Oscar Wilde, a arte é inútil?

‘A Portrait of Oscar Wilde’ sai em edição de luxo

Primorosos 525 exemplares foram costurados manualmente, com fac-símiles de manuscritos do autor irlandês

06 de novembro de 2010 | 6h 00

A ideia de que a “arte é inútil” não nasceu exatamente com o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), mas foi ele quem, no prefácio de seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, deixou registrada a frase que provocou enorme desconforto entre seus leitores, um deles aluno de Oxford. Em abril de 1891, Bernulf Clegg lhe escreveu uma carta perguntando em que outro livro havia desenvolvido essa teoria sobre a inutilidade da arte. Wilde respondeu de modo enviesado ao missivista, afirmando que a arte é inútil porque não foi feita para instruir ou motivar ações. Sua natureza seria soberbamente estéril, conclui Wilde. O manuscrito dessa carta é uma das preciosidades incluídas no magnífico A Portrait of Oscar Wilde, que será lançado na quarta-feira, a partir das 20h, na galeria AGain (Rua Alagoas, 651, Higienópolis), de Attilio Baschera e Gregorio Kramer, amigos de Lúcia Moreira Salles – responsável pela edição da obra, em inglês, de tiragem limitada e numerada de 525 exemplares, dos quais 280 estarão à venda por R$ 1 mil.

Reprodução
Reprodução
Wilde, em caricatura de Alfres Bryan de 1881

A patrocinadora do livro, terceira mulher do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, viveu até 2009 para assinar cada um dos volumes. A renda proveniente da comercialização será revertida para o projeto Brasileirinho da ONG Riovoluntario ((www.riovoluntario.org.br), da qual era a principal mantenedora. Cada exemplar terá o nome do comprador catalogado pela instituição norte-americana Morgan Library & Museum, proprietária de vários manuscritos de Oscar Wilde (inclusive de O Retrato de Dorian Gray), para a qual Lúcia doou os originais de poemas, contos e cartas do escritor pertencentes a ela e ao marido, que tinham uma coleção de manuscritos (leia texto a respeito na página seguinte).

O único neto vivo de Oscar Wilde, Merlin Holland, ao ser convidado por Lúcia para escrever sobre essa raridade destinada a bibliófilos, sabia se tratar de uma edição fac-similar de luxo, mas atenta aos detalhes. “Sinto que ele aprovaria a publicação”, diz Holland no prefácio. “Mais que um volume útil, o livro aspira ao reconhecimento de um belo objeto”, conclui, referindo-se com ironia à frase sobre a inutilidade da arte cunhada pelo avô esteta.

De fato, Holland, descendente de Vyvyan Holland, segundo filho de Wilde, tem consciência de que os manuscritos doados à Morgan não são só peças históricas, mas textos úteis para analisar suas escolhas estéticas e sintáticas. Cortes feitos pelo escritor nos originais de poemas e de contos são reveladores o suficiente para desacreditar essa sua crença na esterilidade da arte. A Wildeana da Morgan ganhou, ao contrário, um testemunho de sua fertilidade.

Desconcertantes fragmentos poéticos revelam, por exemplo, que Wilde se dedicava em Oxford não apenas a traduzir os clássicos gregos, mas a experiências sexuais nem sempre gratificantes. Os manuscritos do poema La Dame Jaune (1889), por exemplo, conta uma delas, o encontro com uma prostituta que lhe transmitiu sífilis. O episódio é confirmado na melhor biografia do escritor, a de Richard Ellmann, que comenta as afinidades de Wilde não só com os amigos religiosos como com a Grécia pagã. Ellmann mostra um Wilde dividido entre a conversão ao catolicismo e o chamado à lascívia, destacando como o escritor foi capaz de sair de uma audiência com o papa Pio IX direto para o túmulo do romântico e boêmio John Keats (1795-1821), compondo em seguida um subversivo poema herético em que compara o poeta morto “ao mártir e belo” São Sebastião. Entre a pureza e a autorrealização, Wilde ficou com a última. A Roma papal, observa Ellmann, perdeu para a pagã. É isso que a composição poética monocromática La Dame Jaune (A Dama Amarela) copia de Keats, cujo Sonet on Blue, observa Holland, influenciou seu avô mais do que talvez o desejasse. De fato, assim como Keats, que usa a cor azul para identificar os olhos da amada, Wilde usa a cor amarela para associar a dama de cabelos finos (a prostituta) à decadência, a filetes de ouro de um copo veneziano.

