PARA LER COMO UM ESCRITOR

PARA LER COMO UM ESCRITOR – UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVÊ-LOS

É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que, sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa, em busca do segredo do ‘escrever bem’. De cada um, extrai lições.

A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividadenão pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso Perdido, ou Kafka suportando um seminário em queseus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeitoacorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não osconvence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo?Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendouma fraude criminosa.

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frasee identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que afrase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada:clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiropúblico real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópiapermitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nossotrabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a sermeu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mimfoi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimuladapela ânsia que tinham de ouvir mais.

Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoasque me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma ofi cina podeser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que oajudará e sustentará.

Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendia escrever.

Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendoe lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente dealguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores.Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero,comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases clarasde Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhoresprofessores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio,tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres deuma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continha, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentementeuma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em quecito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagensde suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco maisfluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de quemais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneiramais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como oescritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregandodetalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgulade volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderandocada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução,posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particularesda arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode serensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemosa escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que desejaser escritor a compreender como um escritor lê. (…)

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A fé de Arthur C. Clarke (do NYT)

Ficção científica do britânico, morto na última quarta-feira, é permeada de linguagem religiosa

Divulgação
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Cena de “2001: Uma Odisséia no Espaço” em que o comandante Dave Bowman (Keir Dullea) é surpreendido por HAL 9.000

EDWARD ROTHSTEIN
DO “NEW YORK TIMES”

Absolutamente nenhum rito religioso de qualquer tipo deve ser associado com meu funeral”, foram as instruções deixadas por Arthur C. Clarke, que morreu na última quarta-feira, 19 de março,  aos 90 anos. Isso pode não surpreender a ninguém que soubesse que esse escritor de ficção científica via a religião como um sintoma da “infância” da humanidade, algo a ser superado com o crescimento.
Mas esse fervor ainda destoa, porque, quando se trata das escrituras da ficção científica moderna, e da espantosa geração de inovadores proféticos que foram seus contemporâneos –Isaac Asimov, Robert Heinlein e Ray Bradbury-, os textos de Clarke foram os mais bíblicos, os mais preparados para amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo de religião: especular sobre o princípio e os fim, e como passamos de um ao outro.
