Entrevista- Impressoes digitais

IMPRESSÕES DIGITAIS
Já li várias reportagens sobre blogs, tratando-os como fenômeno, nova mídia, diário, quadro de recados, colcha de retalhos, coisa de quem não tem mais o que fazer. Já houve um tempo em que eu também tentei entendê-los, queria compreender o que eu faço aqui no meu. Desisti porque acho que haverá tantas interpretações e tantas classificações quantos forem os blogs na rede. Não são e nunca serão farinha do mesmo saco. Para mim blogs são como impressões digitais: cada um tem a sua.

Já fiz muita confusão até conseguir separar algo que acredito que muitas pessoas ainda não entenderam: o meio e o produto final. Utilizamos a mesma palavra – blog – para designar a ferramenta e a utilização que fazemos dela. Uma coisa que o Hernani vem frisando há muito tempo: blog é ferramenta, é instrumento. Maravilhada com o que eu podia fazer com esta ferramenta, nunca havia parado realmente para pensar assim, até fazer a analogia.

Tome-se um livro. Na verdade, o que ele é? Antes de tudo ele é o papel cortado e colado de uma determinada maneira e formato que estamos acostumados a classificar como livro. Ou seja, é a ferramenta, o instrumento, o meio através do qual as idéias serão divulgadas. Mas também utilizamos a mesma palavra para o produto final, aquele que já contém as idéias. Um livro (o conceito “físico” dele) deixa de ser um livro quando está em branco? Talvez subjetivamente sim, porque aí vai depender até do nosso conceito de simulacro, mas apenas se o soubermos em branco. Porque encapado e fechado, lado a lado numa estante, todos são iguais, todos são livros. Assim também são os blogs (a ferramenta).

Se pegarmos agora o conteúdo, a obra, a criação ainda que não impressa, ou às vezes mesmo que não escrita, também chamamos de livro. Ele existe além do formato, além da tecnologia, é anterior ao conceito físico. E assim também são os blogs (produto final). Faz-se isto também com a TV (aparelho e produto), rádio, jornal, revista etc… mas nestes casos é mais fácil de entender porque funcionam como produtos de e para a coletividade tentando atingir o indivíduo. Os blogs não, são o caminho inverso e por isso mais poderosos, são frutos de manifestações individuais inseridas no coletivo.

Aqui, neste espaço, vejo a grande rede como as impressoras gráficas, ou indo um pouco mais longe, as distribuidoras, livrarias e bibliotecas. E os programas do Blogger, Webloger e tais como as máquinas de acabamento – guilhotina, intercaladoras, coladeiras, para costura, encadernação etc…. . Por isso somos sim os editores de nós mesmos, com todos os erros e acertos de avaliação que podemos cometer quando tratamos de algo tão pessoal.
É um meio novo para mim, acho que muito mais do que para muitas pessoas com as quais me relaciono por aqui. Mas é certo o caos, a dificuldade que temos para compreender o todo quando só conhecemos parte. Digo isso porque agora entramos em uma fase em que se tenta tentar entender “quem” faz o blog, e não mais “o que” ele é. E a confusão só tende a aumentar, porque as variantes são em maior número e mais suscetíveis, estamos lidando com pessoas e não com máquinas ou ferramentas. Pode-se, por exemplo, pegar uma peça e saber de que máquina ela faz parte, inclusive definindo até ano e modelo. Não se pode pegar uma frase e definir uma pessoa. Indivíduos não são tão fracionáveis assim, não são editáveis.
*******[….] Introdução – Texto de Ana Maria Gonçalves, escritora.  Autora do livro Defeito de Cor.

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EM – Nome, idade (se quiser), onde mora e profissão.
Meg – Maria Elisa Guimarães, Meg para os amigos, já passei dos 40 ;  -) moro no Rio de Janeiro, (nasci em Belém do Pará) ; sou professora de Filosofia, e faço eventualmente Crítica Literária.

