Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

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Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

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Ainda sobre Monteiro Lobato e o politicamente coreto

Aqui a crônica de Vivina de Assis Viana publicada no Primeiro Programa.

E um  dos melhores comentários recebidos e a expressão pessoal de uma brilhante e voraz leitora:

Meg,

tive uma leitura pouco orientada. Com o discernimento de uma traça, fui devorando livros e livros.
Livros de adulto, livros de criança. Literatura de primeira e livros de quinta. Quadrinhos, tiras, biografias, o escambau. O critério era: é de papel? Escrito em português? Então tá valendo!
Claro que algumas coisas, lidas sem a maturidade necessária tiveram (ou terão) de ser relidas. Mas não acredito que tenha tido muitos prejuízos com isso, pelo contrário.
Meus pais me puseram em contato com livros, e eu lia sem restrições. Em caso de dúvida, perguntava aos meus pais, tios, professoras, pesquisava na enciclopédia. E, no meio dessa bagunça toda, eu li as Caçadas de Pedrinho. E muitos outros livros do Lobato. Talvez quase todos, não tenho certeza.
É claro que retratava preconceito. Um preconceito que havia, aliás. Ou será um preconceito que há, mas que fazemos de tudo para esconder? O fato é que hoje em dia, na cantiga de roda, não se atira mais o pau no gato…
Da primeira vez que ouvi essa ignomínia, fiquei indignada. Quem deu autorização pra mudar a cantiga de roda, centenária? E pode ter certeza, eu nunca maltratei nenhum bichinho por causa da cantiga. Nem conheço ninguém que o tenha feito.
O que estamos querendo de nossas crianças quando pintamos para elas um mundo fora da realidade? Estamos sendo esmagados pelo politicamente correto. Beirando a alienação coletiva.
Primeiro, protegemos as crianças da realidade. Não as ensinamos a discernir. Escondemos o que julgamos errado, e pronto: o mundo inteiro se torna um grande Backyardigans.
Depois jogamos sobre elas uma quantidade violenta de informação. O problema é que sem discernimento, não se sabe diferenciar o certo do errado.
Daí para se estar incitando a violência ou os preconceitos por meio de redes sociais,é um pulo.
As crianças que estamos criando, parece, só terão dois destinos: ou serão adultos limitados, ou serão criaturas sem limites, por não saberem a diferença entre o certo e o errado.
Porque a literatura tem de ser fácil, mastigada para eles? Porque não podem aprender a discernir? Criticar?
Convivo muito com crianças e com suas mães. A julgar pelos padrões atuais, eu deveria ser irremediavelmente traumatizada. Afinal, li o que não devia, cantei as cantigas erradas, competi, ganhei, perdi, fiquei de castigo, pulei muro, fiz bagunça, levei palmada, fiquei sozinha em casa, comi o cachorro quente que vende na esquina.
Isso sem falar que vi o Pica Pau na tv. Todos os episódios: TODOS! Deveria estar morta, ou, no mínimo, pior que a Cristiane F. (aliás, li esse livro por volta dos 12 anos).
Mas, curiosamente, me sinto muito bem… Ou seja: na dúvida, dê o livro pra criança ler. Leia com ela. E discuta. Políticas de censura são burras e inadmissíveis num país livre.
Aliás, melhor Monteiro Lobato – literatura de qualidade – do que um livro qualquer sobre vampiros vegetarianos.

Expresso aqui no Ainda podia ser pior de Marilia Jacquelyne.
Marilia é brilhante. Confira.

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E um link definitivo sobre Monteiro Lobato. Um conto: Negrinha.

Acachapante denúncia, gerida exposta. É ler e refletir. Mas isso parece ser muito difícil, mais fácil é censurar, olhyar sem ver. Nesta página, há uma breve exposição do que foi a vida pública e literária de Lobato

Enviado pela professora Rose Marinho Prado,  que sempre tem um olhar original, bem humorado, muitas vezes ácido e que nos traz uma compreensão poética  de seu mundo,  por intermédio de uma indiscutível maestria da escrita.

Confira o que eu digo, o pensamento de Rose Marinho Prado aqui.

E leiam também aqui., descobri só agora. Leitura em companhia (beleza de título)

LOUISE LABÉ: criatura de papel?

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008

Escritora, feminista, Simone de Beauvoir, esquerdista militante

Crítica a Simone de Beauvoir marca o centenário da intelectual feminista

Octavi Martí
(Em Paris)

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros”. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68” citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

Arquivo Última Hora
Simone de Beauvoir ao lado do escritor Jorge Amado (centro) e do filósofo Jean-Paul Sartre

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -“A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -“Castor de Guerre”– pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

SOBRE O FEMINISMO

“Se ser feminista é ser um homem como qualquer outro, como queria Beauvoir, então não sou feminista!”Antoinette Fouque, fundadora do Movimento de Libertação daMulher, na França. ”

A leitura de seu livro ‘O Segundo Sexo’ me causou a impressão de ter-me colocado óculos para ver o mundo.” Wendy Delorme, escritora, atriz e militante das Panteras Rosa.