O filme que Stanley Kubrick fez a partir de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Clarke -em parceria com o autor- assombra não pelo seu imaginário de inteligência artificial e engenharia de estações espaciais, mas por sua evocação das origens da humanidade e sua visão de um futuro transcendente, incorporada em um feto humano solto no espaço.
Até mesmo os títulos de algumas histórias de Clarke invocam a linguagem escritural. “If I Forget Thee, Oh Earth” (“Se Eu Esquecer a Ti, Ó, Terra”) fala de um menino em uma colônia lunar que é levado por seu pai para ver seu planeta-mãe, tornado inabitável pela guerra nuclear, uma experiência que inspira um sonho de retorno futuro a ser passado de geração em geração. Em “The Nine Billion Names of God” (“Os Nove Bilhões de Nomes de Deus”), monges de um convento de ares tibetanos acreditam que o grande desígnio da humanidade é escrever os 9 bilhões de permutações de letras que formam o nome secreto de Deus, um projeto assistido por representantes de uma empresa do tipo IBM, que fornecem o equipamento para que o projeto possa chegar a seu aguardado termo.
O simbolismo religioso nem sempre é benevolente, claro. Naquele que talvez seja o romance mais e perturbador de Clarke, “O Fim da Infância”, uma raça alienígena de Senhores Supremos, com aparente generosidade, estabelece uma utopia na Terra, eliminando as guerras e proporcionando uma era de bonança. Mas não é por acaso que, quando os Senhores Supremos são finalmente descritos, eles têm a aparência de criaturas satânicas, com asas, chifres e cauda pontiaguda.
Qualquer que seja a atitude -e quase sempre ela é ambígua-, a religião percola o reino de Clarke. Ele solicita a tela do Gênese e, sobre ela, encena seus experimentos mentais. Toda ficção científica faz isso até certo ponto, tentando imaginar universos alternativos: e se o carbono não fosse o elemento fundamental dos seres vivos? E se existisse uma sociedade que nunca tivesse visto uma noite?
A obra de Clarke, no entanto, toca as bordas dessa moldura: tenta examinar os momentos em que as coisas começam e quando elas terminam. No conto “Rescue Party” (“Equipe de Resgate”), alienígenas chegam para salvar a Terra de uma explosão solar iminente.
Eles descobrem que os humanos, uma espécie primitiva que descobrira como usar sinais de rádio meros 200 anos atrás, já salvaram a si próprios, lançando uma frota de espaçonaves rumo às estrelas, sabendo que sua jornada levaria centenas de anos. Os salvadores ficam chocados com a ousadia. “Esta é a civilização mais jovem do Universo”, um deles observa. “Quatrocentos mil anos atrás ela nem existia. Como será daqui a 1 milhão de anos?”
O conto profetiza o domínio dessa espécie -um domínio que, como Clarke nos faz sentir, nem sempre é bem-vindo.
Tal apocalipse é o feijão-com-arroz da ficção científica, mas às vezes, com Clarke, é também a comunhão, o momento de transcendência no qual algum destino se cumpre, alguma possibilidade se abre. Daí o feto em “2001”.
Esse lado do trabalho de Clarke talvez seja o mais sinistro, especialmente porque suas especulações místicas vêm acompanhadas de uma capacidade ímpar de imaginar mundos eminentemente plausíveis. Mas atos de racionalidade e especulação científica são apenas o começo de suas visões. A razão pura é insuficiente. Algo mais é necessário. Para qualquer um que tenha lido Clarke nos anos 1970 e 1980, quando a exploração espacial e a pesquisa científica tinham um apelo extraordinário, sua ficção científica tornou aquela empresa ainda mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, na qual os feitos de um punhado de décadas se encaixam numa visão de proporções épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é à toa que duas gerações de cientistas foram afetadas por seu trabalho.
Apesar de sua celebrada capacidade de fazer previsões, é incerto que Clarke soubesse precisamente o que via naquele futuro. Há algo de frio em suas visões, especialmente quando ele imagina a transformação evolutiva da humanidade. Ele deixa para trás tudo aquilo que nós reconhecemos e conhecemos e não dá muitas balizas para vivermos no mundo que reconhecemos e conhecemos. Nesse sentido, seu trabalho tem pouco a ver com religião.
Mas, no quadro maior, a religião é inevitável. Clarke ficou famoso por dizer que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia”. Talvez qualquer ficção científica suficientemente sofisticada, ao menos em seu caso, seja quase indistingüível de religião.

