Morrissey, o pária


Cover of "Years of Refusal [CD/DVD]"

O EX-VOCALISTA DOS SMITHS REJEITA A VOLTA DO GRUPO, CRITICA ESTRELAS POP, COMO MADONNA, FALA DE SUA VIDA RECLUSA E MAMBEMBE E DIZ SE SENTIR ORGULHOSO POR SER ÍDOLO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA

BENOÎT SABATIER

Julho de 1972. Manchester, cidade industrial do norte da Inglaterra. Steven Morrissey acaba de completar sofridos 13 anos. Ele, que se sente mal consigo mesmo, mal na escola, mal em sua família, pode nessa noite sair de seu cotidiano infeliz: seu pai, carregador de macas no hospital, leva-o para assistir a seu primeiro concerto.
O T. Rex está se apresentando no Belle Vue. Na cabeça de Steven, é uma explosão atômica que se produz. Ele vê um outro mundo possível, enxerga a vida ampliada. No microfone, um deus, Marc Bolan, vestindo calça de lamê dourado, paletó de smoking enfeitado com strass brilhante.

É esse glam rock que faz Steven sentir-se vivo: os discos que ouve religiosamente em seu quarto em Hulme, bairro proletário da cidade, e os visuais que o fazem sonhar. Ou Roxy Music, com suas fotos cheias de glamour e seus figurinos tão extravagantes. Socialmente deficiente, recusando-se a beber muito com seus amigos, Steven passa seu tempo lendo, assistindo a filmes, ouvindo música e escrevendo. Lê Virginia Woolf e Oscar Wilde e encontra ídolos ainda mais loucos. E os New York Dolls.
Quando encontra o jovem guitarrista Johnny Marr, finalmente as coisas começam a rolar. The Smiths lançam seu primeiro single em 1983. A ideia dos Smiths é voltar às guitarras, inventar o futuro evocando Elvis e The Kinks. Os maiores sucessos da época (Spandau Ballet, Duran Duran, Paul Young…) se fundem no pop sintético, veiculam o yuppismo e defendem a diversão. The Smiths partem diretamente para cima de seu alvo -a miséria humana.

Morrissey, que fará 50 anos em maio, acaba de lançar seu novo álbum, “Years of Refusal” (Anos de Recusa, gravadora Decca/Polydor).
“Tenho horror a drogas. Tenho horror a cigarros. Sou celibatário e tenho um modo de vida muito saudável”, diz. E proclama: “Somos reacionários”. Mais tarde: “Os Smiths estavam em ruptura com tudo o que sua época veiculava”.

A “smithsmania” alcança um paroxismo angustiante quando um adolescente armado invade uma rádio de Denver [EUA], em 1987, e ordena que a estação transmita apenas canções de seu grupo adorado.

O rapaz só se rende depois de quatro horas. Já os Smiths se rendem depois de cinco anos. Nick Kent: “A notícia da separação deles provocou mais suicídios que os anúncios da morte de Elvis, da separação dos Beatles ou da divisão dos Stones, todos juntos”.

Fãs chicanos
Sem seu grupo, sai seu primeiro álbum solo, “Viva Hate”, que entra diretamente no primeiro lugar das paradas. Bate o recorde dos Beatles, ao vender em 23 minutos todos os ingressos para seu show no Hollywood Bowl.

Morrissey muda-se para Los Angeles, para o Sunset Boulevard, na mansão que Clark Gable ofereceu a Carole Lombart -uma casa na qual já moraram Francis Scott Fitzgerad e John Schlesinger. Não atende ao telefone; comunica-se por fax.
Seus novos fãs montam acampamento diante de sua casa. São multidões de jovens chicanos com atitude que se unem em torno do canto atormentado de Moz.

Musicalmente, não cede a nenhuma moda, mantendo-se fiel a seus amores, o glam e o pop. Contrata um bando de músicos de rockabilly, cantando canções compostas por nomes secundários.

O importante, na era dos downloads, é fazer apresentações ao vivo instigantes.

“Na realidade o mundo não quer ouvir apenas Brócoli [Britney] Spears. Também existem ouvintes esclarecidos.”

Ofereceram a ele US$ 75 milhões para que reformasse os Smiths. “Eu preferiria comer meus próprios testículos, o que seria uma façanha e tanto para um vegetariano como eu.”
Recusa. Pose. Leia mais na entrevista abaixo, cara a cara, numa mansão londrina.

*
PERGUNTA – Você parece permanecer mais no plano da recusa do que no da aceitação. Vem daí o o título de seu novo álbum?
MORRISSEY – É assim que vejo minha posição artística no meio musical. Desde o começo, vejo-me obrigado a recusar todo tipo de pressão. Para juntar à sua volta a grande família das celebridades da cultura pop, você precisa aceitar certas concessões. Não faço parte desse mundo. Isso não é a cultura pop, é a cultura puta.

PERGUNTA – Essa é uma postura moral ou estética?
MORRISSEY – É o caminho para continuar a fazer arte.

PERGUNTA – Nos anos 1980, a recusa do nivelamento vinha dos selos pós-punk: na realidade, você se manteve fiel a essa ética, a ética da música indie.
MORRISSEY – Bem… Ao espírito da independência, OK.

PERGUNTA – É isso que significa “indie”? Independência?
MORRISSEY – Originalmente, sim, mas o indie virou um gênero musical, do qual minha música não faz parte. Hoje o indie virou um “look”, uma postura, mas, no início dos anos 1980, era uma profissão de fé e também a promessa de alcançar um público muito reduzido. Naquela época era muito difícil os independentes chegarem a um público grande. Os Smiths conseguiram, mas éramos casos isolados.

PERGUNTA – O fato de o indie ter virado mainstream quer dizer que a luta que você travou com os Smiths foi vitoriosa?
MORRISSEY – Uma vitória, sim, mas cujo resultado foi pela metade. Por um lado, podemos nos parabenizar porque alguns grupos indies fazem sucesso hoje, mas eu nunca recebi crédito por essa vitória. Ninguém se encarregará disso.

PERGUNTA – Você usa sua celebridade para obrigar as pessoas a deixá-lo em paz…
MORRISSEY – Não sou uma celebridade. Meu status não tem nada a ver com essa palavra.

