O incidente com a física brasileira Patricia Magalhães em Madrid

“Foi preconceito social e sexual”, diz física

Jovem ficou confinada sob a alegação de falta de documentação; brasileira estava apenas sem voucher do hotel em Portugal

Professor do Instituto de Física enviou fax à imigração no aeroporto de Madri e ao consulado brasileiro, mas não obteve resposta

Leo Caobelli/Folha Imagem
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Patrícia Magalhães deportada por autoridades espanholas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Seria o primeiro congresso internacional de que participaria a jovem mestranda de física da Universidade de São Paulo. Estaria em companhia de alguns dos mais importantes pesquisadores do mundo na área de partículas elementares e, inclusive, apresentaria um trabalho seu. Mas não deu nada certo. No Instituto Superior Técnico de Lisboa, onde se realizou o congresso na semana passada, afixou-se um pôster com o aviso em inglês: “Patrícia Camargo Magalhães, 23 anos, mulher. Deportada para o Brasil pelas autoridades espanholas”.
Patrícia viajaria a Lisboa via Madri por uma questão de preço. “O vôo pela Iberia saía mais em conta”, diz ela. Suas passagens foram pagas com dinheiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ela tinha reservas em um hotel de Lisboa. Levava 490 euros (R$ 1.251) em dinheiro, além de cartões de crédito e material para a estadia.
Em vez do congresso, no entanto, Patrícia passou três dias presa no aeroporto de Madri. Em uma das salas em que ficou confinada em companhia de 30 brasileiros e de outros tantos venezuelanos e africanos, com apenas 9 metros quadrados e fechada por duas portas blindadas, foi obrigada a dormir e alimentar-se no chão, por causa da superlotação. Para piorar, tinha sido privada de objetos de higiene pessoal, inclusive escova de dentes.
O argumento para a “negação de entrada na fronteira”, Patrícia só conheceu na terça-feira passada, pouco antes de ser levada ao avião da Iberia que a traria de volta ao Brasil: “Carece de documentação adequada que justifique o motivo e condições relativas a sua estadia”, dizia a carta que recebeu com o timbre do Ministério do Interior da Espanha. No campo reservado para a discriminação dos documentos faltantes, entretanto, nada foi escrito.
Ao chegar a Madri, às 9h30 de domingo (10/2), pediu-se a Patrícia que apresentasse o documento de reserva (voucher) no hotel de Lisboa. Ela estava sem ele e, por isso, foi retirada da fila da imigração e conduzida para local reservado. O vôo para Lisboa estava marcado para as 11h do mesmo dia. A estudante pedia providências, mas a resposta era sempre: “Senta e espera. Se perdes o vôo, te darão outro depois”.
Depois de quatro horas, um policial apareceu com uma pilha de passaportes e foi chamando os brasileiros que iam então sendo liberados. “Percebi que todos os homens tinham sido liberados e só restaram as mulheres, em sua maioria negras e mulatas. Quando, depois de cinco horas de espera, chegou um avião da Venezuela, muitas outras mulheres se juntaram a nós”, escreveu Patrícia em um texto divulgado ontem.
O professor titular do Instituto de Física da USP, Manoel Roberto Robilotta, 60, orientador de Patrícia e que foi um dos conferencistas no congresso que reuniu pesquisadores de quase 60 universidades, tomou conhecimento do problema com sua aluna no domingo. Enviou fax para a imigração espanhola no aeroporto de Madri, confirmando que Patrícia participaria do congresso. A mesma carta enviou ao consulado brasileiro em Madri. Ele também providenciou para que o hotel em Lisboa enviasse às autoridades espanholas a confirmação da reserva da aluna. Não recebeu resposta alguma.
Bonita, 1,72 m, magra, branca, a estudante trajava jeans, botas de caminhada e blusa de lã quando chegou a Madri. “Para mim, o que aconteceu foi uma demonstração de preconceito social e sexual”, diz.
No congresso, segundo Robilotta, o constrangimento abateu os cientistas. “Sabe-se que a Espanha é destino de mulheres cooptadas por redes de prostituição, o que o governo de lá quer legitimamente combater, mas o que ocorreu com a Patrícia foi claramente preconceituoso contra brasileiros, mulheres e jovens.”
Solidário com a estudante, o físico Franco Buccella, da Universidade Federico 2º, de Nápoles, protestou: “A mãe dos imbecis está sempre grávida”.
“O congresso era a primeira reunião teórica internacional de que participaríamos para falar do nosso trabalho em torno da partícula sigma. Era nosso début e a Patrícia trabalhou duro na preparação da apresentação”, depõe Robilotta.
“Patrícia tem nossa solidariedade em face do ultraje a que foi submetida”, diz o diretor do Instituto de Física da USP, Alejandro Toledo. Para ele, além de ter ferido direitos de uma cidadã brasileira, a deportação caracteriza uma ameaça ao projeto de internacionalização da USP, que pretende ampliar o relacionamento com centros de alto nível em outros países.
Patrícia já anuncia ação contra o governo espanhol por danos morais e materiais. Também protestará contra o consulado brasileiro em Madri. “Eles não fizeram seu trabalho.”
Consulado brasileiro e setor de imprensa do serviço de imigração espanhol estavam fechados quando a reportagem tentou contato telefônico.