Os fragmentos poéticos constituem a segunda parte de A Portrait of Oscar Wilde. Na primeira, Roses and Rue, a presença de Keats é ainda mais flagrante. Trata-se de um poema escrito quando Wilde já estava fora de Oxford, em 1885. Ele conhece a amante do príncipe de Gales, a bela Lillie Langstry, seu passaporte para o mundo aristocrático, e convence a amiga a ser atriz – além de mostrar a ela como sua cama era confortável (mais um dos casos heterossexuais de um escritor identificado exclusivamente como gay). Publicado em 1885, quando Wilde já estava casado e com o primeiro filho (Cyryl) no colo, Roses and Rue teve o título alterado para Midsummer Dreams, tentativa vã de não dar crédito aos versos de Swindburne que também o inspiraram. É um poema com “versos ruins, mas sentimentos legítimos”, como bem definiu seu biógrafo Richard Ellmann.

Nem todos os poemas cujos manuscritos originais estão no livro são, de fato, bons e Under the Balcony não está entre os melhores. Escrito um ano antes de Roses and Rue, certamente pertence ao segmento de textos românticos em que a lua, o mar e os passarinhos são protagonistas. Wilde, recém-casado e em plena lua de mel, fez o poema para um festival shakespeariano de caridade no Royal Albert Hall.

Amigos não perderam a oportunidade de parodiar seus versos, especialmente Robert Hichens (1864-1950) na escandalosa novela The Green Carnation, retirada de circulação em 1895. Nela, ele elege dois personagens, o dândi Esmé e seu lorde Reginaldo, que são, na verdade, Wilde e seu amante lorde Alfred Douglas. O livro acabaria sendo usado no julgamento do escritor, condenado a dois anos de trabalhos forçados por obscenidade e sodomia (a prática homossexual era considerada criminosa na Inglaterra).

O quarto capítulo do livro, que traz o manuscrito de O Gigante Egoísta, surpreende por ter não a letra de Wilde, mas de sua mulher Constance – e, dizem, não só a letra, mas passagens do alegórico conto, que lida com temas cristãos. O neto Merlin Holland afirma que seu pai Vyvyan nunca ouviu o avô Oscar contar para ele tal história. Isso descarta a versão oficial de que O Gigante Egoísta tenha sido escrito para crianças ou especialmente para os filhos de Wilde. Considerando o tema, é de fato um conto extremamente simbólico, em que o tal gigante do título impede crianças de brincar em seu jardim, sofrendo como consequência o rigor de um interminável inverno, até que os pequenos voltam sorrateiramente e trazem com eles a primavera, comovendo-o a ponto de ajudar o menor deles a subir numa árvore. Prestes a morrer, ele reencontra o garoto, então com chagas nas mãos e nos pés, pronto a levar o gigante ao Paraíso. Na manhã seguinte, as outras crianças o encontram morto, todo coberto de flores brancas.

Conto moral. Há, segundo o neto de Wilde, poucas correções no manuscrito original, mas ele acredita firmemente que a avó Constance colocou a mão no “conto moral” do avô, publicado em O Príncipe Feliz e Outras Histórias. Merlin Holland observa que ele representa o fim do primeiro período de criação do escritor – Wilde produziu em tempo relativamente curto (de 1887 a 1895) e teria, segundo o neto, desenvolvido o tema infantil pensando no contexto de uma Irlanda de latifundiários opressores e hostis à reforma agrária. Nunca é demais lembrar que Wilde defendia ideais socialistas, a despeito de seu dandismo e pompa aristocrática.

Entre os manuscritos das cartas enviadas por Oscar Wilde a amigos e amantes, duas se destacam no livro: na primeira delas, endereçada a George Herbert Kersley, o escritor convida o poeta para tomar chá, em 1888; a segunda é uma das raras cartas a lorde Alfred Douglas que sobreviveram – como a prática homossexual era crime, muitos chantagistas usavam esses documentos para conseguir dinheiro, inclusive do amante de Wilde, que, em 1892, teria escrito a ele pedindo ajuda para pagar os vigaristas. Sobre a carta do obscuro poeta George Herbert, o neto diz que o avô tinha atração por rapazes bonitos e que ele pertence a uma das “muitas áreas cinzentas” na vida de Oscar Wilde, separando os meninos em três categorias: os casos de longa duração, como Douglas, os garotos de programa e os jovens com pretensões a poeta, como George, que acabou casando com a filha de um capitão do Exército inglês.

