DACS / 1978, estate of Duncan Grant, courtesy of Henrietta Garnett and Paul Roche; National Portrait Gallery, London
Vanessa Bell (née Stephen)  by Duncan Grant
oil on canvas, circa 1916-1917
50 in. x 40 in. (1270 mm x 1016 mm)
Purchased, 1982
NPG 5541

Copyright © 2003 Estate of the Artist, Courtesy of Henrietta Garnett.Angelica Playing the Violin, 1934 by Duncan Grant
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Falando de Amor

Por Marcelo Ferlin Assami
Poder do Amor sobre o Universo
Eustache Le Sueur – L’Amour ordonne à Mercure d’annoncer son pouvoir à l’Univers, Eustache le Sueur,1644, Musée du Louvre.

O amor não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.”  (ICoríntios 13 :6)

“Volto à Bíblia para falar de amor porque em nenhuma obra moderna encontro equivalente. O papel hoje recebe impressão de terapias, de críticas, de ódio, tudo disfarçado de amor.
Amor, hoje, só nas letras de música do pop, e com sofrimento.
Não terminei ainda a Comédia, mas no final de cada parte, Dante insiste em ver estrelas, e encerra a obra com o verso: “l’amor che move il sole e l’altre stelle”.
Caminho pelas ruas de São Paulo, o que para os cínicos parece um verdadeiro exercício de amor, e me pego transbordado, cheio dessa sensação de olhar para prédios, carros, árvores e pessoas e sentir-se bem, sentir carinho, satisfação, interesse.
E sem deixar de ver a feiúra, física ou moral, a sujeira do centro, a gritaria dos que não sabem falar. A cidade com nome de santo é mesmo uma ilha do purgatório, como disse alguém que ouve Nick Cave cantando “Here Comes the Sun”.
Há muita maldade no mundo, há muita maledicência na rede, e, se perco meu tempo apontado o ridículo dos líderes, tento sempre recusar o ódio.
E é fácil odiar. A indignação moral é o primeiro passo para aceitar o ódio. Você pode subir a escada ou pode descer, onde encontrará outra tentação, o desespero. O desespero é cinzento? Ele arde em quem foi consumido pelo ódio sem nada ter produzido nem alcançado com isso.
E há os que sobem a escada, os que construíram grandes coisas com seu ódio e com sua indignação moral. Estes são peões de obra. Um cavalheiro não odeia, debocha. Um cavalheiro se recusa a tal trabalho de pedreiro.
Para quem acha cavalheirismo coisa de fresco ou para quem não entende o que é ser cavalheiro, mais um versículo:

“Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.” 1 Coríntios 14: 20
As crianças amam e odeiam facilmente, mas nenhum engenho frutifica da malícia infantil. Nada constróem com seus ódios. E, se cabe mais uma digressão, o fundamento do cavalheiro é o fair play, a existência não é uma brincadeira, mas a vida humana, a vida que levamos, está bem longe de ser séria, e me recuso a ser envenenado.
Atravesso as ruas e penso no que se repete ao longo dos dias. Todo dia parece necessário dizer ao próximo: você não é obrigado a nada, você é livre, todas as suas preocupações são responsabilidades suas, você sabe que pode parar de fazer da própria vida o seu inferno.
E não abro a boca para dizer nada disso. Por timidez? Por querer publicar mais um livro de auto-ajuda e forrar o cu de dinheiro? Talvez, mas também por respeito. Que eu ame as pessoas, isso não me cega, há mais disposição para falar e reclamar do que para ouvir.
A fala não tem sido o melhor instrumento. A escrita muito menos, o ódio tem mais aceitação, mesmo nos blogs, que o amor.
E, no entanto, é o amor que move as estrelas.”
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O Sebo – Carlos Drummond de Andrade

(Para o Alfredo Bragança)

O SEBO

O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e pouco mais, os sebos cariocas foram se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo de moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa este visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é “gente”, na cidade das letras, e como “gente”, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto… mas pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida : operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que me pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo a tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, mas não muito, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como frequentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso ( como os livros ), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeveriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas mas há do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva”. Lá em casa não cabe mais nem aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando lugar dos dicionários, mas o frequentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria pra casa!”. Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável prosmicuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstói e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz… Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.

Carlos Drummond de Andrade in: O Poder Ultra-Jovem