While…

eric clapton and gorge harrison.
I look at you all see the love there that’s sleeping
While my guitar gently weeps
I look at the floor and I see it need sweeping
Still my guitar gently weeps

I don’t know why nobody told you
how to unfold you love
I don’t know how someone controlled you
they bought and sold you

I look at the world and I notice it’s turning
While my guitar gently weeps
With every mistake we must surely be learning
Still my guitar gently weeps

I don’t know how you were diverted
you were perverted too
I don’t know how you were inverted
no one alerted you

I look at you all see the love there that’s sleeping
While my guitar gently weeps
I look at you all
Still my guitar gently weeps

Oh, oh, oh
yeah yeah yeah yeah

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Wikipedia – você confia nela?

Novo site desmascara alterações na Wikipedia WikiScanner mostra empresas e governos que mudaram artigos da enciclopédia

Governo dos EUA e do Vaticano e empresas como a Apple e a Microsoft estão entre os revelados pela criação de Virgil Griffith

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DA REPORTAGEM LOCAL

Que os artigos da enciclopédia on-line Wikipedia (www.wikipedia.com) eram passíveis de alterações desinformativas, já se sabia. Agora, graças à invenção de um estudante norte-americano, é possível saber quem modificou o quê -e os resultados têm causado um frenesi mundial.
Tal reação -da imprensa, de governos, empresas e, é claro, usuários da rede- era exatamente o que Virgil Griffith, 24, esperava ao criar o WikiScanner (wikiscanner.virgil.gr), segundo disse em entrevista à Folha, por e-mail.
Lançado há duas semanas, o site permite vasculhar os arquivos da Wikipedia em inglês (e, mais recentemente, em alemão e japonês) em busca dos computadores de onde saíram modificações feitas em artigos.
Rapidamente os usuários descobriram que, dos sistemas de diversos governos (EUA, Austrália, Portugal, Vaticano) e organizações (Microsoft, Apple, PepsiCo etc.), partiram alterações que apagavam críticas e dados negativos em textos (veja quadro ao lado).
“Tive a idéia após ouvir sobre os congressistas [dos EUA] que foram pegos limpando suas páginas na Wikipedia”, disse Griffith à Folha.
“Meu objetivo era criar vários desastres de relações públicas para os envolvidos.”

Dourando a pílula
Para quem vivia protegido pelo anonimato que a Wikipedia permite (seus artigos são escritos por colaboradores anônimos e podem ser modificados livremente), o WikiScanner é uma ferramenta que traz revelações embaraçosa.
Ele permite descobrir, por exemplo, que a Pepsi alterou menções sobre os malefícios do consumo excessivo de refrigerante (a Coca-Cola fez o mesmo), que o FBI alterou o artigo sobre a prisão de Guantánamo e que a Anistia Internacional removeu críticas.
O site de Griffith não permite afirmar incontestavelmente que as modificações são decisões corporativas ou ordens vindas das chefias. Ele apenas indica os computadores (por meio de sua “identidade”, o IP, internet protocol) de onde saíram as alterações.
O método do WikiScanner lembra as ferramentas de busca mais comuns -o usuário pode procurar pelos nomes que fizeram alterações, pelos locais de onde as mudanças foram feitas, pelo IP dos computadores e ainda por artigos modificados.
Colocando “Banco do Brasil”, por exemplo, na pesquisa, o usuário descobre 334 alterações em artigos da Wikipedia em inglês feitas a partir de computadores da instituição.
Há acréscimos (o nome do banco entrou na lista de organizações conhecidas como BB, por exemplo), alterações em artigos de história (veja abaixo) e diversos pitacos em textos sobre temas diversos como futebol, Carnaval e artistas.
Por enquanto, a ferramenta não deve causar maior apreensão no Brasil, já que Griffith não planeja fazer uma versão em português. Mas ele deixa um caminho aberto.
“Vou liberar o código-fonte do programa e qualquer um poderá fazer uma versão brasileira do WikiScanner”, anuncia.

Blogs, reality shows e literatura de Henry James

Bernardo de Carvalho

O exterminador do passado


O diário, que antes se mantinha restrito ao privado, já é concebido para publicação


