Por FLAVIA, pela justiça e com solidariedade ativa.

A pedido, transcrevo:

06.01.1998 – FLAVIA SOUZA BELO, então com 10 anos, sofre grave acidente quando teve seus cabelos sugados pelo ralo da piscina do condomínio onde morava com a mãe e o irmão de 14 anos, no bairro de Moema, São Paulo. – Brasil. Flavia teve parada cardio-respiratória e desde então está em coma vigil, estado que segundo os médicos, é irreversível.

 

Odele Souza, a mãe, processou o condomínio Jardim da Juriti, a Jacuzzi do Brasil, fabricante do ralo e a AGF Seguro, seguradora do condomínio. O condomínio, porque trocou o equipamento sem orientação técnica, colocando no lugar do anterior, um equipamento de sucção SUPERDIMENSIONADO em 78%.

 

A Jacuzzi, fabricante do ralo, porque não orientou em seus manuais, sobre os riscos da instalação de um equipamento em desproporção com o tamanho da piscina, e a AGF Brasil Seguros, porque não pagou quando solicitada, o seguro existente no condomínio, vindo a fazê-lo apenas um ano e onze meses depois, sem juros e correcção monetária.

 

Ao longo desses quase nove anos que tramita na justiça paulista, o processo de Flavia teve dois julgamentos. Em ambos, foi concedida indemnização que Odele considerou muito pequena, tendo em vista a gravidade do acidente ocorrido com Flavia. Odele recorreu das duas sentenças, mas mesmo tendo sido anexados aos autos, laudos periciais realizados por peritos designados pela justiça, onde foi constatado o SUPERDIMENSIONAMENTO do equipamento de sucção da piscina cujo ralo sugou os cabelos de Flavia, e mesmo continuando ela a viver em coma vigil já por quase dez anos, até hoje, os responsáveis pelo acidente NÃO FORAM CONDENADOS a pagar a indemnização pleiteada. Odele, hoje busca divulgação para o caso, e espera com isso, chamar a atenção para o desrespeito aos direitos humanos de sua filha. Espera também a CONDENAÇÃO EXEMPLAR dos responsáveis pelo acidente que deixou Flavia em coma pelo resto de seus dias.

 

Odele Souza

 

Neste blog que você pode consultar mantido pela mãe, o FLAVIA, VIVENDO EM COMA (http://www.flaviavivendoemcoma.blogspot.com/) Odele protesta contra essa lentidão da justiça brasileira em conceder à Flavia a indemnização a que tem direito e alerta sobre o perigo existente nos ralos de piscinas, que sem legislação específica, continuam a causar acidentes fatais ou gravíssimos em todo o mundo, conforme vem sendo documentado no blog de Flavia. A maioria das vítimas é crianças.·

 

Como diz o meu amigo Mário Relvas, a solidariedade não pode ser uma palavra vã.”
______________________

 

Impossível não se comover com a inabalável posição de Isabel Filipe, artista plástica, designer, moçambicana e ora vivendo em Portugal e como vários amigos no Brasil que tanto a apreciam.

 

Ela está sempre comprometida com os anseios dos injustiçados, dos que, enfim, sofrem dores e necessidadades.

 

Seja, permança sempre assim, querida Isabel. E minha solidariedade a você e Dona Olete, a mãe de Flavio.”

 

*****

 

Os linques: O blog feito desfe fevereiro deste ano, pela mãe de Flávia, que agora não está mais só na sua digna luta que envolve não só os benefícios como se pode supor à partida.Mas também, o que é válido e meritório, lanç um alerta impedindo que um tragédia que se abateu sone sua filha, seja mais elemento corrigido, ameaçar integridade física : FLAVIA vivendo em coma. Que dor, Oh Senhor, só tu Sabes

 

E o da própria visão particular, que é a arte, ela, Iabel, abre as janelasls, para o mundo.

 

Veja aqui.”

 

O Rolex do Huck

O rolo do Rolex

ZECA BALEIRO
Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado?


NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.
Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como “sou cidadão, pago meus impostos”. Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, “romanceando” o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de “vencedor”. Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de “marxista babaca” e “comunista de museu”) revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram “comunistas”, “petistas”, “fascistas”. Os que o apoiavam eram “burgueses”, “elite”, palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao “Houaiss”: “Elite – 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]”.
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista “Veja”, notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita “consciência democrática”, propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: “Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos”. Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.


JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, “Pet Shop Mundo Cão”.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

O calor em Hollywood

22/10/2007
Washington sente o calor de Hollywood

Alex Williams
Em Washington

Em uma manhã de meados de outubro, quando fazia uma temperatura de 27°C, a senadora Barbara Boxer estava em uma sala de conferência sem janelas no seu escritório em Capitol Hill (o prédio do Congresso dos Estados Unidos) para ouvir um grupo de mulheres bem vestidas do sul da Califórnia, cujos cabelos louros marcados pelo sol e bronzeados atípicos para a estação ocultam uma missão bem menos ensolarada: pressionar o governo norte-americano para que este tome providências quanto ao aquecimento global.

“Nós representamos a indústria do entretenimento”, afirmou Kelly Capman Meyer, cujo marido, Ron, é o presidente do Universal Studios Group. “Usamos os nossos recursos e as nossas conexões para lutar pelas questões ambientais”.

“Queremos uma legislação climática que não morra”, explicou Colleen Bell, filantropa e escritora cujo marido, Bradley, é o produtor executivo e o escritor da novela “The Bold and the Beaultiful”.

New York Times
As ativistas Gwen McCaw e Kelly Chapman Meyer em conversa com a senadora Boxer

Meyer disse a Boxer, uma democrata que é uma das representantes do seu Estado no senado, que o clima mais quente intensificou os problemas relacionados às ondas próximas a sua casa em Malibu. “Sou surfista”, diz ela. “A proliferação de algas na praia é uma coisa insana.”

Boxer diz que está trabalhando pela aprovação de legislação climática no Senado, acrescentando que também está preocupada com o aquecimento global. “Podemos ver e sentir o aquecimento ocorrendo”, disse ela. “A indústria da moda está bastante preocupada porque não é capaz de vender os seus suéteres de casimira.”

Quando se é mulher de um figurão da indústria do cinema, pode-se fazer muito mais do que apenas reclamar sobre o clima incomum que está estragando o seu point favorito de surfe. Equipadas com uma aura de Hollywood e impecáveis conexões sociais -isso para não mencionar as listas de tópicos de discussão-, essas mulheres são capazes de contar com pelo menos 20 minutos de atenção respeitosa em Washington, com legisladores dispostos a escancarar as suas portas para ativistas que têm os mesmos sobrenomes de alguns doadores generosos.

E foi por isso que um grupo de mulheres ecológicas de personalidades importantes da indústria de entretenimento baixou em Washington na semana passada, esperando aproveitar um pouco do clima de euforia com o Prêmio Nobel da Paz de Al Gore em uma cidade que é capaz de ser extraordinariamente receptiva para com as celebridades de Hollywood, ainda que Washington tenha ficado emperrada neste ano no que diz respeito a legislações do meio-ambiente.

As cinco mulheres -integrantes do Conselho de Lideranças, que foi fundado sete anos atrás por Laurie David, que logo seria mulher de Larry David, e Elizabeth Wiatt, cujo marido, Jim, é o diretor-executivo da William Morris Agency- fizeram uma maratona de reuniões particulares com 11 senadores e deputados em 29 horas. Elas argumentaram que este outono assustadoramente quente deveria inspirar mais do que comentários de elevador em Capitol Hill.

“Essas pessoas têm sobre as suas mesas pilhas de papel deste tamanho”, disse Meyer, referindo-se aos parlamentares e levando a palma da mão à altura dos olhos. “A questão é garantir que a nossa agenda chegue ao topo da lista.”

Com as suas conexões e capacidade de arrecadar verbas, elas contam com uma chance melhor do que a do eleitor médio. Meyer, de expressão jovial e corpo atlético, é uma fã entusiasmada da esqui e cresceu no Estado do Colorado. Ela é uma das diretoras do Conselho de Lideranças (antigo Fórum da Ação), que tem 29 integrantes. Este é um grupo de estrelas do movimento verde que moram nas colinas endinheiradas do Condado de Los Angeles, de Beverly Hills e de Malibu.

Além de Meyer e Bell, faziam parte do grupo Dayna Kalins Bochco, presidente da Steven Bochco Productions (o marido dela, Steven, é um dos criadores de “NYPD Blue”), Gwen McCaw (o marido, John, é um bilionário do setor de telecomunicações) e Linda Stewart, que administra uma firma de marcas e propagandas chamada Cucoloris (Laurie David ficou em casa cuidando de outros problemas).

O glamour tem de fato o poder de abrir as portas em Washington, afirma T.R. Goldman, editor do jornal “Roll Call”, que faz cobertura dos lobbies em Capitol Hill.