PERGUNTA – Quando era adolescente, o glam rock foi a música que fez você finalmente se sentir vivo?
MORRISSEY – Exatamente. Eu tinha só dez anos quando o T. Rex, mas também Bowie, com “The Man Who Sold the World”, mudaram tudo. Além do rótulo glam rock, havia uma visão bombástica. Você não pode imaginar o efeito que exercia, na época, ver aqueles artistas todos usando maquiagem. Hoje em dia isso passa despercebido, é até mesmo um pouco ridículo e, em todo caso, não faz mais sentido. Mas em 1971-72! Era tão estranho! Mais que ousado -era perigoso.

PERGUNTA – Você gravou este novo álbum em Los Angeles…
MORRISSEY – Sim.

PERGUNTA – É um lugar onde você se sente bem?
MORRISSEY – É uma cidade que ainda me fascina. É um bom lugar para minha música, para a inspiração, para minha tranquilidade.

PERGUNTA – Parece incrível que você, popstar tão inglês, tenha se instalado na cidade de 50 Cent e Axl Rose. Mas, quando a gente ouve uma canção como “When I Last Spoke to Carol”, isso passa a parecer quase natural.
MORRISSEY – Verdade? É por causa do lado latino de Los Angeles. Eu tinha ouvido música com som de trompete, inspirei-me nisso.

PERGUNTA – Acha estranho ser idolatrado pela comunidade latina?
MORRISSEY – Sinto-me sobretudo lisonjeado. Quando vejo as tatuagens de “Morrissey”… Acho comovente. O fato de queimarem meu nome na pele… Me sinto devotado a eles, também.

PERGUNTA – São os párias do sonho americano.
MORRISSEY – Sim, de certo modo. Tenho muito orgulho desse título: “O cantor dos párias”.

PERGUNTA – Esse título sempre o agradou?
MORRISSEY – Oh, sim.

PERGUNTA – Por quê?
MORRISSEY – Porque é o que eu sou. Eu me sinto antissocial. É a verdade, eu sou um antissocial. Ao mesmo tempo em que tenho milhares de fãs, mal sou tolerado pela indústria, nunca fui convidado pela MTV, continuo a ser um artista à margem. Não é como se eu tivesse sentado e decidido “vou ser um marginal”. Eu sou marginal no meu eu mais profundo. Portanto, não tenho escolha.

PERGUNTA – Apesar disso, você se integrou à sociedade.
MORRISSEY – Não, de jeito nenhum. Os valores que a sociedade favorece não são os meus. Não quero formar um casal bonito, não quero me integrar aos clichês de uma vida doce, feliz e perfeita. Já há gente suficiente comprometida com isso -não é preciso que eu também o faça.

PERGUNTA – Isso é recusa ou é incapacidade?
MORRISSEY – As duas coisas. Sou tremendamente individualista. Nego-me a ser capaz de pensar como meus vizinhos. Venho sobrevivendo assim há anos; controlo meu corpo e tenho poucas razões para andar na companhia daqueles que chamam de meus semelhantes.

PERGUNTA – Mas você vai a algumas festas de vez em quando, não?
MORRISSEY – Festas? Não, não. É entediante demais, de verdade. A presença das pessoas me desequilibra. A necessidade de falar… é difícil demais.

PERGUNTA – Com os Smiths, você cantava como é difícil viver no mundo. Esse ainda é um de seus temas mais importantes?
MORRISSEY – Sim. Não é um assunto que varie conforme mudam as tendências. Em todo caso, não vejo como eu poderia deixar de escrever sobre isso: escrever sobre a condição humana, não existe nisso nada de superado. É algo que será sempre atual.

PERGUNTA – “Life Is a Pigsty”, um dos títulos de seu álbum anterior…
MORRISSEY – Sim, a vida é mesmo um chiqueiro, não é? Uma tortura. O calvário só termina quando se morre. É tão sádico assim.

PERGUNTA – É esse o tema da nova canção “That’s How People Grow Up”?
MORRISSEY – Falo do fato de que, para começar, a gente precisa tentar encontrar seu próprio lugar no mundo, que tudo nos parece impossível, que é preciso ser forte, e então, quando a gente finalmente dá certo, se dá conta de uma coisa: está sozinho. Para o resto da vida.

PERGUNTA – Há a música, os filmes, os livros.
MORRISSEY – É só disso que precisamos.

PERGUNTA – A música pop foi durante muito tempo vista como uma arte menor. Você infundiu nela uma dimensão letrada…
MORRISSEY – Isso me parece importantíssimo. Mas, quando você se engaja nessa via, arrisca muito. Porque a crítica será ainda mais virulenta.

PERGUNTA – A cultura continua a apaixoná-lo? Você ainda descobre novos filmes, ainda lê muito, ainda ouve música?
MORRISSEY – Os livros, os romances novos, alguns me parecem atraentes, mas pressinto a decepção… Quanto ao resto, sim, sem parar.

PERGUNTA – O quê?
MORRISSEY – Tenho visto muitos filmes ultimamente… mas nada de bom. Não, nada que seja inesquecível. Vivo na esperança.

PERGUNTA – Você não vive mais em Roma?
MORRISSEY – Não. Eu estou por aqui, mas não tenho casa. Vou de cidade em cidade, sem me fixar.

PERGUNTA – Você carrega todos os seus livros, discos, DVDs?
MORRISSEY – Na verdade, a maior parte de minhas coisas estão num guarda-móveis.

PERGUNTA – Você é uma espécie de mito vivo. Ainda tem alguma coisa a provar?
MORRISSEY – É claro que sim. Para começar, não devo decepcionar aqueles que me acompanham há tanto tempo e que vão continuar a ouvir minhas canções novas. Depois, sempre há novas pessoas a convencer. E há também os artistas à minha volta. Tenho que provar para mim mesmo que continuo a ser essencial a eles.

PERGUNTA – Você ainda pensa que “todos os dias são silenciosos e cinza” ou há dias em que se diverte?
MORRISSEY – Hoje sou mais tolerante comigo mesmo. Quando você é jovem, é mais intransigente, quer a toda hora provar alguma coisa. E então você chega aos 23 anos, sua mãe morre, e você aprende a tolerância.

PERGUNTA – Se você ficasse feliz, teria menos a dizer?
MORRISSEY – Estou disposto a correr esse risco.

PERGUNTA – Você tem o status de ícone pop, e isso recusando-se a fazer como Madonna ou Mick Jagger, que difundem a imagem de feras do sexo. Esse é um desafio adicional?
MORRISSEY – Um desafio para mim? Em quê?