AS CELEBRIDADES e os reality shows fazem parte do mesmo universo dos blogs pessoais e de uma literatura que, originária e devedora dos blogs, foi reduzida a crônica, expressão da opinião e da experiência pessoal.
A exemplo da encenação pública da intimidade, o eu dos blogs é uma projeção que se realiza numa segunda realidade, numa rede de inter-relacionamentos constituída por confrarias cujos parâmetros são os seus próprios limites, o elogio do igual, a reiteração do mesmo e a execração do diferente.
Nesse universo, um autor como Henry James (1843-1916) só pode ser ignorado ou percebido como um exterminador enviado pelo passado, pois celebra uma literatura que é, antes de mais nada, criação, invenção e reflexão. O protagonista da novela “A Fera na Selva”, recém-publicada pela Cosac Naify na tradução de José Geraldo Couto, é um homem autocentrado, que passa batido pela vida e cuja tragédia é fruto da sua autoconsciência tardia.
Embora sustentado unicamente pelo relato pessoal, o eu ensimesmado dos blogs também sofre da falta de experiência real, e a única diferença em relação ao personagem criado por James é que para ele não haverá tragédia, pois tampouco há autoconsciência ou reflexão possível, já que está demasiado ocupado com a expressão pública de si mesmo. O diário, antes um gênero que se mantinha, até segunda ordem, restrito à dimensão do privado, agora já é concebido para publicação.
Henry James professa a idéia de que a própria literatura é reflexão -e não apenas expressão de si ou de geração. Ela pressupõe invenção e transcendência; não é apenas relato ou crônica. O não-dito, por exemplo, que é um dos recursos dramáticos e romanescos mais fundamentais dos livros de James, é inconcebível dentro do princípio exibicionista da encenação pública do eu, na qual tudo deve ser dito e mostrado.
“A Fera na Selva” é, de certo modo, uma alegoria do amor como compartilhamento de um segredo que não se diz e suposição de outros que não se descobrem, um jogo de não-ditos sob a constante ameaça da morte e da perda.
Um homem reencontra uma mulher da qual ele mal se lembra, embora, segundo ela, tivesse lhe revelado no passado um segredo íntimo. A partir do reencontro e dessa alusão se estabelece entre os dois uma relação de profunda e íntima cumplicidade, na qual tudo é compreendido por meias palavras. A frase tortuosa de James se ajusta com perfeição a essa narrativa em que a informação é dada por desvios e a linguagem é um véu que, girando sobre o vazio, envolve o leitor, construindo por circunvolução um mistério que ao mesmo tempo se oculta.
A frase de James cria opacidade e põe o leitor num lugar análogo ao da inconsciência e da cegueira do protagonista. A fera na selva, por exemplo, é a imagem que ele faz da impressão que o acompanha pela vida, uma ameaça iminente e indefinida à qual ele se sente exposto, como se uma tragédia estivesse à espreita, prestes a dar o bote. Por conta do seu egoísmo, sua relação com a mulher será muito peculiar e incompleta. Ao longo da história, os dois se preocupam com o olhar das convenções e se perguntam sobre o que os outros deverão pensar de uma relação tão incomum.
Enquanto, no mundo dos reality shows, o olhar dos outros serve apenas para reiterar o exibicionismo para o qual não pode haver autoconsciência, nas últimas páginas da novela de James será pelo olhar do outro, mas desta vez como sinal de uma verdade que nada tem a ver com as convenções, que o protagonista afinal compreenderá qual era a fera que o espreitava desde sempre.
Todo o texto de James é feito de ambigüidades e de enganos. O que está em jogo é o indizível da experiência – o contrário da experiência dizível. Para tornar isso sensível e representável, é preciso se pôr pelo menos um grau acima do relato ou da encenação da experiência. Esse grau se chama criação literária.
Nesse ponto, caberia uma nota sobre o projeto gráfico dessa edição. É um projeto que parece querer traduzir graficamente a opacidade e o fulgor do texto -as páginas vão escurecendo conforme o texto avança, em tons de prata, até as próprias letras prateadas quase desaparecerem sobre o fundo cinza.
Em nome de uma originalidade visual e conceitual do livro como objeto, a legibilidade passa para segundo plano. E de uma forma involuntária, o projeto que pretendia valorizar a literatura nos deixa com a triste constatação de que vivemos de fato num mundo de aparências onde o texto é o que menos importa.

Madeleine Peyroux

A cantora, que faz shows no Rio e em SP em setembro, fala sobre a volta ao país e a dificuldade para achar a “canção certa’

Um dos mais importantes nomes do jazz atual, a norte-americana afirma gostar de pensar a “música em um contexto dramático”

Divulgação
Madeleine Peyroux, que costuma ser comparada a Billie Holiday; cantora fará show no Via Funchal e no Teatro Municipal do Rio

RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quase dois anos e 1 milhão de discos vendidos depois de sua última apresentação em SP, em novembro de 2005, a cantora Madeleine Peyroux volta ao Brasil para shows no Via Funchal, no dia 18 de setembro, e no Teatro Municipal do Rio, no dia 26 do mesmo mês, com a turnê do seu novo álbum, “Half the Perfect World”.
Conhecida por sua interpretação melancólica de canções que vão de antigos compositores de blues como Hank Williams e W.C. Handy a Leonard Cohen e Bob Dylan, Peyroux criou um culto em torno de si também por sua personalidade atípica e abordagem peculiar do lado “business” da música: a cantora chegou a desaparecer por alguns dias em 2005 para fugir do esquema de divulgação criado por sua gravadora, a Universal.
Por telefone, de Nova York, simpática e falante, Peyroux conversou com a Folha sobre as lembranças do Brasil, a busca pelas músicas perfeitas e sua preferência por cantar ao vivo.

FOLHA – O que você se lembra do Brasil?
MADELEINE PEYROUX
– O Brasil foi o lugar para onde mais gostei de viajar. Infelizmente, não consegui ver tanto quanto gostaria do país na primeira vez que fui, espero dessa vez ter mais tempo. Para mim, ir ao Brasil é algo muito significativo, quero continuar indo e aprendendo. Aprendi um pouco sobre música brasileira, mas não muito.
Fui a um show do Martinho da Vila e gostei das canções e dos sambas. Não aprendi muito sobre músicas, mas aprendi sobre cachaça [risos]. No Rio, minha maior experiência foi com um motorista de táxi muito generoso, que dirigiu por duas horas me mostrando a cidade. Em SP, fiquei triste ao ver as favelas e as pessoas na rua -me fez pensar como o Brasil pode ser tão diferente dos EUA, considerando que não estamos tão longe.

FOLHA – Você costuma interpretar canções de origens diferentes e é sempre elogiada por colocar sua personalidade nelas. É difícil encontrar as músicas certas para sua voz?
PEYROUX
– Sim, é difícil encontrar a música certa. Gostaria de ter mais tempo para procurar as músicas e cantá-las mais.
Achar uma música da qual me sinto próxima é difícil, mas entendo que faz parte do trabalho de cantora estar sempre procurando a canção perfeita. Foi difícil fazer o disco, ouvi e escrevi muitas músicas que acabaram ficando de fora. Sei que trabalho em uma velocidade menor que muitos outros artistas, que sou um pouco devagar, mas é que eu definitivamente gosto de achar canções que sei que vou cantar pro resto da vida.

FOLHA – O que há em comum entre as diferentes músicas que canta?
PEYROUX
– Talvez um monólogo introspectivo, questões sobre a vida. Todas as minhas canções têm a mesma filosofia de vida, quase sempre são questões. Essas são as minhas músicas favoritas. Gosto de cantar sobre as questões, admitir que não sei a resposta. Isso para mim é ser filósofo, ser poeta: fazer perguntas, ao contrário de buscar respostas.