Retirado da Folha de S. Paulo – livre apenas para assinantes: Eis o endereço:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2303200804.htm

 

Paulo Vanzolini

“A Amazônia quer destruir a floresta”, diz Vanzolini

Zoólogo-sambista nega autoria da teoria dos refúgios; “só estudamos um bicho”

Autor de “Ronda” e teórico da biodiversidade, que faz 84 anos em abril, diz que única saída para a floresta é “trancar e perder a chave”

Carol Guedes/Folha Imagem
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O herpetólogo (especialista “cobras e lagartos”, como diz) Paulo Vanzolini, em sua casa em SP

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

A generosidade e as opiniões contundentes -e muitas vezes politicamente incorretas- de um zoólogo compositor poderiam servir de inspiração para um grande samba. Mas Paulo Emílio Vanzolini, que completa 84 anos no dia 25 de abril, não faz mais música. E, mesmo na ciência, anda acertando as contas com sua obra-prima: a teoria dos refúgios.
“Nem deveria chamar teoria dos refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. Não usamos o termo teoria dos refúgios no trabalho de 1970.”
Vanzo, como é conhecido, conta como surgiu a explicação científica mais ilustre (e debatida) sobre a origem da biodiversidade amazônica.
O ano é 1969. Trabalho quase pronto sobre um lagarto do gênero Anolis, que existe em boa parte do Brasil. Vanzolini, que dividia o projeto com o americano Ernest Williams, recebe um pacote da revista científica americana “Science”. Era um trabalho assinado por Jürgen Haffer sobre distribuição de aves na Amazônia brasileira.
“Ernest, acho que passaram a perna na gente”, foi a reação de Vanzolini. Logo em seguida, o trabalho sobre a distribuição de répteis no Brasil foi enviado para Haffer. “Gosto muito dele, que é pessoa inteligente, e, além disso, como bom alemão, gosta muito de cerveja.”
Haffer, que estava na África do Sul, pegou um avião e veio para o Brasil discutir o assunto com Vanzolini. Os dois trabalhos foram publicados em 1970. A concepção dos refúgios, provavelmente, ecoou porque encontrou dois autores generosos, algo nem sempre fácil de ocorrer no mundo da ciência.
Outro pesquisador que contribuiu, com seus estudos paleoclimáticos, para o trabalho de Vanzolini e Williams foi o geógrafo Aziz Ab’Sáber, amigo com quem Vanzo anda chateado. “O Aziz é uma criança. Somos muito amigos, apesar de que agora ele está nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos refúgios. Ele colocou isso na internet.”
Nem Haffer nem Vanzolini aceitam as críticas que vêm sendo feitas nos últimos anos aos refúgios -nome dado às “ilhas” de mata úmida e cerrado que se formaram na Amazônia à medida que o clima oscilou entre seco e úmido da Era do Gelo para cá. Essas “ilhas” isolam geograficamente as populações, estimulando o surgimento de novas espécies.
Mas críticas são algo que não falta quando o zoólogo-sambista fala da Amazônia atual.

Insustentável
“Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. A equipe dessa ministra [Marina Silva] é muito ruim. Você conhece o [João Paulo] Capobianco [secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente]? É o pior que tem. Agora ele inventou essa história de gestão do patrimônio genético”, dispara.
Do governo, Vanzo parte para criticar os próprios moradores da floresta e as ONGs.
“A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa. Enquanto a população crescer, você não vai negar comida”. A única solução é: “Tranca a porta e perde a chave. Enquanto tiver gente e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá?”
Em seguida, muda de bioma, mas mantém o alvo. “O grande mal são as ONGs. Elas são ignorantes e muito militantes. Fico feliz que agora liberaram a usina de Tijuco Alto.” O projeto da hidrelétrica, que poderá ser erguida sul do Estado de São Paulo pelo Grupo Votorantim, se arrasta há 20 anos na Justiça.
“Eu e algumas alunas tínhamos uma firma de impactos ecológicos. Fizemos estudos naquela área. Lá não tem um metro de mata atlântica. Tem só capoeira, o que é pior.”
Mas as boas lembranças amazônicas do autor de “Volta por Cima” -expressão que virou verbete em dicionário e o único samba, segundo Vanzolini, que rendeu algum dinheiro (“Comprei muitos livros com ele”)- voltam logo.
“Uma das maiores emoções que eu tive na vida foi na Amazônia, ao lado do Márcio Ayres [primatólogo morto em 2003], que eu conheci no berço.”
Os dois cientistas estavam atrás de uma espécie nova de macaco e pararam seu barco em uma ilha, na região de Mamirauá. “Logo quando chegamos pensaram que nós éramos regatões e foram logo perguntando o que vendíamos. Dissemos que estávamos trabalhando nessa coisa do mico-de-cheiro. “Qual o senhor quer?” -perguntaram. “O da cabecinha ruiva ou o outro?” Quase desmaiei na hora. Eles já sabiam que eram dois [tipos].”
Quando um exemplar da espécie nova foi encontrado, o próprio Vanzolini matou o animal. Ayres afirmou que não sabia fazer aquilo. “Eu fui lá e matei. Depois taxidermizei e o Márcio descreveu (e fez uma homenagem ao então orientador, dando o nome ao macaco de Saimiri vanzolinii).
Apesar de ter ficado de fora dessa descrição, a obra de Vanzolini não se resume ao estudo que acabou gerando a teoria dos refúgios. Nas coletas de campo ou no Museu de Zoologia da USP, ele não tem conta do número de espécies que descreveu e batizou, principalmente de répteis e anfíbios (“Quem é sério tem perfil baixo”, disse uma vez).
Matar bicho para fins científicos é cada vez mais importante, segundo Vanzolini. “As ONGs acham isso besteira porque elas não entendem de nada”, generaliza o zoólogo.

