Vargas Llosa X Garcia Marques, enfim a foto.

garciamarques_1976.jpg
Archive Rodrigo Moya
Copyright 2007 The New York Times Company

É mais do que irresistível.
Olhem que título lindo:

García Márquez’s Shiner Ends Its 31 Years of Quietude

(Olho roxo de García Márquez encerra seus 31 anos de solidão)

Claro que o post abaixo (Vivamente agradecida) me deixou exausta … , mas eu não podia deixar passar a sexta-feira sem a foto maravilhosa que todo mundo tinha visto e eu não.
A foto (uma delas) veja acima e a história você encontra no New York Times ou então aqui:

Vai aqui um pequeno trecho e- olhem- nem é o melhor:-)

A publicação das fotos – após “30 anos de solidão” como colocou um comentarista francês – renovou o interesse nos eventos que levaram ao celebrado nocaute. Como um confronto literário, Mario Vargas Llosa contra Gabriel García Márquez está ao lado de algumas das rixas mais famosas, incluindo Lillian Hellman contra Mary McCarthy, Vladimir Nabokov contra Edmund Wilson e Norman Mailer contra Gore Vidal. (Quando um encontro entre Mailer e Vidal se tornou físico, apesar de não sangrento, Vidal teria respondido do chão: “Faltam palavras novamente a Norman Mailer”).

Sei que ninguém está me perguntando nada. Niente! Mas é sempre bom lembrar o que o grande crítico e diplomata ALVARO LINS dizia e que é título de um dos seu melhores livros:
Literatura é uma coisa, vida literária é outra.

Anúncios

“AMORES EXPRESSOS” retirado de ANE XOS de Ane Aguirre

Amores Expressos

Matéria publicada na Folha de São Paulo em 17/03/2007

Bonde das letras

Um grupo de 16 autores brasileiros, veteranos e novos, embarca para 16 cidades do mundo para escrever uma história de amor.

Cadão Volpato – Colaboração para a Folha

folhailustrada17marco2007.jpg

Você é um escritor sem dinheiro, lutando pela sobrevivência. Tem, segundo suas próprias palavras, “apenas um dia de príncipe ao mês”. Você emigrou dos quadrinhos para a literatura, vendeu os direitos para o cinema dos livros que publicou, mas ainda desenha uma última história de despedida. Um dia, aparece um sujeito oferecendo um mês de estadia em Nova York, onde você nunca esteve, com todas as despesas pagas e a única obrigação de retornar com uma história de amor na cabeça, que depois será publicada por uma das maiores editoras do Brasil.

O escritor em questão existe, é Lourenço Mutarelli, um dos 16 autores brasileiros a caminho de 16 destinos diferentes no mundo, para viver uma experiência -qualquer experiência-, voltar e escrever um livro.

A coleção se chama Amores Expressos e foi idealizada por Rodrigo Teixeira, um jovem Quixote de pés bem plantados no chão. Teixeira já foi chamado de maluco na sua primeira experiência na área de cultura. Ele tinha 21 anos e quis publicar uma coleção de futebol.No começo, ninguém quis saber. Bastava pensar na combinação improvável do assunto futebol com a cara de garoto do proponente para saber: não ia dar certo.

Pois Teixeira conseguiu um patrocinador tão apaixonado quanto ele (”Aos 45 do segundo tempo da minha vida”, diz), chamou 13 autores expressivos e criou uma coleção de futebol, a Camisa Treze, que vendeu, no total, cerca de 350 mil livros.

Desde então, Teixeira tem inventado diversos projetos multimídia: “Um livro que pode virar um filme que pode virar um DVD que pode virar um programa de televisão”, diz. Assim nasceu a idéia da coleção Amores Expressos, que ele divide com o escritor João Paulo Cuenca, autor de um único romance, “Corpo Presente”, e de uma novela entre as três do livro “Parati Para Mim”, em que os autores passaram uma temporada na cidade para escrever uma pequena história. Já os 16 afortunados viajantes da coleção da Companhia das Letras vão ganhar o mundo, a partir de abril, quando embarca a primeira leva.

O dinheiro para essa aventura -cerca de R$ 1,2 milhão, contabilizando todos os produtos finais- vem, em parte, da Lei Rouanet. Todos os autores recebem o mesmo valor pelos direitos autorais e pela cessão de direitos ao cinema.”Estamos num momento fértil, em que a literatura brasileira vem encontrando novos nomes”, diz o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras. Para ele, o projeto também vale como garimpo, por conta de seus escritores novos e novíssimos. Os títulos devem ser publicados ao longo de quatro anos pela editora.

“Dá para ambientar romances até na Lapônia, como no filme “Os Amantes do Círculo Polar’”, conta Adriana Lisboa, destino: Paris. Filme aliás, é o formato embutido e desejado nessas histórias que serão gestadas no exterior. Não só isso: uma equipe de filmagem deve acompanhar os viajantes por três dias, retratando sua experiência para lançá-la em um DVD futuro. Para o veterano Sérgio Sant’Anna, destino Praga, a viagem lembra um filme antigo: ele já esteve na cidade, com a família, em 1968, um pouco antes dos tanques soviéticos.”Sinto Praga como um cenário perfeito e até com um mistério poético para uma história de amor. E há toda aquela magia de ser a cidade de Kafka. Sinto que a novela nascerá e fluirá a partir do que sentir lá.”

Ao imaginar as estadias dos 16 escritores, Cuenca e Teixeira pensaram em criar “ruídos”. O próprio Cuenca pretende se perder em Tóquio. Chico Mattoso, inédito em romance, encara o socialismo musical e decadente de Havana, uma festa para os sentidos. “É isso que faz você escrever e ter idéias. É tirar o seu chão”, diz a colunista da Folha Cecilia Giannetti, destino Berlim.

*****

Coluna Todo prosa em 20/03/2007:

Polêmica expressa – por Sergio Rodrigues

O projeto “Amores expressos” vai mandar 16 escritores brasileiros – alguns inéditos em livro, alguns consagrados, a maioria no meio do caminho – passarem um mês com tudo pago em alguma cidade do mundo, de onde eles se comprometem a voltar com um romance de amor para ser publicado pela Companhia das Letras (embora a editora se reserve o direito de só aproveitar parte do material) e, se tudo correr bem, adaptado para o cinema. Nas andanças por sua cidade turística de eleição (o destino foi escolhido pelos organizadores), cada um será acompanhado durante três dias por uma equipe de cinema, que transformará em documentário esse périplo de 16 autores em busca de 16 histórias.

A notícia do projeto, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira, 30 anos, responsável pela coleção de futebol Camisa 13 (DBA e Ediouro), explodiu na “Folha de S. Paulo” de sábado e provocou uma agitação incomum nas águas paradas da literatura brasileira. Pode-se afirmar – com algum exagero, claro, mas não mais que o protocolar em clichês como este – que desde então escritores e editores não falam de outra coisa.

Parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima num mercado franciscano. O fato de “pouco menos de metade” desse valor, segundo Teixeira, ser dinheiro de renúncia fiscal, captado ou ainda em fase de captação pela Lei Rouanet, contribui para a polêmica – uma polêmica que, justiça seja feita, deveria ir muito além desse caso e envolver um debate sério sobre o próprio mecanismo de financiamento de produtos culturais pelo contribuinte. Não menos ruidosas são as críticas provavelmente inevitáveis à lista de eleitos, elaborada por Teixeira e pelo jovem escritor carioca João Paulo Cuenca, contratado como “coordenador editorial”.