PERGUNTA – Por recusar-se a se divulgar como hiperssexuado.
MORRISSEY – Bem, sim, de certo modo. Esse tema fascina, especialmente quando se trata de alguém como eu, que, de fato, não tem o mesmo discurso das pessoas que você acaba de citar. Será que tenho que explicar minha vida, me justificar em relação a isso? Não é mais físico, para mim -é metafísico. Mas é preciso que eu dê uma resposta -e, é claro, uma resposta inteligente. Isso às vezes é cansativo, exagerado.

PERGUNTA – Você é uma anomalia, porque, para ser popstar, convém proclamar que se é alguém sedento de sexo.
MORRISSEY – A atitude de Madonna é apenas marketing, nada mais. Saber até que ponto ela se vestiu escandalosamente não tem importância nenhuma. Ela age assim, e, concretamente, isso não tem nada de sexual -é um clichê. Ela ou todos os outros. É bastante assustador pensar que se possa vender milhões e milhões de discos jogando com clichês. Será que realmente não têm consciência de que cada um está jogando um jogo hipócrita?

PERGUNTA – Com você, é “no sex” e “no drugs”?
MORRISSEY – De certo modo, a contracultura virou uma mentira: findo o lado espontâneo, os artistas do rock agem da maneira que se espera deles, ou melhor, como pensam que se espera deles… Isso virou uma camisa-de-força que é preciso vestir para passar uma impressão de descontraído. Mas, se você olhar os artistas da geração da contracultura, hoje eles se comportam da maneira mais sadia possível. Há uma inversão de gerações, um retorno.

PERGUNTA – As pessoas perguntam a McCartney há 40 anos quando os Beatles vão voltar juntos. E você, nunca vai aceitar as somas colossais que lhe são oferecidas para voltar a tocar com Johnny Marr ou não tem tanta certeza assim?
MORRISSEY – Nunca me acontece de não ter certeza quanto a isso. Ou de me sentir tentado pelo que chamo de concessão. The Smiths foi algo que aconteceu, que teve um começo e um fim e que foi quase perfeito. Não devemos mudar isso.

=-=-=-=-=-=-=–
(*) A íntegra dessa entrevista saiu na Technikart.
Tradução de Clara Allain

****
Publicado na Folha de S. Paulo, em 15 de março de 2009

Anúncios

Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

* * *

=-=-=-=
Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

ROBERTO MACHADO – ENTREVISTA

ENTREVISTA  À REVISTA FILOSOFIA
Interdisciplinaridade para a Filosofia da diferença
Roberto Machado, que foi aluno e hoje é estudioso de Deleuze, explica como filósofo francês usa a união de vários pensamentos e disciplinas, como arte e a ciência, para a construção da singularidade e do pensar diferente

POR PATRÍCIA PEREIRA

 
 
FOTOS: SILVIA CONSTANTI
“Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por meio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados -principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamentoda diferença “

Há uma famosa frase de Foucault que diz que “um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Para Roberto cabral de Melo Machado, autor de Deleuze e a Filosofia – já esgotado – e Deleuze, a Arte e a Filosofia, a ser lançado em agosto deste ano, isto não é possível: “Foi uma brincadeira que Foucault fez”, afirma. Machado explica que não tem sentido ser deleuziano, pois, como Nietzsche e Foucault, Deleuze é um filósofo da singularidade, a quem não caberia ter discípulos. Seus escritos devem ser usados, por seus seguidores, como instrumentos para que cada um crie seu próprio pensamento. Machado é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade católica de Louvain, na Bélgica, tendo feito seu pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com Deleuze. “Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar.” hoje, professor titular do Instituto de Filosofia e ciências Sociais da UFRJ (IFcS/UFRJ), Machado diz nesta entrevista que, para Deleuze, há ressonâncias entre a arte, a ciência e a Filosofia, sem que haja prioridade de uma sobre as outras. as três seriam atividades criadoras, com interferências mútuas. ou seja, no “saco” da Filosofia também podem entrar ideias vindas da arte e da ciência. Também aponta como a Filosofia de diferentes pensadores aparece na criação de conceitos por Deleuze: “Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia.”

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – O que mais o instiga em Deleuze? O que o motiva a estudá-lo e publicar livros sobre ele?
Roberto Machado – Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. Admiro-o muito como alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, preparando intensamente seus cursos, transformando esses cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, ele era alguém profundamente comprometido com as questões atuais do mundo, às quais dava respostas originais e muito sugestivas. Fui tocado pela maneira como pensou o socialismo e o capitalismo, a questão palestina, a importância do chamado terceiro-mundo, o movimento de maio de 68, as minorias, as drogas, etc. O que me levou a estudá-lo foi, antes de tudo, o encanto de suas aulas, cheias de sugestões sobre como pensar filosoficamente esses e muitos outros temas. Mas, sobretudo, o desejo de compreender seu pensamento de modo sistemático, pois mesmo notando o quanto suas aulas e seus escritos eram sugestivos, senti necessidade de esclarecer o que possibilitava todas aquelas ideias. Deleuze é um dos filósofos mais complicados que li. Sentia que estávamos maravilhados com o que ele dizia, mas compreendíamos superficialmente seu pensamento. Por isso resolvi estudar sua Filosofia sistematicamente e esclarecer seu modo de pensar em todos os seus livros.

FILOSOFIA – Em 1990, o senhor publicou o livro Deleuze e a Filosofia. Em agosto deste ano, irá publicar Deleuze, a Arte e a Filosofia. Em que sentido o segundo livro complementa o primeiro?
Machado – Logo depois que fiz concurso para professor titular da UFRJ, em 1984, com a tese que foi publicada em livro com o título Nietzsche e a verdade, dediquei meus cursos e minha pesquisa à Filosofia de Deleuze. Foi assim, por exemplo, que fiz pós-doutorado com ele no ano letivo de 1985-1986, na Universidade de Paris VIII, onde ele ensinava. Em 1990, publiquei o livro Deleuze e a Filosofia, que é o resultado desses estudos. As principais hipóteses desse livro, há muito esgotado, são as seguintes: 1) O tema central da Filosofia de Deleuze é o pensamento, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia: filósofos, cientistas, artistas são pensadores, mesmo que pensem com elementos diferentes; 2) Ao estudar a Filosofia ou saberes não filosóficos, Deleuze busca elaborar o conceito de pensamento diferencial e fazer a crítica do pensamento representativo, aquele que subordina a diferença à identidade; 3) Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por intermédio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados – principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamento da diferença. Depois que terminei meu estudo, Deleuze (que morreu em 1995) ainda escreveu alguns livros. Ora, lendo seus novos livros, ou relendo mais atentamente livros que ele havia escrito sobre a pintura, o cinema e a Literatura, que eu não havia analisado, descobri ser possível mostrar que as hipóteses que eu procurava comprovar levando em conta seus textos sobre filósofos, também podiam ser confirmadas pelos textos não analisados anteriormente. Desse modo, levando em consideração tudo o que Deleuze escreveu, cheguei à conclusão nesse meu novo livro, Deleuze, a Arte e a Filosofia, que a questão central de sua Filosofia, “O que significa pensar?”, tem sempre como resposta a afirmação da divergência e da disjunção. Isto é, o que lhe interessa é, antes de tudo, o estabelecimento da relação entre termos, ou entre séries, como uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Enunciado assim, isso pode parecer enigmático, e realmente a Filosofia de Deleuze é muito complicada. Mas, felizmente, fui capaz de mostrar, no que diz respeito a cada um de seus livros e à totalidade do que ele escreveu, o que isso quer dizer.

