Bette Davis, hoje!

Hoje, 30/05/2011, TV Cultura, 23:45 h

Anúncios

Cinema de boca em boca – Inacio Araujo

Le cinéaste américain Samuel Fuller à Deauvill...

Samuell Fuller -Image via Wikipedia

Antologia compila estilo enfático de Inácio Araujo
Coletânea traz textos do crítico de cinema publicados na Folha entre 1983 e 2007
Mais de 280 artigos foram selecionados entre mais de 5.000 títulos e organizados cronologicamente

SILVANA ARANTES – EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Era um texto de despedida. Em 99 linhas, o crítico de cinema da Folha Inácio Araujo aquilatava a obra do diretor Samuel Fuller, que morrera aos 85 anos.
“Há o cineasta que se admira e há o cineasta que se ama”, afirmava, para desembocar na conclusão: “Amar Fuller e compreender o cinema é quase a mesma coisa”.
Esse adeus em forma de artigo fez de Juliano Tosi, então estudante de jornalismo, um “leitor assíduo” do crítico. A familiaridade com a produção de Araujo o credenciou a selecionar, entre mais de 5.000 textos publicados pelo crítico de 1983 a 2007, os 286 que integram a antologia “Cinema de Boca em Boca”.
“Morte de Fuller é como Perder o Pai”, publicado originalmente em 3/11/97, ocupa a página 381. São 678. “Embora seja a mais óbvia, a ordem cronológica [de edição dos textos] é a mais interessante porque permite notar a linha evolutiva da escrita para jornal”, diz Tosi, organizador do volume.
Não é bem como evolução que Araujo classifica as transformações na relação entre o jornal e seus leitores. “Antes, havia um leitor. Hoje, há um consumidor que se recusa a fazer esforço [de compreensão]. É como se a ignorância fosse uma virtude. Percebo nesse fenômeno uma queda da civilidade.” Se há uma marca no estilo de Araujo, é a ênfase. Enfático na defesa dos filmes que ama como no desapreço pelos que rejeita, ele acumula sentenças ressoantes.
Exemplos: “A pornochanchada é o divã do pobre. Não há mal nisso. Os letrados é que são pudicos”; “”Vertigo” é seguramente o maior filme já feito sobre o cinema”.
Em crítica que se converteu em polêmica com a produtora Conspiração Filmes, asseverou: “A supervalorização do cinema publicitário no Brasil deveria ser tema de um estudo antropológico, antes de cinematográfico.
(…) A pergunta que o espectador de cinema pode legitimamente se fazer ao longo de “Gêmeas” é: afinal, este filme está anunciando o quê?”.

PAIXÃO
Embora dispostos em ordem cronológica, os textos conformam núcleos temáticos na opinião do organizador. Estão lá, em capítulos informais, “a paixão por Howard Hawks, por Hitchcock, pelo cinema japonês e pela nouvelle vague”, avalia Tosi.
A autocrítica, ou a relação de Araujo com o ofício, também poderia fazer parte da lista. Assunto recorrente em suas reflexões, motivou-o a um debate, nas páginas da Folha, com o colunista Marcelo Coelho, rebatendo um artigo deste, em 1992, com “O que Sair por Último, Por Favor Apague a Luz”. Cinco anos mais tarde, em entrevista ao ombudsman Mario Vitor Santos, Araujo define seu papel citando o crítico de artes Rodrigo Naves: “Um crítico só se afirma pelo que defende, nunca pelo que nega”.
O cinema que Araujo afirma é como o de Fuller, cujos filmes “sem heróis, agônicos, têm beleza e poesia que irrompem na tela, levados pela força, consistência e originalidade de seu olhar”. Alguém, enfim, que se aprende a amar, mais que admirar.

***

Retirado de: Folha S. Paulo – Ilustrada

Maravilhas do Oscar®

®OSCAR ®

Por Marcelo Cobra

11 prêmios

Ben Hur

de William Wyller (1959)

> Trailer

Titanic

de James Cameron (1997)

> Trailer

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

de Peter Jackson (2003)

> Trailer

10 prêmios

Amor, Sublime Amor

de Jerome Robbins (1961)

> Trailer

9 prêmios

Gigi

de Vincente Minnelli (1958)

> Trailer

O Último Imperador

de Bernardo Bertolucci (1987)

> Trailer

O Paciente Inglês

de Anthony Minghella (1996)

> Trailer

Meryl Streep

14 indicações.