Será que se trata, afinal, de uma jogada de marketing brilhante pela capacidade de “esquentar” uma atividade – a ficção made in Brasil – sabidamente pouco atraente para investidores? Ou de um chamativo bolo midiático em que a ficção entra no papel de cereja? Ou ainda, como escreveu com rapidez no gatilho o escritor Marcelo Mirisola (uma das incontáveis ausências na lista dos 16) em carta publicada na “Folha” de domingo, de uma ação entre “amigos de farra”, com “um ou dois figurões acima de qualquer suspeita” para disfarçar?

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino”, diz Cuenca, acrescentando que Mirisola “não merece resposta”. Teixeira inclui a palavra “gosto” entre os critérios de seleção, mas isso talvez seja um sinônimo de “afinidade”. “A gente pensou em muitos outros nomes, e pode ser que um ou outro tenha ficado chateado, mas um projeto com 35 seria inviável”, afirma. A decisão de incluir autores que nunca publicaram um livro próprio explica a presença na lista de nomes verdes como Antonia Pellegrino, Cecília Giannetti e Chico Mattoso, enquanto o time dos consagrados é defendido por Sérgio Sant’Anna, Bernardo Carvalho e Marçal Aquino.

Segundo a diretora editorial Maria Emilia Bender, a Companhia das Letras se associou ao projeto porque seis dos selecionados são autores da casa e porque ele dá à editora a oportunidade de “eventualmente abrir seu leque para um autor brasileiro novo, coisa que a gente está sempre buscando”. No entanto, manifestações de insatisfação entre outros escritores da Companhia levam Maria Emilia a frisar que o projeto não é da editora, mas de Rodrigo Teixeira. “A plêiade, digamos, não foi eleita por nós”, diz. Acrescenta que todos os autores, mesmo os que têm vínculo com a casa, toparam correr o risco de ter o livro rejeitado. “Isso nós deixamos bem claro aos organizadores, mesmo porque a lista é bem heterogênea no que diz respeito à experiência”, afirma.

Quem for de fato publicado ganhará da Companhia adiantamentos de praxe no mercado, calculados com base numa tiragem de 3 mil exemplares. Publicado ou não, porém, cada autor embolsará da empresa de Rodrigo Teixeira, limpos, R$ 10 mil a título de cessão de direitos de imagem e de adaptação para o cinema da futura história. As despesas de viagem não estão incluídas nesse valor.

Sobre a pauta, vagamente reminiscente de primeiro capítulo de novela das oito da Globo – a busca de uma história de amor em alguma cidade estrangeira –, Maria Emilia é cautelosa: “Dependendo do autor, qualquer pauta vale. Ou não”. Rodrigo Teixeira aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”.

Em abril, embarca a primeira leva: Antônio Prata (Xangai), Cecília Giannetti (Berlim), Daniel Galera (Buenos Aires), João Paulo Cuenca (Tóquio) e, no único destino doméstico, o jovem goiano André de Leones (São Paulo!). Em maio, Amilcar Bettega (Istambul) e Joca Reiners Terron (Cairo). Em junho, Adriana Lisboa (Paris), Chico Mattoso (Havana), Lourenço Mutarelli (Nova York) e Reinaldo Moraes (Cidade do México). E em setembro, fechando a temporada, Antonia Pellegrino (Bombaim), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Luiz Ruffato (Lisboa), Marçal Aquino (Roma) e Sérgio Sant’Anna (Praga).

Com a palavra, Sérgio Sant’Anna
Em 21/03/2007

Sérgio Sant’Anna, um cara respeitadíssimo aqui no blog, não só como escritor mas como amigo, me pede que publique o recado abaixo sobre a polêmica do projeto “Amores expressos”, que ele integra (vai para Praga):

Avisado por uma amiga que comentários irados e espumantes estavam chegando em grande quantidade à coluna Todoprosa, no site NoMínimo, fui lá conferir. E, na verdade, apesar dos ressentidos e invejosos (poucos) achei a coisa muito bem humorada. Mas é repugnante que um mau-caráter como o tal de Arnaldo diga que eu fui ao Programa Internacional de Escritores, na Universidade de Iowa, EUA, com uma bolsa da Ditadura Militar. Fui selecionado para o programa pela Fundação Ford, que me concedeu a bolsa e passagens, para mim e minha mulher. Isso depois de uma apreciação de meu livro de estréia, O sobrevivente, em edição das mais modestas, custeada por meu pai, com um empréstimo que nunca paguei. Também o pessoal da Ford no Rio me submeteu a uma entrevista. Arnaldo também dá uma de dedo-duro falando na caixa de maconha que me apresentaram, como boas-vindas, assim que cheguei. Mas que tolice, maconha lá era fumada como aqui se toma cafezinho. E garanto a todos que a vida americana, naquela época, era muito melhor do que na era Bush. Quanto às minhas relações com a Ditadura, eu respondia na época a um Inquérito Policial Militar, presidido pelo Marechal Nilo Horácio de Oliveira Sucupira, por minhas atividades subversivas no exercício de minhas funções de Auxiliar de Escritório e sindicalista, na Petrobrás, meu primeiro emprego, em BH. Décadas depois fui anistiado e meus documentos estão lá, na Comissão de Anistia. Mas prefiro terminar essa nota brincando com Marcelo Mirisola. Meu caro Mirisola,você se esqueceu de que no ano passado me pediu uma carta de recomendação para uma bolsa da Secretaria de Cultura de São Paulo, para ser sustentado, só escrevendo, durante um ano? Não se lembra de que recomendei você como uma verdadeira sumidade de nossas letras? Será que o seu ressentimento de agora é por se considerar um bolsista municipal, enquanto outros vão escrever, como eu, em lugares lindos e que inspiram amores, como Praga? Mas concordo que você foi injustiçado, não sendo incluído em Amores Expressos. Sugiro que essa injustiça seja reparada e você vá escrever uma história de amor na Transilvânia. Abraços.
Sérgio Sant’Anna.

Fala, Mirisola
Em 22/03/2007

Pedi uma carta de recomendação a Sérgio Sant’Anna, sim. Não fui escolhido pela comissão do concurso – que tinha regras, um corpo de jurados, critérios pré-estabelecidos e um edital público. Muito diferente do “Bonde da Alegria” da Companhia das Letras. Infelizmente a carta de Sérgio não comoveu os jurados. O que consegui foi uma suplência ridícula que não me rendeu um centavo. Sou suplente de Andrea del Fuego e Eustaquio Gomes. Pode rir…

Agradeço a deferência de Sérgio Sant’Anna. Mas a informação é falsa. Espero que você e ele corrijam o erro.

Obrigado, e um abraço,
Marcelo Mirisola

*****

Matéria em O Globo – 24/03/2007

O PREÇO DA CRIAÇÃO

Escritores discutem políticas do governo de ‘incentivo à autoria’ e apoio financeiro à produção literária

Miguel Conde

O dia começa às 8h30m, no computador, onde ele mexe “com coisas de literatura: um conto, um artigo”. Às 10h, Ferréz sai de sua casa no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, e percorre dois quilômetros até o número 138 da Avenida Comendador Santana, a principal do bairro. Ali, entre uma casa de artigos de umbanda e um empório com produtos do Norte do país, fica a loja “1 da Sul”. É onde o escritor trabalha de domingo a domingo vendendo roupas, chaveiros, mochilas. Estampadas com frases retiradas de seus contos, poemas e romances, as peças rendem mais dinheiro do que seus livros. É com as vendas na loja que o autor paga as contas.

– Tentei uma época viver de literatura, mas não dá, embora eu tenha uma vida bem modesta – diz. – Por um lado, o trabalho na loja atrapalha. Não consigo ir a palestras, estudar, ler tudo que eu gostaria, nem conviver com outros escritores. Por outro lado, mexendo com gente acabo tendo uma experiência que pode ser boa para a escrita.