FOLHA – Qual é a principal diferença entre ouvir seu disco e vê-la cantando em um show?
PEYROUX
– O processo de gravação é muito diferente de cantar ao vivo. Quando você está gravando, tenta criar uma conversa com quem está ouvindo, porque o cantor não existe sem público. Acho que cantar ao vivo é uma coisa mais pura musicalmente. Podem acontecer erros, imprevistos, você pode passar vergonha, mas é o motivo pelo qual fundamentalmente vivo.

FOLHA – Então você prefere tocar ao vivo a gravar um disco?
PEYROUX
– Com certeza. Gosto de pensar na música em um contexto dramático. A diferença entre um disco e música ao vivo é como a diferença entre um filme e uma peça: o filme está ali, não muda, não importa o que aconteça. No teatro você tem a reação do público, que faz com que tudo mude a cada noite. A música tem que ser ao vivo para você entendê-la, é uma forma de arte que existe ao vivo, tem que estar acontecendo no momento. Ela existe em um contexto de tempo e espaço, é uma arte de performance. Não há música sem audiência.

FOLHA – Existem artistas que não gostam de se apresentar ao vivo.
PEYROUX
– Se faço um som no quarto, não é arte. Arte é comunicação. Tem gente que gosta de fazer e ouvir música sozinho. Mas acredito que música seja interação. Quando faço algo no palco e a platéia responde -com um suspiro, qualquer coisa assim-, cumpri minha função. Sem platéia não tenho razão para ser artista.

FOLHA – A sua música tem algo de teatral? Um ator, quando está no palco, está atuando -mas um cantor não é ele mesmo?
PEYROUX
– Um ator também está sendo ele mesmo. E um músico pode estar atuando. É importante ver os dois lados. Nenhum músico pode cantar todas as emoções. Se eu fosse eu mesma o tempo inteiro no palco seria entediante. Porque eu pararia para tomar um café.
Desceria do palco para comentar com alguém do público que gostei da roupa dele. Para um show, você tem que ter a ilusão do teatro, um personagem. Não estou querendo dizer que uso uma máscara, não coloco uma máscara quando estou no palco. Mas todos os músicos estão atuando. Precisamos entender isso para entender essa forma de arte. Precisamos da ilusão para acreditar que é verdade.

FOLHA – Quando você canta e o público sente a tristeza de uma música, você também se emociona?
PEYROUX
– Sim, a audiência me ajuda a criar o personagem. Sinto a tristeza do público. Mas sinto isso como uma intérprete. Senão eu pararia o show para chorar [risos]. Sei que alguém na audiência pode estar passando por um momento difícil e se emocionar. Tudo que quero é cantar pra essa pessoa sem saber que ela existe e sem pedir nada em troca.

O Senhor das Palavras

Revista Língua Portuguesa

Número 01, Ano 01 – Agosto de 2005

Millôr Fernandes
O senhor das palavras

Em entrevista exclusiva, o tradutor recorda a carreira marcada pela inquietação com a linguagem e fala sobre sua vida, o humor e a tradução.

Por Luiz Costa Pereira Junior e Marco Antonio Araujo

Millôr foi uma vítima da ortografia. Nasceu em 16 de agosto de 1923, no Rio, como Milton Viola Fernandes. Registrada depois (seu aniversário oficial é em 27 de maio de 1924), a certidão de nascimento foi grafada de tal jeito que o t de Milton parece um l seguido por um acento, e o n, um r. Foi assim que, aos 17 anos, Milton soube que seu nome era Millôr. Talvez por revanche, construiu uma carreira de rupturas com o português padrão, com vôos de imaginação lingüística que, a rigor, formam gramática própria. “Não passo um dia sem escrever.” Fez de tudo: roteirista, ilustrador, dramaturgo, compositor, ator. Não bastasse, é tradutor de Shakespeare, Pirandello, Racine e outros clássicos em cujos idiomas foi autodidata. Seu raciocínio é tão ágil que as palavras se atropelam na voz gutural e o ar maroto dá um a mais de jovialidade à silhueta magra. Na cobertura em Ipanema, sentado, olha uma jogada do brasileiro Kaká, pela TV. “O futebol é o raro reduto da glória com mérito” Como se uma coisa chamasse outra, fustiga o escritor Paulo Coelho: “Vende muito, mas é merecidamente desprezado porque faz uma merda de literatura” Ligamos rápido o gravador.

Fazer humor é levar a sério as palavras ou brincar com elas?
Humor, você tem ou não tem. Pode ser do tipo mais profundo, mais popular, mas tem de ter. Você vai fazendo e, sem querer, a coisa sai engraçada. Dá para perceber quando a construção é forçada. Tenho uma capacidade muito natural de perceber bobagem e destruir a coisa. É o que hoje o pessoal da informática chama de “processar”. Você coleta um monte de dados e processa rapidamente, antecipando o movimento da outra pessoa. Às vezes, para dar certo, bastam mudanças simples. Ano passado, o pessoal da televisão me pediu uma saudação para o dia dos namorados. Ia negar o pedido quando me veio o estalo: fiz dois corações bem normais e pus em cima o texto “Dia dos namorados – Eu quero que eles se fodam”. A frase grosseiramente ofensiva tornou-se logo carinhosa.
Há quem diga que trocadilhos, como os que o tornaram famoso, são uma forma infantil de humor. Na verdade, a frase clássica é “a forma mais baixa de humor”. Quem diz isso não sabe o que diz. Um Shakespeare não existe sem trocadilho. Nem Cristo, e é só lembrar o reino que veio depois do “Pedro, tu és pedra”. O cristianismo está todo fundado num trocadilho. O trocadilho foi a verdadeira graça de Deus.