“Washington tem um pouco de complexo de insegurança quando se trata de lidar com Hollywood”, afirma Goldman. “Quando se deparam com o poder de Hollywood, estas pessoas ouvem.”

Mas alguns observadores desaprovam o fato de Hollywood tentar abrir caminho no Congresso. Kenneth P. Green, pesquisador do American Enterprise Institute, diz que essas mulheres “têm direito às suas opiniões, mas elas são essencialmente leigas”. Segundo ele, Hollywood vive muito distante “da vida econômica das pessoas normais, que não têm motoristas particulares e não voam em jatinhos Learjet”. “Será que a mídia daria alguma cobertura se um grupo de encanadores chegasse aqui na cidade?”.

Começando com uma reunião às 9h, na quarta-feira, com o senador Sheldon Whitehouse, democrata pelo Estado de Rhode Island, as mulheres se reuniram com dez parlamentares democratas, incluindo o líder da maioria no senado, Harry Reid -e com uma republicana, a senadora pelo Estado de Maine, Susan Collins. Elas pediram a aprovação rápida de uma lei banindo a exportação de mercúrio para as nações em desenvolvimento e, a seguir, passaram para a grande questão, o aquecimento global, defendendo maior eficiência no uso de combustíveis em veículos e cláusulas mais rígidas nos projetos de lei relativos a fontes alternativas de energia que serão avaliados pelas duas casas parlamentares.

Na quarta-feira pela manhã, Meyer e McCaw, uma ex-modelo, discutiram como lidariam com o fato de serem jovens avós quando os filhos dos casamentos anteriores dos seus maridos tivessem os seus próprios filhos. “Você será uma avó legal e eu serei uma avó meio legal”, brincou Meyer.

Uma hora mais tarde, elas se reuniram no edifício Hart, no Senado, com Michael Morgan, membro do gabinete do senador Benjamin Cardin, democrata pelo Estado de Maryland. Lá, as mulheres fizeram um apelo baseado em vários dados por uma legislação que impeça a exportação de mercúrio norte-americano para a Índia e a China. Morgan ouviu, com uma postura profissional, e depois prometeu ajudar a promover um projeto de lei neste sentido no Senado.

“Estamos ansiosos por fazer progressos em relação ao problema do aquecimento global”, disse Morgan. “Este é o momento certo para isso”.

Por volta de 13h, as mulheres almoçaram tartare de atum no Charlie Palmer Steak, um restaurante fino que fica próximo a Capitol Hill.

Elas reconheceram os estereótipos negativos associados às militantes verdes ricas de Hollywood, mas disseram que são capazes de conviver bem com isso.

Por exemplo, no ano passado, Bell abriu a casa em Holmby Hills na qual ela mora com o marido e os quatro filhos para uma sala de discussões ecológicas, da qual participaram John Cusack, Kelly Lynch e Kirsten Dunst.

Stewart lembra-se de ter estimulado Cameron Diaz a comprar um híbrido, atualmente o carro preferido de todas as mulheres do grupo.

“Eu embelezei o meu Prius”, acrescentou Bochco. “Ele tem uma pintura de ondas nas laterais e listas e bordas cromadas que parecem safiras.”

Meyer ajudou a criar uma casa de exposições feita de materiais obtidos com produção sustentável. O nome do espaço é Project7ten, situado no bairro de Venice, em Los Angeles, embora Meyers não more lá.

“Você tem que entender”, disse Stewart. “Eles moram na casa mais bonita do mundo.”

E elas estão bem conscientes do estereótipo da liberal do Learjet e disseram que este foi um dos motivos pelos quais viajaram em um vôo comercial para Washington.

McCaw, cujo marido já tinha um jato quanto eles se casaram em 1998, concorda que é uma questão difícil. “Se eles tivessem aviões que fossem movidos a energia solar, nós os usaríamos”, disse ela. Até lá, McCaw diz que eles comprarão compram títulos de compensação por emissão de carbono.

Depois do almoço, foi a vez de Meyer seguir este padrão. Ela tinha que ir a Nova York para participar com Brooke Shields de um evento naquela noite para o combate ao câncer. Assim, ela trocou um almoço decente por pães, “com meio quilo de manteiga”, brincou Meyer.

Andando rapidamente em direção ao táxi, ela deu um sorriso cansado e murmurou: “Não é fácil ser verde”.

Tradução: UOL

Visite o site do The New York Times

NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” [“Dinheiro Queimado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do El País