Com exceção dos pouquíssimos que vivem de direitos autorais, escritores precisam fazer alguma coisa além de literatura para conseguir ganhar a vida. É assim em qualquer lugar, mas no Brasil é um tanto mais difícil: as traduções do português são raras, os prêmios literários poucos, as bolsas para criação quase inexistentes. E, claro, tiragens de livros de autores nacionais raramente passam dos três mil exemplares, e na maioria das vezes ainda encalham.

Em geral, assume-se que uma certa precariedade financeira faz parte da vida artística. Entre os escritores brasileiros, no entanto, viceja o inconformismo com essa situação. O poeta Fabrício Carpinejar, por exemplo, defende a regulamentação da profissão, e criou a primeira faculdade de formação de escritores do país, na Unisinos. Já integrantes do Movimento Literatura Urgente reinvindicam a implantação de programas governamentais de apoio à criação literária. A novidade é que as queixas estão surtindo efeito. Este ano, a Petrobras passou a oferecer uma bolsa para escritores dentro de seu programa de apoio cultural, e o governo estuda mais iniciativas que vão ajudar no sustento de autores nacionais. A discussão sobre subsídio do governo à produção literária foi impulsionada esta semana pela divulgação do projeto Amores Expressos, que enviará 16 autores brasileiros a diferentes cidades por um mês, e publicará histórias de amor que eles escreverão a partir da experiência. Parte da verba do projeto, orçado em R$1,2 milhão, virá por meio da Lei Rouanet.

Autores divergem sobre financiamento público

Controvérsia sobre projeto mostra que não há concordância sobre melhor forma de fomento à criação literária

A divulgação do projeto Amores Expressos mostrou o quanto ainda é controversa a questão do apoio público à criação literária. Concebido pelo produtor Rodrigo Teixeira, e orçado em R$1,2 milhão, o projeto enviará 16 autores a diferentes cidades por um mês, com despesas pagas. Por alguns dias da viagem, os autores serão filmados para um documentário a ser lançado depois. Cada um receberá R$10 mil pela cessão de direitos de imagem e de adaptação para o cinema da sua história. A partir da experiência, eles se comprometem a escrever uma história de amor. A prioridade para publicação dos livros é da Companhia das Letras, que no entanto pode recusá-los. A própria editora vai pagar adiantamentos aos autores e os custos de impressão. Teixeira diz que está investindo dinheiro de sua produtora no projeto, que é ainda apoiado por outras empresas. Parte da verba, no entanto, virá por meio da Lei Rouanet (Teixeira diz não saber quanto, porque o projeto ainda está em tramitação no Ministério da Cultura).

* Para governo, incentivo à autoria é ponto estratégico

Em carta à “Folha de S. Paulo”, onde o projeto foi anunciado, o escritor Marcelo Mirisola disse que se tratava de uma “farra entre amigos.” Um dos fundadores do Movimento Literatura Urgente (MLU), o poeta Ademir Assunção chamou de “absurdo” e “sacanagem” a utilização de dinheiro público no projeto: “Até seria admissível se os escritores fossem participar de feiras, seminários, leituras, o escambau. Uma viagem de 3, 4 ou 5 dias. 10 dias, vai. Divulgando a literatura brasileira no exterior. Ok. Agora, ser patrocinado com dinheiro público para ficar um mês em Paris, Nova York, Praga ou Tóquio para escrever uma história de amor… (…) Espero que não confundam (…) com as propostas de políticas públicas formuladas pelo Movimento Literatura Urgente. Nós lutamos exatamente contra esse tipo de coisa”, escreveu em seu blog.

Outros autores, como Mário Bortolotto e Santiago Nazarian, disseram não ver nada de errado com a empreitada. Coordenador editorial do Amores Expressos, o escritor e cronista do GLOBO João Paulo Cuenca limitou-se a postar em seu blog um verbete da Wikipedia sobre “vermes nematôdeos”.

– Minha impressão é de que há um estranhamento porque os próprios escritores não sabem que esse caminho existe, que a Lei Rouanet admite a captação para projetos de literatura – diz Teixeira. – A captação de recursos para projetos de cinema e teatro talvez seja mais fácil, porque você tem atores famosos envolvidos, mas na área literária, com um bom projeto, você também encontra empresas interessadas. Hoje, porém, a maioria dos livros feitos com apoio da Lei Rouanet é de arte, não de ficção.

Corriqueiro em outras artes, o apoio público à produção cultural só começou a ser discutido nos meios literários brasileiros em 2004, quando o MLU foi criado. Em 2005, representantes do movimento entregaram ao Ministério da Cultura um documento com assinatura de 181 escritores reivindicando bolsas de criação literária, programas de intercâmbio com outros países, compras de livro diretamente do autor, entre outras coisas. As propostas despertaram divergências entre os autores, mas a opinião mais categórica foi manifestada pela revista “Veja”, que numa reportagem batizou o movimento de “mamata das letras”.

Passados dois anos, porém, o governo adota políticas semelhantes às propostas pelo MLU. A mais significativa até agora é a criação de uma rubrica de literatura no Programa Petrobras Cultural (PPC). A estatal destinou R$800 mil ao projeto de bolsas para escritores, o que representa 1% do total do PPC. Elas serão de R$3 mil por mês e poderão durar um ano ou seis meses. A empresa recebeu 423 inscrições: 265 de ficção e 158 de poesia. Arthur Nestrovski, consultor do programa, foi o encarregado de escrever o edital.

– A única área que não tinha onde pedir subsídios era a da criação literária, a mais barata de todas em termos de investimento – lembra. – Há um desequilíbrio. Hoje, se um escritor for fazer um ensaio sobre outro escritor, tem mais chance de conseguir subsídios do que se for escrever ficção.

Nestrovski lembra que outros países têm programas de incentivo a escritores. Ele cita como exemplo o National Endownment for the Arts, nos EUA, que tem uma bolsa de US$25 mil para a criação de obras literárias.

– Além disso, os prêmios literários lá fora são muito mais numerosos e substanciais – acrescenta. – Ninguém acha estranho que a gente apóie a gravação de um disco, a produção de um filme. Mas, no caso da literatura, dizem que o autor só precisa de um computador e papel. Ora, e ele vai viver do quê?

Desde 2006, a Biblioteca Nacional oferece uma bolsa de cinco meses “para autores com obras em fase de conclusão”. O orçamento anual, R$87 mil, é suficiente para que cada um dos dez premiados receba R$1.740 mensais. O governo pretende criar mais iniciativas como essa. O secretário executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), José Castilho, diz que o “incentivo à autoria” fará parte dos programas que ele espera implementar a partir deste ano.

– O incentivo à autoria é estratégico para o desenvolvimento cultural do Brasil. Estamos fazendo um cadastramento de todos os autores em atividade aqui. Em seguida, planejamos fazer caravanas de discussão dos escritores pelo país todo. Também acho perfeitamente justo que se criem bolsas na área de literatura. Isso tem que ser estudado. Estamos num mundo muito profissionalizado, a atividade criativa tem que ser remunerada condignamente, como qualquer outro trabalho – afirma.

Marcelino Freire, um dos criadores do MLU, defende, com mais ênfase, opinião parecida:

– Muita gente que criticou o movimento hoje está se beneficiando das bolsas de criação. Chegaram ao disparate de dizer que escritor só precisa de caneta e papel-de-pão para escrever. Pode? Porra! Chega de santidade. Queremos melhores condições de trabalho, sim. Circular pelas universidades. Divulgar o nosso livro. E isso não custa muito. Viver sempre na merda não dá. Tem uma frase do poeta Manoel de Barros da qual gosto muito: “minha poesia não gosta de dinheiro. Mas o poeta gosta.” E quem não gosta? Eu estou com o Manoel. Eu sempre digo: “Minha literatura não tem preço. Mas para todas as outras coisas, uso MasterCard.”