Retirado FOLHA DE S. PAULO

A vida é uma travessia perigosa

02 Neurônio

>>Jô Hallack >>Nina Lemos >>Raq Affonso
02neuronio@uol.com.br

Sinal vermelho para o amor

VAMOS começar do começo: mulheres nem sempre querem namorar. Não somos pessoas loucas por um macho que saem por aí querendo compromisso. Já falamos isso antes, mas vamos repetir até os homens se convencerem. Acreditaram? Sim, mas mulheres também são pessoas com o coração mole (e os homens também), então, mesmo nos momentos mais “eu quero ficar sozinha” de um ser humano, nos deparamos com sinais assustadores de que aquela pessoa… pode acender o sinal verde do nosso coração, bem naquela hora em que a gente deseja que ele continue no vermelho, no máximo no amarelo, compasso de espera, a gente ali na calçada olhando para o alto, ouvindo uma música no fone de ouvido, esperando sem muita ansiedade o sinal abrir. E, aí, aparecem os sinais perigosos, que são:
Ele gostar da sua banda-secreta, aquela que você ama, mas não assume no meio de pessoas chatas e fundamentalistas da modernidade para não ser patrulhada, tipo Kid Abelha ou Legião Urbana. Nessa hora, somos tomadas por um apego inexplicável.
Ele gostar da mesma banda vietnamita que você, aquela que só você acha que conhece no mundo. Não, não conhecemos nenhuma banda vietnamita, isso é só um exemplo.
Ele gostar do mesmo estilista que você, tipo se dizer fã do Alexandre Herchcovitch. Mas, cuidado! A realidade é que ele pode ser gay. Ou, pior, metrossexual. Não, não temos nada contra gays. Eles é que não querem namorar a gente.
Vocês terem o mesmo livro que ninguém tem, tipo um exemplar da grande obra dos anos 50 “A Moça e seus Problemas”, ou a sua versão masculina, “O Moço e seus Problemas”. Por sinal, se você tiver um, nos avise.
Ele gostar da mesma banda secreta, ter todas as músicas da banda vietnamita, adorar moletons do Alexandre Herchcovitch e ter não só um exemplar do livro “A Moça e seus Problemas, mas também “O Moço e seus Problemas”. Nesse caso, você se ferrou. Atravesse a rua. E corra o risco de ser atropelada!

Momento de histeria

O sinal não fecha nunca, por isso a vida é uma travessia perigosa

Maravilhas do Oscar®

®OSCAR ®

Por Marcelo Cobra

11 prêmios

Ben Hur

de William Wyller (1959)

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Titanic

de James Cameron (1997)

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O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

de Peter Jackson (2003)

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10 prêmios

Amor, Sublime Amor

de Jerome Robbins (1961)

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9 prêmios

Gigi

de Vincente Minnelli (1958)

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O Último Imperador

de Bernardo Bertolucci (1987)

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O Paciente Inglês

de Anthony Minghella (1996)

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Meryl Streep

14 indicações.