Como você começou a fazer tradução?
Um tio meu, Antonio Viola, era chefe da gráfica de O Jornal, e me pegou um desenho, levou lá e depois me veio com dinheiro pago por ele. Em 1938, comecei na revista O Cruzeiro. Na época, os quadros eram pobres e todo mundo fazia de tudo. Fui contínuo, armador, ilustrador. E descia até a oficina pra mexer na linotipo [antiga máquina de composição gráfica]. Uma das minhas tarefas era dar conta das tiras em quadrinhos estrangeiras. Levava o dicionário e traduzia as legendas, botava as letras nos balões e isso era uma das dez coisas que eu fazia. Para traduzir um negócio qualquer, ia de 10 a 20 vezes ao dicionário. Aprendi a fazer tradução porque me encomendaram e foi assim desde então.

Como assim?
Sempre fui movido por forças exógenas, exteriores. Por minha iniciativa, fiz só uma exposição de desenhos, em 1957, no MAM, e uma peça de teatro em 1963, Flávia, Cabeça, Tronco e Membros. Todo o resto que fiz foi a pedido. O primeiro livro que traduzi foi Dragon Seed, de Pearl S. Buck, com o título A Estirpe do Dragão, em 1942. Nunca me senti tão roubado na vida, pois você traduz 300 páginas por uma mixaria. O livro era assinado por outros. Eu era um “laranja”. No teatro, era diferente, a remuneração, tudo era vinculado à bilheteria. Assim, uma peça fracassa, a segunda vai melhor e de repente a terceira compensa todo o esforço.

Como foi seu aprendizado da língua? A escola ajudou ou atrapalhou?
Tive a grande sorte de trabalhar na imprensa com menos de 14 anos, em 1938. Havia deixado de estudar aos 10 [por causa da morte da mãe; o pai perdera quando tinha 1 ano de idade]. No primário, aprendi a gostar de estudar e a ler por causa de uma professora, Isabel Mendes. Nunca esqueci o dia em que ela me ensinou a ver as horas. Eu saía pelos corredores de olho nos relógios. Fiquei espantado em ver que um marcava 8 horas e o seguinte, 8h05. Foi quando percebi aquilo de mais banal na vida, a consciência de que o tempo está sempre à sua frente, faça você o que fizer. Passei dois ou três anos sem estudar. Quando eu ganhei o primeiro dinheiro, fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios – curso de cinco a seis anos, que não cheguei a concluir porque já era “famoso” à época – com 20 anos já ganhava o maior salário da imprensa. Portanto, devo ter saído do colégio aos 18 anos. Portanto, tudo o que aprendi foi no primário. Depois de um primário sólido, você pode ser um autodidata. Foi a professora Isabel Mendes quem me ensinou a coisa mais importante em didática – a gostar de estudar.

Gostava de ler nessa época?
Não tinha livros em casa. Havia umas novelas da editora Vecchi, folhetins pra cozinheiras e domésticas. Eles mandavam dois ou três exemplares em cada endereço e, se a pessoa gostasse, mandavam cobrar as edições seguintes. Eram títulos muito melodramáticos, como Córsega em Chamas, Fausta Vencida, Nunzio Romanetti, ou policiais. Quando comecei a estudar na cidade, passei a ir com mais freqüência à Biblioteca Nacional. Ficava muito irritado quando havia feriado e a biblioteca fechava, pois ficava sem ler.

Com que língua mais gosta de trabalhar?
Não aprendi línguas até hoje (risos). Gosto de trabalhar com o português, embora inglês seja a que eu mais leio. Nunca tive temor de nada. Deve-se julgar as obras pelo que elas têm de qualidade, não por serem de fulano ou beltrano. Shakespeare fez muita besteira, mas tem três ou quatro obras perfeitas, e Macbeth é uma delas. Traduzi Shakespeare por ser do caralho, mas se me dessem algo ruim para traduzir, dizendo que era um pensamento dele ou de Confúcio, perguntaria se era mesmo dele ou de um completo idiota.

Nunca sentiu dificuldade na tradução por ter sido autodidata em línguas?
Ao traduzir, é preciso ter todo rigor e nenhum respeito pelo original. Você pega um Racine, que é em dodecassílabos, mas não entra nessa. No momento em que você se sujeita à rima, está perdido, porque a rima vai conduzir os seus pensamentos. Mas traduzir é sempre divertido. Uma vez fiz a tradução da peça The Sunshine Boys, do Neil Simon, a que dei o título de Os Palhaços de Ouro. Era sobre uma dupla de comediantes à antiga. Eles se odeiam depois de trabalhar juntos por décadas, mas são obrigados a conviver nos palcos. Numa cena, o mais velho dos dois bate à porta, o outro diz: “Enter!” O ator fica imóvel. “Enter! Enter!” E nada. O outro vai lá e pergunta porque ele não entrou. “Estou esperando você dizer coming!, como sempre se fez.” Ora, enter e coming são expressões equivalentes em inglês, mas com aplicações diferentes. Por aqui, “entrar” já dá conta do recado. Para dar idéia do contraste que o original pedia, foi preciso dizer em bom português “penetra!”

Na sua opinião, quais as vantagens o português possui em comparação a outras línguas que você conhece?
A principal vantagem é a de ser a minha língua. Ninguém fala duas línguas. Essa idéia de um espião que fala múltiplas línguas não passa de mentira. Vai lá no meio do jogo dizer “salamê mingüê, um sorvete colorê…” ou “velho guerreiro”. Os modismos da língua, as coisas ocasionais, não são acessíveis a quem não é nativo. Toda pessoa tem habilidade só no seu idioma. Você pode aprender uma, dez, sei lá quantas expressões de outra língua, mas ainda existirão outras mil – como é que se vai fazer? A língua portuguesa tem suas particularidades. Como outras também. Aprendi desde cedo a ter o cuidado de não rimar ao escrever uma frase. Sobretudo em “-ão”.

Quais as normas mais loucas ou mais despropositadas da língua portuguesa?
Toda pesquisa de linguagem é perigosa porque tem o caráter de induzir o sentido. Não tenho nenhum carinho especial por gramáticos. Na minha vida inteira sempre fui violento [no ataque às regras do idioma], porque a língua é a falada, a outra é apenas uma forma de você registrar a fala. Se todo mundo erra na crase é a regra da crase que está errada, como aliás está. Se você vai a Portugal, pode até encontrar uma reverberação que indica a crase. Não aqui. Aqui no Brasil a crase não existe.

