Benedito Nunes – entrevista a José Castello

José Castello

Benedito Nunes ensina o caminho de volta

por José Castello.
Crítico paraense defende a radicalidade dos escritores para afirmar grandeza da Amazônia.

Felix Delatour é um professor bretão, circunspecto e quase albino que vive escondido em um sobrado de Manaus. Ele sofre de uma trágica doença que praticamente o imobiliza: o gigantismo. Sobrevive, em seu abafado exílio, ministrando aulas de francês. Em sua sala, despida de qualquer lembrança do passado europeu, há apenas uma mesa de madeira e duas cadeiras de vime. Do lado de fora, com suas ondas de calor e nuvens de mosquitos e sempre indiferente aos requintes da língua, está a Amazônia. Diante de um jovem aluno, Delatour certa vez fez uma importante reflexão sobre seu destino de exilado. “A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar”, disse. “A voz do verdadeiro viajante ecoa no rio silencioso do tempo.”

Felix Delatour, esse profeta da distância e do silêncio como métodos fundamentais para o conhecimento, é um personagem de Reflexão sobre uma Viagem sem Fim, um conto (leia íntegra na página ao lado) do escritor amazonense Milton Hatoum, recentemente publicado pela Revista da USP.

O conto é dedicado ao eminente crítico literário e filósofo paraense Benedito Nunes, que vive na vizinha Belém do Pará. Como nos contos de Adolfo Bioy Casares, em que os primeiros parágrafos servem apenas para driblar a atenção do leitor, prometendo-lhe o que não lhe dará, é Benedito Nunes – e não Delatour – quem nos interessa aqui.

A dedicatória, que Milton Hatoum firmou com orgulho, não é mera formalidade. Aos 65 anos, freqüentador assíduo do meio intelectual francês e norte-americano, o paraense Benedito Nunes poderia dizer, sem medo de errar, que também para ele as viagens servem para purificar a visão. Professor da Universidade do Pará e prestigiado conferencista e ensaísta, Benedito Nunes faz muitas viagens, mas retorna sempre a Belém, onde nasceu e nunca deixou de viver.

Ao contrário de Delatour, o professor jamais permitiu que os prazeres do exílio o imobilizassem. Para ele, as viagens apontam sempre para o momento de retorno ao porto de origem. É na volta – novos olhos diante de velhas paisagens – que a aventura da viagem atinge seu apogeu.

Com o espírito depurado pelas aventuras intelectuais no Exterior, Benedito Nunes defende, no entanto, uma visão não-regionalista da região amazônica, que a livra das fantasias românticas e das ilusões de inocência virginal. “Não sou uma planta nativa”, diz.

Nesta entrevista, Benedito Nunes defende a radicalidade de outros escritores e poetas contemporâneos que, exatamente como ele, conseguiram afirmar a grandeza da Amazônia, sem, no entanto, ceder à força inebriante dos mitos. Admira, por isso, o Márcio Souza de Galvez, o Imperador do Acre, mas já não tem o mesmo entusiasmo por seus romances seguintes. Enaltece as qualidades de escritores e poetas nortistas pouco lidos no sul do País, como Dalcídio Jurandir e Age de Carvalho. E se confessa, fechando o círculo, admirador incondicional do amazonense Milton Hatoum, um ficcionista que, como ele, aprendeu a ver a distância como a forma mais eficaz da proximidade.

Caderno 2 – O senhor é um intelectual extremamente fiel à região amazônica. Não paga um caro preço por essa fidelidade?

Benedito Nunes – Não. Se é isso o que você quer saber, mesmo aqui jamais perco contato com o que se passa no resto do mundo. Tenho sempre me afastado da Amazônia, mas são afastamentos por tempo determinado, com volta fixa e garantida. Minha temporada mais longa no Exterior ocorreu na segunda metade dos anos 60, quando fui leitor em Rennes, na França. Depois, nos anos 80, retornei à França por mais um ano, já como professor. Tenho viajado freqüentemente a Paris e aos Estados Unidos, em particular a Austin, no Texas, para aulas, conferências e debates. Mas faço sempre um movimento de saída e retorno, que é importante porque me confere certo afastamento, sem que os vínculos se quebrem. Não tendo uma radicação extrema ao meio, posso pensar com mais independência e vigor. As viagens me fortalecem.