Ganhou uma vez pelo filme A Escolha de Sofia (1982)

Katharine Hepburn

12 indicações.

Ganhou quatro vezes pelos filmes Manhã de Glória (1932/3), Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1981)

Bette Davis

10 indicações.

Ganhou duas estatuetas pelos filmes Perigosa (1935) e Jezebel (1938)

Jack Nicholson

12 indicações.

Ganhou duas vezes pelos filmes Um Estranho no Ninho (1975) e Melhor é Impossível (1997)

Laurence Olivier

10 indicações.

Ganhou uma vez pelo filme Hamlet (1948)

Paul Newman e Spencer Tracy

9 indicações.

Paul Newman ganhou uma vez pelo filme A Cor do Dinheiro (1986); Spencer Tracy ganhou duas vezes pelos filmes Marujo Intrépido (1937) e Com os Braços Abertos (1938)

… que em 1938 a academia realizou uma homenagem especial a Walt Disney e deu a ele um Oscar em tamanho real e sete miniaturas pelo filme Branca de Neve e os Sete Anões?

… que o desenho A Bela e a Fera, de 1991, foi a primeira e única animação a ser indicada ao Oscar de melhor filme?

… que Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick nunca ganharam o Oscar de melhor diretor?

… que se Hal Holbrook sair da cerimônia com a estatueta nas mãos, será o ator mais velho a ganhar um Oscar? Aos 83 anos, ele está indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante pelo filme Na Natureza Selvagem.

… que esse é o primeiro ano em que uma atriz recebe uma segunda indicação pelo mesmo papel? A responsável pela façanha é Cate Blanchett, indicada novamente por sua atuação como a rainha Elizabeth no filme Elizabeth – A Era de Ouro.

Casa Museu Madalena e Gilberto Freire – um Convite especial

Maria do Carmo Figueredo Soares   concedeu-nos  uma honra inestimável.

Lendo um texto a respeito da  Exposição Gilberto Freire no Museu da Lingua Portuguesa – ela fez um comentário riquíssimo em informações. E ao final, um convite.

Maria do Carmo,  obrigadíssima  por tudo  e achei que seria ótimo   partilhar essas informações  fascinantes com todos os leitores.

Um abraço reconhecido

M.

 ♣

Eis o comentário a este post:  GILBERTO FREIRE (1900-1987)

“O Comentário serão informações de uma vista in situ a Casa Museu Magdalena e Gilberto Freyre para convidar a quem ainda não conhece a fazê-lo pessoalmente; além de parabenizar a iniciativa do Museu da língua portuguesa