Ademir Assunção fala em benefícios para a sociedade:

– Se queremos uma sociedade rica culturalmente, o poder público precisa tomar medidas claras, e não deixar tudo nas mãos do mercado.

* Escritor é profissional como outro qualquer, diz Terron.

O governo federal não é o único que parece concordar com as idéias do MLU. No ano passado, o estado de São Paulo também criou bolsas para escritores, dentro do seu Programa de Ação Cultural. Entre os próprios autores, no entanto, ainda não há concordância quanto à conveniência desse tipo de ajuda.

– Não acho que escritor deva ter financiamento público – diz Luiz Ruffato. – O Estado, em termos ideais, deveria cuidar da existência de público para a literatura, ou seja, para que a educação fosse pública, gratuita e universal. Todas as tentativas, no Brasil, de financiamento público de literatura acabaram tornando-se sinecuras, algo como os amigos dos amigos.

Para o escritor Joca Terron, não há nada demais na idéia de financiamento do governo. O autor, diz, é “um profissional autônomo como outro qualquer.”

– Se dentistas recebem financiamento para a compra de equipamento, por que escritores não deveriam receber para produzir? – argumenta.

Em lados opostos no debate sobre financiamento público a escritores, Terron e Ruffato estão ambos escalados no time do Amores Expressos.

SUSTENTO COM EMPREGOS E ATIVIDADES AFINS

Palestras, oficinas, prefácios e organização de coletâneas ajudam autores a ganhar seu pão

Escritores costumam receber de direitos autorais 10% do preço de capa (cobrado nas livrarias) de sua obra. Um livro de R$40, com tiragem de três mil (a média para autores nacionais) renderá, se esgotado, R$12 mil ao seu autor. Sabendo-se que escrever um livro é, em princípio, uma atividade que exige tempo, muitas vezes mais de um ano, dá para entender por que fica difícil viver de direitos autorais.
– Todo escritor precisa de um mecenas. Seja ele um segundo emprego, a loteria, família rica ou, no melhor dos casos, o público leitor – diz André Laurentino, autor de “A paixão de Amâncio Amaro” (Agir). – Quem disse isso foi uma escritora de sucesso e de alto nível: Margaret Atwood. Aqui no Brasil, viver da venda dos livros é privilégio de pouquíssimos.

Escritores ganham mais com o que se poderia chamar de “atividades afins” ao seu ofício: debates, oficinas, artigos.
– As mesas-redondas, as palestras, os prefácios e principalmente as oficinas de criação literária, tudo isso remunera mais do que meus romances e coletâneas – diz Nelson de Oliveira, que trabalha numa editora.

– Mas esses também não são trabalhos muito bem pagos – comenta André Sant’Anna, que vive da publicidade. – Muita ralação para pouco dinheiro, mas, se a pessoa faz vários frilas, sobrevive, no sufoco.

Autor de “Joana a contragosto” (Record), Marcelo Mirisola levou as queixas sobre falta de dinheiro, constantes entre autores nacionais, a um novo patamar no ano passado, quando publicou na internet o número de sua conta bancária:
– Recebi R$230. Depois descobri que foi minha mãe quem depositou R$200. Gastei essa quantia com uma puta que descolei na Help, uma boate em Copacabana. Os outros R$30 ficaram com o sr. Setúbal (dono do Itaú, onde ele tem conta) – diz o autor, que é candidato à bolsa Petrobras.

* “Temos uma classe média tosca”, diz Milton Hatoum

André de Leones, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005, resolveu adotar a mesma estratégia de Mirisola.
– Foi um ato de protesto – afirma ele, que defende a criação de mais bolsas para autores. – Em São Paulo tinha aquela da Fundação Vitae, mas acabou.

Mencionada por outros escritores, a Bolsa Vitae serve para lembrar uma diferença entre o Brasil e os países desenvolvidos. Nos EUA e na Europa, fundações privadas têm várias bolsas para artistas. O escritor Silviano Santiago acredita que esse é o modelo ideal.
– Talvez por ter nascido na ditadura Vargas e crescido na de 1964, eu não gosto quando o governo se intromete na criação artística. Preferia que isso viesse de fundações como a Fullbright, a Guggenheim. Nos EUA e na Europa há varias bolsas assim. O governo brasileiro poderia ajudar fomentando o ensino do português para tradutores. Hoje, os tradutores são minguados, e, muitas vezes, fracos. Em outros países, a tradução é uma fonte de renda importante para os escritores – observa.

Prêmios literários também são uma fonte de renda para escritores, mas, como são imprevisíveis, não se pode depender deles para viver. Milton Hatoum, que em 2006 ganhou cinco por “Cinzas do norte” (Companhia das Letras), diz que no Brasil os efeitos das premiações sobre a vendagem não são tão grandes:
– Um prêmio Goncourt na França vende 400 mil livros. Aqui, você vende 30 mil, 40 mil ao longo de dois ou três anos. Mas já é muito para o Brasil. Temos uma classe média mais tosca mesmo. Boa parte fica pensando em ir para Miami, come pizza ou feijoada todo fim de semana, mas não compra um livro o ano inteiro.

Um dos poucos que diz poder viver de direitos autorais, o gaúcho Moacyr Scliar trabalhou por muitos anos na área de saúde pública. Ele acha que a dedicação a outras atividades pode ser boa para o escritor:
– Sempre me lembro do conselho do Górki ao Isaac Babel: antes de escrever, você tem que viver. Meus colegas que resolveram se dedicar só à literatura se arrependeram. O cara vai para casa e fica esperando as idéias. Quando não vêm, ele entra num estado de ansiedade. Aí, vai para a geladeira e logo engorda meia dúzia de quilos.

Na França, lista imensa de subsídios

Deborah Berlinck

Mesmo com crescimento baixo, governo amplia ajuda a escritores

Não é à toa que o mercado editorial na França é tão dinâmico. O governo francês dá bolsa para tudo: escritor, livraria, tradutor, bibliotecas e até para editor. Mesmo num período de baixo crescimento econômico como o atual (menos de 2% em 2006, abaixo da média européia) a generosidade do governo em matéria de literatura não pára de aumentar. O valor da bolsa para um escritor que está se lançando, por exemplo, passou este ano para 3,5 mil, no lugar de 3,3 mil. Os escritores também recebem bolsa para tirar um ano sabático: 28 mil este ano, no lugar de 26,4 mil.

A França tem um órgão exclusivamente dedicado a isso: o Centro Nacional do Livro. Com um orçamento anual de 22 milhões, o centro tem como objetivo não apenas incentivar a criação literária, como servir de colchão para os riscos econômicos: apoiar, por exemplo, livros não comerciais, incentivar a criação e garantir sua difusão. E o pano de fundo disso tudo é um combate a que tanto a direita quanto a esquerda francesa não renunciam: defender a língua e a cultura francesas.

* Até criação de site pode ser subsidiada pelo Estado

A lista de subsídios é imensa. O estado não apenas ajuda escritores franceses a se lançarem, como dá créditos para que preparem suas obras. Os iniciantes podem receber até 3,5 mil para produzirem um livro. Mas qualquer francês que já publicou pelo menos um livro pode, com um bom projeto, se candidatar a receber 18 mil para escrever seu segundo livro. O governo dá crédito até para residência: por exemplo, para um escritor que participe de um projeto literário que o obrigue a residir num determinado lugar. O governo também dá crédito para um tradutor que trabalhe numa obra considerada “particularmente difícil”, e que não recebe o suficiente do editor.