Rodas de samba
O sorriso maroto volta a se abrir quando Vanzolini – depois de tomar dois cafés feitos por sua mulher, a cantora Ana Bernardo, e elogiá-los muito- volta a falar de música, atividade da qual, diga-se de passagem, ele nunca precisou para viver. “A zoologia foi muito boa para mim. Me deu bom emprego, viagens, boas amizades.”
O compositor está aposentado mas, segundo ele, continua tendo a música como diversão. “Compor é muito difícil. Toma muito tempo. Perdi o gosto.” Porém, alguns botequins do bairro da Aclimação, como o do Heleno, ainda são testemunhas das rodas de samba de que Vanzolini e os amigos costumam participar de longe em longe.
“Ainda frequento, a cada dois ou três meses. Beber eu tive de parar. A proibição é só para cachaça, porque eu tomava um pouco demais. Mas cerveja e vinho eu tomo.”
Vanzolini, que em 2004 ficou 51 dias na UTI após a eclosão de quatro úlceras hemorrágicas e após ter três paradas cardíacas no mesmo dia, continua acompanhando tudo do seu refúgio na Aclimação (uma vila inteira dele e dos irmãos, com e uma das casas para ensaios). A eleição nos EUA, por exemplo.
“E essa do Obama agora? Vai ser a glória. Mas duvido que eles tenham coragem. No fim, eles [os americanos] votam em um republicano”, explica Vanzo, que ainda se considera um homem de esquerda.

Na escrivaninha
Entrevista encerrada. O zoólogo se levanta e convida o repórter a subir as escadas do sobrado. Passos lentos. Entramos num quarto com a janela quase toda fechada. A televisão ligada em um jogo da Copa dos Campeões -Vanzolini é torcedor da Ponte Preta- e uma estante com vários livros.
Ele retira dois volumes, coloca sobre a escrivaninha e diz: “Sente-se aí, leia isso”, com um tom professoral.
É a publicação original do artigo com Williams (dois livros que, somados, passam das cem páginas), feita em 1970. Apesar de não existir realmente o termo no trabalho, ali está um dos marcos (e um dos pais) da teoria dos refúgios.
Se novos sambas não surgirão mais – para Vanzolini tudo já está feito, com uma caixa especial de discos com todas as músicas dele já lançadas- será que algum livro pode surgir, sobre ele próprio?
“Tenho preguiça. Não acho que tenha tanta coisa interessante assim.”
Caso ele resolva falar de música, e disso gosta muito, alguns serão criticados, como o ex-parceiro Toquinho (“é um violonista de primeira, mas faz algumas coisas pelas costas”), Caetano Veloso (“esse não serve para nada”) e Noite Ilustrada (“quando ele aparecia, aborrecia todo mundo”).
Outros tantos, porém, receberão só elogios. Eduardo Gudin, Chico Buarque (“esse eu vi nascer, na casa do meu amigo Sérgio”), Luís Carlos Paraná (“depois da morte dele fiquei meio desiludido em compor”) e Isaías Bueno (“o maior violonista do mundo”).
Ou seja, o “homem de moral”, de frases curtas e diretas, será generoso e ao mesmo tempo duro com aqueles que conviveram com ele ao longo de todos esses anos.

RETIRADO DA FOLHA DE S.  PAULO

TIM MAIA – 10 anos sem o Síndico

14/03/2008 – 18h05
Morto há dez anos, Tim Maia reclamou do som até o último show
MARCELO NEGROMONTE
Editor de Entretenimento do UOL

Dadá Cardoso/ Folha Imagem

O cantor e compositor Tim Maia, em fevereiro de 1996

O cantor e compositor Tim Maia, em fevereiro de 1996


No dia 8 de março de 1998, um domingo, Tim Maia subiu pela última vez ao palco. O cantor morreu uma semana depois, no dia 15, há dez anos.

O último show do Síndico seria um espetáculo acústico gravado pelo canal pago Multishow no Teatro Municipal de Niterói, no Rio. Mas esse foi um show que não aconteceu, afinal duas músicas, sendo só uma delas com a presença do cantor, não configuram um show propriamente.

