ter conhecido esse homem em 1968. Nos entregaríamos ao constrangimento enquanto contemplássemos o espetáculo. O personagem combatera o fascismo nos cortiços e na Espanha, e quando observasse em tom sarcástico que a sua filha hippie “acha que fascista é um policial a cavalo na Grosvenor Square”, eu poderia ter dito “É isso aí!” ou “Estou de pleno acordo”.

Por outro lado, ele também poderia ter mudado a minha opinião sobre algumas coisas, a começar pela sociedade de que eu me sentia, e ainda me sinto, grato por fazer parte. E os abusos e maustratos? Serão de fato excepcionais ou endêmicos do sistema? E em que ponto o trabalho de edição pode se confundir com uma censura auto-imposta diante de pressões reais ou imaginadas?

Estas são perguntas que eu não me faria em 1968. Mas não fui o único a mudar. A sociedade também mudou. Em 2005, entrevistei um cineasta na Belarus que os órgãos estatais de segurança tinham espancado pelos motivos de sempre, e ele me disse algumas coisas notavelmente parecidas com um monólogo que eu acabara de escrever para um anglófilo tcheco em Rock’n’Roll… “Eu sonho com o que vocês inventaram”, diz Jan a Max. “Vocês podem xingar os governantes de idiotas e criminosos, mas a lei defende a liberdade de manifestação, e se o governo não gostar, que se foda, não pode pôr a mão em vocês…” E o cineasta em Minsk me disse: “O fato de vocês poderem chamar o primeiro-ministro de mentiroso e assassino não é uma virtude dele, é uma virtude de vocês.” Esse meu artigo sobre a Belarus foi publicado quase no mesmo dia em que Walter Wolfgang foi expulso à força da convenção do Partido Trabalhista inglês. Recebi um jubiloso cartão postal de Harold Pinter.

Essa coisa que “nós inventamos”, a autonomia do indivíduo, percebo que ecoa em tudo que já escrevi. Em The Coast of Utopia,5 usei as palavras do próprio Alexander Herzen6 sobre os ingleses oitocentistas: “Eles não dão asilo por respeitar quem lhes pede asilo, mas em sinal de respeito por si mesmos. Inventaram a liberdade pessoal sem formularem qualquer teoria a respeito. Dão valor à liberdade pela liberdade.”

Se eu soubesse em 1968 o que iríamos malbaratar, mais aceleradamente depois de 2001, bem antes da desculpa do 11 de Setembro, eu poderia ter me juntado àquela farra com menos embaraço, com menos a perder. Mas àquela altura tudo que ocorria me parecia frívolo em comparação com as liberdades que inventamos – ou, talvez deva dizer, as liberdades que os ingleses inventaram? Eu tinha 31 anos, vinha ganhando a vida desde os 17, era velho demais, encabulado demais, monógamo demais, medroso demais em relação às drogas, apaixonado demais pela Inglaterra e tenso demais para relaxar e aproveitar a fundo aquilo tudo.

Sir TOM STOPPARD, é dramaturgo e adora  rock’n’roll.

Olhem só:

Na página do British Council.

No Rock.

TOM STOPPARD e 1968 (1)

Em 1968 eu levava uma vida confortável, ao lado de minha primeira mulher e meu primeiro bebê na nossa primeira casa, graças ao sucesso da minha primeira peça, e começava a ser visto pelos meus pares como uma pessoa politicamente ambígua.

Ainda faltavam alguns anos para que um conhecido diretor de esquerda, quando lhe perguntaram qual seria uma boa peça para montar no Royal Court Theatre, 1 respondesse “uma peça que não tenha sido escrita por Tom Stoppard”. Na ocasião, eu já tinha consciência de um sentimento que me afastava do espírito reinante de rebelião, quando era uma glória estar vivo naquele amanhecer, mas ser jovem é que era o barato.

O sentimento a que me refiro era o constrangimento. Eu me sentia constrangido com as palavras de ordem e as posturas de rebelião numa sociedade que, tanto em Londres quanto em Paris, progredira muito desde a juventude de Wordsworth, e oferecia aquele que me parecia o menos ruim dos sistemas em que uma pessoa podia nascer – a democracia liberal aberta, cuja essência era a tolerância à dissensão.

Eu não tinha nascido nesse sistema. E ninguém precisa ser um grande especialista em psicologia para deduzir que, na Inglaterra de 1968, 22 anos depois de lá ter chegado, eu me sentia muito mais disposto a defender meu país adotivo do que a apontar os seus defeitos. Até onde eu sabia, caso o meu pai tivesse sobrevivido à guerra (ele foi morto no Extremo Oriente), era sua intenção levar a família de volta para o lugar onde nasci, a Tchecoslováquia. Chegaríamos em 1946, e eu teria crescido sob a ditadura comunista que lá se instalou dois anos depois.