A última parte do livro tem cinco dos seis poemas em prosa escritos em Paris no ano mais produtivo de Wilde, 1891, quando publicou romance O Retrato de Dorian Gray e o livro de contos O Crime de Lorde Saville. Um dos poemas em prosa, A Casa do Julgamento, reproduzido no último, expressa a crítica impiedosa que Wilde faz à sociedade londrina por meio de uma parábola sobre o encontro de Deus com um pecador. Condenado ao inferno, ele desdenha do Criador, dizendo que isso não era novidade para ele, acostumado à vida terrena. Liberado para o céu, ele ironiza novamente o supremo juiz, dizendo que seria incapaz de imaginar um lugar como esse. Wilde, convertido à beira da morte, deixou um último poema em prosa soberbo, O Mestre da Sabedoria, sobre um eremita que tenta transmitir o conhecimento de Deus a um ladrão de caravanas. Infelizmente, o manuscrito não faz parte do volume que será lançado na próxima semana, mas a versão impressa foi incluída. Um fecho de ouro.

A Portrait of Oscar Wilde
Edição: Lúcia Moreira Salles, Juan Pablo Queiroz
Prefácio: Merlin Holland
(185 págs., R$ 1 mil)

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FONTE: ESTADÃO – Cultura

Cinema de boca em boca – Inacio Araujo

Le cinéaste américain Samuel Fuller à Deauvill...

Samuell Fuller -Image via Wikipedia

Antologia compila estilo enfático de Inácio Araujo
Coletânea traz textos do crítico de cinema publicados na Folha entre 1983 e 2007
Mais de 280 artigos foram selecionados entre mais de 5.000 títulos e organizados cronologicamente

SILVANA ARANTES – EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Era um texto de despedida. Em 99 linhas, o crítico de cinema da Folha Inácio Araujo aquilatava a obra do diretor Samuel Fuller, que morrera aos 85 anos.
“Há o cineasta que se admira e há o cineasta que se ama”, afirmava, para desembocar na conclusão: “Amar Fuller e compreender o cinema é quase a mesma coisa”.
Esse adeus em forma de artigo fez de Juliano Tosi, então estudante de jornalismo, um “leitor assíduo” do crítico. A familiaridade com a produção de Araujo o credenciou a selecionar, entre mais de 5.000 textos publicados pelo crítico de 1983 a 2007, os 286 que integram a antologia “Cinema de Boca em Boca”.
“Morte de Fuller é como Perder o Pai”, publicado originalmente em 3/11/97, ocupa a página 381. São 678. “Embora seja a mais óbvia, a ordem cronológica [de edição dos textos] é a mais interessante porque permite notar a linha evolutiva da escrita para jornal”, diz Tosi, organizador do volume.
Não é bem como evolução que Araujo classifica as transformações na relação entre o jornal e seus leitores. “Antes, havia um leitor. Hoje, há um consumidor que se recusa a fazer esforço [de compreensão]. É como se a ignorância fosse uma virtude. Percebo nesse fenômeno uma queda da civilidade.” Se há uma marca no estilo de Araujo, é a ênfase. Enfático na defesa dos filmes que ama como no desapreço pelos que rejeita, ele acumula sentenças ressoantes.
Exemplos: “A pornochanchada é o divã do pobre. Não há mal nisso. Os letrados é que são pudicos”; “”Vertigo” é seguramente o maior filme já feito sobre o cinema”.
Em crítica que se converteu em polêmica com a produtora Conspiração Filmes, asseverou: “A supervalorização do cinema publicitário no Brasil deveria ser tema de um estudo antropológico, antes de cinematográfico.
(…) A pergunta que o espectador de cinema pode legitimamente se fazer ao longo de “Gêmeas” é: afinal, este filme está anunciando o quê?”.