Ganhou uma vez pelo filme A Escolha de Sofia (1982)

Katharine Hepburn

12 indicações.

Ganhou quatro vezes pelos filmes Manhã de Glória (1932/3), Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1981)

Bette Davis

10 indicações.

Ganhou duas estatuetas pelos filmes Perigosa (1935) e Jezebel (1938)

Jack Nicholson

12 indicações.

Ganhou duas vezes pelos filmes Um Estranho no Ninho (1975) e Melhor é Impossível (1997)

Laurence Olivier

10 indicações.

Ganhou uma vez pelo filme Hamlet (1948)

Paul Newman e Spencer Tracy

9 indicações.

Paul Newman ganhou uma vez pelo filme A Cor do Dinheiro (1986); Spencer Tracy ganhou duas vezes pelos filmes Marujo Intrépido (1937) e Com os Braços Abertos (1938)

… que em 1938 a academia realizou uma homenagem especial a Walt Disney e deu a ele um Oscar em tamanho real e sete miniaturas pelo filme Branca de Neve e os Sete Anões?

… que o desenho A Bela e a Fera, de 1991, foi a primeira e única animação a ser indicada ao Oscar de melhor filme?

… que Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick nunca ganharam o Oscar de melhor diretor?

… que se Hal Holbrook sair da cerimônia com a estatueta nas mãos, será o ator mais velho a ganhar um Oscar? Aos 83 anos, ele está indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante pelo filme Na Natureza Selvagem.

… que esse é o primeiro ano em que uma atriz recebe uma segunda indicação pelo mesmo papel? A responsável pela façanha é Cate Blanchett, indicada novamente por sua atuação como a rainha Elizabeth no filme Elizabeth – A Era de Ouro.

Heath Ledger – novo ícone?

02/02/2008
Jovens astros que se tornaram ícones pela morte: James Dean, Kurt Cobain… e Heath Ledger?

Maria Puente
brokeback-mountain-heath-ledger.jpg

Viva intensamente, morra jovem, torne-se imortal.

Bem, talvez não.

heath_ledger_f_008.jpg

Nesta era acelerada e de Internet global, a trajetória tradicional para alcançar o status de figura cult após a morte está mudando.

Enquanto os fãs em luto declaram o ator jovem Heath Ledger “o James Dean de sua geração”, há questionamentos. Estaremos falando de Ledger no futuro como ainda falamos sobre Dean -que morreu há mais de 50 anos?

A morte de Ledger foi diferente da de Dean, apesar de não menos comovedora. O australiano de 28 anos foi encontrado no dia 22 de janeiro em seu apartamento em Nova York por sua faxineira e sua massagista. A causa não foi determinada.

Marko Georgiev/Reuters - 25.jan.2008
Fãs se aglomeram diante de local onde seria velado o corpo do ator Heath Ledger em NY

Não há mistério sobre como Dean morreu. De fato, foi seu final fora de hora em 1955 que marcou o ponto de nascimento da cultura de celebridade americana, diz Chris Epting, autor de “James Dean Died Here” e de outros livros sobre os locais e artefatos da cultura popular americana.

Com apenas 24 anos e três papéis no cinema, Dean morreu em uma estrada solitária da Califórnia após uma colisão de frente em seu Porsche. Seis meses depois, seu terceiro filme, “Rebelde sem causa” foi lançado, causando sensação, especialmente entre os jovens. Dean ascendeu ao status de cult que perdura até hoje.

“Heath Ledger é uma das primeiras pessoas ao estilo Dean a morrer na era da Internet, então sua morte será um teste para ver quanto tempo a Net abanará esta chama”, diz Epting. “Será interessante ver: será imortalizado ou a próxima grande coisa o suplantará totalmente em algumas semanas?”

Karal Ann Marling, por exemplo, acha que sim. Professora de estudos americanos e cultura popular da Universidade de Minnesota, Marling acredita que é natural todo mundo se sentir triste com a morte de um jovem, famoso ou não. Mas o grande interesse na morte de Ledger em breve esmaecerá, prevê.

“Eles não vão erguer um busto dele no Grifftih Park” em Los Angeles, diz Marling. “Isso é mais sobre celebridade e diversão -o país é tão louco por celebridades que quase qualquer coisa que uma celebridade faça vale uma notícia, e a maior parte ‘disso’ é uma forma de evitar a política.”