NÃO HÁ CONCEITOS ETERNOS. POR ISSO A FILOSOFIA CONTINUA VIVA, SEMPRE SE TRANSFORMANDO, SEMPRE PENSANDO NOVOS PROBLEMAS E NOVAS QUESTÕES: SEMPRE CRIANDO NOVOS CONCEITOS

 

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – De acordo com Deleuze, o pensamento não é privilégio da Filosofia. Ele também é produzido pela Arte e pela Ciência. Mas qual seria a diferença entre as três formas de pensar: são estruturas diferentes de produção de pensamento (maneiras diferentes de pensar os mesmos temas) ou formas de pensamento com focos distintos (cada uma se volta para certos temas)?
Machado – Há uma tendência da Filosofia moderna, desde Kant, de distinguir a Filosofia dos outros saberes por uma diferença de nível, o que faz da Filosofia um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação. É essa, por exemplo, a posição do neopositivismo, da Epistemologia francesa, da Filosofia Analítica da linguagem. Diferentemente dessas correntes, a Filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a Filosofia com relação às Ciências e às Artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes produziriam conhecimento e a Filosofia seria uma reflexão sobre esses conhecimentos da Ciência, das Artes, da Literatura. Para Deleuze, a Filosofia é criadora e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas isso não significa assimilar os diferentes domínios de saber, pois o poder criador da Filosofia é específico. A diferença é que o objetivo da Ciência é criar funções, o objetivo das Artes e da Literatura é criar agregados sensíveis, sensações, e o objetivo da Filosofia é criar conceitos. Assim, há especificidade dos saberes, no sentido em que cada um responde às suas próprias questões ou procura resolver com seus próprios meios – conceitos, funções, sensações – problemas semelhantes aos colocados pelos outros saberes.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

Paulinho da Viola: sofre assalto e fala sobre descrença

paulinho.jpg

Vítima de assalto, compositor reclama do “sistema viciado” e afirma que a pior sensação é a da descrença

MARIA LUIZA RABELLO
DA SUCURSAL DO RIO

Vítima de assalto anteontem na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o sambista Paulinho da Viola, 65, afirmou não ter ficado revoltado nem conformado com o episódio. Segundo ele, a sensação é pior: “uma certa descrença”.
“Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje, não falo nada porque já se falou tudo.” À Folha, o compositor afirmou que a insegurança aumentou, mas que não pensa em deixar o Rio. “Ir para onde? A pergunta é essa.” A seguir, leia a entrevista:

FOLHA – Como o assalto aconteceu?
PAULINHO DA VIOLA
– Estávamos a caminho de um restaurante para encontrar um casal de amigos. Atrás de mim vinham vários carros, eram umas 6h da tarde, tinha muita gente voltando da praia. Eu estava quase chegando no centro de Itanhangá, quando ouvi aquela freada. A uns 30 metros adiante vejo um carro parado e uns homens saindo com armas. Já sabia o que era e abaixei os vidros do carro. Falei para a Lila [mulher] ficar calma, a minha maior preocupação era com a reação dela. Até uma medalha de prata foi arrancada do meu pescoço. Era uma medalha de Santo Antônio de Pádua que eu ganhei e gostava muito.

FOLHA – Como você se sentiu ?
PAULINHO
– Sempre achei que teria uma reação de maior sofrimento, de maior angústia num momento desses. Achei que fosse ficar chateado, mas não fiquei. A minha reação foi fria e depois de tudo continuou fria. Não foi uma reação de revolta, nem de conformação, é uma coisa que ainda não consigo definir dentro de mim. Me surpreendeu também a reação daqueles que estavam no carro de trás. Tinha família com crianças e alguns pararam para oferecer ajuda, para dar um copo d’água, emprestar o telefone. Tem gente muito solidária nessas horas.

FOLHA – De forma geral, a sensação de insegurança hoje é maior?
PAULINHO
– Ah, com certeza. Isso já vem de algum tempo. São tantos os casos. Quando chegamos na delegacia tinha uns quatro ou cinco casos parecidos. Falei com o inspetor, que disse que no dia primeiro [de janeiro] talvez seja pior. Então, convivendo com isso, com todas as notícias que saem no jornal, você cria um temor, é claro. Todo mundo só fala isso [violência] e não é só no Rio. Em São Paulo, os carros blindados são comuns.

FOLHA – Quem você responsabiliza por esse cenário?
PAULINHO
– Olha, eu tenho pensado muito sobre isso e já me fizeram essa pergunta várias vezes. Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje eu não falo nada porque já se falou tudo. A gente bate na mesma tecla, é aquilo que todo mundo já sabe, tem vários especialistas debruçados sobre isso. Eu vou falar o quê? No que acrescentaria? Vou engrossar qual coro? Está tudo escancarado.

FOLHA – O que falta, então?
PAULINHO
– Faltam ações efetivas. É uma coisa mais complexa, é um quadro que vem de muitos anos, uma estrutura já instalada. É um sistema viciado de todas as formas. O que dizer quando você abre o jornal e vê, todo dia, uma parte da classe política da sua cidade envolvida em uma série de denúncias? Você vai falar o quê, para quem? Essa é que a sensação pior: uma certa descrença.
Se você perguntar qual é a solução, eu não sei. Sou um cidadão como outro qualquer. Eu leio as cartas dos leitores nos jornais, eu gosto de saber a opinião das pessoas. Tenho um samba que diz “ninguém pode explicar a vida num samba curto”. É a mesma coisa, as cartas são muito pequenas para se colocar toda a questão. Mas você percebe que há perplexidade, há um sentimento de insegurança, de desconforto, de impotência para alguns. Há quem diga que o país acabou, mas a gente sabe que não é assim.

