Aos meus professores. Todos.

Hoje é o dia Professor!
Há pessoas que não gostam (ou dizem não gostar) dessas datas comemorativas. Eu gosto. E tenho explicado por que gosto.
Bem entendido, eu gosto de datas em que se *co-memora* ou *re-memora* a força pessoal, subjetiva ou coletiva, empregada pelo homem na transformação da espécie humana, do seu ambiente, e no melhoramento da Vida em geral.
Isto tem a ver, suponho, com o que Dostoiévski, em os Irmãos Karamázov, aponta:
Em todo homem, é claro, habita um demônio oculto: o demônio da cólera, o demônio da luxúria sem peias; o demônio do prazer voluptuoso frente aos gritos da vítima torturada…
Ou seja a luta contra a barbárie, que não cessa de existir e insistir. Penso eu.

Eu também gosto de profissões em que as pessoas dão tanto de si naquilo que fazem que, por metonímia, passam a ser chamadas, como sendo o seu nome, pela profissão que exercem.
Por exemplo, o professor Benedito Nunes, o sábio, meu mestre, meu ‘oriente’, a pessoa que sempre me serviu de norte, antes até mesmo de ele saber, cujo estímulo me permitu soltar-me das planuras em que habitava e, eventualmente alçar alguns pequenos, mas mesmo assim, vôos.
Pois bem, para mim, para nós, ele é sempre o “Professor“.
Não há dúvidas nem mal-entendidos: o Professor é o professor Benedito Nunes.
Ter que nomeá-lo é falar com estrangeira pessoa. Quem não compreende isso é como se fosse, no offense, tudo cristão novo.
*
Mas também quando penso na data de hoje, 15 de Outubro, eu sinto uma extrema necessidade: eu queria falar de todos os que foram, os que são, aqueles que têm sido e os que – eventualmente – por algum momento em minha vida -pequenina- foram meus “Professores”. Tarefa que receio ser superior às minhas forças, no momento. Mas – como quando não podemos, apenas fazemos – eu queria homenagear todas essas pessoas, de algum modo, e então ocorreu-me o seguinte:
Em um trabalho que estou fazendo a duras penas, vocês sabem por que, eu digo/escrevo o seguinte:

“Para a grande empreitada labiríntica que é a de construir uma bibloteca lida (o que é bem diferente dos livros que você tenha – bloody exhibit! – em sua biblioteca) , você, eu, nós, tal como Dante (Alighieri) necessitamos , sim, da sábia condução de um Virgilio ( Publius Vergilius Maro) . E, confesso, também, não posso viver sem um. Não confio em mim mesma a tal ponto que os dispense ou venha a dispensá-los algum dia. Eu os atraio pois necessito deles. Eles me encontram porque, sem saber, talvez, eles pressintam que são necessários para mim. E se forem sábios eles jamais lhe farão imposições. Se não forem sábios, livre-se imediatamente dele(s). Bem, um dia talvez eu lhes conte minhas aventuras de “Alice/Elisa no Labirinto dos Livros Lidos e A Ler”.