Ser jovem, ter boa aparência e estar morto, apesar de trágico, não é sempre suficiente para garantir que a pessoa perdurará na consciência pública. Veja Brad Renfro, jovem ator encontrado morto com 25 anos em seu apartamento de Los Angeles uma semana antes de Ledger. Renfro (que começou quando criança), tinha mais filmes que Ledger, mas sua carreira estava empacada -e sua morte passou praticamente despercebida.

É um debate de bar argumentar quem pertence ao panteão da cultura popular permanente e quem não. A lista de “figuras do entretenimento” que inegavelmente pertencem ao panteão é relativamente curta: além de James Dean e Marilyn Monroe, inclui Elvis Presley, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Marley, Jim Morrison, John Belushi, John Lennon, Kurt Cobain.

“Há algo de místico, alguma magia sobre eles, porque nem todo mundo sabia tudo sobre eles quando eram vivos”, diz Lynn Bartholome, do Colégio Comunitário Monroe em Rochester, Nova York, presidente da Associação de Cultura Popular -acadêmicos que estudam a cultura americana.

A lista daqueles sobre quem há dúvidas é maior: Freddie Prinze, Tupac Shakur, Buddy Holly, River Phoenix, Ritchie Valens, John Candy, Phil Hartman, Brandon Lee, Cass Elliot, Keith Moon, Brian Jones, Hank Williams, Selena.

Na Internet, as listas compiladas por várias pessoas que ligam para essas coisas são intermináveis. Uma equipe de pesquisadores no Reino Unido até fez um estudo sobre a fama e a morte prematura. Os pesquisadores da Universidade John Moores, em Liverpool, avaliaram 1.064 astros do rock e pop norte-americanos e britânicos -100 dos quais tinham morrido cedo- e concluíram que há mais do que o dobro de probabilidade da pessoa morrer cedo com a chegada da fama, segundo publicaram em uma revista de epidemiologia no ano passado.

Então quem fica entre os imortais, e por quê?

Ajuda ser um pouco excêntrico. Ajuda ter uma alma torturada, demônios pessoais, problemas com pílulas ou álcool ou comportamento ilegal. Principalmente, ajuda ter seguidores apaixonados “antes” da morte -como Dean e Monroe, diz Patrícia King Hanson, historiadora do Instituto de Cinema Americano. Ambos tinham forte conexão com o público, especialmente com os jovens, que respondiam às notas de vulnerabilidade e tragédia que mostravam em tela e em suas vidas pessoais.

“Nenhuma pessoa é lançada à grandeza só pela morte”, diz Hanson. “É um certo tipo de pessoa que parece atrair seguidores e apenas por virtude de sua morte parece expandir. As pessoas ficam com uma imagem maquiada deles -sempre jovens e sempre vibrantes.

“O sujeito feliz sem problemas que morre cedo não vira cult.”

A Internet apressa e espalha a reação a alguma coisa como a morte de Ledger, mas pode sumir igualmente de maneira rápida. “É um mini-cult e é muito temporário”, diz ela. “Talvez em três meses não haverá tanto”.

Epting acha que é cedo para dizer, mas se pergunta se a morte de Ledger terá o poder de perdurar. “Meu filho tem 14 anos e freqüenta uma escola pública no Sul da Califórnia. Ele me conta sobre os jovens afetados com isso. Eles captaram aquele sentimento solitário, que Ledger era torturado em sua vida pessoal, que era marginalizado, que fazia seus papéis com seriedade.”

Há algumas similaridades entre Dean e Ledger.

Como Dean, Ledger era jovem e sensual, com meia dúzia de papéis no cinema, uma nomeação ao Oscar por um papel transcendental (“O Segredo de Brokeback Mountain”) e uma atuação potencialmente memorável como um Coringa especialmente maldoso no novo filme de Batman que ainda será lançado. (Dean recebeu duas nomeações, por seu primeiro papel em “Vidas Amargas” [1955] e por “Assim Caminha a Humanidade” [1956]; ele foi o primeiro a receber nomeações póstumas.)

Diferentemente de Dean, Ledger era pai há pouco tempo; sua filha tem dois anos. Ledger também morreu em uma era da mídia de cerco às celebridades. Minutos depois, a cobertura tornou-se global; o choque, palpável. Sua família na Austrália soube que estava morto junto com todo mundo; hoje em dia, não há tempo para a amenidade de notificar os parentes antes de a notícia chegar ao mundo.

