Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

Ainda sobre Monteiro Lobato e o politicamente coreto

Aqui a crônica de Vivina de Assis Viana publicada no Primeiro Programa.

E um  dos melhores comentários recebidos e a expressão pessoal de uma brilhante e voraz leitora:

Meg,

tive uma leitura pouco orientada. Com o discernimento de uma traça, fui devorando livros e livros.
Livros de adulto, livros de criança. Literatura de primeira e livros de quinta. Quadrinhos, tiras, biografias, o escambau. O critério era: é de papel? Escrito em português? Então tá valendo!
Claro que algumas coisas, lidas sem a maturidade necessária tiveram (ou terão) de ser relidas. Mas não acredito que tenha tido muitos prejuízos com isso, pelo contrário.
Meus pais me puseram em contato com livros, e eu lia sem restrições. Em caso de dúvida, perguntava aos meus pais, tios, professoras, pesquisava na enciclopédia. E, no meio dessa bagunça toda, eu li as Caçadas de Pedrinho. E muitos outros livros do Lobato. Talvez quase todos, não tenho certeza.
É claro que retratava preconceito. Um preconceito que havia, aliás. Ou será um preconceito que há, mas que fazemos de tudo para esconder? O fato é que hoje em dia, na cantiga de roda, não se atira mais o pau no gato…
Da primeira vez que ouvi essa ignomínia, fiquei indignada. Quem deu autorização pra mudar a cantiga de roda, centenária? E pode ter certeza, eu nunca maltratei nenhum bichinho por causa da cantiga. Nem conheço ninguém que o tenha feito.
O que estamos querendo de nossas crianças quando pintamos para elas um mundo fora da realidade? Estamos sendo esmagados pelo politicamente correto. Beirando a alienação coletiva.
Primeiro, protegemos as crianças da realidade. Não as ensinamos a discernir. Escondemos o que julgamos errado, e pronto: o mundo inteiro se torna um grande Backyardigans.
Depois jogamos sobre elas uma quantidade violenta de informação. O problema é que sem discernimento, não se sabe diferenciar o certo do errado.
Daí para se estar incitando a violência ou os preconceitos por meio de redes sociais,é um pulo.
As crianças que estamos criando, parece, só terão dois destinos: ou serão adultos limitados, ou serão criaturas sem limites, por não saberem a diferença entre o certo e o errado.
Porque a literatura tem de ser fácil, mastigada para eles? Porque não podem aprender a discernir? Criticar?
Convivo muito com crianças e com suas mães. A julgar pelos padrões atuais, eu deveria ser irremediavelmente traumatizada. Afinal, li o que não devia, cantei as cantigas erradas, competi, ganhei, perdi, fiquei de castigo, pulei muro, fiz bagunça, levei palmada, fiquei sozinha em casa, comi o cachorro quente que vende na esquina.
Isso sem falar que vi o Pica Pau na tv. Todos os episódios: TODOS! Deveria estar morta, ou, no mínimo, pior que a Cristiane F. (aliás, li esse livro por volta dos 12 anos).
Mas, curiosamente, me sinto muito bem… Ou seja: na dúvida, dê o livro pra criança ler. Leia com ela. E discuta. Políticas de censura são burras e inadmissíveis num país livre.
Aliás, melhor Monteiro Lobato – literatura de qualidade – do que um livro qualquer sobre vampiros vegetarianos.

Expresso aqui no Ainda podia ser pior de Marilia Jacquelyne.
Marilia é brilhante. Confira.

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E um link definitivo sobre Monteiro Lobato. Um conto: Negrinha.

Acachapante denúncia, gerida exposta. É ler e refletir. Mas isso parece ser muito difícil, mais fácil é censurar, olhyar sem ver. Nesta página, há uma breve exposição do que foi a vida pública e literária de Lobato

Enviado pela professora Rose Marinho Prado,  que sempre tem um olhar original, bem humorado, muitas vezes ácido e que nos traz uma compreensão poética  de seu mundo,  por intermédio de uma indiscutível maestria da escrita.

Confira o que eu digo, o pensamento de Rose Marinho Prado aqui.

E leiam também aqui., descobri só agora. Leitura em companhia (beleza de título)

Lula e seus irmãos

Relação de Vavá e frei Chico com o presidente da República se ajusta mais ao gênero cômico do que ao trágico