Caderno 2 – O senhor não se sente isolado em relação ao resto do País? Convites para lecionar em grandes capitais brasileiras, certamente, não lhe faltam.

Nunes – Mas prefiro permanecer aqui. Não me sinto isolado em Belém do Pará simplesmente porque sou um homem que gosta do isolamento. No Pará tenho muitas relações, muitos amigos, é bom dizer. Mas conservo também, é verdade, a distância e a calma que, para mim, são condições fundamentais para o trabalho intelectual. Vivo sim em um certo isolamento que não deve ser confundido, no entanto, com insulamento. Não estou incomunicável e não é uma fuga. A distância geográfica, ao contrário, me proporciona um refúgio, para o qual posso sempre retornar em segurança. Mas não sou uma planta nativa, presa definitivamente à floresta. Talvez por isso eu entenda a região amazônica sem precisar do apoio dos localismos. Prefiro falar, por exemplo, em uma literatura “da Amazônia” e não em literatura “amazônica”, denominação que inclui uma perspectiva regionalista. Ao falar em literatura “da Amazônia”, estou me referindo apenas a uma origem, uma procedência e nada além disso.

Caderno 2 – Quem são, segundo sua avaliação, os grandes prosadores vivos dessa literatura da Amazônia?

Nunes – Temos de falar, primeiro, de Haroldo Maranhão. Ele se mudou há muitos anos para o Rio, mora atualmente em Juiz de Fora, mas tem uma escrita que é muito paraense. Embora com um círculo de leitores bastante restrito, Haroldo é, há algumas décadas, uma figura-chave para a literatura amazônica. Em 1946, ele foi o inventor do suplemento literário da Folha do Norte, de Belém, um importante jornal que não existe mais, com o qual colaboraram não apenas escritores da região, mas também poetas como Bandeira, Cecília e Drummond. O suplemento durou até meados de 1951, mas, antes disso, surgiu um outro, igualmente importante, editado semanalmente pelo jornal A Província do Pará. Foi nesse caderno que Mário Faustino começou sua carreira de escritor, publicando crônicas no estilo de Rubem Braga.

Caderno 2 – Quais são outros nomes injustamente esquecidos?

Nunes – Penso, por exemplo, em Dalcídio Jurandir, que começou ainda nos anos 40 com um romance chamado Chove nos Campos de Cachoeiro e não parou mais de escrever. Cachoeiro é uma cidade da Ilha do Maranhão, onde Dalcídio nasceu. De lá para cá, seus romances formam um imenso ciclo amazônico que guarda, no entanto, considerável distância das experiências regionalistas. São ficções que apresentam uma interiorização muito grande, cada vez mais densa; são, na verdade, as aventuras de uma experiência interior. Chego a pensar que o conjunto desses romances forma uma espécie de À La Recherche… escrita na Amazônica e que Dalcídio é, um pouco, o nosso Proust. Pois veja o paradoxo: ele sempre foi um escritor publicado no Sul, pela Martins, e só agora está sendo republicado lentamente em Belém, pela Cejup,uma pequena editora que se originou do Centro de Estudos Jurídicos da Universidade do Pará.

Caderno 2 – No Sul e no Sudeste falamos em literatura do Amazonas e pensamos imediatamente em Márcio Souza e seu Galvez, o Imperador do Acre. O que o senhor pensa desse livro?

Nunes – Você fala em Márcio Souza e eu penso em Benedito Monteiro, outro escritor paraense bastante esquecido, autor de dois livros, em particular, de que gosto muito: Verde Vago Mundo e O Minossauro. Ambos são escritores que fazem uma elaboração muito importante das experiências lingüísticas da Amazônia, da diversidade de línguas e perspectivas. São exemplos enfáticos de uma literatura não-regionalista, embora feita com matéria-prima da região. Não faz mais sentido pensar, hoje, em literatura regionalista. O regionalismo tem data certa: nasceu romântico, foi batizado pelo naturalismo e foi crismado em 30, pelos modernistas. Depois, se tornou crônico e, por fim, anacrônico. Os dois golpes de morte mais duros no regionalismo brasileiro foram dados por Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto. Essa distinção entre literatura regionalista e não-regionalista é muito importante para entendermos a produção contemporânea, do contrário continuamos presos a velhos mitos e nos cegamos. A literatura regionalista, oje, não tem mais força na Amazônia. Basta pensar em Márcio Souza e também em Milton Hatoum. Ela sobrevive, de forma decadente, apenas entre os contistas. Nada mais.