EM – a)Endereço do blog e uma pequena descrição dele (sobre quais assuntos costuma escrever mais). b)Qual ferramenta de edição usa e há quanto tempo fez o blog. c) Como classificaria o seu? Humor, entretenimento, poesia, etc?
Meg – O Sub Rosa na  sua origem foi no Blogger com este endereço: http://flabbergasted.blogspot.com ) . Não há como descrever um blog, Coloco nele tudo que desperta minha admiração, o que me deixa entusiasmada, o que me tira o fôlego. Me interesso por tudo, tenho um apetite insaciável pelo mundo. Tenho espírito de filósofo, mesmo. E a Filosofia se interessa por absolutamente tudo: não há limites.

b)Não uso nenhuma ferramenta de edição especial como Dreamweaver, Front Page etc, porque sou de uma magnífica burrice cibernética, que já me fez decidir doar o meu cérebro pra quem possa estudar isso:  -). O João Ubaldo Ribeiro vai doar o dele para a NASA, acho que farei o mesmo. Hohoho. Daí que usava o próprio Editor do Blogger . Agora uso o Grey Matter, que é o programa de um cara muito bacana o Noah Grey http://www.noahgrey.com (adoro o blog dele).

Fiz vários blogs e alguns eu até perdi o endereço (fui influenciada pela Fernanda Guimarães Rosa que tem o pioneiro The Chatterbox). Mas só comecei pra valer, no final de agosto de 2001, vivi um pouquinho a fase do “Antes do 11 de Setembro.”
Classifico o meu SubRosa como sendo de uma generalidade irritante. Tento dizer que corresponde à chamada clínica geral, afinal dá pra escolher o que escrever, se a gente se interessa por tudo? Mas posso dizer duas coisas das quais trato poucamente ou nadamente: -) Filosofia e Sexo : -).

EM – Número de visitas (se tiver contador). Se não tiver, pode ter uma noção da repercussão de seu blog junto à comunidade “blogueira”?
Meg – Tenho vários contadores. Sabe o que acho? Que ao final do dia contar quantas pessoas vieram, equivale a uma firma ou loja que contasse a féria do dia, hahaha…
Agora falando sério, é através dos contadores que você sabe quem lhe visitou, e principalmente você conhece blogs que estão surgindo. (Visitar é bem melhor do que escrever um comentário, Ei, visite meu blog:- (. É mais inteligente, também)
Mas é preciso ter cuidado com os números: tem que saber que os AMIGOS vão várias vezes por dia. Alguns contadores registram como visita as suas próprias entradas (tenho um que me diz quando entrei) E acho que o número de visitas que tenho é modestíssimo.
Soube que há blogs com mais de 500 visitantes por dia e outros que recebem até 5.000 : D . Ao saber disso é que vi que não tenho a menor importância na comunidade blogueira, mas tenho – se tiver – entre os amigos.

EM – Você já conheceu pessoas devido a seu blog? Fez amigos?
Meg – Oh yessss. Você quer dizer pessoalmente, não é? Sim, conheço vários blogueiros, já recebi vários em minha casa, e principalmente, já hospedei uma blogueira famosa em minha casa. Foram dias maravilhosos de fevereiro deste ano. A Aninha do Udigrudi. E essas pessoas são amigas sim, e que não relaciono mais com o blog. Elas transcendem esse fato.
Algumas outras falam comigo pelo telefone. E outras pessoas, ainda, eu já conhecia antes, ou conhecia alguém da família. Laura Rónai, queridíssima amiga do Mostly Music – eu já a conhecia como a brilhante música que é, agora, ela  faz parte da minha vida.

EM – A que horas costuma “blogar”? Por quê?
Meg – A qualquer hora. Estou sempre no ar ; -) Costumo blogar mais à noite (insônia), mas também blogo de dia. Agora, sou muito lenta para fazer posts. Levo horas. E algumas vezes refaço.