Gilberto Freire casou com 41 anos e sua esposa Magdalena, oriunda do Rio de Janeiro tinha na época 20 anos e formada em Educação Física. Conta-se que Gilberto fez uma promessa para Santo Antônio para casar com Magdalena e, entre conhecimento, noivado e casamento foi um período de aproximadamente 3 meses. O casal teve dois filhos, o Fernando Freyre e a Sônia Maria Freyre.
Na sala de estar da casa museu se encontra vários quadros retratando os avôs, paterno e materno do Gilberto, tios e tias, seu pai, Alfredo Freyre e José Lins do Rego, um dos melhores amigos de Gilberto.
Também existem sobre uma mesa central as obras Casa Grande e Senzala, cuja primeira edição é de 1933 e o Nordeste, lançado em 1937, a obra preferida do Gilberto. Em 1981 saiu a primeira edição da obra Casa Grande e Senzala em quadrinho e, depois em 2000, foi re-editada de forma colorida, para motivar a leitura por um público infantil. Nesta mesa também estão dispostos um exemplar da obra Os Lusíadas, de Camões, uma edição especial, que foi editada em número reduzido (150 exemplares e distribuídos pelo mundo para pessoas que se destacavam). No Brasil existem dois exemplares, um presenteado, ao então presidente da república, Getúlio Vargas e outro a Gilberto Freyre. Além dos livros existe uma charuteira em prata.
Neste ambiente existem muitos livros, como quase em todos os cômodos da casa e uma coleção de bengalas utilizadas pelo Gilberto para caminhar no sítio, cujas árvores frutíferas, foram em grande parte plantadas pelo mesmo.
Passando-se a um segundo cômodo da casa denominado Sala Lula Cardoso Ayres, um famoso pintor pernambucano e amigo de Gilberto Freyre, inclusive com a esposa do Gilberto sendo madrinha de um filho do casal Ayres e vice-versa, o casal Ayres como compadres do Gilberto e da Madalena, tendo batizado a Sônia. Fala-se que o Lula solicitava muito a opinião de Gilberto para a pintura dos seus quadros. Nesta sala está os livros mais antigos da casa, uma coleção que pertenceu ao pai de Gilberto e foi doado para o mesmo. Além dos quadros pintados por Lula Cardoso Ayres. Está também disposto um leão do time esporte, pois o autor era rubro-negro e esta foi uma homenagem do clube, em vida do Gilberto, enquanto torcedor do time.
A casa de Gilberto Freire tornou-se Museu quando ela ainda estava vivo, em março de 1987, passando a família Freyre a residir num anexo. Logo depois Gilberto veio a falecer, em julho , no dia do aniversário de sua esposa (18/07/1987),mas foi sua vontade transformar sua residência em museu.
Na sala de Jantar são preservados os móveis de jacarandá do séc. XIX e um móvel alemão, tipo aparador, feita pelo alemão Spiller que utilizava em suas esculturas na madeira motivos de frutas e flores tropicais. Na época sobre o aparador eram colocada as bebidas e licores servidos as visitas e principalmente, o conhaque de pitanga, uma receita especial, elaborada por Gilberto Freyre, e mantida em segredo, mas foi repassada para o filho, Fernando Freire, que veio a falecer de forma repentina e, esta receita, perdeu-se no tempo. Nesta sala encontram-se 8 painéis em azulejos portugueses da Igreja de nossa Senhora da Anunciação, de Portela de Sacáven, Portugal, encontrados por Gilberto num antiquário e na época o mesmo fez uma solicitação para trazê-lo ao Brasil. Há mais um desses painel na parte externa da casa.
No final da Sala há um terraço, tipo solário, que é a parte mais ventilada e clara da casa e onde Gilberto costumava receber seus visitantes e fazia suas pinturas e desenhos. Há uma mesa com banquinhos todos em azulejo que foram presenteados pela família real a Gilberto. Cada azulejo representa uma antiga província do Brasil. Sobre esta mesa encontram-se dois cinzeiros de cerâmica, presentes do Brennand para Gilberto e também até hoje numa área externa, tipo jardim, sobrevive o jaboti chamado Chiquito, também um presente de Brennand para a família e recebeu o nome de Chiquito em homenagem ao seu presenteador: Francisco Brennand. Este jaboti tem mais de 60 anos. Imagens de São Francisco e Santo Antônio, também estão presentes neste recinto.