Mas a fala brasileira é mutante e díspare, cada região tem sua peculiaridade. Como romper regras da língua sem cair no vale-tudo?
Se não houver norma não há como transgredir. A língua tem variantes, mas temos de ensinar a escrever o padrão. Quem transgride tem nome ou peito que o faça e arque com as conseqüências.
Mas insisto que a escrita é apenas o registro da língua falada. De Machado de Assis pra cá, tudo mudou. A língua alemã fez reforma ortográfica há 50 anos, correta. Aqui, na minha geração, já foram três reformas do gênero, uma mais maluca que a outra. Botaram acento em “boemia”, escreveram “xeque” quando toda língua busca lembrar o árabe shaik, insistiram que o certo é “veado” quando o Brasil inteiro pronuncia “viado”. Chamar viado de “veado” é coisa de viado. Quando chegaram a tais conclusões? Essas coisas são idiotas e cabe a você aceitar ou não. Veja o caso da crase. A crase, na prática, não existe no português do Brasil. Já vi tábuas de mármore com crase errada. Se todo mundo erra, a crase é quem está errada. Se vamos atribuir crase ao masculino “dar àquele”, por que não fazer o mesmo com “dar àlguém”? Não podemos.

Você já escreveu certa vez um texto em “lusitol” e o traduziu para o “brasilol”, mostrando o abismo de linguagem que existe entre Portugal e o Brasil. O nosso país caminha para a constituição de uma língua própria?
É muito difícil fazer esse tipo de previsão. As influências hoje em dia são tão interativas, tão permutantes, que não sei se o Brasil vai formar uma língua tão diferente de Portugal, porque o inglês também está batendo à porta deles. O mundo inteiro hoje busca aproximação por meio do inglês. É um idioma que teve muita sorte – quando o império britânico começou a decair, surgiu o americano. O inglês tem inúmeras línguas, mas continua inglês. Assim também, há uma língua portuguesa com variantes, dialetos e idioletos.

Mas as diferenças não pesam?
Nem sempre é fácil entender um português e há filmes portugueses que só conseguimos ver com legendas. O que acontece é que temos dificuldade de entender o português de Portugal mais pela eufonia e pela prosódia que pelos vocábulos em si mesmos. Não sei se os portugueses passam pelo mesmo problema, mas o fato é que, até os anos 30, todo ator brasileiro imitava sotaque português para ser respeitado e, hoje, nossa influência em Portugal é total. A telenovela entra lá, e não adianta o intelectual português ficar contra, porque o povo acha engraçado o jeito de a gente falar, e termina copiando. Já usam expressões como “estou a dar a volta por cima, o pá!”, lá do jeito deles, com sotaque, mas usam.

O estrangeirismo empobrece a língua portuguesa?
De maneira nenhuma. Antigamente, tivemos palavras como porta-seios, uma coisa muito feia, que felizmente foi substituída pelo galicismo “sutiã”. Toda língua é invadida e, como mulher, fecundada.
De vez em quando a nossa leva na bunda, mas nada que, lavada, não fique novinha. Houve tempo em que o galicismo era uma aberração. Não se podia escrever “amante”, mas “amásia”. Era assustador.
Uma vez, era menino, escrevi um conto em que um cara sai pela rua gritando: “Assassinato! Assassinato!” Quiseram que eu colocasse, por respeito à língua, “assassínio”, pra evitar o “galicismo”… Quem sai à rua gritando “Assassínio!” é bicha.

Os excessos, como sale, delivery ou 50% off não incomodam a você?
O estrangeirismo não me incomoda. É evidente que essa coisa pouco natural de importar outra língua é muito Barra da Tijuca [bairro da elite carioca], é esse negócio de Estátua de Liberdade de gesso colocada na frente da porta. Pode haver a penetração que quiser, mas é preciso fazer as coisas que nos são naturais. O cara que use delivery com as nega dele. Eu, por exemplo, escrevo aquilo que chega até mim, naturalmente. Devo ter sido a primeira pessoa a escrever whisky na forma “uísque”. E ficou. Uso “saite” no lugar de site, que já está consagrada. Os portugueses usam “sítio” e é legítimo. A língua é assim, arbitrária. Se dependesse só do meu arbítrio, aí eu faria uma moção pros órgãos oficiais. Não há porquê do Banco do Brasil usar home delivery quando poderia simplesmente fazer “entrega em domicílio”. Os órgãos oficiais brasileiros não podem fazer esse tipo de coisa.

Qual o caminho para escrever bem?
Escrever bem é expressar-se. Usar sujeito, verbo, predicado e, a partir daí, fazer todas as variações. Não deixo margem a dúvida quando digo “um homem de terno branco atravessava a rua num dia de domingo”. Mas jamais escreveria a frase pomposa do Machado de Assis que está lá na Academia [Brasileira de Letras]. Nem improvisada foi, pois estava num poema dele. “A glória que fica eleva, honra e consola”. As palavras não têm a menor hierarquia. Quando se diz “a glória que fica” já acabou a frase, já se sabe que é com a ABL, ela está se referindo às glórias literárias. “Eleva” e “honra” são dispensáveis e nem dá para saber o que uma glória consola: da tremedeira das mãos, de doença? Veja, no entanto, um escritor como Camões. Ao se dirigir ao rei Dom Sebastião, o poeta afirma que “a disciplina militar prestante / não se aprende, senhor, na fantasia, / sonhando, imaginando ou estudando, / senão vendo, tratando e pelejando”. Repare que ele não diz “tratando, pelejando e vendo” – pois seria o caso de um sujeito que sai na porrada sem pensar. Quem não sabe escrever não cria esse tipo de hierarquia, pouco importa. Quando uma hierarquia não é tão precisa entre as palavras, o sujeito quebra a cara. Nenhuma palavra é gratuita. Um texto, por exemplo, não pode “condenar” algo quando na verdade seu autor pretendia dizer “evitar”. Não.