Diante de seu apartamento no SoHo, multidões se reuniram, tributos fluíram pelos blogs e websites e buquês de flores e outras lembranças empilharam-se na porta do prédio após retirarem seu corpo.

“Sempre teremos orgulho de você, Heath. Descanse em paz, amigo”, dizia uma mensagem em uma impressão da bandeira australiana.

Até hoje, as pessoas ocasionalmente deixam tributos diante da boate Viper Room, no Sunset Boulevard em West Hollywood, onde o jovem ator River Phoenix morreu de overdose aos 23, em 1993.

“Esses lugares vão se tornando templos, e acho que (a porta do prédio de Ledger) será um altar por um tempo”, diz ele.

Será que “The Dark Night”, último filme de Ledger, vai acabar sendo seu “Rebelde Sem Causa”, levando-o à fama duradoura? Talvez, mas em uma era em que mais jovens freqüentadores de cinema vêem filmes em iPods e iPhones, será que poderão se conectar com aquelas imagens minúsculas da mesma forma que seus avós se ligaram a Dean em telas prateadas gigantes, questiona Epting.

É útil lembrar que a imortalidade não é assegurada mesmo quando há confrontos no funeral. Lembra-se de Rudolph Valentino? Antes de Dean, a morte mais memorável de Hollywood tinha sido a do astro do cinema mudo italiano, conhecido como “amante latino”, que morreu em Nova York em 1926 aos 31, depois de uma operação de úlcera que deu errado.

A reação foi cataclísmica: uma multidão de 100.000 pessoas apareceu para o funeral carnavalesco em Nova York, tentando ver o corpo na capela Frank E. Campbell (mesmo lugar para o qual o corpo de Ledger foi levado antes da família levá-lo de volta para a Austrália). Quando o corpo de Valentino foi levado de trem para o enterro em Hollywood, milhares viram-no passar, e milhares estavam lá no Hollywood Memorial Park quando quilos de flores caíram de um avião.

Foi um show e tanto, amplamente coberto pela mídia na época. Ainda assim, quantas pessoas ainda falam de Valentino hoje?

Como diz Bartholome sobre o lugar de Ledger na mente pública: “Muito poucos chegariam ao panteão hoje, e isso é por causa da mídia e por causa da Internet -simplesmente sabemos demais sobre pessoas demais.”

Tradução: Deborah Weinberg

LARANJA MECÂNICA – EDIÇÃOESPECIAL – DVD

Laranja Mecânica – Edição Especial

Divulgação

No futuro próximo, na Inglaterra, uma gangue de jovens ataca, estupra e mata. Um deles é capturado pelo governo e passa por uma lavagem cerebral que lhe traz repulsa à violência.

 

Embora nunca tenha sido oficialmente proibido pela censura brasileira (que aconselhava a produtora Warner apenas a não apresentar oficialmente o filme para sua avaliação), “Laranja Mecânica” só estreou no Brasil em setembro de 1978, assim mesmo com uma cópia que havia sido feita para o Japão, com bolinhas negras para cobrir os pelos pubianos e outros lugares estratégicos. Mas representantes de Kubrick checaram a cópia e aprovaram as legendas.

O jovem Malcolm McDowell havia sido revelado pouco antes em “If” e foi idéia dele usar “Cantando na Chuva” numa cena-chave da fita. Quem prestar atenção verá uma citação de outro filme de Kubrick, “2001” (a capa do disco numa loja). Foi indicado ao Oscar de melhor filme, roteiro e direção.

A dificuldade começa pelo título, que nunca é explicado. Parece que o autor do livro original, Anthony Burgess, se inspirou numa velha expressão “cockney” (inglês popular de Londres), que dizia “fulano é doido como uma laranja de corda”. Mais tarde, uma viagem pela Malásia, onde “orang” quer dizer “humano”, lhe deu a idéia de fazer anagramas (“orang” – “organ” – “organizar”), chegando a uma conclusão lingüística: o ser humano, quando organizado pelo poder dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, também o livro e o filme utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado de três maneiras:

a) como uma sátira social sobre o emprego de condicionamento psicológico; b) como um conto de fadas sobre a Justiça e o Castigo; c) como um mito psicológico, “uma história construída em torno da verdade fundamental da natureza humana”.