PAIXÃO
Embora dispostos em ordem cronológica, os textos conformam núcleos temáticos na opinião do organizador. Estão lá, em capítulos informais, “a paixão por Howard Hawks, por Hitchcock, pelo cinema japonês e pela nouvelle vague”, avalia Tosi.
A autocrítica, ou a relação de Araujo com o ofício, também poderia fazer parte da lista. Assunto recorrente em suas reflexões, motivou-o a um debate, nas páginas da Folha, com o colunista Marcelo Coelho, rebatendo um artigo deste, em 1992, com “O que Sair por Último, Por Favor Apague a Luz”. Cinco anos mais tarde, em entrevista ao ombudsman Mario Vitor Santos, Araujo define seu papel citando o crítico de artes Rodrigo Naves: “Um crítico só se afirma pelo que defende, nunca pelo que nega”.
O cinema que Araujo afirma é como o de Fuller, cujos filmes “sem heróis, agônicos, têm beleza e poesia que irrompem na tela, levados pela força, consistência e originalidade de seu olhar”. Alguém, enfim, que se aprende a amar, mais que admirar.

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Retirado de: Folha S. Paulo – Ilustrada

SONORO DIAMANTE NEGRO – Suely Nascimento

“‘Sonoro Diamante Negro”, livro  da jornalista e fotógrafa paraense Suely Nascimento, cujo projeto foi o único selecionado da Região Norte para o programa Conexão Artes Visuais 2010, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), será lançado amanhã dia 18 de outubro

fotografia sonoro diamante negro

baileSonoro-diamanteNegro


O livro ‘Sonoro Diamante Negro’ contém fotografias que mostram a importância do dia a dia do sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. Suely Nascimento retratou a rotina de pessoas envolvidas na montagem do ‘Diamante Negro’. ‘Nas fotos produzidas durante bailes da saudade, pode-se apreciar os pares de dança, os sapatos brancos dos homens e o assoalho em madeira dos salões’, ressalta. Com base nesse acervo fotográfico, já havia sido produzido o audiovisual ‘Sonoro Diamante Negro’, de agosto a novembro de 2003, quando a jornalista e fotógrafa foi contemplada com a Bolsa para Pesquisa em Arte, do Instituto de Artes do Pará.

A aparelhagem de som ‘Diamante Negro’ foi criada em dezembro de 1950, no bairro da Marambaia, em Belém. Seu primeiro nome era em homenagem a um santo, ‘São Sebastião’. ‘À moda da época, sonoro tinha nome de santo. O tempo passa, a aparelhagem aumenta e o nome é mudado para ‘Diamante Negro’. Era o sonoro mais antigo de Belém, em atividade. O diferencial era a qualidade do som, apreciada nas noites do Baile da Saudade, quando casais cativos dançavam antigas canções que falam de dor de cotovelo, de tristeza, de amor…’, conta Suely Nascimento. O sonoro interrompeu as suas atividades em junho de 2004. ‘Acredito que o livro vai resgatar e divulgar uma parte da memória de Belém, da história do ‘Diamante Negro’ e dos dançarinos que frequentavam essas noites meio de sonho. E o ‘Sonoro Diamante Negro’ pode ter, assim, uma obra brasileira que preserve a sua história’, finaliza.

A seleção de fotos foi feita com base no acervo produzido pela jornalista e fotógrafa Suely Nascimento, entre 1997 e 2003.  O livro traz ainda a história do Sonoro a partir da entrevista com o proprietário, Sebastião Nascimento. O material a ser publicado mostra a importância do dia-a-dia do Sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. As fotos mostram o proprietário, os homens que carregavam os móveis e que controlavam o som, as sedes sociais onde o Sonoro tocava e as pessoas que iam às suas festas. Percebe-se uma realidade bem peculiar de Belém, que é um dos poucos lugares do Brasil onde há esse tipo de atividade cultural e social – a do sonoro.

AGENDA:

NOVEMBRO

Lançamento do livro

Quando: 18/11 (19h as 23h)
Onde: São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficente (Avenida Roberto Camelier, 816 – Jurunas – Belém)

Publicado a partir de:

1 – Conexão Artes Visuais.

2- Jornal O LIBERAL.