Famoso pelo não comparecimento a inúmeros espetáculos e pelos atrasos, Tim Maia demorou a aparecer também no último show de sua vida.

O evento era especial. Na platéia lotada estavam convidados, artistas, celebridades, atores, músicos e jornalistas. Era a reabertura do pequeno e charmoso Teatro Muncipal de Niterói, que havia passado por uma reforma e cheirava a tinta fresca.

Mais de uma hora depois do início programado, a banda Vitória Régia, que acompanhava o músico havia uns 20 anos, finalmente deu início ao show apenas com os backing vocals. Cadê o Síndico? Nada.

Na segunda música, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, aplausos. Eis o carioca da Tijuca, 55 anos, imenso, terno azul claro, camisa branca, suor no rosto.

Reclamou do “ré menor” e interrompeu a música –outra característica marcante do cantor era a eterna insatisfação com os técnicos de som a quem pedia sempre o “retorno” e mandava tirar o “reverb” ou qualquer outra coisa que o incomodasse.

A música começou novamente. “Vou pedir…”, “Vou pedir…”, cantou Tim, e a platéia completava os versos que todo mundo conhece. Com sinais claros de que daquele jeito não dava mais para continuar, Tim Maia deixou o palco sob risadas do público, que imaginava se tratar de mais um episódio temperamental do cantor.

Não era possível, ele iria dar o cano num especial de TV ao qual ele havia comparecido? A banda terminou a música pouco depois da saída do cantor.

“A semana inteira fiquei te esperando, pra te ver sorrindo, pra te ver cantando”, cantou a platéia com palmas, pedido claro para que Tim retornasse. Não houve retorno –cadê o retorno?

“Tim Maia não está passando bem. Tem algum médico na platéia?”, foi o que saiu do sistema de som do teatro para perplexidade geral. Até havia um, Drauzio Varella, acompanhado de sua mulher, a atriz Regina Braga.

A partir daí, foi o caos. Vários minutos depois, chegou a ambulância do Corpo de Bombeiros, que entrou no átrio do teatro, ocupado agora pelos convidados que haviam saído da sala de espetáculo.

Amparado dos dois lados e com máscara de oxigênio, o hipertenso Tim Maia subiu na ambulância com pés trêmulos. Fotógrafos, cinegrafistas e curiosos dificultavam o trabalho de resgate do rei do soul brasileiro.

Às 23h, o cantor foi encaminhado ao hospital Antônio Pedro, em Niterói, que parecia mais uma delegacia, com grades na entrada a impedir a entrada de quem fosse. Aflita, só se via a secretária particular do cantor, Adriana Silva, ao celular.

 

Uma semana depois, Sebastião Rodrigues Maia morria no mesmo hospital de infecção generalizada em conseqüência de um edema pulmonar, seguido de parada respiratória.

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“Tim Maia se orgulhava de ser como era”, disse Nelson Motta sobre o cantor no Bate-papo UOL
Amigo Fabio fala sobre o livro “Até Parece que Foi Sonho” e a amizade de 30 anos com Tim Maia

Amigo (do) Urso?

Urso é condenado na Macedônia por roubo de mel
Paddy Clark
Da BBC News

O sabor de mel foi tentador demais para um urso na Macedônia, que atacou várias vezes as colméias de um apicultor.
Agora o animal tem ficha na polícia, por ter sido condenado por um tribunal por roubo e danos.

Mas o banco dos réus estava vazio no tribunal da cidade de Bitola, onde o urso foi julgado à revelia.

O caso foi levado à Justiça pelo apicultor irritado depois de um ano de tentar, em vão, proteger suas colméias.

Durante um período, ele conseguiu afugentar o animal com medidas como comprar um gerador e iluminar melhor a área de ataque ou tocar músicas folclóricas sérvias com percussão acentuada.

Mas quando o gerador ficava sem energia e a música acabava, o urso voltava e lá se ía o mel novamente.

“Ele atacou as colméias de novo”, disse o apicultor Zoran Kiseloski.

Como o animal não tinha dono e é uma espécie protegida, o tribunal ordenou ao Estado pagar uma indenização por prejuízos causados pela destruição de colméias, no valor de US$ 3,5 mil.