Depois se adentra a cozinha onde Gilberto e Magdalena costumavam de cozinhar. Aí ainda são mantidos utensílios por eles utilizados, além de livros de receitas de Magdalena, onde existem receitas manuscritas e outras de recortes. É neste local que está à mostra o livro açúcar de Gilberto Freyre, que foi um dos primeiros escritores a associar culinária com cultura. Afinal para Gilberto a feijoada brasileira foi nascida nas senzalas. Há também dispostos quadros de Brenam e ao fundo um banner de um engenho antigo da região.
Há depois uma sala denominada Gilberto Freyre, onde estão as comendas recebidas pelo autor de Casa Grande e Senzala, como a Order of the British empire, Sir – “Cavaleiro Comandante do Império Britânico “ concebida pela Rainha Elizabeth II,em 1971, além de várias outras comendas. Gilberto deve ter sido um dos brasileiros mais condecorados de todos os tempos. Uma também uma das mais importantes condecorações italiana (Prêmio Internacional La Madonnina, Itália, 1969 ), prêmio de literatura. Gilberto publicou aproximadamente 76 obras em vida, podendo-se afirmar que conseguiu viver da Literatura. Há neste recinto um importante quadro original do pintor Cícero dias, a Família de Luto. Foi este pintor e desenhista quem ilustrou a obra Casa Grande e Senzala. Está ocorrendo, atualmente no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo uma exposição: Gilberto Freyre, interprete do Brasil, cujo catálogo se encontrava sobre a mesa. Nesta sala estão todas as obras de Gilberto e as várias edições de sua mais importante obra: Casa Grande e Senzala, traduzida para mais de 15 idiomas.
Na biblioteca, onde de fato se encontra a maior parte dos livros e uma poltrona onde o Gilberto costumava escrever. Lá existe um boneco sentado simbolizando o Gilberto e a sua forma de escrever, sempre utilizando lápis e com uma perna sobre a poltrona. Junto há um porta-retrato com uma fotografia mostrando esse hábito do escritor. Há também uma vitrina onde estão contidas várias placas comemorativas recebida pelo autor durante a passagem dos seus 80 anos, que foi bastante festejado.
O pai de Gilberto Freyre foi juiz e educador e ajudou na formação de seu filho, chegando a trazer professor de fora do país para alfabetizar o Gilberto, que primeiro chegou a ser alfabetizado em Inglês, e depois em português, pois na época teve dificuldade para aprender e ser alfabetizado em português, chegando a trazer preocupação para a família, pois já quase 8 anos de idade e ainda não conseguia ler e escrever.
Depois subindo para o cômodo superior da casa onde se encontram o quarto do casal (Gilberto e Magdalena) e dos dois filhos, Sônia e Fernando. No quarto de casal é interessante observar à cama disposta de uma forma bem central no quarto, disposição essa atribuída à superstição do Gilberto, de que a cama não poderia estar posicionada de frente para as portas. De um lado há o guarda roupa e pertences que foram do Gilberto e do outro de Magdalena, principalmente destacando suas linhas de bordado, pois, toda a tapeçaria e almofadas da casa foram tecidas por ela, em ponto de cruz. Há também três grandes espelhos de cristal, com molduras banhada a ouro. Existe uma gueixa de porcelana, com cabelo verdadeiro de japonesa que foi presenteado ao casal no noivado. Aí também se encontram últimas fotografias tiradas do autor com sua família.
No quarto de Sônia aparecem várias pastas com manuscritos de Gilberto e, ela própria, chegou a escrever um livro: Vidas vivas e revividas, onde conta sua história de criança convivendo nesta casa com seus pais. No quarto de Fernando os móveis também foram feitos pelo escultor alemão Spiller e existem coleções de barro (cerâmica) provindas de caruaru e do artista Zé do Carmo, ceramista e pintor pernambucano, considerado patrimônio vivo.
De fato uma visita ao Museu e Casa Magdalena e Gilberto Freire é uma viagem no tempo. Há ainda ao redor da residência todo um sítio ecológico com as trilhas, como a da pitanga, um convite a viver a natureza e a tradição do povo pernambucano.”

