LOUISE LABÉ: criatura de papel?

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
 =-=-=-=-=-=

Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008

CRONOLOGIA (1968)

+ Cronologia

Outubro de 1967 – Jovens franceses realizam manifestações contra o Plano Fouchet, que visava à “eficiência do sistema universitário”. Nos EUA, protesto contra a Guerra do Vietnã reúne cerca de 35 mil pessoas

1968 – Na Tchecoslováquia, Alexander Dubcek assume a liderança do Partido Comunista e inicia reformas liberalizantes. A retomada da liberdade de expressão culmina com a Primavera de Praga: diversos setores da população passam a exigir mais abertura democrática. A experiência terminaria em agosto, com uma ocupação militar organizada por países comunistas

8 de janeiro – O estudante de nacionalidade alemã Daniel Cohn-Bendit lidera protesto na Universidade de Nanterre. Com 50 estudantes, Dany, o “Vermelho”, ataca verbalmente o ministro da Juventude e dos Esportes, François Missoffe, comparando ao nazismo as novas normas de segurança em vigor nas universidades

22 de março – Estudantes, denunciando a repressão a protestos anteriores, ocupam a administração de Nanterre. As aulas são suspensas até 1º de abril

4 de abril – O pastor e ativista Martin Luther King Jr. é assassinado em Memphis (EUA). Conflitos raciais emergem em dezenas de cidades do país

2 de maio – Nanterre suspende aulas em dia de manifestação

3 de maio – Após protesto na Sorbonne, conflitos com a polícia no Quartier Latin deixam mais de cem feridos e 500 presos

6 de maio – Manifestações espalham-se por universidades francesas; nos dias seguintes, protestos reúnem dezenas de milhares de pessoas

10 de maio – A Noite das Barricadas: estudantes reivindicam a soltura de colegas e fecham ruas do Quartier Latin; a polícia intervém violentamente

11 de maio – Sindicatos convocam greve geral. O primeiro-ministro Pompidou concorda em anistiar estudantes presos, retirar forças policiais do Quartier Latin e reabrir a Sorbonne

13 de maio – Irrompe a greve geral: a maioria das universidades francesas adere, junto com os dois maiores sindicatos do país

19 de maio – O Festival de Cinema de Cannes interrompe os eventos. Não há premiado no ano

21 de maio – O total de grevistas chega a 10 milhões. O líder estudantil Cohn-Bendit é expulso do país, suscitando novos conflitos

22 de maio – Parlamento rejeita derrubada do presidente De Gaulle, proposta pela esquerda

27 de maio – Governo, empresas e lideres sindicais entram em acordo sobre aumento de salários e melhoria de condições de trabalho, mas trabalhadores permanecem em greve

30 de maio – Em discurso transmitido por rádio, De Gaulle se recusa a renunciar e clama por apoio de seus eleitores. Manifestações pró-governo juntam quase 1 milhão de pessoas

1º de junho – Abastecimento começa a se normalizar. Até meados do mês, serviços e indústria voltam a funcionar como antes

30 de junho – Os partidários de Charles de Gaulle vencem as eleições legislativas. O presidente, no entanto, não garante sua estabilidade: no ano seguinte, os eleitores votam contra um referendo proposto pelo general, que acaba renunciando à Presidência em seguida

http://uol.com.br/fsp

Pais de Aluguel

FAMÍLIA SE DEMOCRATIZOU, MAS PERDEU REFERÊNCIA SIMBÓLICA

Nascido em Paris em 1949, Alain Finkielkraut é ensaísta, produtor da rádio France-Culture e professor de história das idéias na Escola Politécnica.
Midiático e polêmico, é considerado uma das referências do pensamento de direita na França. Em 2005, criticou a onda de revoltas juvenis ocorrida nos subúrbios franceses.
Também afirmou que a seleção francesa de futebol não era “Branco, Azul e Vermelho” nem “Branco, Preto e Pardo” (como se diz desde a Copa de 98), mas sim “Preto, Preto e Preto”. Nesta entrevista concedida a Aude Lancelin, do “Nouvel Observateur”, o autor de “A Ingratidão” (Objetiva) e “A Humanidade Perdida” (Ática) comenta as influências de 1968 sobre a família.  

PERGUNTA – Em 1977, em “Le Nouveau Désordre Amoureux” [A Nova Desordem Amorosa], o sr. escreveu que tínhamos passado de uma era de “repressão sexual” para uma espécie de imperativo categórico de gozar, que era igualmente coercivo. Tudo o que aconteceu desde então confirmou sua opinião?
ALAIN FINKIELKRAUT
– Aquele foi um livro anti-1968 habitado pelo espírito de 1968. Era a época do “tudo é político”, e o discurso sobre o sexo remetia ao registro judiciário da acusação.
Na contramão disso, optamos pelo gênero da celebração, especialmente pelo elogio do gozo feminino. Sem a liberação sexual, não poderíamos ter escrito esse livro. Mas o escrevemos para libertar o amor do domínio do discurso da libertação. De fato, o que é o desejo amoroso senão a experiência de uma maravilhosa sujeição?