A sátira sobre o condicionamento parece clara no filme, mostrando que a sociedade se baseia no poder e nas mentiras, tanto da direita, quanto da esquerda. Em conseqüência, um homem condicionado a ser bom em todas as circunstâncias seria completamente vulnerável. Diz Kubrick: “Temos uma civilização altamente complexa, que requer uma autoridade política e uma estrutura social igualmente complexas. A idéia de destruir a autoridade para surgir a bondade natural do homem é um critério utópico e ‘falacioso’. Todos os nossos esforços vão parar em mãos de desonestos, já que a culpa reside na natureza imperfeita do homem mesmo.”

Assim, “Laranja” é basicamente uma parábola sobre a manipulação do homem pelo Estado. Conta a história de Alex (Malcolm McDowell), um jovem revoltado, precursor da moda punk, interessado na chamada “ultraviolência”, sexo e Beethoven, que é escolhido para uma experiência de condicionamento, uma verdadeira lavagem cerebral que o torna refratário à violência, fazendo-o vomitar cada vez que se defronta com um ato violento.

O tratamento é um sucesso, embora por engano Alex fique também condicionado contra Beethoven, cuja música servia de fundo para um dos documentários usados em sua cura. E logo o herói se torna vítima da manipulação política dos Partidos. Completamente indefeso, é levado ao suicídio pela Oposição e depois utilizado pela Situação novamente.

O que o filme quer mostrar é que, no fundo, todos nós somos laranjas mecânicas, somos submetidos a lavagens cerebrais contínuas que nos condicionam e governam; às vezes de forma subliminar, a ponto de não tomarmos conhecimento delas, às vezes de maneiras mais óbvias, por meio das solicitações da sociedade de consumo.

O filme é um brado de alerta e conscientização contra isso, mas talvez tenha errado numa questão de dose, ao pedir que nos identifiquemos com um herói como Alex, desordeiro e irresponsável. A tendência do espectador é ficar a favor do governo, achando que eles fazem muito bem em transformá-lo num “bom cidadão”, sem perceber a terrível violação dos direitos humanos, a violência cometida contra a individualidade, que acontece todos os dias sem que nos demos conta.

Assim, todo comportamento anti-social – de artistas, de gênios, de todos aqueles que fogem da chamada “normalidade” – seria também condicionado da mesma maneira. Esse perigo existe porque Alex é um vilão simpático e não é fácil concordar com um diretor frio como Kubrick, que o apresenta como “o homem natural, no estado que veio ao mundo, sem freios ou repressões. Quando recebe o tratamento de Ludovico, pode-se afirmar que este simboliza a neurose, criada pelos conflitos entre as restrições impostas por nossa sociedade e nossa natureza primitiva. Por essa razão, ficamos felizes quando Alex se cura”.

Será mesmo que todos se alegram? Alguns nem chegam a entender direito a dimensão da cura de Alex. Essa ambigüidade é um dos problemas do filme, que provocou as opiniões mais desencontradas em toda a parte. Certas pessoas se horrorizam com sua violência, mas na verdade ela é estilizada, mostrada quase como um balé, ou pop art, nunca de forma literal. Aliás, a trilha musical é extraordinária, com obras de Elgar, Purcell, Puccini e, naturalmente, Beethoven, que dão ao filme muito de sua atmosfera. Tecnicamente, o filme abusa um pouco de grandes angulares, lentes deformantes. Mas tem um extraordinário poder hipnótico.

Na enigmática cena vitoriana final, há a busca de uma qualidade ideal, procurada por Kubrick. Diz ele: ” ‘Laranja’ se comunica num nível subconsciente, e o público reage diante da configuração básica da história, como se fosse um sonho. E discutem o sentido da cena final. Como os outros sonhos mostravam assassinato, dor e morte, a erótica cena final sugere que ,de alguma maneira, a mente de Alex se transformou e se apaziguou”. Enquanto o livro de Burgess é uma amarga sátira aos paradoxos do livre-arbítrio, o filme continua a provocar discussões. Afinal, temos que defender os que não gostam dele, se não corremos o risco de todos nós acabarmos virando “laranjas mecânicas”.