Ray Bradbury – Fahrenheit 451- Posfácio

EU NÃO SABIA, mas estava literalmente escrevendo um romance barato [dime novel, ou folhetim]. Na primavera de 1950, escrever e finalizar a primeira versão de The Fire Man, que mais tarde se tornou Fahrenheit 451, custou-me nove dólares e oitenta em moedas de dez centavos [dimes].
De 1941 até aquela época, eu havia datilografado todos os meus trabalhos em casa, na garagem, fosse em Venice, Califórnia (onde morávamos porque éramos pobres, não porque era o lugar “in”), ou nos fundos daquela em que minha mulher, Marguerite, e eu criamos nossa família. Eu era expulso da garagem por minhas adoráveis filhas, que insistiam em dar a volta até a janela de trás e cantar e batucar nas vidraças. O pai tinha de escolher entre terminar uma história ou brincar com as meninas. É claro que eu optava por brincar, o que punha em risco a renda familiar. Era preciso encontrar um escritório. Não podíamos pagar por um.
Finalmente localizei o lugar exato, a sala de datilografia no porão da biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ali, enfileiradas, havia vinte ou mais velhas máquinas de escrever Remington ou Underwood, que eram alugadas a dez centavos por meia hora. Você enfiava a moeda, o relógio tiquetaqueava feito louco, e você datilografava furiosamente para terminar antes que se esgotasse a meia hora. Assim, eu tinha uma dupla motivação; pelas crianças, eu era levado a sair de casa e, pelo cronômetro de uma máquina de escrever, eu deveria me tornar um maníaco no teclado. Tempo reamente era dinheiro. Terminei a primeira versão em cerca de nove dias. Com 25 mil palavras, era metade do romance que acabaria se tornando.
Entre investir em moedas e ficar maluco quando a máquina emperrava (pois lá se ia o precioso tempo!) e enfiar e arrancar páginas, eu ficava zanzando pela biblioteca. Ali eu vadiava perdido de amor, andando pelos corredores percorrendo as estantes, tocando os livros, tirando-os das prateleiras, virando as páginas, devolvendo-os aos seus lugares, afogando-me em todas as coisas boas que constituem a essência das bibliotecas. Que lugar, vocês não acham, para escrever um romance sobre a queima de livros no futuro!
Mas chega de passado. O que dizer de Fahrenheit 451 nos dias de hoje? Mudei de idéia sobre muita coisa que o romance me dizia, quando eu era um autor mais jovem? Só se por “mudar” vocês estiverem perguntando se meu amor pelas bibliotecas se alargou e aprofundou, para o que a resposta é um sim que ricocheteia pelas estantes e espalha o pó-de-arroz do rosto da bibliotecária. Depois de escrever este livro, percorri mais contos, romances, ensaios e poemas sobre escritores do que qualquer outro autor imaginável na história da literatura. Escrevi poemas sobre Melville, Melville e Emily Dickinson, Emily Dickinson e Charles Dickens, Hawthorne, Poe, Edgar Rice Burroughs e, ao longo do caminho, comparei Júlio Verne e seu louco capitão com Melville e seu igualmente obcecado marinheiro. Compus poemas sobre bibliotecárias, tomei trens noturnos com meus autores favoritos atravessando imensidões continentais, ficando a noite inteira acordado, tagarelando e bebendo, bebendo e batendo papo.