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Faltam alguns dos precedentes trágicos da situação vivida hoje por Lula e seus irmãos.
Com efeito, quando Aristóteles pensou sobre os eventos favoráveis à excitação do sentimento trágico, assinalou aqueles que diziam respeito aos amigos e, em particular, às ligações de sangue.
Isso porque, diz ele, “se as coisas se passam entre inimigos, não há que compadecer-nos nem pelas ações nem pelas intenções deles, a não ser pelo aspecto lutuoso dos acontecimentos; e assim também entre estranhos. Mas, se ações catastróficas sucederem entre amigos -como, por exemplo, irmão que mata ou esteja em via de matar o irmão, ou um filho o pai, ou a mãe um filho, ou um filho a mãe, ou quando aconteçam outras coisas que tais- eis os casos a discutir”.
Tais eventos são os que mais diretamente provocam em nós terror e piedade, os afetos trágicos por excelência.
Ambos decorrem da empatia, isto é, do sentimento de que também a nós poderia ocorrer um desastre semelhante, pois todos os que têm parentes e os amam podem intuir o temor de tê-los contra si, assim como estão aptos a sentir compaixão por quem sofresse pesar semelhante.
Por isso mesmo, Hegel entendeu que a essência da tragédia se caracterizava pelo confronto entre dois direitos antagônicos e contraditórios: os da leis escritas do Estado e os da lei não-escrita da família. Um belo exemplo dessa essência trágica, em língua portuguesa, encontra-se em “A Castro”, de António Ferreira, na qual se encena a conhecida história de Inês, amante do infante d. Pedro, que é assassinada a mando do rei, d. Afonso 4ø, temeroso de que a paixão ilícita do filho pusesse a perder os seus esforços de autonomia do trono português diante do poder de Castela.

Temor e compaixão
Em “Os Lusíadas”, não faltam células trágicas similares, em que o rei se deixa arrastar pelas contingências afetivas de sua “persona personalis” em detrimento dos deveres transcendentes de sua “persona ficta” ou “mystica”, que representa o Estado.
A considerar desse modo o caso, a atual irrupção de Vavá no noticiário do governo, guardaria em si o embrião de uma cena trágica, na qual o irmão no poder se vê constrangido e contraditado pelas ações do irmão imprudente ou desonesto, não importa se lambari ou tubarão.
Aliás, a levar adiante a analogia, a potência trágica do episódio deveria tornar mais cautos os críticos que vêem em Vavá causas para a queda de Lula: um episódio familiar é potencialmente lugar de simpatia, isto é, de temor e compaixão partilhados.
A tragédia, contudo, não parece ser o gênero mais ajustado à comparação com a situação vivida pelo presidente.
Pois a imitação trágica só funciona, no dizer de Aristóteles, quando o objeto da imitação são aqueles sobre os quais não restam dúvidas sobre o seu “caráter elevado”, como ocorre quando pessoas que julgamos de grande valor acabam sofrendo algum mal irreversível, por um erro involuntário cometido.
Quando, ao contrário, a ação em cena diz respeito a quem julgamos iguais ou piores do que gente como nós, o que se produz é comédia.
Como diz o filósofo, “a mesma diferença separa a tragédia da comédia; procura esta imitar os homens piores, e aquela, melhores do que ordinariamente são”.
Os efeitos correspondentes ao novo gênero já nada têm a ver com temor e compaixão, mas sim basicamente com o “ridículo”.
Este, aliás, em termos aristotélicos, não é qualquer defeito, mas apenas o que refere a “torpeza anódina”. Assim, quando não há certeza sobre a grandeza de um caráter, que apenas pode estar assentada sobre ações habitualmente virtuosas, está definitivamente perdida a possibilidade da imitação trágica.
Nesses termos, convenhamos, Lula, como persona trágica, já não é verossímil há muito tempo, ao menos desde que reinventou a si mesmo no pragmatismo eleitoreiro e vulgar do “Lulinha paz e amor”.
Se houve algum dia um verossímil trágico associado ao tema da catástrofe familiar na persona de Lula, talvez devesse ser buscado no pesar advindo da exposição de Lurian, a filha até então oculta, e da posterior derrota política decorrente da sórdida campanha movida por Fernando Collor de Mello, em 1989.

Anedota de corte
Agora, não. Agora a figura de Vavá apenas acrescenta mais um elemento pitoresco à baixeza ordinária. O episódio é absorvido genericamente como mais uma anedota da corte indecorosa.
Literariamente, a revelação das trapaças do irmão encontra, no máximo, analogia com as tópicas ridículas das comédias seiscentistas, quando a corte recentemente aburguesada se torna palco de toda sorte de ostentação reles.
Ali, falsos fidalgos, velhacos e emergentes, de cabeleira postiça e empoada, sentados sobre o próprio rabo, negando enfaticamente o próprio passado, fingem em vão acreditar nos áulicos venais que os pintam maiores do que são. Na hipótese trágica definitivamente perdida, Vavá seria parte das “ações paradoxais” a se abater sobre a excelência de um grande homem; na versão cômica atual, não passa de simples confirmação da “torpeza anódina” instalada na cena palaciana.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de Máquina de Gêneros (Edusp)

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Personagens na literatura Brasileira

  Letra

 

Agilberto Lima/AE

Milton Hatoum ocupa-se dos problemas enfrentados pelos imigrantes na Amazônia

  Veja também
¤ Escritores e professores comentam o resultado da pesquisa
¤ As tabelas da pesquisa

SÃO PAULO – Homem branco, heterossexual, intelectualizado, sem deficiências físicas ou doenças crônicas, membro da classe média e morador de grande centro urbano – não, não se trata de um anúncio para relacionamentos, mas o perfil principal das personagens contemporâneas do romance brasileiro, segundo uma pesquisa realizada em Brasília. Durante vários meses, a partir de 2003, a professora Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, comandou uma equipe de alunos que, debruçada sobre diversos livros de autores nacionais, conseguiu moldar o personagem mais comum da literatura brasileira. A polêmica conclusão (já há autor torcendo o nariz) será tema de um debate que ocorre nesta quarta-feira, 6, às 10 horas, no Itaú Cultural, iniciando o projeto Encontros de Interrogação.

