Haroldo por Elias

Haroldo Maranhão: o nosso escritor maior

Vou relembrar uma história que já contei para vocês. Quem não ouviu que se achegue. Quem a conhece, também vá se abancando, peça um cafezinho que retomamos o papo mais à frente.

Era ali pelo início da década de 1990 e eu tinha ido à Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a minha primeira bienal paulistana – no ano anterior, eu estreara a do Rio. Viveria um dia inesquecível, avançando pela madrugada.

Começou com um almoço num restaurante às proximidades do jornal “Folha de S. Paulo”. À mesa, eu, o crítico, poeta, tradutor e jornalista João Moura Jr. (na época, editava o Folhetim, suplemento literário da “Folha”, daí ter escolhido um restaurante próximo ao local de trabalho) e o crítico e professor Davi Arrigucci Jr., autor de importantes estudos (como “Humildade, Paixão e Morte: A Poesia de Manuel Bandeira”) e um dos principais intérpretes brasileiros da obra do escritor argentino Julio Cortázar.

O chope correndo generoso antes e depois do almoço (intercalado por outras efusões etílicas), lá pelas tantas propus, provocador: que cada um indicasse o maior escritor brasileiro do momento, daquele momento, início da década de 1990. Citou-se, se bem me lembro, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, não recordo se Ariano Suassuna, acho que Milton Hatoum foi mencionado, já no embalo do lançamento de seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, e outros mais.

Causei surpresa ao pronunciar o nome de Haroldo Maranhão como o meu escritor preferido entre os contemporâneos. Depois do espanto inicial e de atribuírem a escolha ao meu bairrismo, João Moura e Davi Arrigucci concordaram que Haroldo tinha, sim, uma obra respeitável, mas era pouco ou praticamente desconhecido entre os leitores do país, o que era verdade.

Decorridos quase vinte anos daquele almoço que agradavelmente atravessou o dia e fez-se noite, posso dizer que permaneço sustentando a minha sentença. Obviamente, o meu querido amigo Haroldo Maranhão, morto em 15 de julho de 2004, às vésperas de completar 77 anos, já não está entre nós; portanto, já não posso dizer que ele é o meu escritor brasileiro preferido entre os vivos. Preferido nem sempre quer dizer o melhor, claro, mas continuo convicto: o escritor Haroldo Maranhão é um nome de que o Pará pode se orgulhar de tê-lo como filho da terra, capaz de ombrear-se aos escritores do país que vêm logo abaixo do topo da literatura nacional, onde se alteiam nomes como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e, talvez, Erico Verissimo e Lúcio Cardoso. Os poetas deixo de incluir, pois estamos tratando de prosadores.

Também me ocorre, como ocorreu aos dois outros críticos que dividiam comigo a mesa de almoço, que uma boa dose de bairrismo pesava na balança da minha escolha pelo Haroldo. Para não dizer que deixei de passar na peneira outros tantos nomes, nas madrugadas indóceis ao sono venho lendo escritores que um goiano, um espírito-santense ou um piauiense dirá ser o Haroldo Maranhão de lá, e isto quer dizer um grande escritor que a crítica nacional, ou seja, de São Paulo e Rio, não abriu capa, não deu a primeira página de seus suplementos literários ou o merecimento devido.

Li, por exemplo, Adonias Filho e Herberto Sales, da Bahia; o cearense José Alcides Pinto; Ricardo Guilherme Dicke, do Mato Grosso, e autor do excelente “Madona dos Páramos”; os goianos José J. Veiga e Bernardo Élis; os mineiros Mário Palmério, Vander Piroli, Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro (um grande romancista, ainda que idiossincrático, e seu “Migo” é um belo romance injustiçado pela crítica); Esdras do Nascimento, do Piauí. Continuo preferindo o Haroldo, apesar de apreciar bastante alguns romances escritos pelos acima citados. Aqui no Pará, Dalcídio Jurandir não atingiu as alturas de um romance como o “Cabelos no Coração” haroldiano, nem sequer de “O Tetraneto del-Rei”. Esta, obviamente, é opinião minha.