Caderno 2 – Qual a importância de Galvez para a literatura da Amazônia?

Nunes – Galvez é um romance escrito dentro da tradição picaresca e foi muito importante retomá-la na Amazônia. Haroldo Maranhão escreveu também um romance dentro dessa tradição, em que ele a prepara ainda com mais refinamento. Refiro-me a O Tetraneto del Rey, em que ele faz uma paródia do modo de escrever seiscentista. Haroldo Maranhão tem sempre muito sucesso nessas experiências. Em Memorial do Fim, sobre os últimos dias de Machado de Assis, por exemplo, ele mimetiza de modo impressionante a escrita machadiana. Eis outro livro que passou despercebido, mas tem qualidades parodísticas extraordinárias.

Caderno 2 – O senhor não parece muito empolgado com Márcio Souza.

Nunes – Dos outros romances de Márcio Souza, na verdade, eu não gosto tanto. Penso que, embora aqui e ali ele encontre certa perspicácia, no geral ele perde por completo a mão na linguagem. Há quem relacione essa degeneração com sua mudança para o Sul, mas penso que é mais um fato interno da obra. A verdade é que, depois do Galvez, ele nunca mais foi o mesmo escritor.

Caderno 2 – Qual a real importância do Relato de um Certo Oriente, de Milton Hatoum?

Nunes – É a “desterritorialização”, que Milton sabe transformar em qualidade. Já me referi a essa experiência quando falei de mim mesmo. No livro de Milton, há distância, mas há ao mesmo tempo proximidade. A distância está mais na elaboração. O romance se transforma na busca de um tempo perdido, mas em local bem delineado, pintado com tintas que não são regionalistas. Em dado momento, Milton descreve o quintal de uma casa e, ali, o leitor defronta com todo o mundo amazônico. Esse mundo aparece também nas recordações de seus personagens. Mas há, sempre, um distanciamento reflexivo que confere grandeza ao texto.

Caderno 2 – A Amazônia tem, hoje, bons poetas?

Nunes – Temos Max Martins, um poeta que já está com seus 70 anos e tem uma obra de primeira linha, reunida no volume intitulado Para não Consolar. Temos também o Age de Carvalho, que publicou pela coleção Claro Enigma, aquela que foi dirigida pelo Augusto Massi, em São Paulo. É bem mais jovem, deve ter seus 40 anos, mas é muito chegado a Max Martins. Os dois escreveram, até, um poema a quatro mãos chamado A Fala entre Parênteses, em cuja feitura adotaram os procedimentos da renga. É preciso citar ainda João de Jesus Paes Loureiro, um pouco mais velho que o Age, outro excelente poeta. Temos na Amazônia hoje toda uma geração de bons poetas, mais numerosa e até mais importante que a dos ficcionistas.

Caderno 2 – Seu livro mais recente, No Tempo do Niilismo e Outros Ensaios, lançado pela Ática em 1993, é uma coletânea de ensaios filosóficos. A filosofia está se tornando mais importante para o senhor do que a literatura?

Nunes – Minha origem é a literatura. Meu primeiro livro, O Mundo de Clarice Lispector, editado em 1965 pelo governo do Amazonas, é prova disso. Ele reúne artigos que publiquei no suplemento literário do Estadão, ainda no tempo em que ele era dirigido pelo Décio de Almeida Prado. Tenho também um livro mais recente sobre a Clarice, O Drama da Linguagem, que a Ática publicou em 1989.

Caderno 2 – Por que essa dedicação, que se alonga por três décadas, ao estudo da obra de Clarice Lispector?

Nunes – O que se pode dizer, depois de tudo, sobre a importância de Clarice? Sua escrita é absolutamente ímpar. Há alguns anos participei da organização do volume a ela dedicado pela coleção Archives, de Paris. Organizamos uma edição crítica de A Paixão Segundo G.H., uma edição crítica atípica, porque não havia originais do livro. Para compensar, a Casa de Rui Barbosa me ofereceu para consulta os originais de um conto de Clarice, A Bela e a Fera, um dos últimos que escreveu. Nós o reproduzimos na edição crítica de G.H. e pudemos assim mostrar a maneira entrecortada de escrever que Clarice cultivava. É como se ela escrevesse por fulgurações. O confronto do original com o texto definitivo mostra com muita clareza esses movimentos dentro de sua escrita.