Adverti Melville, em um poema, a se afastar da terra (ela nunca foi sua matéria!), e transformei Bernard Shaw em um robô para colocá-lo a bordo de um foguete e fazê-lo despertar na longa viagem até Alfa do Centauro para ouvir seus prefácios canalizados de sua língua para meu deleitado ouvido. Escrevi um conto sobre uma Máquina do Tempo no qual volto ao passado para me sentar junto aos leitos de morte de Wilde, Melville e Poe, falar de meu amor e aquecer seus ossos em seus momentos finais. Mas chega. Como vocês podem ver, sou um louco de atirar pedra quando se trata de livros, autores e dos grandes celeiros onde estão armazenados seus espíritos.
Recentemente, dispondo do Studio Theatre Playhouse em Los Angeles, convoquei das sombras todos os meus personagens de Fahrenheit 451. O que há de novo, perguntei a Montag, Clarisse, Faber e Beatty, desde que nos vimos pela última vez em 1953?
Eu perguntei. *Eles* responderam.
Escreveram novas cenas, revelaram partes estranhas de suas almas e sonhos até então desconhecidos. O resultado foi uma peça em dois atos, encenada com bons resultados e, no geral, críticas simpáticas.
Beatty saiu lá do fundo dos bastidores para responder à minha pergunta: Como foi que começou? Por que você tomou a decisão de se tornar Chefe dos Bombeiros, um queimador de livros? A resposta surpreendente de Beatty veio numa cena em que ele leva nosso herói Guy Montag até o seu apartamento. Ao entrar, Montag fica admirado ao descobrir os milhares e milhares de livros que cobrem as paredes da biblioteca oculta do Chefe dos Bombeiros! Montag se vira e grita para seu superior:
– Mas o senhor é o Queimador-Chefe! Não pode ter livros em sua casa!
Ao que o Chefe, com um sorrisinho seco, replica:
– O crime não é *ter* livros, Montag, o crime é *lê-los*. Sim, é isso mesmo. Eu tenho livros, mas não os leio!
Montag, chocado, aguarda a explicação de Beatty.
– Você não vê a beleza, Montag? Eu nunca os leio. Nem um deles, nem um capítulo, nem uma página, nem um parágrafo. Eu *realmente* jogo com ironias, não é? Ter milhares de livros e jamais abrir um, voltar as costas para todos e dizer: Não. É como ter uma casa cheia de mulheres lindas e, sorrindo, não tocar… nenhuma delas. Então, você entende, não sou absolutamente nenhum criminoso. Se você algum dia me pegar *lendo* um, aí sim, pode me prender! Mas este lugar é tão puro quando o quarto bege de uma virgem de doze anos numa noite de verão. Esses livros morrem nas estantes. Por quê? Porque assim o digo. Eu não lhes dou sustentação, nenhum esperança com a mão, o olho ou a língua. Eles não valem mais do que a poeira.
Montag protesta:
– Não vejo como o senhor não possa ser…
– Tentado? – exclama o Chefe dos Bombeiros. – Ah, isso foi há muito tempo. A maçã foi comida e sumiu. A serpente voltou para sua árvore. O jardim virou mato e ferrugem de planta.
– Antigamente… – Montag hesita, depois continua. Antigamente o senhor deve ter amado muito os livros.
– Touché! – responde o Chefe dos Bombeiros. – Abaixo da cintura. No queixo. Bem no coração. Rasgando a tripa. Ah, olhe para mim, Montag. O homem que amava livros, não, o garoto que era ávido por eles, maluco por eles, que trepava nas estantes como um chimpanzé enlouquecido por eles. Eu os comia como salada, os livros eram meu sanduíche no almoço, meu lanche, jantar e gula da meia-noite. Eu rasgava as páginas, comia-as com sal, ensopava-as em tempero, mordia os cadernos, virava os capítulos com a língua! Livros às dúzias, vintenas e bilhões. Carreguei tantos para casa que durante anos fiquei corcunda. Filosofia, história da arte, política, ciências sociais, o poema, o ensaio, a peça grandiosa, o que você imaginar, eu devorava. E então… e então… – a voz do Chefe dos Bombeiros se enfraquece.
Montag insiste:
– E então?
– Ora, a vida me apanhou. – O Chefe dos Bombeiros fecha os olhos para se lembrar. – A vida. O de sempre. O mesmo. O amor que não dava certo, o sonho que azedava, o sexo que frustrava, as mortes que chegaram rápido para amigos que não mereciam, o assassinato de um ou de outro, a insanidade de alguém próximo, a morte lenta da mãe, o suicídio abrupto do pai: um estouro de manada de elefantes, um surto de doença. E, em parte alguma, em lugar algum, o livro certo na hora certa para enfiar na parede rota da represa para conter a inundação, dar ou tirar uma metáfora, perder ou encontrar um símile. E entre o final dos trinta e a proximidade dos trinta e um, recompus-me: cada osso partido, cada centímetro de carne arranhada, escoriada ou cicatrizada. Olhei no espelho e vi um velho perdido atrás da face assustada de um jovem, vi ali um ódio por tudo e por nada, o que você imaginar, droga.
E abri as páginas dos livros de minha ótima biblioteca e o que encontrei, o que, o quê?
Montag tenta adivinhar:
– As páginas estavam vazias?
– Na mosca! Vazias! Sim, as palavras estavam lá, é claro, mas passavam por meus olhos como óleo quente, sem significar nada. Não ofereciam nenhuma ajuda, nenhum conforto, nem paz, nem segurança, nem amor verdadeiro, nem cama, nem luz.
Montag rememora:
– Trinta anos atrás… a queima das últimas bibliotecas…
– Exatamente. – Beatty anui com a cabeça. – E sem emprego, sendo um romântico fracassado ou o diabo que fosse, candidatei-me a Bombeiro de Primeira Classe. Primeiro a subir os degraus, primeiro na biblioteca, primeiro no coração da fornalha acesa de seus compatriotas, encharque-me com querosene, passe-me a minha tocha! A aula acabou. Aí está, Montag. Agora, fora daqui!
Montag sai, mais curioso do que nunca sobre os livros, já a caminho de se tornar um pária, prestes a ser perseguido e quase destruído pelo Sabujo Mecânico, meu robô clone do grande cão dos Baskerville de Conan Doyle.
Na minha peça, o velho Faber, o professor-não-muitocomprometido, falando com Montag na longa noite (via uma radioconcha embutida na orelha), é vitimado pelo Chefe dos Bombeiros. Como? Beatty desconfia que Montag esteja sendo instruído por um dispositivo secreto desse tipo, arranca-o de seu ouvido e grita para o distante professor:
– Nós vamos apanhar você! Estamos na porta! Subindo as escadas! Pegamos você!
O que deixa Faber tão apavorado que ele tem um ataque cardíaco e morre.
Todos acréscimos de primeira. Tentadores, a essa altura.
Tive de brigar muito comigo mesmo para não incluí-los nesta nova edição do romance.
Finalmente, muitos leitores me escreveram protestando pelo desaparecimento de Clarisse, querendo saber o que aconteceu com ela. François Truffaut sentiu a mesma curiosidade e, em sua versão de meu romance para o cinema, resgatou Clarisse do esquecimento e a colocou entre os Homens-Livros que vagavam pela floresta, recitando repetidamente trechos de seus livros para si mesmos. Senti a mesma necessidade de salvá-la pois, afinal de contas, em muitos sentidos, foi ela, beirando a conversa boba de tietagem, a responsável por Montag começar a se perguntar sobre os livros e o que havia neles. Na minha peça, portanto, Clarisse surge para saudar Montag e dar um final um pouco mais feliz ao que era, basicamente, um material bem sinistro.
O romance, contudo, permanece fiel a sua personalidade anterior. Não sou adepto de interferir no material de nenhum jovem escritor, particularmente quando esse jovem escritor fui eu mesmo outrora. Montag, Beatty, Mildred, Faber, Clarisse, todos permanecem, atuam, entram e saem como o faziam trinta e dois anos atrás, quando pela primeira vez os coloquei no papel, a um dime a meia hora, no porão da biblioteca da UCLA. Não mudei nem um só pensamento ou palavra.
Uma última descoberta. Escrevo todos os meus romances e contos, como vocês já viram, num grande acesso de paixão prazerosa. Só recentemente, revendo o romance, percebi que Montag foi batizado com o nome de uma fábrica de papel.
E Faber, naturalmente, é um fabricante de lápis! Como meu inconsciente foi astuto ao dar esses nomes a eles.
E em não contar isso a mim!