EM – Como são os seus hábitos diários e como o blog se insere neles (se trabalha, a que horas escreve, se tem filhos, como concilia todas essas coisas). Vê o blog como lazer?
Meg – Querida, o próprio blog foi uma mudança de hábito ; -) Tiro muita coisa do meu trabalho para colocar no blog. Não tenho filhos, queria tê-los:- )
Decididamente o Sub Rosa não é lazer, embora me dê muito prazer (angústias também)

EM – Sua família conhece seu blog? Como eles vêem o fato?
Meg – Sou uma celebridade pra eles..hahaha. Sabe como é, não é?;  -)

EM – Qual foi o motivo que te levou a “blogar”? Informar as pessoas, se conhecer um pouco mais, escrever alguma coisa que não tinha onde publicar?
Meg – Às vezes me sinto como num trabalho voluntário ; -).
O que me levou a blogar, sempre escrevo isso, foi a dor causada por duas doenças graves:  entre elas, uma  severíssima depressão… Foi terrível. Uma amiga de Lista de Discussão, me disse que eu me desse um presente. Algo que eu gostasse muito. Eu adoro viajar e escrever…Viagem não podia, naquele momento,  então…
Dois dias depois eu fiz o blog Sub Rosa (que é uma expressão latina de origem egípcia, mas que todo mundo pensa que é modéstia minha [que sou uma rosa “sub”:  -) . Logo não é papo furado quando eu digo que escrevo para mim.
Hoje estou melhor, convivo com as oscilações da saúde., e o blog se tornou uma parte importante da minha Vida.
Claro que o movimento e a experiência weblog fazem parte de uma das maiores revoluções acontecidas dentro da revolução Internet. Foi uma ‘recuperação da subjetividade’; o que filósofos como Baudrillard, por exemplo, tanto condenaram na Internet: fragmentação do sujeito e desaparecimento da alteridade. O blog é a maior das vertigens da subjetividade.
E claro o blog foi um canal para que se escrevesse sem o rigor exigido pelas publicações,acadêmicas ou não; e com autonomia para se escrever sobre o que se quisesse e gostasse. Onde mais? ;  – ))

EM – Vc vê o blog como uma espécie de hobby?
Meg – Aaaah, não! De jeito nenhum: hobby é coisa pra madame, pra perua , né não?
Eu sou profissional ; – )) Blog, de um modo geral, é algo que é importante pra mim.Também sou observadora e analiso esse fenômeno.

EM – Qual é a relação que vc mantém com seu blog e com os visitantes? Costuma responder os emails que eles mandam? Como costumam ser esses emails? Agradáveis, críticos?
Meg – O blog é minha forma preferencial de me comunicar com as pessoas (essa é uma necessidade inerente ao ser humano, não é?). Então, é isso: o blog tornou-se uma parte importante da minha forma de vida, atualmente. Não é tudo, mas modificou muito a minha vida. E com os visitantes eu partilho as coisas que gosto, as que não gosto e só de saber que existe quem leia já é ótimo. Elas conferem a alteridade ao que expresso. Amo e respeito cada um que escreve para mim, por causa do blog. Só existe eu porque existe o OUTRO, não é? Adoro que comentem, me entristece ver um post sem comment. Mas, sou de opinião que só se deve comentar como uma solicitação do assunto do post. Não o comentário burocrático, como forma de cordialidade. É como dizia sabiamente o Paulo Francis: “Gosto que as pessoas me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir”.
Agora quanto a e-mails eu adoro. Pinta de tudo 🙂 E muitas vezes os críticos são extremamente agradáveis. Devo a muitos visitantes que me escrevem, novos pontos de vista sobre assuntos que abordo, principalmente quando eles questionam e são gentis a ponto de me escreverem ou comentarem, apontando um engano.
Muito legal ter perguntado isso, pois é um novo tópico a respeito dos blogs que talvez muitos não tenham se dado conta. Eu tento responder a todos, mas isso demanda tempo e muita gente não entende: a demora:
EU NÃO TENHO ASSESSORIA DE IMPRENSA !! ;  – )).
Por outro lado, antes éramos uma rua de blogs. E costumávamos visitar todos os nossos conhecidos, e comentar praticamente todos os posts. Agora, não, querida. Surgiram milhões de blogs,  somos uma cidade de blogs e não damos conta de retribuir todas as visitas, e na verdade, hoje eu deixo de visitar os blogs que adoro para visitar os novos, os que estão chegando. E sinto muito que as pessoas a quem eu passo dias sem visitar, tomem isso como uma forma de desamor. Não é!.