Caderno 2 – O que houve com os originais de G.H.?

Nunes – Infelizmente, eles estão perdidos, ao que parece para sempre. Tentei localizá-los nos arquivos da extinta editora Sabiá, que primeiro editou o livro, mas não tive sorte. Têm um destino enigmático. A Clarice talvez tenha, não digo que motivado isso, mas pelo menos ajudado nesse desaparecimento. Ela foi uma escritora que não tinha grande estima pelos originais. Uma vez o texto publicado, não se interessava mais pelo que tinha escrito.

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Publicado originalmente em Jornal de Poesia.
(todos os direitos reservados)

Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

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Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

BENEDITO NUNES :-Entrevista para o Jornal “O Liberal” (Belém)

Entrevista
Benedito Nunes discorre sobre a dor e a delícia de viver em uma cidade que mudou tanto. Um lugar que tem todo o direito de se modernizar, mas não de perder as raízes e a própria beleza.

IRAN DE SOUZA
Editor Executivo

Se procurar pelo nome, você não vai mais localizar a travessa da Estrela no bairro do Marco, embora, de certa forma, ali esteja um dos pontos mais luminosos da cidade. Também não anda fácil de encontrar a Belém que o maior intelectual paraense vivo emoldurou no coração, apesar de ela ser um lugar inesquecível para ele e para a História.

Isto porque o tempo passou e a capital do Pará, enfim, nem tinha mais como ser a mesma de 10, 30 ou de 77, quase 78 anos atrás, quando Benedito José Viana da Costa Nunes nasceu. Filósofo, ensaísta e crítico literário referencial na cultura brasileira, ele contempla a cidade com um misto de amor e severas restrições. E no cruzamento de dados historiográficos e afetivos conclui: o problema não é que Belém tenha mudado tanto, mas que tenha mudado para pior. ‘É tão ou mais complicado viver aqui do que em São Paulo, que é maior em tudo’, lamenta.

Ainda assim, na Estrela que agora é Mariz e Barros, e na Belém que já não é a aprazível cidade de outrora, Benedito vive entre plantas e livros, depois da infância e juventude em Nazaré, depois de temporadas alternadas entre a Europa e os Estados Unidos, onde consolidou sua trajetória como intelectual, estudando, lecionando, escrevendo (confira seus livros abaixo) e fazendo amigos. Constituir amizades, aliás, deve ser fácil para este homem simples e acessível que cultiva hábitos como caminhar pela manhã com a esposa Maria Sylvia Nunes no Bosque Rodrigues Alves, a poucas quadras de sua casa; fácil também porque Benedito não exala a soberba do conhecimento – aglutina e agrega, ao invés de espantar seus interlocutores – e também por isso é sábio, o nosso sábio da Estrela.

O que se vê e se sente ao conversar com Benedito Nunes, ainda mais no aconchego de sua invejável biblioteca, é que, mesmo morando na cidade, ele anda acometido de uma saudade louca de Belém. Sintoma claro dessa nostalgia é seu último livro, ‘Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus’ (Secult, 2006), escrito meio a meio com o romancista amazonense Milton Hatoum, e em cujas páginas confessa que redigi-lo foi pagar uma dívida com sua própria terra.

Entre débitos e créditos, porém, Benedito está no lucro, tantas são as suas contribuições naquilo que um dia já se definiu como Humanidades. Quem está no vermelho com ele – e com os quase dois milhões de habitantes de sua região metropolitana – é um certo lugar cujo nome próprio, por extenso, foi registrado em cartório como Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Um lugar em que cidadãos, empreendedores e governantes, por amor próprio, por respeito ao passado, por responsabilidade com o futuro, deveriam ouvi-lo mais, tomá-lo mais em conta, referenciá-lo como voz, fecunda e idônea, que tanto tem a dizer. Afinal, a crítica de Benedito ao que está sendo feito da cidade é dura, implacável, mas sempre construtiva em seus conceitos e indicações, como você pode ler na entrevista a seguir.

Esta entrevista é um convite a um passeio pela memória de Belém e de Benedito Nunes. O senhor o aceita?

Aceito, sim. Gosto de falar de Belém justamente porque revivo uma cidade que conheci e que não existe mais, embora saiba, é claro, que as instituições mudam, que as cidades se transformam, se modificam.