O governo francês dá ajuda financeira para estruturas que promovem escritores franceses, como encontros, leituras públicas, salões de livros, comemorações. Os editores também se beneficiam. O Centro Nacional do Livro dá empréstimos em condições mais generosas para editoras, dá subsídios para cobrir riscos econômicos de um editor. Ajuda ainda as editoras que criam coleções inovadoras ou reeditam coleções prestigiosas, assim como dá dinheiro para retradução de obras literárias completas.

O governo também dá ajuda aos editores para tradução para o francês de obras estrangeiras. Subsidia até a criação do site de um editor, e dá dinheiro para a reimpressão de obras destruídas. As revistas sobre literatura e científicas também recebem uma série de benefícios. O governo dá dinheiro para extensão de bibliotecas e criação ou extensão de livrarias independentes, além de subsidiar livrarias francesas no estrangeiro.

*****

Matéria na Veja

TECO-TECO DA ALEGRIA

O possível uso de verbas públicas para financiar viagens de escritores causa ciumeira nos meios letrados

vj2.jpg

Na semana passada, o anúncio de um projeto chamado Amores Expressos causou rebuliço nos meios literários brasileiros. Os blogues de escritores não falaram de outro tema: dezesseis autores brasileiros vão viajar cada um para uma cidade diferente do mundo, de Nova York a Xangai, em busca de inspiração para – vejam só que coisa mais singela – uma história de amor. Os dezesseis romances resultantes serão publicados pela Companhia das Letras, que arcará com os custos editoriais. O produtor Rodrigo Teixeira, criador do projeto, espera que os livros se prestem a adaptações cinematográficas. Cada autor, além do passeio com estadia de um mês e uma ajudinha de custo média de 100 euros por dia, receberá 10.000 reais pelos direitos audiovisuais de seus livros. A grita contra a iniciativa centrou-se em dois pontos: o critério de seleção dos autores e a notícia – a ser confirmada – de que o projeto contaria com aporte de dinheiro público, via Lei Rouanet. Incapazes de produzir uma polêmica literária, os escritores agora brigam por passagens aéreas.

A escolha dos autores foi feita por Rodrigo Teixeira e pelo escritor João Paulo Cuenca ( que viaja para Tóquio). Os dois admitem que a “afinidade” com alguns autores pesou na seleção – a qual, é claro, causou ciumeira no meio das panelinhas rivais. Em carta a um jornal, o escritor Marcelo Mirisola – que faz uma força danada para ser o enfant terrible da literatura brasileira – acusou Teixeira de estar promovendo uma ação entre amigos com dinheiro público. Sérgio Sant’Anna, que viaja para Praga, respondeu lembrando que Mirisola já lhe pediu uma carta de recomendação para ganhar uma bolsa para escritores, também financiada com a grana do contribuinte. Ademir Assunção, poeta idealizador do Literatura Urgente, movimento que pede dinheiro do governo para escritores, também atacou o Amores Expressos – não seria, diz ele, uma genuína proposta de “política pública”.

Criador de uma coleção de livros sobre futebol e co-produtor do filme O Cheiro do Ralo, Rodrigo Teixeira diz já contar com cerca de 400.000 reaia para o projeto, o que garantiria todas as viagens (os cinco primeiros autores partem já em abril). A captação de recursos através da Lei Rouanet – ainda não autorizada pelo Ministério da Cultura – entraria para garantir extras, como a produção de um documentário. A Lei Rouanet tem financiado DVDs de cantores comerciais e espetáculos de circo que dão lindas imagens para a publicidade dos bancos patrocinadores. Mas até agora, os escritores quase não haviam agarrado o osso. E não existe mesmo justificativa para que o agarrem. A escrita é a mais barata das atividades: bastam lápis e papel para dedicar-se a ela. Dinheiro público para construir e equipar bibliotecas, pode ser. Jamais para financiar turismo literário, nem que seja à moda do francês Xavier de Maistre, numa viagem ao redor do quarto.

J.T.

*****

Matéria na Folha de São Paulo em 24/03/2007:

Bonde do barulho

Projeto de enviar autores a diversas cidades do mundo para produzirem histórias de amor causa ciúmes, polêmica entre escritores e alimenta o debate sobre financiamento público de produtos culturais

Eduardo Simões e Sylvia Colombo (da reportagem local)

O anúncio de um projeto literário milionário, envolvendo a Lei Rouanet e uma das mais prestigiosas editoras do Brasil, provocou na última semana intensa troca de acusações entre escritores e blogueiros do país.

Tudo começou no sábado passado, com a publicação, na Ilustrada, da reportagem “Bonde das Letras”, anunciando o Amores Expressos, empreendimento que prevê o financiamento de viagens para 16 autores com o objetivo de escreverem, na volta, histórias de amor. Estas seriam depois publicadas pela Companhia das Letras e, eventualmente, adaptadas para o cinema.

O projeto, idealizado pelo produtor Rodrigo Teixeira e pelo escritor João Paulo Cuenca, tem um custo total de R$ 1,2 milhão e pleiteia verba de renúncia fiscal. Por enquanto, o processo ainda está em tramitação no Ministério da Cultura. Se a grana de incentivo não rolar, Teixeira diz que pagará do próprio bolso as viagens dos autores. A Companhia das Letras arcará unicamente com os custos da edição dos livros.

As críticas que inundaram a internet se referem a três pontos: o fato de o projeto usar dinheiro público, envolver viagens com tudo pago e, supostamente, incluir apenas amigos dos organizadores, entre veteranos e novos autores.

Quanto ao primeiro aspecto, não há nada de irregular no modo como Teixeira encaminhou seu projeto. Porém, isso não evitou que chovessem ataques contra ele. Em carta enviada à seção “Painel do Leitor”, da Folha, o escritor Marcelo Mirisola disse que o projeto reunia amigos de farra, “um mês de vida boa” financiado por verba de renúncia fiscal.

Blogs de literatura passaram, então, a veicular mensagens pró e contra o “bonde”. Um deles foi o do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues (o “Todo Prosa”, do site Nominimo.com), que vê no qüiproquó seu lado positivo. “Rola ressentimento e ciúme, porque talvez os escritores sejam os bichos mais ciumentos do mundo. Mas rola também o embrião de um debate importante sobre o financiamento de produtos culturais “de mercado” com dinheiro de renúncia fiscal”, diz Rodrigues.

* Uso de incentivo fiscal no “bonde” divide escritores

Outro ponto criticado no projeto é a suposta “panelinha” entre participantes. Roteiro de viagens, que exclui países mais pobres e inóspitos, também é questionado pelos contrários à “gandaia”.

A Folha ouviu os principais personagens dessa polêmica.

Para o editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, Amores Expressos é um caso de “uso positivo” da lei. “O que há de errado em usá-la para viabilizar a obra de novos autores, numa área em que os recursos são poucos?”

Sérgio Sant’Anna, um dos passageiros do “bonde”, acusou Mirisola de “mesquinharia e inveja” e contou que o escritor pedira, há pouco, que ele escrevesse uma carta de recomendação para que o autor pleiteasse uma bolsa da Secretaria Municipal da Cultura.

Há quem diga que o projeto não beneficia em nada a literatura brasileira, somente os escritores que participam dele. É o caso do escritor Ademir Assunção. “O mercado deve viabilizar a si mesmo, não pode ser movimentado pelo dinheiro público. Se fosse para participar de feiras de livros ou de debates em universidades no exterior, ok.” Há cerca de dois anos, Assunção entregou ao MinC o documento Literatura Urgente, cobrando fomento à produção literária. A proposta não rendeu frutos.Já Antonio Prata, que vai para Xangai, acha que em vez de polemizar o “bonde”, as pessoas deveriam estar discutindo se o Estado deveria dar dinheiro para a cultura ou não. “Como avaliar escritores num concurso público? Quem apresentar metáforas por um preço mais baixo leva?”