EM – Você acredita que o blog seja capaz de fazer uma rede (ring) de amigos? Já percebeu isso?
Meg – Como assim, Bial??? ;  – ) Não sei se entendi sua pergunta. Rede de amigos? ou ring de blogs amigos? Se for isso , obviamente que sim. Se a Afrodite, a Aninha ou a Joyce visitam e descobrem algum blog interessante, pode crer que isso é uma referência, e eu vou lá. A Cora é a blogueira que mais faz isso. (Aliás se tenho alguma notoriedade, devo à Zel, à Cora e só depois a mim mesma; -)] A Cora tem um papel de difusora, de reunir em torno de si, os mais diferentes tipos de blogueiros, e de nos indicar blogs que por nós mesmos demoraríamos muito a saber deles. As opiniões dela são importantíssimas também, e fico feliz se minhas opiniões coincidem com as dela.
Agora, se for uma rede de amigos, pessoas que se conhecem e que blogam…etc.. eu também percebo isso e cito como exemplo, os glo-blogueiros: os blogueiros jornalistas d’ O GLOBO. Como você, a Joana, querida, e todo o grande elenco.

EM – O que vc acha essencial que os blogs tenham?
Meg – Links querida, links. Os blogs são a expressão da vontade de seus donos. Mas se não houver links não é blog. É qualquer outra coisa menos blog. Acho que o grande diferencial do blog, é que ele oferece um enriquecimento à parte, para quem o visita. Um blog não pode se esgotar em si mesmo. Ele deve oferecer caminhos, deve permitir que o leitor saia dele com mãos (mentes) cheias, o blogueiro deve mostrar os caminhos que percorreu e oferecer esse caminho de links, URLs, para que o leitor  possa ver o que o blogueiro não viu, possa ir mais além.Aprendi isso com o  o Hernani Dimantas (Por que linkar outros blogs?). Linkar bem é tudo!

EM – Você tem o hábito de visitar blogs de outras pessoas? Quais considera os melhores?
Meg – Uhuuu! Ia ter muita graça alguém fazer blog e não visitar outros…
Visito todos que eu posso , todos que conheço, até os de  que eu não gosto ;- )
Os melhores? Todos os que estão na minha Lista de favoritos, (mesmo os que estão extintos. Uma lista é um statement) e os que ainda vão estar. Como já disse, no momento estou preocupada com os que estão chegando agora.

EM – Você tem medo ou vergonha de se expor através do blog? Ou gosta disso?
Meg – Querida, sabe o que acho? Não são as pessoas que se expõem nos blogs. São os blogs que expõem seus autores. O blog, em sua continuidade, ‘denuncia’ quem somos. E depois, não controlamos o nosso índice de exposição. E finalmente, não há como fazer auditoria da auto-exposição.
Quando eu digo expor-se, não me refiro apenas aos blogs confessionais, o blog é um ótimo índice de como somos realmente. Livro aberto pra quem souber ler. Principalmente nos Arquivos.

EM – Você usa uma espécie de sistema de comentários, como o Yaccs? O que acha da importância da interatividade nos blogs?
Meg – Sim, e interatividade é importantísima, e faz parte da essência do blog., quer se use ou não ferramenta de comentários. Quem não usa comentários, usa Livro de visitas, ou coloca o email bem visível para o contato.
E entre as mais importantes significações da interatividade está o fato de que os visitantes são ou se tornam co-blogueiros. Escrever um blog é uma tarefa que não se faz sozinho. Vira um trabalho coletivo. Quer no fato de que as pessoas que nos lêem seguem indicações e chegam a outros destinos, vão em frente, como também, suas críticas, seus questionamentos, os que apontam erros nossos, contribuem expressivamente para se saber a quantas se anda. Mais importante que o contador.
Um outro tipo de interatividade é a de visitantes que escrevem indicando links, mandando fotos, imagens; isso acontece comigo e fico felicíssima. Eles nos estimulam. Com alguns chega-se a estabelecer uma discussão,por e-mail, que às vezes me faz atrasar na atualização do blog.
Do mesmo modo, o chamado patrocínio cultural: posts inteiros que são levados pelos leitores – uhuuu, isso é maravilhoso.
Acho que blog é uma experiência conjunta de se viver melhor. Da prática da partilha, a negação da propriedade absoluta. Exercício de esforços do afeto

Postado por.Meg Guimarães link permanente para este texto 23 jul 2002 @ 11:04