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BRADBURY, Ray. Posfácio . In ____Fahrenheit 451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. S. Paulo: Globo, 2007

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Este post é dedicado, com carinhosa gratidão, a C.

E se Deus não existir?

Corajoso e furibundo, “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, traz forte argumentação em favor do ateísmo, critica a irracionalidade e diz que religiões são nocivas ao bem-estar humano

No livro, cientista britânico utiliza argumentos evolucionistas e considera a existência de Deus uma grande improbabilidade

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

Sacerdotes e cientistas mantiveram, durante um bom tempo, certas normas de convivência pacífica: salvo as exceções mais radicais, um não se metia com os assuntos do outro. Hipocrisia, afirma o biólogo Richard Dawkins no corajoso e furibundo “Deus, um Delírio”.
Dawkins inicia sua forte argumentação em favor do ateísmo assinalando que a maior parte dos cientistas, inclusive o físico alemão Albert Einstein (1879-1955), cuidava de fazer vagas profissões de fé deístas apenas para não chocar os espíritos religiosos. Acreditar num “Deus que não joga dados”, como formulado na famosa frase de Einstein, equivale muito mais a confiar nas regularidades das leis da natureza do que a afirmar qualquer coisa próxima de uma religião.
Acontece que os esforços no sentido de separar ciência e fé, Estado laico e convicção religiosa, foram sendo solapados ultimamente. Nos Estados Unidos, ganha especial virulência a campanha contra o darwinismo, levada por fundamentalistas bíblicos e adeptos da teoria do design inteligente.
Entre os muçulmanos, quaisquer críticas à religião encontram as respostas que se conhecem -e Dawkins faz um relato aterrorizante das reações suscitadas, mesmo entre grupos não-fundamentalistas, pelas célebres charges sobre Maomé inicialmente publicadas por um jornal dinamarquês. Do lado católico, o papa Bento 16 está longe de se mostrar tímido e conformado com o papel da razão iluminista nas sociedades ocidentais.
Verdade que o próprio darwinismo procura conquistar novas áreas de influência, seja na prática (com o desenvolvimento das pesquisas sobre o genoma), seja na teoria (descobrindo razões biológicas para muito do que se acreditava pertencer à ordem da psicanálise ou da cultura).