FOLHA – O episódio te fez pensar em deixar o Rio?
PAULINHO
– E ir para onde? A pergunta é essa [risos]. Eu não tenho esse sentimento de sair daqui, gosto muita da minha cidade.

Caetano e os políticos

05/10/2007
Caetano Veloso, músico brasileiro: “os políticos hoje parecem artistas pop”


Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

No Brasil o chamam de “o homem”. É o artista mais respeitado, o mais venerado. Uma espécie de deus musical que transcende a arte: Caetano é tudo no Brasil. E fora dele representa o país, assim como Bob Marley fez com a Jamaica, Fela Kuti com a Nigéria ou Lennon e McCartney com a Inglaterra.

Aos 65 anos, Caetano Veloso vive uma segunda, terceira ou quarta juventude. Veste-se de modo mais informal que nunca (jeans rasgados, tênis). Fala sem rodeios de sexo. E dá uma volta de parafuso em seu trabalho, aterrissando em um rock rebelde e fresco. “Cê” (Universal), seu último trabalho, é uma bofetada sonora cheia de matizes. Para o compor, gravar e interpretar, Caetano cercou-se de um “dream team” de músicos jovens, da idade de seu filho Moreno. “Tenho muito a aprender com eles”, sussurra entre risos.

O camaleão brasileiro (cada álbum é um mundo, um estilo, uma aposta de vanguarda) fala com afabilidade. Pensa nas respostas. Mede suas palavras, mas não tem papas na língua. No final deste mês dará três concertos na Espanha: Madri (dia 19), Donosti (dia 21) e La Coruña (dia 23). Além de “Cê”, a Universal lança a coletânea “Língua”, com canções de Caetano em vários idiomas (castelhano, inglês, italiano, francês).

Abaixo, a entrevista com o compositor e cantor.

Orlando Barr�a/EFE - 17.ago.2007  
Caetano Veloso diz que “Cê” é seu trabalho mais roqueiro por ser um disco de banda

La Vanguardia – Na idade em que a maioria dos artistas se assenta ou elabora trabalhos mais tranqüilos, você dá um giro roqueiro. Por quê?
Caetano Veloso –
Bem, estou no rock desde 1966. Tenho inclusive discos dos anos 80 com algo de rock. Mas este é o meu disco mais roqueiro porque é um disco de banda. Montei um grupo que participou da criação. E isso lhe dá uma atmosfera de rock, um som mais duro. Por isso é melhor ouvir “Cê” ao vivo.

LV – Pedro Sá, Ricardo Dias, Marcelo Callado, os membros de sua banda, têm entre 26 e 36 anos. Aposta nos jovens?
Caetano –
São muito bons e nos entendemos muito bem. Eles têm uma cultura musical muito grande, e não só da música de sua geração. E têm uma posição crítica muito boa. Aprendo muito com as gerações jovens.

LV – “Cê” fala de sexo, separação, dor. Nos últimos anos você se separou de Paula Lavigne e isso se reflete em algumas canções. O disco parece bastante autobiográfico.
Caetano –
Como sempre, algumas coisas. Mas nem tanto. “Não me arrependo” é totalmente autobiográfica. Outras canções, como a do orgasmo múltiplo, são pessoais. É algo que eu sempre disse: das mulheres só invejo a capacidade dos orgasmos múltiplos. Bem, já disse aqui. O sexo sempre foi muito importante para mim. Em troca, “Odeio” é uma canção mais oblíqua. Me separei. Esse assunto voltava à cabeça. Ruptura, dor, amor, o outro lado da moeda. Que vem a ser o mesmo. Gosto de excitar a imaginação para abordar esses temas pessoais.

LV – Quando você pronuncia “odeio” na canção, o faz com suavidade. Parece dizer “te amo”…
Caetano –
Sim, a canção fica mais suave. Essa é a idéia, desfazer a fronteira do amor e do ódio, que é uma película muito fina.

LV – Completam-se 40 anos do tropicalismo, movimento do qual você foi fundador. Voltaria a afirmar “sou eternamente tropicalista”?
Caetano –
É o que sinto. O que me levou até lá me trouxe aonde estou.

LV – Qual foi a grande contribuição do tropicalismo? O que o mantém vivo, de certa forma?
Caetano –
É difícil dizer. Foi um movimento multifacetado. Um comentário, feito com colagens, sobre o estado em que se encontrava a criação da música popular e a cultura de massas, no Brasil e no mundo.

LV – Qual foi sua principal conseqüência?
Caetano –
Pode-se ver até hoje em dia. Significou uma ruptura de tabus, uma abertura de portas. E desrespeitamos os preconceitos!

LV – O Brasil tem maior facilidade para romper tabus, para misturar-se, para a abertura?
Caetano –
Creio que sim. É muito misturado racialmente e é o único país da América que fala português e que em vez de se desmembrar em vários países se transformou em um país-continente. Além disso, tem a maior população negra fora da África, a segunda do mundo depois da Nigéria. Muitas desvantagens criaram uma vantagem, uma espécie de bênção.

Nascido em 1942 na Bahia e irmão de outra grande, Maria Bethânia, Caetano Veloso é um símbolo da música brasileira. Foi com Gilberto Gil um dos fundadores do tropicalismo, movimento cultural e político que misturou música tradicional e vanguarda. Devido à ditadura, Veloso se exilou em Londres em 1969. Entre suas obras, discos como”Bicho”, “Outras Palavras”, “Estrangeiro” e “Circuladô”.

LV – O Brasil tem facilidade para popularizar a música? Até a bossa nova, criada pela elite cultural, teve enorme popularidade.
Caetano –
Exatamente. Os discos mais radicais de João Gilberto foram os que mais venderam. Creio que isso acontece porque o Brasil tem algumas peculiaridades e alguns defeitos.

LV – Como quais?
Caetano –
O Brasil tem um grande déficit em cultura erudita e em escolaridade, a pior distribuição de renda da América e uma das três piores do mundo, só melhor que Haiti e Serra Leoa. Um país péssimo.

LV – O que você acha da gestão de Gilberto Gil como ministro da Cultura?
Caetano –
Quando ele recebeu o convite, eu fui contra. Agora se transformou no Lula de Lula, no símbolo de seu mandato. Ajuda a consolidar a simpatia que o mundo tem por Lula, sobretudo na Europa. Como ministro tem poucos recursos e uma boa atuação. Tem interesse pelas coisas mais modernas, distribuição, era digital, internet. Ele criou os pontos de cultura, que prestam atenção a expressões culturais minoritárias. Não é um ministério inócuo, inoperante.