É possível escrever bem sem ler muito?
Não!

Mas é possível desenvolver um instinto natural para escrever bem?
O instinto pode levar a escrever, mas uma pessoa simplória tende a ter um discurso simplório. Quando escrever, fará um texto simplório. Quanto mais formas de escrita você conhecer, mais habilidade terá em sua própria escrita. Sei que há quem nos desminta. Outro dia, peguei dois volumes de Rubem Braga. Um feito quando ele tinha 25 anos e outro aos 40, já embaixador no Chile. Ambos são de uma precisão, mesmo em 20 linhas. Eu, que não gosto de enfeiar com sinais gráficos o que escrevo, por vezes vejo que as coisas que faço vão ficando complexas e sou obrigado a usar travessão e intercalações para deixar tudo mais claro. Rubem Braga não faz nada disso. É de uma densidade de quem não quer nada.

Quem se expressa bem, falando, no Brasil?
Ninguém que supere o Carlos Lacerda [jornalista e político da antiga UDN, 1914- 1977]. Hoje, falam que um Pedro Simon é um grande orador e eu me escandalizo. A retórica dele é feita de gritos, de berros. Lacerda, não, trazia tudo alinhavado, com uma capacidade de argumentação impressionante. Nem locutores de TV, que lêem tudo mastigado no teleprompter [monitor de caracteres], sabem falar. Você pega o [apresentador do ‘Jornal Nacional’] William Bonner, fala “errado” o tempo todo, porque enfatiza as palavras indevidamente ou enfatiza demais a frase. De todos, o [jornalista] Franklin Martins é o melhor, diz tudo de maneira correta. Veja o Carlos Nascimento. A televisão deixa o cara dar palpites, que são no mínimo conservadores, quando não reacionários – e ele nem percebe.

Dos nossos ex-presidentes e do atual – Sarney, FHC e Lula – quem se expressa melhor em português?
Que parada! Fernando Henrique diz besteiras o tempo todo. Como um cara inteligente diz que o povo deveria fazer checkup e que tem o pé na cozinha? Teria o pé na África e olhe lá. Ao dizer “pé na cozinha”, é pejorativo. Fernando Henrique é empolado demais da conta. Já o Lula diz bobagens do tipo “as mulheres são desaforadas”. Diz também sem saber o que está dizendo. Pensa que está elogiando, sendo engraçadinho, mas não tem noção das palavras. Ocorre que ele tem pronúncia até melhor que o FHC, mesmo engolindo palavras. Já Sarney é o Lula em barroco. Escreve um romance débil mental e passa a ser considerado uma revolução nas letras nacionais.

É atribuído a você um texto que circula na internet, uma apologia ao palavrão. Terem acreditado que se tratava de um texto de sua autoria o ofendeu em que medida?
É a pior coisa pegarem um texto que não é seu, que você escreveria melhor, e atribuir a você. Já escrevi muito sobre palavrão, e não para fazer gracinha. Em 1978, quando fiz a tradução de A Volta ao Lar, do Harold Pinter, O Globo veio em cima, dizendo que eu inseri palavrões para torná-la picante, comercial ou subversiva. Escrevi um artigo enorme contestando. Tudo que penso sobre o assunto está lá. Não preciso fazer gracinha com a questão. Mas internet é terra de ninguém. Não fiquei ofendido, nem fui lá reclamar. Isso me mata de tédio.

Quando os eruditos descobriram a língua, ela já estava completamente pronta pelo povo. Os eruditos tiveram apenas que proibir o povo de falar errado.

No princípio era o verbo. Defectivo, naturalmente.

Como não é machista, sempre que a frase tem maioria de mulheres o autor usa o pronome feminino [comentando a frase: “Ivan Pinheiro Machado, com as editoras Fernanda Veríssimo e Jó Saldanha tomaram para elas próprias…”]

Entre o porque e o por quê há mais bobagem gramatical do que sabedoria semântica.

Por quê? É filosofia. Porque é pretensão.

Está bem, lingüista, se dois é ambos,
por que três não é trambos?

As palavras nascem saudáveis e livres, crescem vagabundas e elásticas, vivem informes, informais e dinâmicas. Morrem quando contraem o câncer do significado definitivo e são recolhidas ao CTI dos dicionários.

Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos.

É evidente que no princípio foi a interjeição, insopitável pelo espanto diante do fogo, do raio. Depois foi o substantivo para designar a pedra e a chuva. E logo o adjetivo, que fazia tanta falta para ofensas. Mas eles continuam insistindo em que no princípio era o verbo.

Que língua, a nossa!
A palavra oxítona é proparoxítona.

Extraído do Livro:Millôr Definitivo – A bíblia do caos
Porto Alegre: LP&M, 2000, 524 páginas

Ruy Fausto e as posições políticas da intelectualide brasileira

 Para filósofo, conjunto da intelectualidade faz crítica pouco sofisticada ao governo Lula

Posições de intelectuais brasileiros me assustam RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

Para Ruy Fausto, professor emérito de filosofia da USP, o conjunto das posições políticas da intelectualidade brasileira -e seus fundamentos teóricos- não passa de um “sistema de erros”. “As posições políticas dos intelectuais brasileiros em geral me assustam”, diz o autor do recém-lançado livro de ensaios “A Esquerda Difícil” (Perspectiva). Fausto critica desde os que segundo ele pertencem à “extrema esquerda niilista intelectual” até os que, saindo da esquerda, se aproximaram recentemente do PSDB.
Niilistas de esquerda (a exemplo, segundo o autor, do filósofo Paulo Arantes) e tucanos terminam, para Ruy Fausto, fazendo uma crítica pouco sofisticada ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ao momento que vive o Brasil.
No meio do caminho, encontra e ataca intelectuais petistas que tentaram negar a existência do mensalão -o caso mais estridente desse tipo de atitude, não nomeado por ele, é o da filósofa Marilena Chaui.
“Lamentavelmente, parte da intelectualidade do PT tomou a defesa do partido, e portanto dos corruptos, e pôs a culpa na imprensa pelo escândalo, como se ela tivesse montado o essencial”, afirma. “A tendência a transformar tudo em complô da mídia é propriamente lamentável, e mostra a total desorientação de parte da intelectualidade petista.”
A seguir, trechos da entrevista, realizada por escrito.  