Título original: A Clockwork Orange (EUA, 1971)
Diretor: Stanley Kubrick
Elenco: Malcom McDowell, Michael Bates, Patrick Magee, Adrienne Corri, Warren Clark, Anthony Sharp
Extras: disco 1 – trailer e comentários sem legenda de Malcolm Mc Dowell e Nick Redman; disco 2 – “O Tempo Não Pára: O Retorno de Laranja Mecânica”; “Grande Boliche Larbos!: O Making of”; “O Malcolm Sortudo”
Idioma: Inglês e Português 5.1
Legendas: Português e Inglês
Gênero: Drama
Duração: 136 min. Cor
Distribuidora: Warner

 

Retirado daqui: Corram lá 

IVAN LESSA sobre “Tropa de Elite”

Entropando elitizado

Na sexta-feira, 5 de outubro, eu também, como cariocas e paulistanos, estive presente à estréia do controvertido filme nacional Tropa de Elite, do diretor José Padilha, cineasta que admiro desde que assisti, no conforto de minha casa, ao supremo desconforto do documentário Ônibus 174, aquele do ônibus seqüestrado no Jardim Botânico.
A estréia, na verdade, tanto para Rio e São Paulo, estava marcada para sexta-feira, 12 de outubro. Deu-se porém que, por um desses mistérios que só os filmes de ficção e documentários brasileiros explicam, os camelôs, a serviço de alguma misteriosa e por certo poderosa organização, venderam adoidados cópias piratas em DVD do filme em questão.

Segundo os jornais, só em São Paulo cerca de 1,5 milhão assistiram ao longa antes de sua entrada em cartaz. Contando o Rio – e nunca se deve descontar o Rio em coisa alguma – esse número chegaria fácil aos 5 milhões, teria declarado o diretor do filme, José Padilha.

Há, pois, uma demanda por esse tipo de filme, li em outro lugar. Ou vários lugares. Que tipo de filme é esse? Um filme sobre nós mesmos, coisa rara e recente. Um filme sobre a terrível realidade da luta, melhor dizendo guerra, entre a lei e a desordem, ou seja, entre polícia e criminosos. Estes últimos, favelados traficantes de drogas.

Presença em espírito

O filme foi para as telas de salas de exibição do Rio e São Paulo com 140 cópias. No dia 12, será exibido no resto do país. É mais do que possível que aqueles que viram Tropa de Elite em DVD, por certo em cópias mal ajambradas, paguem mais alguns reais para assisti-lo em tela grande, com som estereofônico e pipoca. Em certas cidades – quem sabe? – talvez um baseadinho.

Estou entre os que compareceram apenas em espírito à noite de estréia do filme de Padilha. Um amigo do peito, de passagem por Londres, cedeu-me uma das tais cópias piratas de Tropa.

Em memória dos bons tempos passados no Rio, e em sinal de respeito aos dias amargos que a mesma cidade vive hoje, praticamente cronometrei a exibição de meu DVD para o que seria a primeira sessão do Roxy, ali na esquina da Bolivar: 8 da noite no Rio, meia-noite em Londres.

Minha cópia tinha 159 minutos e umas poucas palavras introdutórias em inglês. Felizmente não era dublado. Os trechos em inglês são uma pista para onde se deu o vazamento original do filme, se vazamento houve.

Sem cigarrinho, mesmo o “comercial” (deixei há 6 anos), quase que naquela perfilação dos jogadores de nossa seleção antes do início da contenda, assisti atento às quase três horas de filme.

Foi bom. O fato de me saber em estado de transgressão, colocou-me no espírito da coisa, além de me trazer à mente lembranças amargas mas caras, bem caras. Uns oito contos o papelote, se é que me lembro bem. Estava eu no estado ideal para enfrentar uma tropa de elite.

Tudo certinho

Na verdade, passados uns 70 minutos, comecei a me dar conta que era exatamente um filme sobre aquilo que se dizia ser, uma tropa policial de elite.

Vieram-me à mente, conturbada como de hábito, vários outros filmes ou séries de televisão, de Os Intocáveis a Nascido para matar, de Stanley Kubrik, principalmente na primeira metade, a do treinamento da scuderie, digo, esquadrão motorizado, digo, tropa de elite.

O filme enfatiza o treinamento intenso e rigoroso, sobre-humano mesmo, de soldados da Polícia Militar que formam o BOPE – e paro por aqui já que não deve haver brasileiro vivo que não saiba de que se trata.

Achei tudo certinho. Quer dizer, a câmera estava quase sempre no lugar certo, os atores tinham suas falas decoradas, muitas obviamente improvisadas, a narração fluía, inda que, como num riacho (de sangue?) encontrasse, aqui e ali, uma obstrução.