LV – O que você acha de ele defender a Creative Commons como alternativa para o copyright?
Caetano –
Acho bom que ele diga isso como ministro. Até que abra seus direitos como músico. Mas parece que, como autoridade musical, está obrigando outras pessoas a fazê-lo. Deveriam proteger quem criou a obra de arte. Mesmo que seja por um período, um tempo. A arte não é um automóvel, uma geladeira. Não se pode distribuir gratuitamente uma geladeira.

LV – No concerto no Rio você criticou Lula, mas também a oposição. O Brasil leva demasiado a sério tudo o que Caetano diz?
Caetano –
Não creio. Não estou muito perto dos artistas da minha geração que dão opinião política sempre. Hoje já não se faz muito isso porque os artistas não têm tanta vinculação com a política. Em compensação, os políticos estão mais parecidos com os artistas pop, a forma como se faz política é pop. Mantenho-me à margem. Alguém disse em um blog que já não agüentava mais Caetano opinando sobre qualquer coisa. Ninguém agüenta mais Caetano opinando. Adoro que digam isso.

LV – Sua mãe completou 100 anos há poucos dias e comemorou em grande estilo na Bahia. Foi à inauguração da Casa do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, em Santo Amaro. E passa parte do ano em sua casa em Salvador. Que influência a Bahia ainda tem em sua vida?
Caetano –
Muito grande. Minha mãe vive lá, meus irmãos mais velhos. Meus filhos, netos. Tenho uma casa lá. Adoro Salvador, adoro a axé music, adoro toda a história dessa música, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Timbalada, Olodum, Illê Aiyê, idolatro aquilo. Gosto mais daquilo que de rock. A Bahia é onde eu cresci e vivo lá parte do tempo. Embora na realidade eu não seja de lugar nenhum; ninguém é de lugar nenhum.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do La Vanguardia

Entrevista: Philip Roth

 Retirado da Folha de São Paulo

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A.

“Isso que temos agora é um desastre”, diz Philip Roth; sobre a próxima eleição presidencial, escritor afirma que os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos

PHILIP ROTH, um dos maiores escritores norte-americanos vivos, diz que que George W. Bush “não tem capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados” e que a agenda do Partido Republicano é “combater os anos 60”. Estamos em setembro de 2000, no escritório de seu agente, em Manhattan. Seu livro “Casei com um Comunista” acaba de ser lançado no Brasil. O autor está animado: acha que Al Gore ganhará as eleições do final do ano.
Corte.
Roth, agora aos 74 anos, reencontra o repórter no mesmo local para falar de “Homem Comum”, que sai no Brasil. Com voz mais fraca e aspecto mais cansado, está desanimado. Diz estar “perplexo com realidade à vista”. Volta a atacar Bush e repete, sobre a velhice, o que escreveu no livro: “É um massacre”.

SÉRGIO DÁVILA
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

Leia a seguir a entrevista que o escritor norte-americano Philip Roth concedeu à Folha, na semana passada, em encontro no escritório de seu agente, no centro de Manhattan, Nova York.
 
FOLHA – A última vez que nós conversamos, quando “Casei com um Comunista” estava sendo lançado no Brasil, foi há sete anos, em setembro de 2000. Falamos sobre a disputa dos candidatos George W. Bush e Al Gore, o sr. disse como os republicanos estavam tentando apagar os anos 60 do mapa e que Al Gore seria eleito.
PHILIP ROTH –
[Risos] Éramos dois sujeitos espertos!FOLHA – O sr. disse também que Bush não teria capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados, quanto mais comandar um país. O que o sr. diz, sete anos depois?
ROTH –
[Resignado] Eu estava errado. É trágico. Eu estava tragicamente errado…

FOLHA – O pior, segundo sua previsão, aconteceu: o homem que não “tinha capacidade para dirigir um armazém” está no final de seu segundo mandato. Qual sua opinião hoje?
ROTH –
Bem, a primeira eleição foi um roubo. Ele nunca foi realmente legitimado como presidente, é o que me parece, para o primeiro mandato. No segundo mandato, o país o queria. Eles o escolheram… E ele é, sem dúvida, o pior presidente que nós já tivemos. O pior. Pior do que o pior. E a Guerra do Iraque é a principal prova disso. Essa guerra selvagem, cara, brutal e desnecessária.

FOLHA – E sobre a tentativa de apagar os anos 60 da história americana, o sr. acha que eles foram bem-sucedidos?
ROTH –
Bem… Tem havido uma dessecularização da esfera pública, e os anos 60 eram a secularização, entre outras coisas. Hoje em dia já não sei mais se eles estavam mesmo mirando os anos 60. O que Bush fez foi indicar dois juízes para a Suprema Corte que farão tudo o que puder para tornar o aborto ilegal, por exemplo. Então, pensando bem, sim, via guerra e pela nova formação da Suprema, eles tiveram um tremendo impacto em nossas vidas.

FOLHA – Bem, já que o sr. fez previsões tão acertadas há sete anos nesse campo, deixe-me perguntar de novo: quem o sr. acha que será eleito em 2008?
ROTH –
Sim, vá adiante, me dê uma nova chance para eu fazer papel de bobo. [Risos] Não tenho a menor idéia. Não tenho idéia de quem será o candidato democrata e não tenho idéia de quem vai ganhar as eleições.

FOLHA – O sr. não acha que a senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton é uma boa aposta, do lado democrata?
ROTH –
[Agora cauteloso] Eu simplesmente não sei…

FOLHA – Ok, deixe-me dizer dessa maneira: se as eleições fossem hoje e ela fosse eleita, o que aconteceria segundo as pesquisas de intenção de voto atuais, o sr. acha que mudaria algo ou seria apenas o final de um clichê, a primeira mulher na presidência?
ROTH –
Não, não, não, acho que haveria uma mudança. Isso que temos agora é um desastre. Com os democratas vencendo, teremos de volta a política como sempre. Isso aqui agora é um desastre. Os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos. Vamos falar de literatura?

FOLHA – Vamos. Há sete anos, o sr. reclamou que seus amigos estavam morrendo…
ROTH –
[Gargalha] Pois isso não parou de acontecer!