* Mochilão

O fato de o projeto prever viagens internacionais, num circuito tipo Elizabeth Arden, também irrita os críticos do Amores Expressos. Ao que parece, alguns considerariam o projeto aceitável se os viajantes fossem para lugares mais pobres e inóspitos, com escassas possibilidades de diversão. É o argumento do escritor Ricardo Lísias, que se alinha a Mirisola. “Por que ninguém vai para a África negra? Não há amor na Faixa de Gaza? Nem na favela de Cité Soleil, no Haiti?”

A escolha das cidades, explica Cuenca, levou em conta dois fatores: o aspecto mercadológico, ou seja, a curiosidade que uma cidade como Tóquio pode gerar nos leitores. E o aspecto de identificação da cidade com a obra do autor: “O Joca Reiners Terron tem uma relação com Cairo. O Sérgio Sant’Anna, com Praga. Existe uma escolha estética sutil aí também. Por achar que determinada cidade rende em termos de criação literária, seja pela afinidade que ela pode ter com o lugar ou pelo estranhamento que pode causar”, defende Cuenca.

* É o amor

A temática do projeto -as histórias de amor- também foi alvo de ataques. “Como é que, em 2007, um escritor pode aceitar a proposta de escrever uma história de amor em Paris? Isso é dinheiro público financiando clichês”, solta Mirisola.

Para Sérgio Rodrigues, “essa coisa dos amores em cidades do exterior é um pouco jeca”. Mas nem por isso ele se coloca contra a idéia. “Vamos aguardar o resultado. Torço para que saiam bons livros daí”, conclui.

Também contra os clichês se posiciona Ana Paula Maia, jovem autora do Rio, que perdeu o “bonde”. “Se me jogassem em qualquer lugar do mundo, eu arrumaria umas brigas, me acidentaria, tomaria uns foras, levaria umas porradas e escreveria um “road movie” violento”, brinca a escritora.

Cuenca defende-se dizendo que acha sedutora a idéia de histórias de amor que se passam em terras estrangeiras, que estas podem ser obscuras, vão variar de acordo com os diferentes estilos literários dos autores e que formarão um panorama das relações hoje em dia. Ele diz ainda que vê como desafio o que os outros vêem como lugar-comum:”A Adriana Lisboa vai ter que inventar uma história de amor que não seja clichê”, diz o escritor. “Nenhum deles vai escrever uma “love story” açucarada. Você consegue ver o Mutarelli fazendo algo assim?”

Resta o terceiro ponto da polêmica. Blogueiros e escritores que ficaram de fora do projeto reclamam em coro de que a seleção configura “formação de panelinhas”, ou seja, privilegia um grupinho de amigos.

Quer que eu diga qual é o critério?”, pergunta Mirisola. “Digo e repito. O critério é o compadrio, conseqüentemente, a gandaia.”Há quem assuma o ciúme, como o escritor Santiago Nazarian, que conheceu Cuenca na primeira edição da Flip (Festa Internacional de Parati), em 2004, quando passaram uma temporada na cidade para escrever os contos do livro “Parati para Mim”, projeto que incluiu ainda Chico Mattoso, outro escritor convidado a viajar no “bonde”.

Assumo que fico com inveja, todo mundo que está de fora fica. Obviamente pode ter pessoas que eles [Teixeira e Cuenca] gostem ou admirem mais como escritores, mas é claro que preferem mandar os amigos. Ao mesmo tempo acredito que eles não iam mandar apenas amigos, que não fossem bons escritores, e que depois entregariam uma merda para a Companhia publicar.”

Teixeira se defende. “Ninguém questiona um diretor de cinema sobre quais artistas vai usar no seu filme. O projeto é meu, e eu tenho todo o direito de usar a lei, já que ela existe.”Cuenca, que dividiu com Teixeira a escolha dos autores, justifica o seu time. “Quem dera eu fosse amigo pessoal de escritores como Sérgio Sant’Anna e Bernardo Carvalho, que admiro profundamente. O André de Leones eu nunca vi. Com o Ruffato eu devo ter me encontrado duas vezes. Também não chamaria inimigos. Ninguém quer trabalhar com inimigos.”O jornalista e colunista da Folha Manuel da Costa Pinto aponta uma curiosidade no caso dos jovens autores selecionados. “A Companhia das Letras nunca foi uma editora reveladora de talentos, e agora ironicamente vai sair dessa história como tal.”

* Sem relevância

Cuenca por fim afirma que “nenhuma voz relevante” se levantou contra o projeto, apenas “meia dúzia de comentaristas de blog”. E dá um conselho aos que não entraram: “Que se articulem, formalizem um projeto e usem a Lei Rouanet”.

*****

Joca Reiners Terron
Em 24/03/2007:

QUERIDOS FILHOS-DA-PUTA

Chega de leviandade, mau caratismo e dor-de-cotovelo e vamos ao que interessa:

A) O dinheiro que entrará no meu bolso (R$10 mil pelos direitos de adaptação audiovisual do romance que escreverei para a coleção Amores Expressos, a ser publicada pela Companhia das Letras) virá do bolso do Rodrigo Teixeira, dono da produtora RT Features e criador do projeto (segundo a Veja de 28/03: “Rodrigo Teixeira diz já contar com R$400 mil para o projeto, o que garantiria todas as viagens”). De acordo com o contrato, serão R$3 mil em maio (quando embarco para o Cairo, onde a história obrigatoriamente deverá se passar) e R$7 mil quando entregar o original;

B) Frisando: essa grana virá do cofrinho do Rodrigo Teixeira, caro contribuinte e leitor falho dos suplementos de cultura e blogues literários, e não do seu porquinho de porcelana ou do meu;

C) O dinheiro que pagará passagens e gastos com hospedagem igualmente virá do cartão de crédito ou do cheque especial do Rodrigo Teixeira, caro analfabeto funcional leitor dos mal intencionados artigos de jornalismo esparramados por aí. Tranquilize-se, não será você a pagar os juros. E nem eu;

D) Os hipotéticos R$5 mil de adiantamento referentes a 10% da tiragem do livro (que ainda será escrito) serão pagos pela Companhia das Letras, editora que também se encarregará de publicar o livro com os seus próprios recursos, e não com os seus níqueis suados, caro idiota amante das fofocas e das pragas;

E) A grana que financiará filmes, documentários, extras de dvd ou o que caralho for, virá de um projeto inscrito na Lei Rouanet que está tramitando nos corredores do Ministério da Cultura e, consequentemente, ainda não foi aprovado, além da bufunfa que lhe corresponde ainda não ter sido captada (de novo cito a Veja: “A captação de recursos através da Lei Rouanet — ainda não autorizada pelo Ministério da Cultura — entraria para garantir extras, como a produção de um documentário”). Quando e se for, eu já terei entregue meu romance (cujos direitos de adaptação já foram vendidos) e diretamente (tá tá tá: eu sei, também sou contribuinte; tá tá tá: eu também acho que é chegada a hora de reformas drásticas na Lei Rouanet), não terei mais nada a ver com isso;

F) Entendeu ou quer que eu repita, filho-da-puta?