“É importante que tenha demonstrado que a masculinidade não estava reservada aos homens, mas era um signo cultural e social acessível a todas. Isso é o revolucionário.” – Marie-Hélène Bourcier, estudiosa e crítica da obra de Simone de Beauvoir.

“Depois de ler ‘O Segundo Sexo‘, sei tudo sobre a vagina da autora. É asqueroso.” François Mauriac, romancista

“A posição ética de Beauvoir me apaixona por seu radicalismo: ela prefere mudar a ordem do mundo do que mudar de desejos.”Danièle Sallenave, autora da biografia crítica de Beauvoir “Castor de Guerre“.

EL PAÍS –

JEAN PAUL SARTRE

“Divina Comédia” lidera no dominiopúblico.gov.br

Obra de Dante Alighieri desbanca Fernando Pessoa e Machado de Assis e é a mais procurada no portal Domínio Público

Crise da arte contemporânea, aparição do autor em obras atuais e até novela da Globo são causas do sucesso na opinião de especialistas

Reprodução
Clássico de Dante lidera o ranking de downloads
Fonte: Site do Domínio Público, dados de ontem

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Engana-se quem pensa que é Machado de Assis, Shakespeare, Fernando Pessoa ou qualquer outro livro da lista dos obrigatórios para o vestibular o mais procurado dos que estão em domínio público. A obra com mais downloads no portal do governo que pretende reunir os livros disponíveis gratuitamente -ou, pelo menos, os mais importantes- é do século 14, foi escrita em toscano e teve seus versos traduzidos para o português do século 19 por José Pedro Xavier Pinheiro, um baiano que morreu em 1882.
Os números são do portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br), mantido pelo Ministério da Educação: “A Divina Comédia”, do florentino Dante Alighieri (1265-1321), deixa para trás, e por muito, clássicos como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, e “Dom Casmurro”, de Machado -168 mil acessos contra 41 mil e 39 mil, respectivamente.
São obras de domínio público as escritas por autor morto há mais de 70 anos; o site também abriga aquelas cujos autores ou as famílias concedem uma licença. Foi o caso de “Grande Sertão: Veredas” -um link do Domínio Público deu acesso à íntegra do livro durante as comemorações de 50 anos da obra de Guimarães Rosa; depois, a editora Nova Fronteira a retirou da rede. A ação foi considerada “promocional” por funcionários do ministério.

Comédia
“A Comédia dos Erros”, de Shakespeare, aparece em quarto lugar na lista das mais baixadas no site -a coincidência do nome com a primeira colocada dá corda para uma piada corrente no MEC, segundo a qual o internauta mais desavisado estaria baixando as duas obras pensando fazerem elas parte do gênero cômico.
Já Maria Teresa Arrigoni, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e especialista em Dante, associa o fenômeno a uma reaparição da obra do autor em manifestações artísticas atuais, como o suspense best-seller “Os Crimes do Mosaico” (Planeta do Brasil, 2006), de Giulio Leoni, que tem o próprio Dante como detetive.
Até mesmo a novela “Sete Pecados”, da Globo, entraria nessa retomada dos temas da “Divina Comédia”, dos pecados à própria noção de paraíso, inferno e purgatório. A noção de purgatório, aliás, era recente quando a obra foi escrita, aponta Arrigoni. Estudos do historiador francês Jacques Le Goff mostram que ela surgiu por volta do século 13.
O professor de teoria literária da Unicamp Carlos Berriel, por sua vez, aponta a coincidência -não casual- da ascensão de Dante com o que chama de crise da arte contemporânea -“”uma crise que antecede o desaparecimento”.
“A agonia da Bienal de São Paulo é um lado da mesma moeda do interesse em Dante”, diz. “Certas manifestações do moderno estão esgotadas, e a Bienal, que é a expressão máxima do moderno, não diz mais nada a mais ninguém.”
Na opinião de Berriel, Dante organiza o mundo. “Ele torna o além algo totalmente hierarquizado. Mostra que, por princípio, todo mundo pode organizar o seu inferno, céu e purgatório. Dante é antípoda da nossa época de ausência de hierarquia, de valores, com uma cultura descentrada.”
O coordenador do Domínio Público, Marco Antonio Rodrigues, por sua vez, apresenta outras hipóteses para o sucesso de Dante. Primeiro: “A Divina Comédia” foi uma das primeiras obras a serem cadastradas no portal. Segundo: diferente de “Dom Casmurro”, por exemplo, só tem uma versão na página. E, por fim, após o alto número de acessos, foi criado um link específico para a obra no menu do Domínio Público.
A própria lista das obras mais acessadas, aponta, é uma alavanca para que as primeiras colocadas permaneçam no rol -ela motiva os internautas a conhecer os “hits”.
Essa seria uma explicação também para outros “fenômenos” do portal, como os infantis “A Borboleta Azul” e “O Peixinho e o Gato”, da professora baiana Lenira Almeida Heck, hoje moradora de Lajeado (RS), que ficam em segundo e terceiro lugar no ranking -para se ter uma idéia, “Dom Casmurro” ocupa só a 11ª posição.
Lenira assina, ao lado de seu nome verdadeiro, como “Júlia Vehuiah”, que junta o apelido da mãe, que se chamava Julieta, com o nome de seu anjo. O codinome foi criado na época da composição do hino de Lajeado; seguiu com a autora e, hoje, serve para o que ela chama de despreocupação com o fato de sua obra estar disponível gratuitamente na internet -embora ela não dê permissão para o internauta imprimi-la.
“Sou professora, não dependo só dos meus livros para viver. E, se sou inspirada por Júlia e Vehuiah, a obra não me pertence.” Ainda assim, ela já cuida da memória de seu nome e vislumbra um futuro de sucesso. “Guardo todas as minhas crônicas e tudo o que sai sobre mim. No dia em que eu não estiver mais aqui, vai haver muito material para falar de Lenira Almeida Heck.”