FOLHA – Daí o livro [“Homem Comum” começa com um enterro e o tema principal e doença e morte]?
ROTH –
Sim, em grande parte. Foi publicado aqui em 2005. Bem, sim, eu tenho ido a muitos funerais e tenho perdido muitos amigos e eu comecei a escrever esse livro no dia seguinte ao funeral de Saul Bellow [escritor, 1915-2005]. O livro não trata de Saul, mas minha cabeça estava profundamente tomada pela inevitabilidade de que todo o mundo que eu conhecia e conheço vai morrer. Então, sim, escrevi como resposta à morte de meu amigo.

FOLHA – O livro começa com a descrição de um funeral. É parecido com o de Bellow?
ROTH –
Não. Nada.

FOLHA – É parecido com o que imagina que será o seu?
ROTH –
O meu próprio? Não… Era apenas um funeral padrão, era apenas uma maneira de introduzir a vida do homem, sua família, as pessoas que o amavam e o conheciam. Eu gostei de começar com o fim e então partir dali.

FOLHA – O papel das mulheres no livro é muito forte. Como o sr. acha que as mulheres reagirão em seu próprio funeral?
ROTH –
Nunca pensei nisso… Fui muito próximo de algumas mulheres. Algumas delas chorarão, outras não.

FOLHA – Por que “Everyman” [o título original]? Por que o empréstimo de uma peça inglesa do século 15?
ROTH –
O “Everyman” original é um conto de moralidade, é uma alegoria cristã sobre a morte. Não sou cristão, não suporto alegorias, então só peguei o título emprestado e fiz a minha própria peça sobre a morte. Só que a versão secular.

FOLHA – Por que o personagem principal não tem nome?
ROTH –
Ele não tem um nome porque originalmente eu não lhe dei um. E, quando eu estava trabalhando na segunda versão, percebi isso e pensei: “Não lhe dê um nome. Deixe ele ser conhecido por seus relacionamentos, como pai, marido, irmão, filho, amante, deixe ele viver por esses relacionamentos e tirar sua identidade por eles”. Que é como nós formamos nossa identidade, por aqueles que nos conhecem como realmente somos.

FOLHA – O sr. pensa muito em sua própria morte, no momento em que “não será mais”, como escreve no livro?
ROTH –
Bem, depois de uma certa idade, é difícil não pensar mais na morte de maneira mais freqüente do que antes. Aos 60, você começa a pensar freqüentemente e, aos 70, a coisa fica realmente séria. Você olha adiante e vê que não tem mais tanto tempo. E esse é um sentimento muito perturbador.

FOLHA – Mas o sr. não tem medo de morrer?
ROTH –
Não tenho? Você que está dizendo isso. Eu estou perplexo pela realidade à vista.

FOLHA – Numa das passagens mais marcantes do livro, o sr. escreve: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”.
ROTH –
Você não concorda? Vá a um hospital e dê uma olhada ao redor… [Fica em silêncio]

FOLHA – Eu o deprimo com toda essa conversa?
ROTH –
Ah, não, é preciso muito mais do que isso para me deprimir.

FOLHA – O sr. releu esse livro para nosso encontro, como fez da outra vez com “Casei com um Comunista”?
ROTH –
Não. Eu não releio meus livros, em geral

FOLHA – O que o sr. lê?
ROTH –
Nos últimos anos eu tenho mais relido do que lido. Na maioria autores que eu li quando tinha 20 anos e não li desde então. Grandes escritores. O mais recente é Joseph Conrad [escritor britânico de origem polonesa, 1857-1924].
Na semana passada reli “Under Western Eyes” (1911), antes disso eu li uma biografia sobre ele, antes disso quatro contos, antes disso “The Nigger of the

Narcissus” (1897), ótimo, ótimo, que grande livro. Há alguns meses eu estava relendo Ivan Turguêniev [escritor russo, 1818-1883]. Fiz isso por dois meses. É isso que eu tenho feito nos últimos dois anos.

FOLHA – Podemos esperar alguma influência dos dois no próximo livro?
ROTH –
Duvido. Sou ininfluenciável [Risos]. Só estou fazendo isso porque, em primeiro lugar, esses livros são maravilhosos, segundo porque eu não me lembrava deles: é muito boa a sensação de estar lendo pela primeira vez algo que você já sabe que é bom.

FOLHA – O sr. citou a biografia de Conrad. Em “Homem Comum”, seu personagem diz que, se um dia fosse escrever a biografia dele, o título que daria seria “A Vida e a Morte de um Corpo Masculino”. É o título que o sr. daria para a sua?
ROTH –
Não, não. Não tenho nenhuma vontade de escrever uma biografia, de jeito nenhum. Deus me livre. Eu tenho um biógrafo oficial, com o qual me encontro muito raramente, mas a coisa fica nisso.

FOLHA – Há algum assunto tabu nesses encontros?
ROTH –
Não, até agora não.

FOLHA – O ataque do 11 de Setembro aparece brevemente em “Homem Comum” e um pouco mais em “Exit Ghost”, seu livro mais recente. Quanto o evento o afetou?
ROTH –
Como autor? Nada. Como pessoa? Fiquei com raiva, sem fôlego, achei uma tragédia. Mas o pior de tudo foi o uso do ataque pelo governo de Bush, para justificar uma guerra desnecessária. Se o 11 de Setembro tivesse acontecido, mas não a Guerra do Iraque, as coisas seriam muito diferente, o ataque teria apenas o significado que realmente teve. Mas foi cinicamente explorado para justificar a guerra. Muito mudou, é claro, os americanos não se sentem mais tão confiantes quanto antes e o governo George W. Bush formou sua agenda em torno das conseqüências do ataque. Mas tudo poderia ter sido muito diferente…

FOLHA – Há alguns livros seus sendo adaptados para o cinema hoje. O sr. se interessa por isso?
ROTH –
Gostaria que fossem boas, mas não tenho nenhum controle. “Dying Animal” terá Penélope Cruz e Beng Kingsley. “American Pastoral” também. “Deception” está sendo adaptado por um diretor francês. Mas geralmente esse pessoal de cinema fica muito interessado em meus livros e depois desaparece.

FOLHA – O sr. vê os filmes? Liga para isso? Viu, por exemplo, “The Human Stain”, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman?
ROTH –
Horrível. Vamos ficar nessa palavra: horrível

FOLHA – Da última vez que nos encontramos o sr. mencionou que leu Machado de Assis. O sr. nunca esteve no Brasil, apesar de ter sido convidado algumas vezes. Pretende ir?
ROTH –
Eu não me lembro de ter sido convidado, talvez eu tenha sido. Mas já viajei muito quando tinha 40, 50 no começo de meus 60. Agora me cansei.