Pois é. Eu também gostaria que existisse o dia do Livreiro. Eles são nossos incitadores, condutores, bem , não só eles… mas principalmente eles.
Dos demais, tão importantes, eu falarei quando conseguir, mas sintam-se homenageados, desde agora.
Houvesse um dia do Livreiro e a ‘espécie’ não estaria em vertiginosíssima extinção. O meu Livreiro, o sr Alberto Abreu da Livraria Padrão já foi até condecorado em terras francesas. Mas quem sabe ainda o que é um *livreiro*, se o que temos hoje são livrarias de shoppings?. Ou mesmo quando elas são muito grandes, um shopping dentro de outro.?
*****
Com alguma pena e muito orgulho eu digo que tive alguns livreiros: em Belém, o *Seu* Jinkings, adorável pessoa do tempo em que ‘entrei na Faculdade’. Qualquer pessoa sabe ou tem na lembrança quem ele foi e o que representou em Belém do Pará.
Mas também eu já tinha por correspondência, oooutros altos livreiros: em São Paulo, a D. Maria Antônia, da Livraria Duas Cidades, ah! e no Rio, o *meu* livreiro, o querido, o do coração: o “seu” Alberto da Padrão.
O que é mesmo um livreiro?
Um ser especial. Um livreiro. Espécie em extinção.
Só privilegiados ainda sabem o que significa ser *livreiro*. Ter o *seu* livreiro.
Um livreiro é um bibliófilo, quase um bibliólogo.
O meu – Alberto Abreu, dono da livraria Padrão – Editora., é o que sabe minhas angústias, adivinha aquilo de que necessito, antes mesmo que eu esboce , claramente, aquilo de que preciso.
Esclarece minhas dúvidas, corrige-me premissas básicas.
Quando fui convidada pela Funarte, leia-se Adauto Novaes, em 1995, para construir o que nunca havia sido feito antes, uma bibliografia comentada sobre a Literatura Libertina, foi ele quem primeiro me chamou a atenção, para a origem do próprio nome, que a Gramática francesa não registrava, o termo ‘libertino‘, que só surge para classificar o herege, aquele que se opunha ao dominio do saber monástico, que era único, unificador. E foi um termo cunhado por Jean Cauvin (CALVINUS) (1509-1564).
À época dos Enciclopedistas (Diderot, D’Alembert et alii). À sombra da Inquisição.
Só depois, estudando-se a História das Ediçãoes é que se vê surgir a dura vida dos escritores como Giorgio BAFFO, que , italiano (veneziano) corria risco de vida para editar na França, etc e etc e talz.. e acho que praticamente, agora, todos sabem.
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Antes havia muitos livreiros. Quase como um psicanalista, ou um sacerdote, o livreiro, verdadeiro xamã, é um especialista em generalidades, como diria Millôr Fernandes. São apaixonados e tudo sabem sobre quase todas as áreas do conhecimento: Filosofia, Direito, Crítica Literária… Sabem tudo o que é publicado no mundo.
Um livreiro é, sim, um xamã: alivia ou agudiza nossas dores, adivinha o que queremos antes que venhamos a precisar. Determina nosso futuro. Duvidam? Então vejam: O sr. Alberto foi quem me apresentou os primeiros livros de mitologia, sobre a tragédia grega e a “morte” do gênero e isso foi decisivo. Sem mais aquela, ele me disse que eu deveria ler um belo volume do G. Delumeau, a História do Medo no Ocidente e vocês não sabem a revolução que foi isso na minha vida. E ontem, conversando com adorável pessoa, vivi momentos de enleio, relembrando que foi ele que me vendeu o segundo exemplar que tive do *Confabulario Total* de Juan Jose Arreola.
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Agora, o que é necessário dizer é que foi ele quem me apresentou o primeiro livro de Paulo Rónai, (clique no link) com quem eu viria a manter uma breve correspondência, enquanto esive no Brasil, e por quem eu passaria a ter uma admiração infinita. Para o resto da minha vida. Coisa que muitos não entendem, mas…como dria o outro:”Que fazer?”
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Alberto de Abreu Mathias, o ‘seu” Alberto da Padrão, começou na antiga Livraria Acadêmica, na Rua São José, centro do Rio de Janeiro que se mudaria depois para a Rua Miguel Couto, 49.
Por trinta e cinco anos lá trabalhou e solidificou a amizade com o Sr. Carlos Griesbach Jr, com quem fundou a Padrão. contando com mais outro sócio, expert em livros raros, o português, sr. Alberto Lopes Vieira, com um *faro* inigualável para encontrar preciosidades.
Lá, na livraria, eles recebiam Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Antonio Houaiss, Paulo Rónai, Plinio Doyle, Edson Nery da Fonseca, Otto Maria Carpeaux, Gladstone Chaves de Melo, Haroldo Maranhão e Benedito Nunes… E os mais novos, a jovem guarda, Antonio Cícero (que foi meu professor – ah! ele é irmão da cantora Marina com quem compõe músicas, ou a Marina é irmã dele, eu o adoro e sei que ele não se importará com essa ordem) e mais Alexei Bueno, Jorge Henrique Bastos, amigo do coração, que, hoje, tendo retornado há pouco de Portugal, onde morou 15 anos (Jorge Henrique.. e a nossa entrevista, belo?) é o Editor, da WMartins Fontes, e da Editora Martins; e tantos outros.
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Não, não pensem que aqueles primeiros citados são meus contemporâneos, embora o sr Alberto seja meu grande amigo. Mas se quiserem, não é? Afinal, eu tenho cerca de 874 anos;-))
Eu era uma grácil mocinha, em Belém – onde nasci – comecei a ensinar Filosofia na Universidade Federal do Pará e, comecei a me corresponder com várias pessoas a quem hoje homenageio, aqui no Sub Rosa. E creio firmemente que foi a acolhida por carta, sempre benevolente, amável e generosa, que me ensinaria a ser o que “muitas” pessoas chamam de ‘delicada e gentil’. Acho que foi puro reflexo do que recebi. Sempre, ou quase sempre, somos isso, o reflexo do que nos dão.
Quando eu estava me preparando para vir fazer o mestrado na PUC do Rio de Janeiro, escolhi fazer minha monografia sobre a questão do Humanismo. Escolhi Sartre e Heidegger. Mais uma vez ainda, os meus amigos/correspondentes me abriram os olhos para Henri Bergson, Albert Camus, Barthes e Foucault. E Elias Canetti. (Jorge Henrique me deu lições preciosas que nem sei se agradeci a contento.;-)
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Quando o dinheiro da Bolsa de Estudos da Capes, falhava ou *mal dava* para nossos gastos com locação e locomoção, o seu Alberto da Padrão era um Pai. Cheguei a pagar dívidas de livros com dois anos de atraso!. (Num país com altíssima inflação e que atravessava tantas crises, vocês sequer podem imaginar o que isso significava.) E isso é ter um livreiro. Amizade inabalável. (E depois, levianamente, as pessoas falam em poder. Poder, meus filhos, é isso. Pelo menos o que eu anseio, e tem a ver com o supremo poder, contido na referida citaçao de Dostoievski.
***
Não saberei dizer mais nem melhor da importância dessas pessoas em minha vida.
Elas fizeram de mim o ser que sou hoje.
Se as pessoas me acham gentil (o que na verdade não sou), -alguns até reclamam de eu ser gentil, sem necessidade ou … bem, se sou, é porque precisavam ver e saber, com quanta gentileza e generosidade, fui tratada quando me determinei a conhecer, a aprender tudo o que pudesse. Sempre e mais.