Só que faltava qualquer coisa. E não era a minha presença no Brasil pelos últimos 30 anos. Daí me deu o estalo de cinéfilo viciado como os fregueses da turma do morro.

Eu queria era ver sangue. Muito sangue mesmo. Jorrando como nos Saw 1, 2, e 3, que espero que vocês conheçam. Queria assistir maldades horrendas. Queria torturas horripilantes. Gente estourando, miolos espalhados pelas paredes, olhos sendo vazados, estampidos de balas sacudindo minha sala.

Um sujeito só carbonizado numa pira de pneus e dois ou três caras sufocando com a cabeça em sacos plásticos era pouco. Qualquer Tarantino, John Carpenter, Robert Rodriguez ou George A. Romero dariam um banho – sempre de sangue – em matéria de tortura e maldade. Cadê as degolas? Cadê o arrancar de unhas? Os olhos furados? As vísceras expostas? O garrote-vil? Problemas meus apenas?

Ou do espectador acostumado às manipulações do moderno cinema americano? Vá lá que seja, o culpado sou eu apenas. Feito um mordomo em livro inexistente da Agatha Christie. Tinha mais um trocinho, no entanto. Ou menos um trocinho.

Cadê gente?

Em nenhum momento, eu consegui me interessar por pessoa alguma que passou pelo filme pirata que vi na tela de minha televisão. Um homem tenso diante do espelho, ou terno diante da mulherzinha grávida é pouco, muito pouco. “They are all dead”, como diria, com seu fiapo de voz, Clint Eastwood, os olhos semi-cerrados, a boca crispada.

Nenhum dos presentes atuantes foi agraciado com o propalado “sopro de vida”. Ninguém me despertou interesse. Pena ou asco. Do lado do “Bem” ou do lado do “Mal”.

Achei tudo de um cinza anódino. Os bandidos, os traficantes, viviam daquilo, e naquela, como num faroeste do Sergio Leone. Poderiam estar no saloon derramando umas e outras enquanto as balas do mocinho não chegam.

Faltou gente, sobrou patente. Fiquei esperando os cartões postais do Rio. Nem esses tinham. Não reconheci nada nem ninguém. A não ser a Figueiredo de Magalhães e assim mesmo porque numa cena mostravam a placa com o nome da rua. Foucault foi mencionado, única hora em que senti um frio na boca do estômago.

Devo estar fora há muito tempo. Essa a única explicação para minha ausência instintiva e intelectual. Deus, que é brasileiro, e joga por nossa seleção, como todos sabem, além de castigar quem abandona por muito tempo o país, passa a bola entre as pernas daqueles que compram ou aceitam de presente DVD pirata.

Ou então foi o tempo que fez de mim esse troço de que tanto falam: “fascistóide”.

“Não somos nós os fascistas”, diz Wagner Moura

04/10/2007 – 14h31

“Não somos nós os fascistas”, diz Wagner Moura

OBVIAMENTE  TODOS OS INTERESsADOS DEVEM LER MATÉRIA COMPLETA E DESDOBRAMENTOS AQUI-clique-

RICARDO CALIL
Editor de UOL Cinema

ad=’180×150′; pos=’5′; sum=’0′; DEconn=0; var DEt=new Date(); DEt=DEt.getTime(); DErand=Math.floor(DEt*1000*Math.random()); var scw=0,sch=0; if(screen.height){scw=screen.width;sch=screen.height;} document.write(”);

Rogério Resende/Divulgação

Wagner Moura, que interpreta o capitão Nascimento no filme

Wagner Moura, que interpreta o capitão Nascimento no filme

Wagner Moura confessa estar exausto. O ator baiano emendou o final da novela “Paraíso Tropical” com a campanha de divulgação de “Tropa de Elite”, filme de José Padilha que estréia nesta sexta-feira. Conhecido pela intensidade com que abraça todos seus papéis, ele agora está visivelmente sem energia.Mas não é apenas a maratona física que tem exaurido Moura. Em entrevista ao UOL no Rio de Janeiro, ele se diz cansado também das acusações em série contra o “Tropa”, em especial a de que teria participado de um filme fascista. “O Diogo Mainardi falou em um podcast da ‘Veja’ (ouça aqui) que o cinema brasileiro não deveria existir, que não viu o filme, mas sabe que sou péssimo ator só pelo cartaz, que deveriam raspar minhas sobrancelhas. Ele é o herói de muita gente. E nós é que somos fascistas? É brincadeira.”