Belém se transformou a tal ponto de Benedito Nunes já não poder emoldurá-la no próprio coração?

Acho que a modificação de Belém foi um rebaixamento da cidade. Ela cresceu sem planejamento e continua crescendo desordenadamente, com edifícios em toda parte, por exemplo. Vejo, enfim, um desprezo muito grande pela cidade. A cidade, em si, ela desaparece. O que subsiste são certas coisas que não podem deixar de ser mencionadas: o que Antonio Lemos fez, em parte, e o que Paulo Chaves recentemente fez.

Há muito eu não passo ali pelo lado da rua João Alfredo. E pensar que lá era o centro da cidade, que todo o movimento comercial da cidade se concentrava lá… Depois foi mudando. Hoje já temos os shoppings, deslocou-se o eixo, o centro. Belém não tem mais centro. Logo esta que era uma cidade extremamente cêntrica, inclusive porque sempre conjugou os elementos do interior, ou seja, atraía gente do interior, gente que vinha para cá. Até intelectualmente Belém era uma cidade que centralizava. Hoje não tem mais essa função cêntrica, que foi perdida. É claro que há coisas novas, elementos novos. Intelectualmente, por exemplo, vejo como hoje é relevante a Universidade Federal do Pará, onde eu lecionei. E aí já estão, além dela, muitas outras universidades. Sob esse ponto de vista, então, há alterações positivas, significativas e até muito fecundas. Por outro lado, existe em Belém a impiedade do desleixo, a falta de uma visão de conjunto. Vejo que, do ponto de vista urbano, não se faz em Belém, com as raras exceções que citei, obras com visão de conjunto da cidade. Executam-se sempre coisas localizadas – e local é prédio, local é uma vala… Quem se preocupou em fazer obras para a cidade, levando em conta o seu conjunto, recentemente, foi o [arquiteto e ex-secretário estadual de Cultura] Paulo Chaves. É um mérito que devemos reconhecer.

Entáo, pelo olhar de Benedito Nunes, qual a atmosfera de Belém do Pará hoje?

A atmosfera é aquilo que confere uma personalidade à cidade. Todas as cidades grandes e mercantes no desenvolvimento europeu e norte-americano – particularmente no europeu isso é mais significativo -, todas as cidades têm uma personalidade, uma característica indivisa. Isso se vê em Paris, isso vê em cidades da Inglaterra – cidades que não perderam o seu centro. É muito curioso isso. Essas cidades conservam suas partes antigas. A parte antiga se torna um núcleo ou então uma parte reservada da cidade. Nunca se estraga ou se derruba como se faz aqui. Aqui se derruba tudo para construir o novo, que em geral é muito feio e sem gosto. É isso que vemos em Belém: uma mistura arquitetônica tremenda, sem configuração estilística. Já houve, mas hoje não há mais. ‘Grande Hotel’ e Theatro da Paz se conjugavam, havia um estilo, uma personalidade.

Se Belém perdeu o centro, por outro lado ganhou uma periferia que só cresce. Para onde vai assim?

Espero que não vá para o brejo [risos]. Essa anarquia urbana é terrível, seríssima. É incrível que viver em Belém seja hoje tão difícil como viver em São Paulo. Economicamente, produtivamente, populacionalmente, Belém é uma cidade pequena se comparada a São Paulo, mas a nossa vida aqui é tão complicada quanto lá – ou mais. Precisamos usar melhor os recursos públicos, as riquezas que geramos. Se há alguma distribuição disso, essa distribuição está alcançando pouca gente.

Uma curiosidade: o senhor teve muitas oportunidades para viver longe de Belém, mas sempre voltou para cá. Por quê?

Aqui é o meu canto. Eu sou um pouco animal sob esse ponto de vista, gosto da minha toca, da minha concha. E Belém é minha concha existencial, sempre foi. Tem também outro fato: vivo muito acompanhado de livros. Formei minha biblioteca aos poucos, por circunstâncias até certo ponto estranhas à minha vontade. Então, com tantos livros, como é que eu poderia me mudar? Era impensável. Ainda é. Minha biblioteca ocupa cinco salas da minha casa.

São quantos livros?