A todos quanto devo essa empreitada interminável, em que incluo tanto o meu Pai, até a quem me ajuda quando grito, pelo blog, Socorro, preciso de ajuda, e aquelas que me orientam por email, quando eu grito por ajuda! eu agradeço, na pessoa de Alberto de Abreu Mathias, que hoje, com muitos anos, ainda mantém o mesmo vertiginoso entusiasmo.
Um livreiro por inteiro, na livraria em tempo integral (mesmo contra a vontade da filha (*) e dos netos). Seu Alberto que foi homenageado há alguns anos na Bienal do Livro em Paris. Que foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras, mas o que é importante mesmo: ele recebeu a medalha “JOÃO RIBEIRO”. Por acaso você tem idéia de quem foi, João Ribeiro? Pois é!) Que não atende só os professores e intelectuais…Ajuda os livreiros iniciantes, novos na profissão (pouquíssimos, como o Araken da Livraria Contracapa) atende clientes ilustres ou não, com o mesmo amor, empenho e dedicação. Que também lhe fizeram belíssima homenagem: um livro com a homenagem de todos oa são representativos no mundo das Letras e dos Livros. Uma iniciatuva dos filhos (Ana Abreu, à frente) e netos
Sua filha Ana Abreu segue-lhe os passos. E vejo hoje o mesmo amor aos livros e aos leitores, em seu neto André.
Eu me sinto especial e sinto que a VIDA me deu um presente , que me torna orgulhosa e (me) creio *distinta*.
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Eu peço imensas desulpas por deixar de escrever aqui, um outro lado da profissão de do Professor. Reparando essa falha, nada melhor que ler a página de Gilberto Dimenstein. Em seu site há um dossiê/clique aqui, sobre a saúde professores.

No início do dossiê ele diz:

O problema dos salários não é o maior dos males -o maior de todos são as condições de trabalho. Uma pesquisa realizada neste ano pela Apeoesp (sindicato dos professores estaduais) levantou, pela ordem, os seguintes problemas: superlotação em sala (73%), falta de material didático (67%), dificuldade de aprendizagem dos alunos (65%), jornada excessiva (64%), violência nas escolas (62%).

Obrigada, Eduardo, pelo toque.

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