FOLHA – Em seu livro, o sr. condena certa crítica ao governo Lula que identifica com uma “extrema esquerda intelectual niilista”. Ataca também a “crítica política compacta de um mundo globalizado, em que não se vê nenhuma possibilidade de saída”. O que marca essa crítica?

RUY FAUSTO – As posições políticas dos intelectuais brasileiros em geral me assustam. Isso parece muito pretensioso, mas o conjunto me parece um sistema de erros. Esquematicamente, os intelectuais tendem a assumir três posições diferentes, e a meu ver, as três equivocadas. Há por um lado os radicais, por outro os petistas, em terceiro lugar os que abandonaram a perspectiva de esquerda, e aderem a partidos como o PSDB.
O que chamei de niilismo é uma das duas variantes do primeiro grupo, que inclui igualmente uma variante revolucionária tradicional.
O que visei falando em niilismo? A tendência a falar num fechamento global da situação, e numa suposta impossibilidade em tomar qualquer atitude politicamente acertada e produtiva.

FOLHA – Há riscos nesse tipo de crítica? O que se perde aí?
FAUSTO
– Claro que a situação é difícil, e é preciso esforço para definir que iniciativas poderiam representar um bom programa à esquerda no Brasil. Ela só é problemática no sentido de que, para se reorientar, é preciso se desvencilhar de um certo número de preconceitos.
Quanto à posição de Paulo Arantes, é muito marcada pelo marxismo, com a novidade, muito relativa, de que há um pessimismo em relação às possibilidades da revolução. Isso é muito pouca coisa como “aggiornamento” teórico.
O autor continua pensando no interior de um esquema maniqueísta, em que há o capitalismo onipotente, e as forças que tentam se opor a ele, sem sucesso. Esse tipo de esquema, na realidade hiperclássico, o leva a erros enormes, como um que assinalo em um dos meus textos: o Gulag (como também Auschwitz) é considerado como fenômeno capitalista!
Como digo no meu livro, no esquema dualista (em certo sentido, mesmo, monista) do autor, tudo aquilo que cai na rede da contemporaneidade (se não for socialista, e o autor não é tão ingênuo a ponto de pensar que o Gulag tem algo a ver com socialismo) há de ser peixe capitalista. Que se trate de um “tertius”, nem capitalismo nem socialismo (o que é evidente para 90% da esquerda européia, já há bastante tempo), isso não lhe passa pela cabeça.

FOLHA – No livro, o sr. indica ter ainda confiança na capacidade de o PT representar um projeto de esquerda democrática no país. Num comentário, entre colchetes, afirma em seguida que essa crença se perdeu. Como foi?
FAUSTO
– É. Quando escrevi o artigo, creio que foi em 2004, ainda tinha esperança no PT, depois perdi. Diria que foi impossível continuar a acreditar no PT, desde que se revelaram os primeiros escândalos ligados ao chamado mensalão. O assunto corrupção é sério demais para ser considerado de um modo ligeiro, para quem acredita em democracia. Lamentavelmente, parte da intelectualidade do PT tomou a defesa do partido, e portanto dos corruptos, e pôs a culpa na imprensa pelo escândalo, como se ela tivesse montado o essencial.
A tendência a transformar tudo em complô da mídia -que está longe de ser inocente, principalmente na sua atitude para com o governo Lula, mas, no caso do mensalão, fora as diatribes sinistras contra intelectuais do PT proferidas por certa revista, ela acertou muito mais do que errou- é propriamente lamentável, e mostra a total desorientação de parte da intelectualidade petista.
Não se defendem princípios, defende-se um partido. Como se os partidos não apodrecessem, e como se eles fossem mais importantes do que um projeto socialista democrático sério. Essa atitude mistificou parte da opinião universitária, que “não acredita” no mensalão, como se se tratasse de um problema de crença ou de fé (se o mensalão era quinzenal, ou semestral, isso interessa pouco, o essencial é que houve corrupção, e grande). Com isso não quero dizer que nada preste no PT, nem que ele não tenha mais interesse. Há certo número de pessoas honestas e com convicções ali. Só que são minoritárias. Veremos se ainda podem desempenhar algum papel.

FOLHA – O sr. também cita as críticas da imprensa e de “partidários do governo antigo”, e afirma que a situação do país, e do governo Lula, exigiria uma “finura crítica” maior.
FAUSTO
– O terceiro engano (o primeiro é o radicalismo, o segundo o petismo acrítico) é a adesão aos partidos de centro e de centro-direita. Não estou dizendo que FHC e cia. sejam monstros, com os quais todo diálogo seja impossível. O diálogo é sempre possível, e dentro do PSDB há tendências desenvolvimentistas, como há gente pessoalmente honesta etc.
Mas isso não é suficiente, longe daí, para justificar um deslizamento de pessoas que foram de esquerda (ver o PPS, e alguns intelectuais) em direção ao PSDB. Aderir ao PSDB, ou “adotar” a política dos tucanos é renunciar a uma posição de esquerda. O que significa: é abandonar a idéia de que é preciso antes de tudo combater a desigualdade monstruosa que existe no país, e a de que toda política deve visar em primeiro lugar a luta contra essa desigualdade, e o estabelecimento de uma situação em que os pobres não sejam mais hiperexplorados ou marginalizados.