Nunca contei, mas devem ser mais de cinco mil. Então formei essa biblioteca e ela também é parte importante da minha vida. Veja bem: na época em que comecei a lecionar, havia uma grande falta de bibliografia à mão. Livros estrangeiros, quase nenhum. Em filosofia não se conseguia traduções; elas foram aparecendo aos poucos. Hoje isso mudou muito: há um grande número de traduções, algumas muito boas, mesmo em filosofia. Então esse domínio aumentou consideravelmente. Sob esse aspecto, a mudança [em Belém] foi muito fecunda, muito positiva.

O senhor vai completar 78 anos em dia 21 de novembro. Quantos deles passou fora da cidade?

Passei vários períodos fora. O primeiro foi por volta de 1960, em Austin, no Texas. Foi a primeira vez que eu passei uma temporada longa fora. Depois estive nos Estados Unidos outras vezes. A última foi em Berkeley, na Califórnia, há três ou quatro atrás. Na França, de tempos em tempos, estive muitas vezes. Na época do regime militar fiquei três anos lá. Depois, já na década de 1980, voltei. Em cada lugar, em cada universidade, foi um ano, um ano e meio, em média. Somando tudo, devo ter passado uns dez anos fora daqui, não mais do que isso.

Belém despertou e desperta sentimentos contraditórios. Como o senhor mesmo diz em sua crônica, houve viajantes que aqui passaram, como La Condamine, que tiveram uma visão idílica da metrópole colonial; outros, como Henry Walter Bates, disseram que ela era sombria, um coração nas trevas. O senhor se inclina mais para que visão?

Para mim, apesar de tudo, vale mais a primeira, a mais recuada. É uma cidade que já não existe, eu sei, mas para mim subsistiu, digamos, até os anos 1950 – uma Belém de ruas largas, arejadas, passeáveis; podia-se andar por elas, enquanto hoje já não se pode mais; enfim, uma Belém livre do trânsito intenso e desorganizado, com essa profusão que vemos de automóveis e de veículos de toda sorte. Então é essa Belém que subsiste, para mim, nas entrelinhas de uma escrita citadina tumultuosa e desorganizada.

Ao longo do anos, Belém negou ostensivamente a sua vocação fluvial e deu as costas para o rio. O que temos são janelas aqui e ali. Como o senhor considera que deveria ser a cidade nesse sentido?

Essa vocação fluvial foi perdida. Acho muito difícil recuperá-la. Tanta coisa já se construiu. Já há uma fachada desordenada na cidade que é difícil remover. É difícil, veja bem, mas não impossível. E alternativas para aprofundar essa vocação fluvial não faltam: existem grandes porções de verde, existem ilhas fronteiras à cidade que podem ser perfeitamente conquistadas sob esse ponto de vista. Enfim, nossa orla combina-se a um manancial ‘selvático’, floresta e rio, que pode ser amplamente recuperado. Mais do que ‘cidade das mangueiras’, esta é uma cidade de muitas árvores, as mangueiras predominantemente. E isso, vale lembrar, foi uma coisa muito sábia da parte do Antonio Lemos: plantar mangueiras, que são frondosas, que dão bastante sombra. Se não fossem as mangueiras, nós torrávamos aqui.

Como o senhor avalia a expressão cultural de Belém cem anos depois do tempo de glória da borracha?

A expressão cultural de Belém é indigente. Salvo um ou outro caso, é indigente. Na publicação de livros, em certos periódicos, há honrosas exceções. Mas no geral Belém perdeu muito culturalmente. Felizmente, houve casos de recuperação: se refez o Festival de Ópera, se deu uma certa vitalidade ao teatro, isso é muito considerável. Mas de modo geral, a meu ver, essa vitalidade diminuiu bastante. Quanto às riquezas produzidas hoje, seria bom que elas fossem distribuídas, que houvesse repercussão delas na economia local. Mas a distribuição de riquezas nunca é feita em benefício da maioria, essa é que é a verdade.

Então esta é mesmo a ‘terra do já teve’, então ainda somos, como disse Fábio Castro em um trabalho citado pelo senhor, uma cidade sebastiana à espera de uma nova época de ouro?