Maria do Carmo Figuiredo Soares 

TODOROV: a literatura, hoje

14/02/2008
O assassinato da literatura, segundo Todorov
subtitulo = ‘Tzvetan Todorov lamenta a concepção redutora das letras nas escolas, crítica e autores’; if (subtitulo.length > 2) { document.write (‘‘+subtitulo+’
‘) }; Tzvetan Todorov lamenta a concepção redutora das letras nas escolas, crítica e autores

Justo Barranco
Em Barcelona

“Estamos assassinando a literatura.” Ou “na escola hoje não se aprende de que falam os livros, mas de que críticos falam.” São duas das afirmações que Tzvetan Todorov (nascido em Sófia, Bulgária, em 1939), um dos teóricos da literatura com maior influência nas últimas décadas, lança em seu último livro, “La literatura en perill” (editora Galáxia Gutenberg), recém-apresentado junto com “Los aventureros del absoluto”, um ensaio sobre Wilde, Rilke e Tsvietaieva. Todorov diz que “La literatura en perill” não é um “mea culpa”, mas que se sente “um pouco responsável” pela situação atual. “Nos anos 60 e 70 tentei equilibrar os estudos literários -então divididos em países e séculos- contribuindo com uma abordagem mais interna da literatura”, de suas estruturas e formas.

A partir da situação da literatura na França de hoje, de seu ensino, seus críticos e certas correntes dos escritores atuais que parecem não lhe agradar muito, Todorov, que vive nesse país desde 1963, se interroga, segundo diz, “sobre a própria identidade da literatura em nosso mundo contemporâneo”. “No livro estudo a evolução da literatura desde o século das luzes até o presente, e essa evolução parece levar a uma separação entre a literatura e a vida dos homens e mulheres comuns. E eu evidentemente defendo a tese oposta: que a literatura está profundamente ligada à compreensão da condição humana. Se não, já teria desaparecido”, afirma.

“Os alunos na escola não compreendem por que têm estudos literários, de letras, nos quais aprendem figuras de retórica ou procedimentos narrativos. Pensam que os preparam exclusivamente para a profissão de professor de literatura. E é absurdo que seja assim, porque a literatura não serve para preparar professores de literatura. Ao contrário, é para um melhor conhecimento do ser humano, e disso todos temos necessidade”, lamenta.

Ele indica que “demonstra certa falta de humildade o fato de impor nossas próprias teorias sobre as obras, em vez das obras em si”. “Voltar a centrar o ensino das letras nos textos corresponderia, sem dúvida, aos desejos ocultos da maioria dos professores, que escolheram seu ofício porque amam a literatura. É a literatura que está destinada a todo o mundo, e não os estudos literários”, reclama.

Escritores e críticos
Mas, diz Todorov, “a concepção redutora da literatura não se manifesta só nas aulas das escolas ou das universidades; também é representada em abundância entre os jornalistas que resenham os livros e inclusive entre os próprios escritores”. Nesse sentido, salienta, “houve uma evolução que faz que os criadores dêem a impressão de escrever para a crítica, algo que também acontece com a pintura e a arte conceitual”.

E ataca três correntes de escritores: os formalistas, nos quais a literatura só fala dela mesma, com construções engenhosas, simetrias e ecos diversos; a corrente niilista, “segundo a qual os homens são estúpidos e malvados e a destruição e a violência mostram a verdade da condição humana, vendo a vida como o advento de um desastre”; e uma vertente do niilismo: o solipsismo, no qual “quanto mais repugnante for o mundo mais fascinante é o eu”. O autor solipsista, diz Todorov, “descreve em todo detalhe suas mínimas emoções”.

E o assunto, diz ele, “não é que a literatura seja uma técnica de cura anímica, mas pode transformar cada um de nós por dentro”. Acrescenta que “o leitor comum, que continua buscando nas obras que lê algo que dê sentido a sua vida, tem razão de se opor aos professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma, ou que só ensina a desesperança”. Porque, na opinião de Todorov, “o que os romances nos dão não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós”. “E pensar e sentir adotando o ponto de vista dos outros, pessoas reais ou personagens literários, é o único meio de caminhar para a universalidade, e isso inclui os livros que o crítico profissional considera com condescendência, senão com menosprezo, desde ‘Os Três Mosqueteiros’ até ‘Harry Potter'”.

Todorov “aconselharia [os professores] a partir de textos em que haja um interesse evidente para os alunos e ir progressivamente para textos mais distantes, de mundos que lhes sejam mais estranhos. E falar do que falam os livros e não só do livro. Creio que todos os alunos podem se reconhecer nas histórias de identidade, amor, depressão ou violência que os livros contam. É preciso fazer que os alunos voltem a encontrar o interesse pela literatura.”