Na palestra, Regina vai ser questionada pelos escritores Cristóvão Tezza e Maria José Silveira. Oportunidade para ela comentar sobre a metodologia do trabalho – a pesquisa fez uma espécie de recenseamento das personagens dos principais romances publicados no Brasil entre 1965-1979 e 1990-2004 pelas editoras mais importantes dos dois períodos: Civilização Brasileira e José Olympio para o primeiro intervalo e Companhia das Letras, Record e Rocco para o segundo. Foram estudadas, ao todo, 1.754 personagens de 389 romances, escritos por 242 autores diferentes. “Nosso objetivo foi comparar a época atual com o período marcado pela ditadura militar”, comenta Regina. “Daí a ausência dos anos 1980, que poderão inspirar uma outra pesquisa.”

O perfil dos autores se aproxima do dos personagens: em sua maioria homens, brancos, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo e com profissões já ligadas ao domínio do discurso, como jornalista e professor universitário. “Dados importantes para se entender o enfoque do conjunto das narrativas atuais”, comenta Regina, para quem a literatura é mais um discurso na formulação da ideologia de uma sociedade. “O romance brasileiro possui como chão o Brasil contemporâneo. Ou seja, nosso universo literário é bastante limitado e excludente, assim como é reduzida a variedade de perspectivas sociais entre nossos escritores.”

Pobres perdem espaço

É o que explica, por exemplo, a pequena representação das personagens femininas, porcentagem que é menor no período 1990-2004, quando as mulheres aumentam sua participação apenas na posição de narradoras, mas são menos protagonistas das tramas do que antes. Uma das justificativas, no entender da pesquisadora, foi a eclosão do feminismo – apesar do aumento no número de escritoras, os homens sentiram-se retraídos. “Houve um certo constrangimento e os autores entenderam que a mulher poderia ela mesma dizer o que pensava, o que provocou um recuo na quantidade de personagens.” Ou seja, o romance brasileiro hoje conta com mais autoras e, ao mesmo tempo, elas se sentem mais à vontade para criar personagens do sexo masculino.

Entre 1965-1979 e 1990-2004, os pobres perdem espaço no romance brasileiro, que se concentra ainda mais nas classes médias e, ao mesmo tempo, dá mais espaço a personagens das elites econômicas. “É importante notar como a literatura se distancia dos problemas sociais, ignorando também os negros e os homossexuais”, comenta Regina. “E, quando esses aparecem, são de forma estereotipada, o que aproxima o romance da telenovela.”

A pesquisadora, que contou com uma bolsa do CNPq, notou ainda a ausência de características que marcam profundamente a rotina do brasileiro: quase não há, por exemplo, citações sobre futebol, carnaval e religião. Assim, apesar de ser muito referencial (o Brasil retratado é o atual) o que lhe confere um caráter realista, o romance traz personagens pouco realistas. “É como se o cenário das histórias fosse uma reprodução fiel da realidade, enquanto as figuras que ali se situam não são.”

Nova dinâmica

Há, é claro, exceções, mesmo que na valorização de detalhes. Sérgio Sant’Anna, por exemplo, sempre revelou a intenção de trabalhar em vários planos além da simples representação do mundo; Milton Hatoum ocupa-se dos problemas enfrentados pelos imigrantes na Amazônia; João Gilberto Noll preocupa-se também com os homossexuais; e Ferréz retrata o cotidiano de bairro pobre. “São exemplos preciosos, pois o estilo literário hoje tem uma outra dinâmica, apresentando diferenças que podem influenciar a literatura de autores brancos, enriquecendo-a”, conta Regina, que percebe as mesmas características no cinema nacional, pesquisa agora em andamento.

“Já vimos 150 filmes e o resultado, por enquanto, é semelhante: os personagens são, na maioria, homens brancos de classe média”, conta ela, que já concluiu como o tempo verbal das falas reforça as diferenças sociais. “Os personagens negros falam apenas no presente, enquanto os brancos referem-se também ao passado. É como se o branco pudesse pensar e o negro, apenas agir.”

A palestra de Regina Dalcastagnè abre a segunda edição do Encontros de Interrogação, que vai reunir, até sábado, prosadores, poetas, críticos, pesquisadores e leitores para responder perguntas ou provocar mais dúvidas sobre os sentidos e valores da literatura na produção contemporânea brasileira. O evento também marca o lançamento da Enciclopédia Itaú Cultural de Literatura Brasileira e dos programas de rádio focados na literatura, Escritor-Leitor e Inventário, ambos no novo site da instituição (www.itaucultural.org.br).