O urso continua à solta em algum lugar da Macedônia.

Retirado daqui: BBC BRASIL

Mais brasileiros deportados pela Espanha

 

07/03/2008 – 12h26
‘Me sinto um animal abandonado’, diz brasileiro barrado Andressa Zanandrea
Em São Paulo

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“Me sinto um animal abandonado”, disse o vendedor Valter Vaz Lauwers, de 21 anos, ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Cumbica, na Grande São Paulo, na manhã de hoje. Com o rosto abatido e cansado, o capixaba narrou as quase 48 horas de tensão que passou no aeroporto de Madri, depois de ter a sua entrada na Espanha negada na quarta-feira. Ao todo, 30 brasileiros foram barrados por agentes da imigração espanhola nos dois últimos dias.

Apu Gomes/Folha Imagem

Parte do grupo de brasileiros que foi impedido de entrar na Espanha voltou hoje ao Brasil, e desembarcou em São Paulo
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Segundo Lauwers, os funcionários do aeroporto espanhol pediram para que ele seguisse até uma sala separada assim que olharam o seu passaporte brasileiro. O jovem apresentou os documentos pedidos e o cartão de crédito, mas estava sem a passagem de volta, que havia sido comprada pelo tio em Portugal e só seria retirada no aeroporto daquele país. “Tentei explicar, mas eles disseram que não queriam saber da minha explicação”, conta Lauwers.O capixaba diz que ficou na mesma sala até as 23 horas da quarta-feira sem comer ou beber e sem receber explicações. Após receber a notícia de que seria deportado, foi transferido para uma segunda sala com beliches, onde, segundo ele, havia muito mais gente do que camas, inclusive idosos e crianças. A primeira refeição que receberam era composta de “feijão frio, maçã e pão duro”.

O promotor de vendas Marcos Vinicius Silva dos Santos, de 23 anos, passaria sete dias em Paris com um amigo, mas também teve sua entrada na Espanha negada na Quinta-feira. Ao desembarcar em Cumbica nesta sexta, ele carregava apenas a mala de mão, já que sua bagagem seguiu direto para Paris. O brasiliense também falou sobre as más condições do quarto em que os brasileiros dormiram e disse que o local era equipado com câmeras e vidro fumê e não tinha água

WELCOME, Mr. Zimmermann

06/03/2008 – 08h08
Bob Dylan inicia turnê brasileira com apresentação para 2.500 pessoas em SP

MARCUS MARÇAL
Da Redação

Marcos Hermes/Divulgação

Bob Dylan durante apresentação no Via Funchal, SP (05/03/2008)

Bob Dylan durante apresentação no Via Funchal, SP (05/03/2008)

O cantor norte-americano Bob Dylan realizou nesta quarta-feira (6) a primeira etapa da “Never Ending Tour”, com apresentação para 2.500 pessoas no Via Funchal, em São Paulo. A excursão promove no Brasil seu mais recente álbum de inéditas, “Modern Times” (2006), terceira etapa da trilogia iniciada com “Time Out of Mind” (1997) e “Love & Theft” (2001).

Pouco depois das 22h, cantor e seu quinteto iniciaram o show com “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, canção do álbum “Blonde on Blonde” (1966), seguida de mais três temas sessentistas de Dylan: “It Ain’t Me, Babe”, “I’ll Be Your Baby Tonight” e “Masters of War”, respectivamente faixas de “Another Side of Bob Dylan” (1964), “John Wesley Harding” (1967) e “The Freewheelin’ Bob Dylan” (1963).

Como na maior parte dos números mais antigos, o andamento foi acelerado e a voz rascante de Dylan confere aos temas a atualidade de seu trabalho corrente. Tradicionalmente, o cantor somente é fiel às versões eternizadas nos discos vigentes, assim evita a mera reprodução ao vivo de seus próprios temas gravados. E, em se tratando de uma figura de sua estatura no panorama da música popular a partir do século 20, o artista obtém resultados distintamente complementares em estúdio e palco.