Em relação ao heroísmo que algumas pessoas enxergaram no capitão Nascimento, o truculento e incorruptível policial que ele interpreta em “Tropa”, Moura diz: “Para mim, o filme é uma tragédia, e o Nascimento está longe de ser um herói. Algumas pessoas podem até vê-lo dessa forma, mas não sou responsável pela opinião deles.”

UOL – Há notícias de que um boneco do Bope estaria sendo vendido por camelôs no Rio, como reflexo do sucesso da versão pirata de “Tropa de Elite”. Vários blogs exaltam o pensamento do capitão Nascimento. Como você vê essa glorificação dos personagens do filme?

Wagner Moura – Nós não fizemos um filme de heróis. Para mim, “Tropa” é uma tragédia. O capitão Nascimento é um homem dividido, cheio de conflitos. Mas tem muita gente que acha que a tolerância zero é a solução para o problema da violência e enxerga no personagem um representante dessa idéia. Essa não é a minha visão, mas pode ser a de alguém que assiste ao filme. Só que eu não sou responsável pela opinião desse cara. Nós apenas tentamos mostrar a realidade da violência pelo olhar do policial. Conheci oficiais do Bope que são íntegros e acham que a solução para a violência é subir o morro e matar os vagabundos. É um ponto de vista de alguém que enfrenta aquela guerra. Eu não concordo. Mas nem por isso acho que essas pessoas não devam ser ouvidas. A mentalidade delas é um produto da situação em que vivem diariamente. No caso do documentário “Ônibus 174”, eu também não concordo com o sequestrador, acho que o Sandro tinha que ser preso. Mas o filme queria mostrar como aquele garoto tinha sido transformado pela realidade. O “Tropa” faz o mesmo com a figura do policial.

UOL – A experiência de fazer o “Tropa” mudou sua opinião sobre a polícia?

W.M. – Hoje eu acho que o Bope é necessário. Não é a solução para o problema. Sou contra métodos como a tortura. Mas é preciso ter uma polícia com condição de enfrentar bandidos com armas poderosas.

UOL – O personagem do capitão Nascimento defende a idéia de que o consumidor da droga seja diretamente responsável pelo crime, por financiar o tráfico. Você concorda?

W.M. – Não, acho injusto jogar toda a responsabilidade no consumidor. As pessoas batem no elo mais fraco dessa tragédia. Mas é inegável que o consumo alimenta o tráfico. Sou a favor da descriminalização das drogas. Não sei como fazer isso, para onde vai a mão-de-obra do tráfico. Mas sei que não está funcionando do jeito que está. Acho que uma campanha de conscientização seria bem-vinda, embora não suficiente. Não acho eficiente apenas reprimir, porque o consumo de drogas sempre vai existir.

UOL – Você tem dado opiniões menos severas que o resto da equipe contra a pirataria. Qual é sua visão sobre o problema?

W.M. – Todos nós do filme concordamos que a pirataria é um problema terrível. A acusação de jogada de marketing foi muito dolorosa para o Zé (Padilha) e para toda a equipe. Mas não dá também apenas para tentar impedir a pirataria, não dá para retroceder nessa questão do acesso às novas tecnologias. Então as gravadoras de disco, as distribuidoras de cinema têm que encontrar fórmulas para se adaptar a essa realidade, a fazer dinheiro dentro desse modelo. Eu tenho amigos que não compram mais disco, que baixam filmes pela internet. Eu nem sei fazer isso, porque sou um dinossauro tecnológico. Ainda gosto de comprar o CD, ver a capa, as letras.

UOL – Você diz que a acusação de jogada de marketing foi dolorosa para a equipe. E a de fascismo, que é muito mais pesada?

W.M. – Essa acusação foi triste. Eu me sinto atingido pessoalmente. Não sou fascista, o Zé não é fascista, o filme não é fascista. O Diogo Mainardi escreve na “Veja” que o Brasil não precisa de cinema, que o governo não deveria dar dinheiro para os filmes, que só viu o cartaz de “Tropa de Elite”, mas já deu para perceber que sou um péssimo ator, que deveriam raspar minhas sobrancelhas. Tem muita gente que o vê como um herói. E nós é que somos os fascistas?

=-=-=

Retirado de UOL  CINEMA: © 1996-2007 UOL – O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.