Não haverá mais época de ouro. Nem ‘época do ouro’, como dizia Oswald de Andrade [risos]. É difícil prever a conformação da economia. Aqui, infelizmente, os planejamentos são todos disparatados. Portanto, eu vejo essa situação com muito pessimismo. Se quisermos um futuro melhor, precisamos levar mais a sério a economia e a educação. Aqui se valoriza pouquíssimo a educação no sentido mais alto da palavra. Precisamos, por exemplo, conjugar melhor os tantos cursos que hoje existem, focalizá-los mais em direção dos nossos tantos problemas. Do ponto de vista da economia, está na hora de abandonarmos esse conceito desenvolvimentista, ultrapassado e que sofre duras críticas. Fazer uma cidade melhor às vezes é partir mesmo do trivial necessário como empregar melhor as verbas, destiná-las adequadamente, ter bom senso.Chegamos a um ponto em que o que se vê já não é nem falta de senso – é senso estragado mesmo.

A cidade surgiu no Ocidente como espaço de convivência e diálogo. Hoje é mais de confinamento e conflito. Mudamos para pior?

Acho que sim. Nesse sentido, lembro-me de ‘Zero’, de Ignácio de Loyola Brandão, um livro que teve muita repercussão à época do regime militar. Nele, o autor imagina uma cidade exatamente como estão ficando as cidades de hoje, com casamatas, pontos de segurança, com torres de vigilância como estamos vendo hoje. Todos os nossos pedaços da cidade são sempre pedaços confinados e, mais do que isso, vigiados por problemas de segurança, uma questão que se tornou fundamental hoje em dia. Não houve, portanto, evolução urbana, não houve desenvolvimento gradual para se atingir uma meta. Não tivemos isso.

De todos os espaços urbanos, o do trânsito parece o mais complicado. O LIBERAL, em reportagem publicada no domingo passado, mostrou que o trânsito de Belém, e do Pará em geral, é uma selva dominada por trogloditas ao volante.

Há problemas mais amplos nisso aí do que os de engenharia de tráfego. A adoção de meios tecnológicos aumenta a falsa idéia de poder no homem. A velocidade, por exemplo – desenvolvê-la cada vez mais ao volante de um carro é um encanto, é um poder. Há uma alteração psicológica nisso, isso está entronizado nas pessoas. Mesmo em condições comuns, normais, há uma alteração psicológica. Quem está ao volante se sente como senhor da máquina e senhor do espaço. Portanto, esse problema aí está em duas divisas, a divisa da economia e a divisa da educação. Se a pessoa não tem o senso de cumprir a lei, como ele pode respeitar o outro? Aí os problemas jurídico e moral também se cruzam. E esse cruzamento, esse entrosamento, é muito precário entre nós – trogloditas como você definiu [risos]. Mesmo em condições normais, como eu disse, a condução leva a uma alteração de conduta. E isso é muito perigoso. Mais perigoso ainda em condições anormais como as nossas, onde não há respeito nenhum às leis de trânsito. Eu, por exemplo, deixei de guiar há muito tempo por causa disso – e me senti muito bem por ter deixado. Sei que nem todos podem, mas felizmente tive condições para isso e não me arrependo.

O senhor escreveu que Belém perderá a face ‘sem o seu barroco, sem as suas árvores’. Concorda que a nova face da cidade já está mais para o Umarizal, com seus espigões residenciais e comerciais, do que para a Cidade Velha?

A grosso modo, pode-se dizer que sim, já que você coloca a questão nesses termos, Umarizal versus Cidade Velha. Mas acho que Belém poderia ter alcançado a mediania, um meio termo – nem a velhice decadente que a Cidade Velha exprime nem a urbanização louca do Umarizal. Ao se pensar uma cidade, ao se fazer projetos para ela, é preciso, como eu disse, levar sempre em conta a visão de conjunto, o senso da convivência social. Isso não existe entre nós.

Além do Grande Hotel e do Largo de Nazaré, que já não existem, do Bosque Rodrigues Alves, hoje jardim botânico, da loja Paris n’América, prestes a arruinar-se, e do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, listados em sua crônica, que ícones de Belém merecem a sua paixão?

Eu elegeria dois lugares. Um, a Estação das Docas. Outro, o Mangal das Garças, um empreendimento notável de urbanismo, de meio ambiente, de criação de condições de vida não apenas para o homem, mas para as espécies animais também. São recantos que foram recompostos, restabelecidos. Há ainda o Parque da Residência, um outro recanto muito bom. São os aspectos novos de Belém que interessam à cidade no seu conjunto. No mais, no que toca a construções, traçado urbano, Belém foi muito desprezada. Por isso, meus afetos são muito anacrônicos, embora outros sejam também muito atuais. Anacrônico, fora de época, é gostar de certos trechos como Batista Campos, Largo da Pólvora [risos], ou melhor, Praça da República. Essas coisas antigas são trechos, pedaços, retalhos. A fisionomia da cidade mudou muito, até internamente.