Grito de guerra

O livro de Dawkins surge nesse contexto como uma espécie de grito de guerra, de chamado à mobilização geral. Basta, diz ele, de respeitar um conjunto de crenças que não é apenas improvável, como profundamente tolo e nocivo ao bem-estar humano. Basta de “respeitar” a irracionalidade alheia. Os ateus esconderam-se tempo demais nas catacumbas. Perseguidos, estigmatizados, envergonhados, cabe-lhes assumir a iniciativa do debate intelectual.
Não é suficiente para Dawkins que se declarem “agnósticos” -e, na discussão desse termo, localiza-se talvez o ponto mais incisivo e original de sua argumentação. Um agnóstico, explica o autor, considera impossível responder se Deus existe ou não. Seja porque não surgiram até hoje provas convincentes de sua existência, seja porque essas provas seriam a rigor impossíveis de obter.

 

Improbabilidades
Com efeito, pelo menos desde Kant (1724-1804), uma série de supostas “provas racionais” da existência de Deus mostrou-se incapaz de resistir a um exame rigoroso; Dawkins dedica um capítulo de seu livro a um sumário e feroz resumo desses debates.
A posição agnóstica não basta, contudo, para Dawkins. O cientista agnóstico se contenta em deixar a questão sobre a existência de Deus no campo das coisas que não lhe dizem respeito. “Deus, um delírio” apresenta um argumento destinado a lançar a existência de Deus no campo das improbabilidades quase absolutas.
Um dos argumentos preferidos pelos criacionistas é o de que o acaso, por si só, não seria capaz de produzir coisas tão complexas quanto um olho humano ou a asa de uma borboleta. O surgimento de tais maravilhas a partir do acaso seria tão improvável, dizem os criacionistas, quanto imaginar que um furacão, passando por cima de um ferro-velho, montasse peça por peça um Boeing 747.
Dawkins refuta a tese de modo convincente. Asas de borboleta e olhos humanos não surgem “prontos” na natureza, a partir de uma combinação aleatória de moléculas. Os darwinistas não acreditam que tais coisas nasceram por acaso, e sim da seleção natural. Mostram como organismos complexos evoluíram, pouco a pouco, a partir de formas de vida muito simples. E isso, diz o autor, é muito mais provável do que imaginar um “criador inteligente”. Pois para projetar um Boeing é preciso ser um bocado mais complexo do que um Boeing. E, para repetir uma objeção clássica à idéia de Deus, fica a pergunta: “Quem teria criado o criador?” Um outro ser, ainda mais complexo do que ele?
Com boa variedade de exemplos e clareza expositiva, “Deus, um delírio” teria tudo para fazer a alegria de espíritos céticos ou ateus, como o deste resenhista. Mas o que sobra a Dawkins de inteligência científica parece lhe faltar de inteligência emocional. Há mais exasperação do que ironia, mais precipitação do que serenidade, no modo com que ele encaminha a discussão. Dawkins consegue chocar profundamente, com piadas brutais, algumas sensibilidades religiosas, sem ganhar a simpatia dos que concordam com seu ponto de vista.
Foi-se o tempo em que filósofos descrentes podiam brincar, com superioridade anglo-saxônica, a respeito de crendices religiosas. As diversas citações de Bertrand Russell, de H. L. Mencken e mesmo de Woody Allen, que volta e meia aparecem em “Deus, um Delírio”, são como que deliciosos remanescentes de outra era geológica, em que a ciência não se sentia tão acuada e perseguida. Criticava-se com verve e paz de espírito; este panfleto evolucionista, embora sólido cientificamente, parece debater-se e gesticular como uma fera aprisionada em sua jaula. Mas vale a pena ouvir seus urros: neles está, ai de nós, a voz da Razão.

 


DEUS, UM DELÍRIO

Autor: Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Companhias das Letras
Quanto: R$ 54 (528 págs.)
Avaliação: bom

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Retirado da Folha de S. Paulo