PERGUNTA – O filósofo americano Allan Bloom, nos anos 1990, disse: “Você pode ser um romântico hoje, se quiser, mas isso seria um pouco como ser uma virgem num puteiro”. O sr. pensa, como ele, que o amor hoje em dia está comprometido?
FINKIELKRAUT
– O que compromete o amor é o fato de não se enxergar senão um confronto entre as exigências do desejo e sua repressão. É essa a razão pela qual, em “A Nova Desordem Amorosa”, Pascal Bruckner [co-autor do livro] e eu quisemos reintroduzir o personagem esquecido do amado.
Contudo, se hoje fosse escrever uma seqüência para esse livro, começaria por um elogio erótico ao pudor. Este não é apenas uma restrição arcaica, o resquício de um preconceito burguês -pelo contrário, eu o vejo como um atributo ontológico da mulher.

PERGUNTA – Um autor como Michel Houellebecq propaga uma visão segundo a qual 1968, longe de ter dado início a uma era de libertação sexual real, teria estendido o domínio da luta capitalista para o próprio sexo, de tal modo que cada um se torna substituível, em estado de insegurança permanente. O sr. concorda com essa visão?
FINKIELKRAUT
– Quisemos acreditar que a libertação sexual iria suprimir a dimensão da infelicidade. Mas não é porque tudo é permitido que tudo é possível, Houellebecq teve o mérito imenso de ter chamado a nossa atenção para isso. O desejo é uma escolha, e escolher é excluir.
Sem dúvida hoje, mais do que nunca, é difícil ser feio, tímido ou antiquado. A proibição era um álibi para o fracasso. Nossa época é mais livre e, portanto, de certa maneira, mais cruel.

PERGUNTA – Ensaístas como Michel Schneider ou Eric Zemmour denunciam hoje uma confusão ou sobreposição das identidades sexuais e tendem a atribuir às mulheres as desordens que, segundo eles, solapam a sociedade ocidental. Como o sr. vê esse tipo de receio?
FINKIELKRAUT
– Não vejo como certo que a sexualidade seja a instância última de todos os nossos comportamentos.
Em outras palavras: não sou freudiano. Assim, não penso que a crise atual da transmissão em nossas sociedades proceda mecanicamente de um desaparecimento da função “viril”, nem, a fortiori, de uma conspiração feminina.
Em contrapartida, observo que se perdeu uma certa idéia do pai. E o problema não se reduz à questão de saber se os pais estão certos ou errados em trocar as fraldas de seus filhos -a meu ver, estão certos. A família tornou-se lugar de uma negociação perpétua.
Hoje tudo acontece num registro puramente afetivo, e não mais simbólico. Maio de 1968 não terá sido, em tudo isso, mais que um momento de aceleração do processo democrático que nos carrega há muito tempo.
A democracia -como afirmação da igualdade de todos os indivíduos, como passagem de uma vida suportada para uma vida desejada- se adapta muito dificilmente à partilha dos papéis. Assim, a família deixa de ser uma instituição para converter-se em uma associação precária. Se isso é bom ou mau, não posso dizer.


A íntegra desta entrevista foi publicada no “Nouvel Observateur”. Aude Lancelin (c) 2008 “Le Nouvel Observateur”. Tradução de Clara Allain .

Lembranças de Maio

O HISTORIADOR INGLÊS PETER BURKE RECORDA O IMPACTO DAS MOBILIZAÇÕES NA FRANÇA E NA TCHECOSLOVÁQUIA E AS CONQUISTAS PARA O FEMINISMO, OS COSTUMES E OS DIREITOS CIVIS

PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

Uma das datas da qual os membros da minha geração jamais vão se esquecer é 1968, graças a dois acontecimentos, um em Praga e o outro em Paris.
O primeiro foi a chamada Primavera de Praga -em outras palavras, o “socialismo com face humana” incentivado por Alexander Dubcek, que se tornou primeiro secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia em janeiro daquele ano.
O segundo acontecimento memorável ou, melhor dizendo, série de acontecimentos -“os acontecimentos”, como os franceses os descreveram na época- se deu em Paris, dentro e em volta de duas universidades: Sorbonne, no centro da cidade, e Nanterre, em sua periferia.
Os estudantes foram liderados por trotskistas (expulsos da União dos Estudantes Comunistas Franceses em 1965), maoístas e anarquistas (sobretudo o carismático Daniel Cohn-Bendit, que se tornaria um respeitável deputado no Parlamento Europeu).
Os estudantes se revoltaram, hastearam bandeiras vermelhas, atiraram coquetéis Molotov, lutaram contra a polícia ou fugiram dela, arrancaram paralelepípedos das ruas, ergueram barricadas (pela primeira vez desde a Segunda Guerra), atacaram os escritórios da American Express e do banco Chase Manhattan em Paris e, no dia 10 de maio de 1968, ocuparam a Sorbonne, convertendo-a numa espécie de comuna estudantil.
De Gaulle queria enviar o Exército para intervir, mas foi persuadido a não fazê-lo, já que os soldados, em sua maioria rapazes que cumpriam o serviço militar obrigatório, poderiam querer se confraternizar com os estudantes.
As principais armas empregadas contra eles foram investidas com gás lacrimogêneo e cassetetes.