Como a maioria das pessoas, eu tinha noção que nem tudo eram flores nos jardins do Ocidente, e é claro que não conhecíamos – ninguém jamais conhece – da missa a metade. No entanto, quando em agosto as forças do Pacto de Varsóvia invadiram e ocuparam a Tchecoslováquia, num ato que era uma confirmação cabal e enfatizada da ocupação em curso na Europa Oriental, o meu constrangimento diante da “revolução” dos nossos polichinelos da agitprop converteu-se em repulsa.

O que me repelia era a identificação implícita entre dois casos radicalmente diversos. O “Ocidente livre”, sabe Deus, também estava muito desfigurado pela corrupção e injustiça, mas no nosso caso os abusos representavam as situações em que o modelo não funcionava, e eram apontados como exemplos das suas deficiências. Já no Leste, os abusos representavam o modelo em plenas condições de funcionamento. Quarenta anos mais tarde eu não faria essa distinção com a mesma facilidade, mas àquela altura nada me parecia mais claro.

Um pequeno incidente que deve ter confirmado as piores suspeitas cultivadas por alguns a meu respeito ocorreu quanto me pediram para assinar uma declaração contra a “censura” depois que um jornal se recusara a publicar o manifesto de alguém. “Mas isso não é censura”, respondi. “É decisão editorial. Na Rússia você vai preso se tiver um exemplar de A Revolução dos Bichos. Isso sim é censura.” A “normalidade” do comunismo baseava-se na distorção da linguagem, e o meu novo herói, George Orwell, já diagnosticara fazia tempo essa doença na sua própria sociedade, de maneira que eu levava esse tipo de coisa muito a sério.

E é claro, em seguida ainda houve Paris.

Lá por agosto, a fumaça do maio parisiense já tinha dissipado. Ocorreram batalhas ferozes entre milhares de estudantes e as forças policiais, seguidas por uma ocupação da Sorbonne e uma greve geral, que durou cinco semanas. Foram acontecimentos enormes, pouco diminuídos, do meu ponto de observação num chalé modesto à beira de uma autoestrada, pela adesão pressurosa de filósofos famosos, atores e outros luminares de uma cultura generosamente subsidiada pelo Estado. Mesmo após quarenta anos, les événements de 1968 ainda conferem à versão inglesa daquele ano, mais contida, certa ressonância para quem não quer admitir o que aconteceu em Praga, e se furta a discutir as razões daqueles fatos. Mas eu vejo a nossa “revolução” – a ocupação da London School of Economics e do Hornsey College of Art, além de toda a agitação daqueles dias embriagantes – como pouco mais que uma Saturnália.

E era justamente esta uma das coisas que eu mais amava na Inglaterra. A versão inglesa das erupções do Continente sempre sugeria um caráter nacional em pleno controle de si mesmo. Na França, na Alemanha, na Itália e na Espanha o ativismo político, nos casos mais extremos, acabou desembocando em assassinatos, seqüestros e atentados a bomba. Meu editor italiano, uma das pessoas mais sofisticadas, encantadoras e carismáticas que jamais conheci, seria morto mais tarde por seus próprios explosivos enquanto tentava destruir uma torre de distribuição de eletricidade nos arredores de Milão.

Alguns quilômetros do outro lado do Canal, os choques entre manifestantes e a polícia envolviam carros em chamas, ônibus virados e edifícios em ruínas. No nosso caso, brigar na rua era só tema de rock’n’roll. Aqui, a rebelião tinha algo de envergonhada. As manifestações exibiam sempre certo ar carnavalesco. As nossas reuniões – e fui atraído a algumas delas – eram convocações a sério em que moradores de prédios invadidos e as pessoas que mais tarde viriam a ser conhecidas como “formadores de opinião” planejavam mudar a sociedade fundando uma revista e discutindo formas de atrair o apoio dos “trabalhadores”. A fascinante peça The Party,3 escrita por Trevor Griffith e cuja ação se passa em 1968, encenada no National Theatre com Laurence Olivier no papel de um militante da classe trabalhadora chamado para uma reunião num endereço caro de Londres decorado com um David Hockney dos primeiros anos na parede, é para mim a perfeita cápsula do tempo sobre o lado chique de 68.

Mas nem tudo era elegante, evidentemente.

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos – exposições, shows de música, happenings,