FOLHA – O sr. pode me dizer algo sobre seu próximo livro?
ROTH –
Não. Nada.

FOLHA – Então é isso.
ROTH –
Ok, temos um encontro marcado para 2014.

Ivan Lessa e o vol 2 do livro PASQUIM-ANTOLOGIA

“Pasquim” tirou aspas da nossa língua”

Radicado em Londres, Ivan Lessa, 72, relembra os tempos em que publicação revolucionou o jornalismo brasileiro “Antologia”, que já vendeu mais de 40 mil cópias de seu primeiro volume, chega agora ao segundo livro, que cobre os anos de 1972-73

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

Na primeira vez em que trocou e-mails com a Folha para esta reportagem, Ivan Lessa foi curto e rápido, ainda que bem-humorado. Lembrar os tempos do “Pasquim” não é algo que o jornalista, radicado há 28 anos em Londres, goste de fazer com muita freqüência.
Dias depois, porém, ao receber pelo correio um exemplar do segundo volume da “Antologia”, que chega agora às livrarias, ficou emocionado e retificou algumas declarações.
Se antes declarara sem dor o fim do “jornaleco” (como o “Pasquim” era carinhosamente apelidado), numa mensagem sentimental acabou desabafando: “Não se pode ter saudade daquilo que não acabou. Taí.
Eu mesmo, depois que o santo subiu de volta, fiquei meio comovido. Deve ser essa lua, esse conhaque, essa estátua de bronze do Drummond…”
Ao folhear o livro, também concluiu que não lembrava de várias coisas que tinha escrito. Leia abaixo as respostas de Lessa, 72, à Folha.


FOLHA – A segunda parte da “Antologia” cobre os anos de 72 e 73. Segundo a edição, essa teria sido a fase mais interessante do jornal. E também a sua. Como andava seu ânimo profissional? E político?
IVAN LESSA –
Sim, minha participação foi mesmo mais ativa. Mas a explicação é simples. Morava em Londres até 72, quando voltei para o Brasil e passei a trabalhar diariamente no “Pasquim”. Meu ânimo profissional ia bem, obrigado. Tive outras ofertas mais tentadoras em termos de salário. Mas, no “Pasquim”, na época vendendo pouco e em crise, eu estava entre velhos amigos. Ânimo político? Nunca tive, não tenho.

FOLHA – Como você selecionava as cartas a serem respondidas? Quantas você inventava? Depois que os leitores entraram no espírito da seção, ficou mais difícil?
LESSA –
Eu pedia para a dona Nelma [secretária do jornal] a vasta pasta com as cartas. Tirava um punhado. Selecionava as que pareciam mais interessantes. Ou mais idiotas, se você preferir. E inventava apenas as obviamente inventadas. E a proporção é bem menor do que pensam. Ou dizem.
Depois de um certo tempo, os leitores mais vivos entraram no espírito da coisa. Aí, é claro, ficou mais difícil. Dependia muito também de como andava minha paisagem interior. Sim, eu tenho uma paisagem interior, que anda, marcha, pula, isso tudo.

FOLHA – Entre os gêneros que você criou no jornal, as cartas inventadas, as falsas notícias comentadas e o horóscopo, de quais gostava mais?
LESSA –
O que eu mais gostava de fazer mesmo era o “Pasquim Novela”. O resto do que você menciona era ou muito triste ou muito chato. Não me lembro de falsas notícias. Toda notícia é, por definição, falsa. Ou farsa. Por aí.

FOLHA – E as que tinham subtexto contra a ditadura (sobre Papa Doc, a Inquisição ou Perón)?
LESSA –
Era para poder falar de nós falando dos outros. É a única vantagem da censura: obrigar o cidadão a exercer as disciplinas das entrelinhas, das alegorias, das insinuações.

FOLHA – Como funcionava a relação com os chargistas na seção “Gip, Gip, Nheco, Nheco”?
LESSA –
Eu escrevia os “gips” e eles “nhecavam”. Em muitos eu tinha uma idéia ou sugestão para a ilustração. Mas muitas das frases davam para se agüentar em seus próprios pés. Acho.

FOLHA – Acredita que as pessoas vejam o “Pasquim” hoje com demasiada nostalgia?
LESSA –
O “Pasquim” acabou. Para o bem ou para o mal.

FOLHA – Em entrevista à Folha, Jaguar disse que o jornal viveu mais do que deveria. Você concorda?
LESSA –
Concordo. O “Pasquim” deveria ter acabado logo depois que começaram a botar azeitonas adoidadas em empadas alopradas.

FOLHA – Você acha que o “Pasquim” de fato revolucionou o jornalismo brasileiro?
LESSA –
É, o jornaleco tirou as aspas da língua brasileira. Na medida do possível. Os outros méritos estão com todos os que escreveram ou desenharam ou tentaram uma contabilidade honesta com a publicação -chato ficar repetindo “Pasquim” ou “jornaleco”, passemos então para os chavões.

FOLHA – Você lê jornais brasileiros? Acha que estão melhores ou piores do que na época da ditadura?
LESSA –
Passo os olhos eletrônicos neles. Continuam ruins como sempre. Loas para tudo que contribua para desencorajar um brasileiro, ou brasileira, a praticar o (risos) jornalismo.

FOLHA – As pessoas ficam intrigadas com o fato de você ter partido para Londres e praticamente nunca mais ter voltado. Você sentiu necessidade de romper com o Brasil?
LESSA –
Não senti necessidade. Apenas uma baita de uma vontade de me mandar e só voltar em caso de muita, mas muita emergência mesmo.

FOLHA – Você se diverte com os jornais sensacionalistas?
LESSA –
Acompanhar os tablóides chega a ser engraçado. Mas há muita coisa para ler, para ver na TV, muito pato para se alimentar no laguinho dos parques. Eu confesso que só vejo a primeira página nas bancas, que é o quanto basta. Ninguém os leva a sério. Principalmente os que fazem os tablóides. Aí até que dá para fazer uma ponte com o “Pasquim”.

FOLHA – Num dos artigos você diz que o mundo se divide entre as pessoas que dizem “ôba” e as que dizem “êpa”. Onde você se enquadra nessa classificação.
LESSA –
Êpa! O passar dos anos, a passagem dos ôbas…
LESSA – Sei que não teve uma pergunta treze. Mas sou supersticioso e aqui está a prova.