[ Se você não se enquadra em nenhuma das categorias de gente medíocre e ressentida listadas acima, por favor não se ofenda. Já você aí, é, você mesmo, vista sua carapuça e vá tomar no cu. ]

*****

O homem que não gostava de beijos

Sherlock dá uma força em romance de Barnes

Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, é um dos personagens de “Arthur & George”

Julian Barnes cruza biografia do famoso escritor britânico com vítima de um episódio de preconceito racial na Inglaterra vitoriana

Kathy Willens – 30.jan.2006/Associated Press
Julian Barnes apresenta seu livro “Arthur & George” em Nova York; obra tem como personagem o escritor Arthur Conan Doyle

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

Elementar, meu caro Watson. O mais francês dos escritores ingleses queria escrever sobre culpa, inocência e justiça e deduziu que uma das grandes instituições inglesas seria a chave: Arthur Conan Doyle (1859-1930), o pai de Sherlock Holmes. O resultado é “Arthur & George”, romance ambicioso de Julian Barnes, uma das estrelas da literatura britânica.
O livro cruza a biografia de dois personagens: George, vítima de um caso de preconceito racial na Inglaterra vitoriana; e Arthur, o famoso escritor, às voltas com suas próprias culpas (matrimoniais) e fantasmas.
Ainda que tenha escrito policiais no início da carreira usando o pseudônimo Dan Kavanagh, não se deve esperar de Barnes tramas intrincadas, humor farsesco e personagens espirituosos como Sherlock.
Admirador de Gustave Flaubert, Barnes escreveu um grande romance. Não é grande fã de Holmes, como mostra na entrevista abaixo. Mas acha que os dois personagens têm muito a dizer sobre justiça, consciência e virtudes públicas, o mistério que procura desvendar.

FOLHA – Você já declarou que se inspirou no caso Dreyfus para escrever “Arthur & George”… Como Reino Unido e França tratam do debate público e do papel do intelectual?
JULIAN BARNES – O caso Dreyfus foi obviamente mais importante do que o caso Edalji, pois envolvia alta traição, e não mutilação animal. É uma das razões pelas quais continuou a ecoar na história francesa, dividindo e definindo a nação por cem anos. O caso britânico teve repercussão por cinco ou seis anos, então foi esquecido. Mas isso aconteceu em parte por causa da forma como os britânicos se comportam quando algo está errado: você conserta e então deixa para lá. Os franceses, por outro lado, adoram celebrar suas discordâncias e brigas públicas, bem depois de terem sido resolvidas.

FOLHA – Como surgiu a idéia de unir a biografia de Conan Doyle com o caso de George Edalji?
BARNES – Descobri a história de George Edalji lendo sobre o caso Dreyfus. O que era esse caso Edalji? Procurei um livro para me informar, mas não havia um único que falasse do assunto nos últimos cem anos. Então escrevi “Arthur & George” com o objetivo de ter algo para ler sobre o caso, de alguma forma…

FOLHA – Sherlock Holmes representa a capacidade de investigação, valores racionais em uma sociedade que celebrava o progresso. Você utiliza em seu livro o envolvimento de Conan Doyle com o espiritismo, menciona o ilusionista Houdini…
BARNES – Isso parece um paradoxo, mas é importante lembrar que uma ramificação do espiritismo era científico e havia cientistas famosos que o apoiavam. Achavam que o lado espiritual da vida poderia ser detectado e provado por análise científica. Sabiam, claro, que a maioria dos médiuns eram fraudes, mas esperavam que alguns fossem autênticos.

FOLHA – Prêmios como o Booker Prize, do qual “Arthur & George” foi finalista, tendem a celebrar escritores de países que compunham o Império Britânico. A herança imperial ainda é forte?
BARNES – O Booker Prize é aberto a todos que escrevem em inglês, exceto americanos. Isso foi revigorante. Mas não acho que somos focados no passado. A evocação sentimental do Império Britânico pertence mais aos historiadores do que aos romancistas.

FOLHA – O Reino Unido e a França abordam a questão dos imigrantes de maneira diferente, celebrando as diferentes culturas (Reino Unido) ou considerando que todos devem se integrar à cultura local (França). O preconceito racial, que está na base do caso abordado em “Arthur & George”, permanece?
BARNES – Os dois países têm abordagens diferentes. O Reino Unido é multiculturalista, enquanto a França é unicultural. Atualmente não podemos dizer que nenhum dos dois modelos é um grande sucesso. E os atentados em Londres [julho de 2005] marcaram uma época muito difícil. Acho que todos estamos no limite. Mas, em geral, acho que as relações entre as várias comunidades é boa.

FOLHA – Honra e tradição são valores importantes para os personagens… O que você acha que mudou no sentido de justiça desde a época de Conan Doyle?
BARNES – Acho que provavelmente não chamaríamos mais de “honra”. Desconfiaríamos de uma palavra tão grande. Mas acho que o senso de consciência pessoal e responsabilidade permanecem. As pessoas não mudam essencialmente de geração para geração. Só os seus hábitos exteriores mudam. Acho que se o caso Edalji acontecesse hoje, o mesmo sentimento de injustiça seria experimentado por várias pessoas.

FOLHA – Você é fã de Sherlock Holmes? Por que a fama do detetive não pára de crescer?
BARNES – Bem, Sherlock Holmes é uma fantasia atraente, a idéia de que apenas o intelecto e a dedução podem resolver os crimes mais intrincados e impenetráveis. Enquanto quisermos acreditar em fantasias, os livros de Sherlock Holmes continuarão a ser vendidos.

Julian Barnes – frases

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Frases

“O Reino Unido é multiculturalista, enquanto a França é unicultural. Atualmente não podemos dizer que nenhum dos dois modelos é um grande sucesso. E os atentados em Londres marcaram uma época muito difícil. Acho que todos estamos no limite”
JULIAN BARNES
escritor

“Os franceses adoram celebrar suas discordâncias e brigas públicas, bem depois de terem sido resolvidas”

JUlian Barnes – Arthur e George

Julian Barnes
March 18th, 2007 by Maria Elisa Guimaraes
Autor escreveu sobre “caso Dreyfus inglês”

DA REPORTAGEM LOCAL

Julian Barnes diz que se inspirou no caso Dreyfus para escrever “Arthur & George” (ed. Rocco, trad. Léa Viveiros de Castro, 448 págs., R$ 53,50). Queria simular na realidade inglesa o episódio francês, utilizando um caso homólogo.
O caso Dreyfus mobilizou a França no final do século 19 quando o capitão Alfred Dreyfus foi acusado injustamente de passar segredos militares aos alemães. Numa atmosfera impregnada de anti-semitismo, o militar foi condenado e despertou a intervenção de personalidades como o escritor Émile Zola. O episódio é emblemático da participação de intelectuais no debate público.
No romance de Barnes, o crime envolve um jovem que é acusado de mutilar animais numa comunidade do interior da Inglaterra, entre 1905 e 1907. Condenado, passa três anos preso. O caso é permeado de preconceito racial e desperta personalidades. A mais importante delas é Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, que pesquisa os acontecimentos e sai em defesa do advogado George Edalji, filho de um pastor de origem indiana e de mãe escocesa.
Barnes criou uma trama marcada por paralelos: entre a otimista sociedade vitoriana e o nascente purgatório multicultural da Inglaterra pós-imperial; entre Arthur e George, duas faces opostas da sociedade inglesa. E usa as diferenças cheias de significado entre as sociedades francesa e a inglesa, contraste que inspira sua obra. (MS)

30 anos MarquesXLlosa

Uma briga literária completa 30 anos

Raras desavenças entre escritores são tão venenosas quanto a disputa entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa

Novos detalhes surgem do embate que começou em 1976, quando Vargas Llosa deu um soco no colega em um cinema mexicano

PAUL VALLELY
DO “INDEPENDENT”