FOLHA – Ao recusar a “extrema-esquerda niilista”, petistas e tucanos, o sr. se situa onde?
FAUSTO
– A reorientação política em si mesma não é difícil, senão no sentido de que é preciso vencer preconceitos arraigados. No plano prático, claro, tudo é muito difícil. O mais importante por ora é travar uma luta pela hegemonia das idéias de um socialismo crítico e democrático. Isso é o que dá para fazer por enquanto. É limitado, mas é muito importante.
Creio que precisaríamos de uma revista, mas uma revista com gente que tenha posições bastante convergentes, e que se disponha a trabalhar no sentido de uma crítica intransigente ao petismo acrítico, ao revolucionarismo -inclusive o niilista- e às pseudo-sociais-democracias nacionais, que na realidade não têm nada de social-democratas. Uma revista política e teórica que fosse nessa direção representaria um passo importante, no sentido da preparação de uma reorganização política. Pelo menos denunciaríamos os sofismas e as jogadas de uns e outros. A partir daí, e entrando em contato com o que existe de melhor em vários grupos ou partidos (há gente politicamente sã, mesmo se minoritária, um pouco por todo lado, inclusive fora de grupos ou partidos) veríamos o que seria possível fazer a médio prazo.

FOLHA – O sr. fala em desafios para a esquerda, que seja capaz de repor projetos de futuro e de pensar criticamente a herança marxista. O que no marxismo ainda pode ser usado?
FAUSTO
– Defendo que é preciso “atravessar” Marx e o marxismo. Há neles um lado que é suficientemente vivo, e há um lado definitivamente morto.
Esquematicamente, acho que o corpus marxiano funciona bastante bem, ainda, como crítica (digo, em termos gerais, mas essenciais) do capitalismo. Mas funciona muito mal como política, e em grande parte, como filosofia da história.
Principalmente, ele não serve para decifrar e criticar os totalitarismos. Por isso mesmo, ele serviu e serve como ideologia para estes últimos, mesmo se sob formas modificadas. A tragédia da esquerda atual é que pouca gente pensa assim.
Grosso modo, na Europa domina a idéia de um Marx inteiramente morto, no terceiro mundo o de um Marx senão inteiramente pelo menos essencialmente vivo. As duas teses são erradas, e suas conseqüências são simetricamente catastróficas. Acho lamentável que intelectuais de bom nível continuem enchendo a cabeça da juventude com contos da carochinha sangrentos como o da “ditadura do proletariado”, fazendo abstração de tudo o que aconteceu no século 20.
No outro extremo, há, na Europa sobretudo, uma tendência de recusar Marx de forma absoluta, em todos os seus aspectos. Uma espécie de alergia a Marx.
O resultado não é menos desastroso. A esquerda se perde no terceiro e no primeiro mundo, mas por razões opostas.

FOLHA – Como seria esse projeto futuro de socialismo que respeita a democracia e abre mão, em grande medida, da violência?
FAUSTO
– Não é fácil propor programas. Mas é possível pensar em algumas idéias. Além da preservação e ampliação dos direitos democráticos no plano civil e político, e de uma atitude absolutamente intransigente em relação à corrupção, caberia tomar medidas de redistribuição de renda. Nesse plano, uma modificação das regras de cobrança do imposto de renda se impõe. Associada a medidas econômicas que facilitem o desenvolvimento, ela poderia liberar fundos que permitissem verdadeiras reformas no plano da educação e da saúde.
Sem uma política radical de redistribuição de renda, as necessárias reformas da previdência e da educação se transformam em mini-reformas de eficácia muito limitada.
Há por outro lado, os projetos de economia solidária, as cooperativas essencialmente, que têm dado resultados positivos em outros países.
A longo prazo, o objetivo seria uma sociedade em que há mercadoria e mercado, mas em que o capital é de uma forma ou de outra controlado, e neutralizado nos seus efeitos.

FOLHA – É realista falar ainda em projeto socialista?
FAUSTO
– A situação é difícil. Mas em primeiro lugar é preciso pensar com lucidez e clareza, o que significa, se dispor a repensar a tradição socialista sem preconceitos. Claro que isso não nos tira da situação atual.
Mas é condição necessária. A idéia de que não há mais classe que suporte projetos de mudança é tradicional demais.
Também a idéia de que há integração de todos ao sistema teria que ser posta à prova. Enquanto se falar da derrota do socialismo a propósito da derrocada do socialismo de caserna, enquanto se continuar a ter ilusões com o castrismo, o chavismo etc etc, é inútil se queixar de que não se vêem saídas. Resolvam primeiro essas confusões, abram-se para um discurso lúcido radical-democrático, e depois veremos o que fazer.

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Princesa, a peça, o drama.

Drama sobre travesti é esquemático
CRÍTICO DA FOLHA

O cinema de boas causas corre sempre o risco de provocar efeito reverso. Basta que o tratamento ficcional sugira, pela sua fragilidade, que não havia ali por que recriar aquele recorte da sociedade em forma de filme, como ocorre em “Princesa”, concluído em 2001, mas só agora lançado em São Paulo. Em seu longa-metragem de estréia, o brasileiro Henrique Goldman (envolvido, neste momento, em projeto sobre Jean Charles de Menezes, morto pela polícia britânica em 2005) se baseia no livro “A Princesa – Depoimentos de um Travesti Brasileiro a um Líder das Brigadas Vermelhas” (1994), de Fernanda Farias de Albuquerque e Maurizio Jannelli, para mergulhar no cotidiano de brasileiros que se prostituem em Milão.
O protagonista é Fernando, ou Fernanda (Ingrid de Souza), que desembarca na Itália com um punhado de sonhos. Alguns se desmancham no ar assim que chega às ruas; outros se transformam em conto de fadas que caminha perigosamente para um final triste.
No filme, essa história adquire contornos simplistas e esquemáticos. Enquanto se empenha em contá-la, “Princesa” não alça vôo. Mas, quando se dedica em alguns momentos a tentar traduzir, com imagens e música, os desejos e sensações do personagem em corpo e terra estranhos a ele, aponta para um caminho mais eficaz na defesa da causa. (SR)

PRINCESA
Produção: Itália, 2001
Direção: Henrique Goldman
Com: Ingrid de Souza, Cesare Bocci e Lulu Pecorari
Onde: no HSBC Belas Artes
Avaliação: ruim