Na última Festa Literária Internacional de Paraty, ao topar com o jornalista, escritor e crítico Daniel Piza, do jornal “O Estado de S. Paulo”, disse-lhe considerar Haroldo um romancista com mais recursos (não falo em termos financeiros, claro) que o ótimo Milton Hatoum. Piza disse que Haroldo era um autor paródico, deu de ombros e seguiu “pizando” nos astros distraído. Forçando um tanto a barra, vejo Milton Hatoum como um descendente da linhagem flaubertiana; Haroldo, por sua vez, descende do tronco rabelais-joyceano, além de tributário da língua portuguesa, pátria comum de um Machado, de um Camões, de um Eça.

O Torto e o Anão

Se o melhor da produção de contos de Haroldo Maranhão já havia sido publicado antes de 1982 (e o livro “As Peles Frias”, de 1983, traz uma boa seleção desse período), seus grandes romances vieram em seguida, e numa sucessão de narrativas fascinantes. Já em 1982, saiu-lhe o alumbramento em prosa que é “O Tetraneto del-Rei”, suma satírica dos primórdios da colonização do Brasil. Num delicioso acento quinhentista, o fidalgo Dom Jerônimo d’Albuquerque, que por Torto no geral era havido, protagoniza, entre idas e venidas, como que fugitivo de páginas nunca dantes escritas d’Os Lusíadas, esta invulgar e inusitada obra-prima da invenção, da linguagem e do humor. Por isso mesmo o romance recebeu, antes de ser publicado, o Prêmio Guimarães Rosa 1980, a primeira e única vez, salvo engano, que tal distinção foi concedida.

No ano seguinte, com “Os Anões” (e outro prêmio, o José Lins do Rego), Haroldo volta sua carga para os dias que correm, ou corriam, e corriam, e ainda correm, mal: além da estatura física do protagonista, Palmar Demisso Colonho, um metro e quarenta e cinco centímetros de altura (mas um gigante em ressentimento), o título do romance se justifica pela estatura – não no tamanho físico, apesar da média dos habitantes locais – que iguala os demais personagens, portadores de indelével atrofia moral. Todos gravitam, amesquinhados, em torno do presidente de uma multinacional na Amazônia, a Janari, imperiosamente comandada por Mr. Wolfgang. Qualquer semelhança com outro grande projeto não será mera coincidência. Ao reler o romance, espoletei-me em gargalhadas, como se, desvirginando-lhe as páginas, inédita fosse a leitura. E depois de tanto riso ao rés-do-chão amazônico, o final do livro nos deixa travados – não exatamente como o travamento de um cheirador de pó. É que, na visão alada que o “Espanhol” Hernández Ola Giratória lança dardejante ao chão, pilotando um helicóptero, ele mira, altaneiro, embaixo, as levas de anões, os regimentos de anões, os exércitos de anões, anões de quepe e anões paisanos, anões obesos e anões caquéticos, anões de beca e anões de boca, anões calvos e anões papalvos, todos anões. Estaríamos também ali enfileirados?

Acerto de contas

E vieram “Rio de Raivas” (1987), “Cabelos no Coração” (1990, quando, pessoalmente, conheci o autor) e “Memorial do Fim” (1991), ilustre trinca de livros absolutamente indispensáveis a uma biblioteca paraense. Se “Rio de Raivas” é o acerto de contas do autor com a sua cidade, o mais impiedoso e benquerente retrato de Belém, se “Cabelos no Coração”, a obra maior, é uma jubilosa epopéia luso-acaraense em torno do ciclópico Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, “Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis” é uma joia de fina lapidação, raro perfume que só os pequenos frascos guardam. Escrito com atiladas incisões de artesão, remete-nos ao que pode e o que deve esta língua, assinando-se sob e por entre a rubrica do gênio que desceu do Morro do Livramento e fincou estátua sobranceira nas letras deste imenso e atlântico país lusófono. À beira da morte, na rememoração fruto do estertor, Machado de Assis (Conselheiro Aires?) despede-se da vida entre sombras amigas, convividas no cotidiano, outras emergentes das páginas onde deitou seu nome de autor. Na prosa haroldiana, o timbre narrativo, sinete em palimpsesto, incita-nos aos labirintos onde em cada galeria refulge a dedálica figura do Bruxo do Cosme Velho. É o afetuoso acerto de contas do Haroldo escritor maduro com seu passado leitor nascido no cultivo adolescente com as letras do autor de “Dom Casmurro”. É também o cume do gozo narrativo do autor com seu tema recorrente, dominante: a morte.