Por que Mario Vargas Llosa socou Gabriel García Márquez, seu rival pelo título de mais importante romancista latino-americano do século 20, em um cinema mexicano, em 1976, dando início a uma das mais longas brigas na história das letras contemporâneas?
Os dois gigantes do romance moderno, que um dia foram grandes amigos, não se falam desde o dia em que o escritor peruano aplicou um gancho de direita contra o olho esquerdo do escritor colombiano, há três décadas. Nenhum dos dois revelou os motivos para a desavença, se bem que ambos tenham deixado escapar que se tratava de “algo pessoal”.
Ao longo dos anos, não faltaram especulações sobre a causa do desentendimento original. “Uma suspeita que circula amplamente é a de que a briga tenha sido causada por diferenças de opinião política”, postulava recentemente um blog latino-americano.
É verdade que García Márquez foi e continua a ser esquerdista. Vargas Llosa, no entanto, abandonou o amor juvenil por Fidel Castro e disputou sem sucesso a Presidência do Peru, como candidato de direita. Embora suas opiniões políticas tenham divergido amplamente, não se acredita que tenha sido essa a causa da briga.
Outros observadores especularam que ciúmes profissionais eram a causa do murro que deflagrou a discórdia. Embora seja considerado criador, ao lado de García Márquez, do realismo mágico, os trabalhos de Vargas Llosa não têm estatura comparável aos do rival. “Cem Anos de Solidão” é considerado um dos clássicos definitivos da literatura do século 20.
De acordo com uma nova biografia de García Márquez, “The Journey to the Seed” [a jornada para a semente], de Dasso Saldivar, os dois brigaram por causa de uma mulher. E embora García Márquez já tenha 80 anos, e Vargas Llosa tenha chegado aos 70, a rivalidade entre eles não diminuiu.
No mês passado, o jornal inglês “The Guardian” informou que Vargas Llosa havia escrito um prefácio para uma edição comemorativa de “Cem Anos de Solidão” que será lançada para celebrar o 80º aniversário do autor, o 40º aniversário da publicação do livro e o 25º aniversário de sua premiação com o Nobel de literatura.
A agente literária de García Márquez, Carmen Barcells, começou imediatamente a negar a história. A edição especial incluirá o excerto de um ensaio elogioso de Vargas Llosa sobre o romance, escrito antes que os dois se desentendessem.
Isso ainda assim revela que o tempo serviu para abrandar a disputa, ao menos parcialmente. Desde que o ensaio foi publicado, em 1971 (em edição que se esgotou rapidamente), Vargas Llosa se recusou a permitir que fosse reimpresso, a despeito da grande demanda e da existência de pelo menos uma edição pirata. No ano passado, decidiu voltar atrás, e permitiu que o texto fosse incluído nas suas obras completas, publicadas em 2006, mas o que o motivou, aparentemente, foi o desejo de preservar a íntegra de seu legado literário pessoal.

Sinais ambíguos
Existem sinais ambíguos também da parte de García Márquez. Seu mais recente romance, “Memória de Minhas Putas Tristes” [Record], foi publicado em 2004. Desde então, ele vem dizendo a amigos que seu gás acabou. Vargas Llosa, em contraste, no ano passado publicou “Travessuras da Menina Má”. García Márquez aparentemente voltou a escrever, nos últimos meses.
Em 2002, sob pressão de um câncer que superou, o escritor colombiano publicou “Viver para Contar”, o primeiro volume de uma autobiografia que supostamente terá três partes. García Márquez leva sua história apenas até 1955, e surgiram informações de que ele não queria começar a trabalhar na segunda parte porque teria de tratar, nela, do incidente que deu início à briga.
“Compreendi que, se eu escrever um segundo volume, terei de contar coisas que não quero sobre certas relações pessoais que não são tão boas”, disse ao “Vanguardia” no ano passado. Desde então, porém, entrou em contato com amigos para verificar datas e lugares e para refrescar sua memória quanto aos acontecimentos. (Um amigo lhe aconselhou: “Gabo, seja fiel às suas lembranças, não à sua biografia”.)

Detalhes da história

Assim, o que o volume dois revelará? De acordo com Saldivar, biógrafo de García Márquez, a história é a seguinte:
Ambos admiravam o trabalho um do outro, e logo que se conheceram pessoalmente, em 1967, em Caracas, se tornaram amigos inseparáveis. Haviam vivido na pobreza em Paris, como escritores iniciantes, antes de conquistarem o sucesso na literatura, o que levou os dois a se mudarem por algum tempo para Barcelona. Dos sete anos em que viveu na capital catalã, Vargas Llosa dedicou dois ao estudo da obra-prima de seu amigo García Márquez, “Cem Anos de Solidão”, e escreveu um longo e elogioso ensaio sobre o romance.
Mario vivia de olho nas mulheres. Para começar, quando tinha apenas 19 anos, se casou com sua cunhada, Julia, 13 anos mais velha. O casamento não foi feliz, mas deu ao jovem escritor o tema para “Tia Júlia e o Escrevinhador”. Um ano depois do divórcio, Mario se casou com sua prima Patricia, com quem teve três filhos.
Mas ele nunca foi fiel. Apaixonou-se por uma bela comissária de bordo sueca, que conheceu durante uma viagem. Deixou a mulher e se mudou para Estocolmo.
Deprimida, sua mulher Patricia procurou o melhor amigo do marido, García Márquez. Depois de discutir o caso com sua mulher, Mercedes, ele aconselhou Patricia a pedir o divórcio, e depois disso Gabriel a consolou. Ninguém sabe exatamente que espécie de consolo ele ofereceu. De acordo com fontes próximas ao escritor colombiano, ele disse a Patricia que “ela deveria abandonar o marido, se ele voltasse”.
Outras fontes, próximas a Vargas Llosa, afirmam que, na mesma noite, García Márquez cometeu a pior (ou melhor) espécie de traição contra seu amigo Mario. Mas Vargas Llosa terminou voltando para a mulher, que o informou do conselho recebido de Gabriel, e do consolo que ele oferecera.

Briga no cinema

A história pára por aí. Algum tempo depois, os dois escritores se reencontraram. Foi numa sala de cinema na Cidade do México, onde a nata dos intelectuais latino-americanos estava reunida para a estréia de “La Odisea de los Andes” [a odisséia dos Andes], um mau filme de René Cardona sobre a interessante história de um desastre de avião que forçou os sobreviventes, esportistas uruguaios, a se alimentarem dos restos mortais de seus colegas.
Quando as luzes se acenderam, García Márquez viu Vargas Llosa sentado algumas fileiras para trás. Caminhou para abraçar o velho amigo. Ao se aproximar, recebeu um tremendo soco no olho esquerdo.
“Como você se atreve a me abraçar depois do que fez com Patricia em Barcelona?”, indagou o peruano, lívido.
O rosto de García Márquez estava sangrando. Um fotógrafo registrou a imagem, ainda que ela não tenha sido publicada até o último dia 6 de março, com 30 anos de atraso, pelo jornal mexicano “La Jornada”. Em um toque de realismo mágico, um amigo aplicou um bife obtido de um açougueiro próximo ao olho roxo do escritor.
Os acontecimentos dos 30 anos seguintes não ajudaram. Além de tentar encorajar a paz na Colômbia, García Márquez continuou a apoiar o líder comunista Fidel Castro, com quem desenvolveu estreita associação. De sua parte, Vargas Llosa sempre criticou ferozmente a ligação entre seu ex-amigo e Castro, e o definiu como “o cortesão”. Enquanto García Márquez se acomodava a Castro, Vargas Llosa percorria a trajetória política inversa.
Dessa maneira a briga continua. Trata-se, como comentou um observador, de uma disputa “pessoal, prolongada, pública, mesquinha e tão carregada de raiva antiga que apenas os participantes (ou talvez nem eles) devem saber como começou”. Se a briga já tinha animosidade, rancor e má vontade recíproca, além de literatura, política e violência física, agora ela também tem sexo.