O senhor não é governante, é pensador. Mas, se tivesse o poder de fazer, qual a Belém que Benedito Nunes deixaria para as futuras gerações?

Eu ia derrubar muita coisa [risos]. Procuraria reordenar a cidade de modo que Belém voltasse a ter um centro, o centro antigo que de certa forma não temos mais. Talvez fosse o caso até de tornar a cidade multicêntrica, ou seja, com vários centros. É o que acontece nas cidades grandes, elas têm vários. Paris, por exemplo, não tem apenas um, mas vários centros. Ora, Belém está se tornando uma cidade grande, mas completamente anárquica, perdeu o seu centro, não ganhou novos, de modo que parece mais um grande acampamento feito de edifícios. Não sou absolutamente contra a modernização, quero deixar bem claro, porém gostaria de ver a minha cidade com uma modernização de bom gosto. Para isso, os projetos imobiliários e urbanísticos do setor privado e do setor público precisam ser avaliados de forma mais criteriosa, com visão de conjunto, mas não é isso que está acontecendo.

PARA LER BENEDITO NUNES

Benedito Nunes foi professor titular de Filosofia na Universidade Federal do Pará. Ensinou literatura e filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Recebeu, dentre outros, o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987. Suas obras são as seguintes:

O drama da linguagem
Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989.

Na fronteira entre a literatura e a filosofia, Benedito Nunes faz uma leitura já clássica da obra da autora. Nunes é considerado o melhor intérprete da contista e romancista.

No tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988.

Neste livro, Benedito Nunes analisa a pluralidade do tempo na obra lietrária, estudada a partir das noções de ordem, duração e direção.

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989.

Mostra como se deu a construção da idéia de Arte em Aristóteles e Platão para analisar os principais filósofos de arte contemporâneos. O modernismo merece atenção especial.

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969.

Benedito Nunes analisa, no calor da hora, a simbiose entre literatura e filosofia promovida por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Considerado um dos dez mais importantes trabalhos de crítica literária do Brasil.

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974.

Pela lente de Benedito Nunes, a obra rica e complexa de um dos maiores poetas da língua da língua portuguesa ganha uma nova e original intepretação.

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979.

Uma visão promordial para a compreensão do pensamento de Oswald de Andrade. Nele, o autor defende o caráter especifico da ‘antropofagia’ oswaldiana.

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986.

A passagem do filosófico para o poético na obra do pensador alemão Martin Heidegger.

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991.

As correntes e tendências que não só prefiguram um estilo de pensamento diferente da tradição filosófica moderna, como também manifestam a crise da filosofia enquanto discurso teórico.

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São Paulo, 1993.

Em treze ensaios brilhantes, Nunes expõe toda a vivacidade e originalidade do seu pensamento.

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998.

Crivo de Papel reproduz o que há de mais denso e constante na obra de Benedito Nunes. O ponto de partida, seminal, é a filosofia.

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999.

Resultado de um curso sobre o Pensamento Poético, em 1994. A partir de sua interpretação original de Heidegger, Nunes examina a relação filosofia-poesia oferecendo também elementos para o entendimento dos passos históricos da arte.

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000.

Um pequeno grande livro. Seus quatro breves textos não somam cinqüenta páginas e trazem uma visão condensada das qualidades especulativas e analíticas de Benedito Nunes.

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Em que medida a ‘identidade filosófica’ que Heidegger atribui a Nietzsche constitui um ponto decisivo e fundamental da constituição da ‘identidade filosófica’ do próprio Heidegger? É em torno deste círculo que se move a argumentação de Benedito Nunes e é a partir dele que são esboçadas algumas conclusões.

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

Esse livro esmiúça a reflexão do filósofo sobre o sentido mais profundo da existência humana, a terminologia por ele criada e a famosa ‘virada’ em seu pensamento.

Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus (com Milton Hatoum). Secult, Belém-PA, 2006.

A quatro mãos com o colega amazonense, Benedito Nunes repassa a formação de sua cidade natal e faz reflexões sobre o passado e o presente de Belém, lançando indicações para o futuro.