 

UOL MIDIA GLOBAL

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Macunaíma, 80 anos: a revolução pela palavra

Mário de Andrade tem 33 anos em 1926 e vai passar o fim de ano em Araraquara (SP) na chácara do seu primo, Pio Lourenço Correa. Tem na cabeça, desde 1924, o personagem de um livro, Macunaíma, preguiçoso, malandro, brigão, sincero e mentiroso, e o trabalho de contar sua história leva uma semana. O livro está quase pronto; mais alguns retoques e a versão definitiva é escrita em começos de 1927 e é publicada em 1928.

Por Geraldo Galvão Ferraz, na Cult

Mário de Andrade, que sabia tudo de folclore da América Latina em geral e amazônico em particular, usa isso para basear sua criação, que seria um protótipo do homem latino-americano, mestiço (Macunaíma é preto, apesar de ser índio), em plena luta com o colonizador. Ele é também um retrato do caráter brasileiro que, num paradoxo muito ao gosto dos modernistas, surge como “o herói sem nenhum caráter”.

O crítico Wilson Martins chama Macunaíma de “o livro modernista por excelência”. Situa-o como um conto, antes do que como um romance, comparando-o a um conto oriental, em que o mágico e o lógico se misturam. Mário de Andrade pretendeu escapar das formas e das fórmulas existentes, fazendo seu herói ser intemporal e sem limites geográficos. Num prefácio inédito, escreveu que “desejava que ele não fosse nacionalista, mas sul-americano e, daí, se ter dado bem, ao substituir a própria consciência pela de um hispano-americano.”

Um aspecto evidentemente interessante de Macunaíma é sua linguagem. Mário de Andrade quis construir nele uma língua brasileira baseada no índio e no negro, mas também com a contribuição dos imigrantes, uma linguagem literária para revolucionar a arte brasileira, que na época ou usava velhos chavões do simbolismo francês ou, pior ainda, de um neoclassicismo absurdo.

Mas essa pretensão é apenas intelectual, pois nenhum brasileiro poderia falar a língua do livro, a não ser que englobasse todos os genes e as memórias dos negros, índios, imigrantes que tivessem vivido no Brasil. Porém isso não quer dizer que o livro seja totalmente inacessível ao leitor comum. Apesar da multiplicação de palavras inventadas e do aproveitamento de termos regionais, indígenas e africanos.

Começa com o nascimento do herói, “preto retinto, filho do medo e da noite”, nascido de uma índia tapanhumas. Aprende a falar aos seis anos e solta seu bordão: “Ai, que preguiça!…” É um moleque travesso, desbocado e safado. Apaixona-se então pela índia Ci, a Mãe do Mato, com quem tem um filho morto.

A própria Ci morre e Macunaíma se desespera ao perder uma pedra-talismã que ela lhe dera, o muiraquitã. Ele persegue o caminho da pedra até descobrir que fora roubada por um mascate peruano, Venceslau Pietra, o gigante Piamã, que mora em São Paulo. Macunaíma e seus irmãos Maanape e Jiguê vão no seu encalço.

A pedra é recuperada depois de muitas aventuras, mas será perdida outra vez, engolida pelo monstro Ururau. Macunaíma desiste de procurá-la e se transforma na constelação da Ursa Maior, mudando-se em algo que não servisse de nada para os homens (“um brilho.inútil lá no céu”).

Meio epopéia, meio história picaresca, Macunaíma é o texto fundamental do Modernismo, que se dirigia para seu viés antropofágico. Usa influências européias de vanguarda, mas deglute-as num texto que remete ao nacionalismo, tentando retratar um modo de ser brasileiro e, por extensão, sul-americano. Dentro da literatura brasileira é um livro único, que tem o que dizer até hoje e influenciou boa parte dos autores nesses seus 80 anos.