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RETIRADO DAQUI. FOLHA DE S.PAULO (ILUSTRADA)

Norman Mailer 1923-2007(R.i.p)

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Morre o escritor Norman Mailer, aos 84 anos

Vencedor do Pulitzer duas vezes, o jornalista e romancista foi vítima de falência renal aguda, ontem pela manhã

Entre os principais livros do autor norte-americano, estão “Os Nus e os Mortos”, “Os Degraus do Pentágono” e “A Canção do Carrasco”

DENYSE GODOY
DE NOVA YORK

O escritor Norman Mailer, expoente do “novo jornalismo” e um dos maiores nomes da literatura americana do pós-guerra, morreu ontem pela manhã em Nova York, aos 84 anos, de falência renal aguda. No dia 17 de outubro, a família divulgou que ele estava internado no hospital Monte Sinai após realizar uma cirurgia no pulmão.
Vencedor do Prêmio Pulitzer em duas ocasiões (1968, com “Os Exércitos da Noite – Os Degraus do Pentágono”, e 1979, com “A Canção do Carrasco”, ambos fora de catálogo no Brasil), o escritor também era conhecido pelo estilo violento e por seu antagonismo ao feminismo. Romancista, ensaísta e repórter, publicou mais de 40 livros, transitando entre a ficção e a não-ficção.
Nesta semana, saiu seu último livro, “On God: an Uncommon Conversation” (sobre Deus: uma conversa incomum), ainda inédito no Brasil, no qual critica o presidente George W. Bush e a guerra do Iraque. O romance “The Castle in the Forest” (o castelo na floresta) foi lançado no início do ano nos EUA e deve ser publicado em dezembro no Brasil pela Companhia das Letras.
Mailer escreveu uma biografia de Marilyn Monroe e contou a história de Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John Kennedy. “Uma coisa que eu sempre quis ser foi escritor”, comentou. “Queria escrever um romance que Dostoiévski e Marx, Joyce e Freud, Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler, Faulkner e até o velho e mofado Hemingway quisessem ler.”

Trajetória
Judeu nascido em Long Branch, no Estado de Nova Jersey, em 31 de janeiro de 1923, o escritor cresceu no Brooklyn, em Nova York, cidade que testemunhou seu estilo de vida ruidoso -era fumante inveterado, mulherengo, bebia e sempre arrumava encrencas. “Nova York acaba comigo. Não consigo mais ficar a noite toda na rua e escrever no dia seguinte”, disse. Há dez anos, adotou o que chamou de “vida abstêmia” e se mudou para Provincetown, Massachusetts, com a mulher, Norris Church.
Casou-se seis vezes e teve nove filhos. Em 1960, ele esfaqueou com um canivete a sua segunda mulher, Adele Morales, com quem estava desde 1954. Acabaram se reconciliando; e ela contou a sua versão do ocorrido na biografia “The Last Party” (a última festa). Por conta desse episódio e de alusões a agressões sexuais em sua obra, era freqüentemente criticado pelo movimento feminista.
Formou-se em engenharia aeronáutica por Harvard em 1943 e e serviu no Exército durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência é contada em seu primeiro romance, “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Muito bem recebido pela crítica, o livro chegou ao topo da lista de mais vendidos.
Candidato à Prefeitura de Nova York em duas ocasiões, Mailer afundou a própria campanha ao chamar seus aliados de “bando de porcos mimados”. Descrevia-se como um “conservador de esquerda” e dizia detestar o capitalismo.

NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” [“Dinheiro Queimado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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