Slogans e pichações
As revoltas estudantis não costumam conquistar a simpatia do público, mas esses fatos o fizeram. Mesmo as pichações nos muros foram fotografadas e reproduzidas na imprensa, sendo imitadas em outras cidades, como Oxford.
Algumas daquelas pichações são recordadas até hoje, especialmente “A imaginação ao poder!”. Algumas delas seguiam a tradição das revoluções: “Abaixo o Estado”, por exemplo, ou “Abolição da sociedade de classes!”.
Outras expressavam críticas à tradição revolucionária, exortando ao sexo em vez do trabalho e à espontaneidade em lugar da disciplina (“Aqui se “espontaneiza'”).
Outras pichações, ainda, defendiam posturas francamente hedonistas (“Viver o presente” ou “Trabalhadores do país, divirtam-se!”), expressando um pouco do espírito carnavalesco dos próprios acontecimentos.
Algumas pichações eram citações, reconhecidas ou não, de Bakunin, Nietzsche, Unamuno, Heráclito etc. Outras ofereciam epigramas originais, como “As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes” ou “A barricada fecha a rua, mas abre a via”.
Vistas em conjunto, essas inscrições transmitem de maneira vívida uma crítica veemente à religião, ao Estado (especialmente a polícia), ao sistema educacional e à sociedade de consumo (“A mercadoria é o ópio do povo”).
A inspiração de muitas dessas pichações, assim como dos acontecimentos como um todo, veio do chamado “situacionista” Guy Debord, autor de “A Sociedade do Espetáculo” (1967), de intelectuais de esquerda como Henri Lefebvre, Louis Althusser, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, de Mao Tse-tung, tão popular entre a esquerda nos anos 1960, e, voltando mais atrás, de Marx, Lênin e Trótski.

Alguma revolução
Hoje, 40 anos depois, seria interessante que alguém entrevistasse os autores das pichações -se soubéssemos quem são!- para lhes perguntar o que pensam hoje das idéias e dos sentimentos que, na época, expressaram publicamente com tanta pungência.
O que essas pichações tornam muito claro é o desejo ou a esperança de muitos de seus autores por alguma espécie de revolução política ou social, um novo 1789 ou, quem sabe, um novo 1848 ou mesmo uma revolução cultural como a que estava acontecendo na China, enquanto ocupavam a Sorbonne e eram elogiados por alguns intelectuais franceses, incluindo Jean-Luc Godard. Até que ponto essa revolução teve êxito?
A pergunta era muito difícil de responder na época, mas hoje, passados 40 anos, algumas coisas já se tornaram mais claras. Os acontecimentos ajudaram a derrubar o presidente Charles de Gaulle, que renunciou ao cargo em abril de 1969.
Por outro lado, De Gaulle foi sucedido por seu antigo primeiro-ministro, Georges Pompidou, que não era mais aberto que seu antecessor às idéias dos estudantes.

Ganhos indiretos
Os acontecimentos de 1968 instigaram o governo a empreender uma reforma das universidades, multiplicando o número de estudantes, mas não conseguindo ampliar a infra-estrutura acadêmica de modo a satisfazer as suas necessidades.
É possível que as conseqüências mais duradouras do Maio de 1968 tenham sido indiretas, de natureza cultural, mais que estrutural.
O exemplo dos estudantes parece ter encorajado o movimento feminista francês, além de aumentar a consciência política de alguns intelectuais, como foi o caso de Michel de Certeau [1925-86].
Num artigo publicado algumas semanas apenas após os acontecimentos, ele -com um entusiasmo talvez inesperado, em se tratando de um jesuíta de meia-idade- escreveu que “em maio de 1968, tomou-se a palavra como tomou-se a Bastilha em 1789”.
A interpretação que Certeau fez dos fatos do Maio de 1968 pode ser aplicada a ele próprio. Antes de 1968, ele era um historiador da espiritualidade que também se debruçava sobre a reforma da igreja.
Depois de escrever esse célebre artigo sobre 1968, porém, Certeau foi projetado para sua segunda carreira, a de analista da sociedade contemporânea, discutindo e criticando as idéias de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, tendo escrito “A Cultura no Plural” (1974) e “A Invenção do Cotidiano” (1980), além de dar palestras nos EUA, no Brasil e em outros países.
Em suma, como é o caso de revoluções em escala maior, os acontecimentos de 1968 incentivaram algumas pessoas a alimentar pensamentos novos, dando asas a sua criatividade.
Para deixar a última palavra às pichações, “a revolução é uma iniciativa”. “Criemos comitês de sonhos.” “A ação não deve ser reação, mas criação.” “Criem!”


PETER BURKE , 70, é historiador inglês, autor de “O Que É História Cultural?” (ed. Zahar). Escreve na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Clara Allain .
http:uol.com.br/fsp
h