Prova da indigência de nossa política cultural é que o maior escritor paraense é um autor praticamente inédito para as novas e não tão novas gerações. E disso não podemos nos orgulhar. Nenhum de seus romances (à exceção de “Memorial do Fim”, reeditado pela editora Planeta) pode ser encontrado, hoje, nas livrarias da cidade. Mas há uma luz surgindo no fim do túnel. A Secretaria de Cultura do Estado acena com a possibilidade de reeditar-lhe um dos romances. Aguardem notícias.

Tesouro quase desconhecido

Em junho de 2001, ao adquirir, por R$ 150 mil (valores da época), a biblioteca e acervo pessoal de Haroldo Maranhão e doá-los à Biblioteca Pública Estadual Arthur Vianna, a então Companhia Vale do Rio Doce legou ao Pará o precioso espólio de seu mais importante escritor. Poucas vezes um investimento foi tão bem empregado – culturalmente falando. A cerimônia de entrega do acervo contou com a presença do próprio Haroldo Maranhão (que residia, há mais de trinta anos, no Rio de Janeiro) e do então presidente da Vale, Jorio Dauster.

Estimada em torno de cinco mil volumes, a biblioteca do autor de “Cabelos no Coração” não impressiona tanto pela quantidade, mas pela raridade e singularidade dos livros. O fundamental do acervo se concentra em primeiras edições dos mais importantes autores do Modernismo brasileiro e de seus tributários. Temos Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Muitos dos volumes incluem autógrafos do autor, bem como tiragens especiais e limitadas.

A coleção abrange ainda edições príncipes de Castro Alves, Gonçalves Dias, José de Alencar, Joaquim Nabuco, dos paraenses José Veríssimo e Inglês de Sousa, além de quase todas as primeiras edições do maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. O criador de “Dom Casmurro”, a propósito, também comparece na qualidade de funcionário público, assinando diversos despachos emanados da Secretaria da Agricultura, onde trabalhou.

O acervo retrocede a exemplares raros dos séculos XVII e XVIII, como as “Rimas Varias” de Camões, em cinco tomos, publicados entre 1685 e 1689, bem como outros clássicos portugueses, de Camilo Castelo Branco a Eça de Queiroz, grande parte em primeiras edições. Dicionários não menos raros, como o de “Vocabulário Latino-Português”, do padre Raphael Bluteau, editado em Coimbra em 1712, o “Tesouro da Língua Portuguesa”, de frei Domingos Vieira, além de várias edições do dicionário de Antônio Moraes e Silva, são outros itens preciosos.

Mas a coleção não se restringe aos livros. Inclui ainda obras de arte, como quadros a óleo, desenhos e gravuras de Nássara, Santa Rosa, Oscar Ramos e Lasar Segall, sem esquecer o retrato de Paulo Maranhão (avô de Haroldo e senhor da legendária “Folha do Norte”), um óleo sobre tela de Benedito Mello, além de um notável J. Carlos, gravura que ilustrou a primeira capa da revista “Fon-Fon”.

Finalmente, mas não menos importante, o tesouro haroldiano inclui fotografias e a correspondência mantida pelo autor com Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Benedito Nunes, Marques Rebelo, Dalcídio Jurandir, Eneida e Cyro dos Anjos, entre outros.

Para abrigar o conjunto, e preservar sua unidade, foi instalada, no Centur, a Sala Especial Haroldo Maranhão, um tesouro ainda pouco conhecido ou frequentado, mesmo por intelectuais da terrinha.

Não foi fácil, para Haroldo Maranhão, a separação de companheiros cultivados ao longo de uma vida. Em compensação, essa longa convivência doou aos livros do escritor um sentido de senha: aos nos aproximarmos deles, é a própria obra de Haroldo Maranhão que se deixa antever, sua gênese e maturação.

Por que se orgulhar?

Haroldo Maranhão, jornalista, escritor e advogado, nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal “A Folha do Norte”, de propriedade de seu pai e de seu avô Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Fundou a Livraria Dom Quixote, ponto de encontro de intelectuais. Ajudado por Benedito Nunes e Mário Faustino, dirigiu a revista literária “Encontro”. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu por mais de 30 anos. O autor faleceu em Piabetá (RJ), no dia 15/07/2004, e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro.

(Elias Pinto)

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