Detentor de uma discografia de 44 álbuns autorais, há décadas seus shows notoriamente não são matéria para saudosistas. E a postura de Dylan de sempre recriar suas músicas antigas de acordo com seu temperamento, modo operante mais recorrente a partir da excursão do álbum “Oh Mercy” (1989), torna cada uma de suas apresentações experiências únicas. Razão maior de sua devota audiência segui-lo em “peregrinação”, objeto de estudo parcialmente abordado no documentário “How Many Roads” (2006), de Jos de Putten.

Acompanhar um show de Bob Dylan é como montar quebra-cabeças, reflexo de sua própria postura de sempre manter-se incógnito, seja evitando fotos em close, entrevistas ou mesmo sendo implacável com as versões de seus clássicos eternizados em disco, adulterando-os sem dó, a fim de ressaltar a vivacidade de sua música. Aos que sabem devidamente apreciar sua postura, a recompensa é inestimável.

E parte da audiência brasileira tomou ciência disso já nas primeiras apresentações no Brasil em 1990, pois se Dylan na época ainda se dava ao luxo de distinguir as facetas elétricas e acústicas de seu trabalho, hoje o cantor parece cada vez mais se entranhado como parte fundamental da própria genealogia musical norte-americana desde os primórdios do século 20, a mesma que tanto reverencia desde a mais tenra idade. Inclusive, o mote principal de “Modern Times” é um retorno ao Velho Mundo para então se poder entender melhor os dias de hoje.

No palco, todos os músicos vestiam preto e Dylan apenas se diferenciava por um paletó prateado, semelhante ao da capa de “Love & Theft”. Tocou guitarra apenas até a quarta música e, dali em diante, passou o restante do show nos teclados. Na seqüência, privilegiou material recente como “The Leeve’s Gonna Break”, “Spirit on the Water”, “Things Have Changed”, “When the Deal Goes Down” e “High Water (for Charley Patton)”.

No decorrer do show, aumentou a alternância entre material clássico e músicas novas, sem distinção ou tampouco solavancos para a dinâmica do espetáculo. “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”, “Workingman’s Blues Nº2”, “Highway 61 Revisited”, “Nettie Moore” e “Summer Days” anteciparam o momento mais populista desta apresentação: a bela perversão de “Like a Rolling Stone”, o que levou parte da platéia ao fundo a ocupar os espaços entre as mesas mais à frente.

Uma jovem chegou a invadir no palco, mas diante da impassibilidade de um atento Dylan, apenas se deixou ser contida pela segurança da casa. Pouco depois, o artista se retirou na companhia de sua banda e, após uma rápida pausa, voltou para tocar “Thunder on the Mountain”, uma das músicas mais características de seu repertório atual.

Antes de encerrar o show de pouco menos de duas horas, Bob Dylan falou ao público pela primeira vez e agradeceu o acolhimento da platéia, a quem chamou de “amigos”. Em seguida, fechou o espetáculo com uma dinâmica versão de “All Along the Watchtower”, forte e contida nas devidas medidas.

E contrariando as expectativas em relação a sua persona pública, o cantor ainda se postou em frente ao palco com sua banda, apenas seu baterista ficou mais ao fundo, e fez poses para a audiência ao mesmo tempo em que se despedia. O público gritou seu nome, mas logo os roadies começaram a retirar os equipamentos de palco.

Bob Dylan ainda se apresenta na capital paulista na quinta-feira (6) e segue para o Rio de Janeiro, onde toca no sábado (8). A turnê latino-americana teve início no México (26/02) e, depois da passagem pelo Brasil, segue para Chile (11), Argentina (13, 15 e 18) e Uruguai (20). E no que diz respeito às demais datas, a única certeza é a de um repertório imprevisível, digno de um dos mais influentes artistas de nossa época.



BOB DYLAN EM SÃO PAULO
Quando: 6 de março, às 22h
Onde: Via Funchal – r. Funchal, 65, Vila Olímpia
Quanto: de R$ 400 a R$ 900
Informações: 0/xx/11/3044-2727

BOB DYLAN NO RIO DE JANEIRO
Quando: 8 de março, às 21h
Onde: Rioarena – av. Embaixador Abelardo Bueno, s/nº, Barra da Tijuca
Quanto: de R$ 150 a R$ 360
Informações: 0/xx/21/3326-7243