Noel Rosa – entrevista com João Máximo

‘O romantismo do Noel é todo às avessas’

Entrevistamos o jornalista João Máximo, autor da biografia do Poeta da Vila, que conta um pouco mais sobre a história desse músico que nasceu há cem anos
Vivi Fernandes de Lima

O livro “Noel Rosa, uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo, só pode ser encontrado em sebos e por mais de R$ 400. Isso porque sua única edição – lançada pela editora da Universidade de Brasília, em 1990 – virou uma raridade. E, pelo que o jornalista João Máximo nos conta nesta entrevista, o preço deve aumentar. O autor recebeu a RHBN na redação do jornal “O Globo” e, como um bom repórter, começou a conversa antes mesmo de a primeira pergunta ser lançada:

[Foto de Nataraj Trinta]

João Máximo: Quando eu fiz o livro do Noel, não tinha essa tecnologia, não… [Apontando para o gravador digital]. Quando eu gravava, gravava em K-7. Acho que eu poderia ter gravado mais se tivesse um desse.

Revista de História: Que depoimento gostaria de ter gravado e não gravou?

JM: O do Mário Reis. Eu o entrevistei por telefone. Ele nunca dava entrevista… Fiz umas quatro ou cinco longas ligações pra ele. Ele gostava de falar no telefone. Era uma pessoa que não saía do Copacabana Palace, onde ele morava. Foram entrevistas sensacionais.

RH: Por quê?

JM: Porque ele contou, por exemplo, uma viagem com Noel Rosa para o sul. Ele, Noel, Francisco Alves, Peri Cunha e o pianista Nonô passaram por Curitiba, Florianólis e Porto Alegre. Não tínhamos quase nada sobre isso. O Mário Reis contou todas as diabruras que Noel fez. E contava com um humor, um sabor e uma precisão… Lembrava dos nomes e dos lugares. E das bebedeiras do Noel.

RH: Lembra de alguma dessas histórias?

JM: A melhor delas foi que Mário Reis, passando pelo convés do navio, encontrou Noel dedilhando o violão e cantando uma música. Era “Mulato bamba” [O mulato é de fato,/ E sabe fazer frente a qualquer valente/Mas não quer saber de fita/ nem com mulher bonita.] É sem dúvida o primeiro samba a tratar a homossexualidade sem o deboche que as canções carnavalescas sempre trataram. Mário se encantou pela música e disse: “Noel, não mostre essa música pro Francisco Alves. Eu quero gravar”. Isso porque se o Francisco Alves ouvisse e gostasse, ninguém mais gravava. Ele dominava todos eles, dizia o que ele ia gravar sozinho, o que ia gravar com Mário, e o que Mário ia gravar sozinho.

RH: A maior parte da pesquisa se baseou em depoimentos?

JM: Sim, conseguimos muita coisa com ex-alunos do Colégio São Bento. Uma coisa que me impressionou muito foi como é que eles se lembravam de um colega do ginásio. Eles lembravam com clareza os mesmos episódios. Noel marcou a vida de todos deles. Tinha um general, um almirante, um brigadeiro… O médico Lauro de Abreu Coutinho, já falecido, foi quem me contou uma frase clássica de Noel. Numa conversa com o colega, ele lamentou: “Poxa, Noel, você vai largar a medicina…”.  E Noel respondeu: “Lauro, como médico, eu jamais serei um Miguel Couto. Quem sabe não posso ser um Miguel Couto do samba?”.

RH: Além do Colégio São Bento, quais foram as outras referências?

JM: O objetivo era saber quem era Noel Rosa segundo uma lição que me foi ensinada: você não pode conhecer um homem se não conhecer profundamente o lugar e o tempo a que ele pertenceu. Então, tinha que conhecer os lugares que ele frequentava: Vila Isabel, Lapa… E também tinha que saber o que as pessoas pensavam, que valores elas tinham, seus preconceitos… Isso tudo pra saber até onde ele foi rebelde. E, é claro, o seu tempo, que é uma coisa que o Caetano Veloso ainda não entendeu. Quando ele diz que Noel é racista por causa dos versos de “Feitiço da Vila” [“A vila tem um feitiço sem farofa/ Sem vela e sem vintém que nos faz bem…], ele está julgando Noel Rosa pelos padrões de hoje. Mas você não vai pegar uma samba que Noel fez em 1935 e julgar sob os padrões de hoje! Pra aparecer, ele fez isso com Noel Rosa.

RH: Você encontrou muitas contradições nos depoimentos?

JM: Encontrei contradições que não alteram muito quem foi Noel Rosa. As pessoas têm memória às vezes fraca, às vezes seletiva. Por exemplo, a Ceci, que foi a paixão da vida dele, me contou que o primo dele, Jacy Pacheco, primeiro biógrafo de Noel Rosa, teria dado uma bofetada nela. Isso porque ele ficou indignado com ela, que já estava com outro namorado, enquanto Noel estava muito doente. Ela contou isso. Mas ele negou veementemente. Obviamente, eu tive que contar as duas versões. Mas isso não altera a essência do Noel Rosa. A essência dele, o grande achado é a importância que ele tem na música popular brasileira.

Primeiro, ele foi um tipo fascinante, bem rebelde em relação ao Brasil, à cidade, às diferenças sociais. O Mulato Bamba, o João Ninguém, a Maria Fumaça são a parte desvalida da população, pisoteada pelas relações econômicas de status social. Quando ele fala do barracão lá na Penha, fala contra os arranha-céus. “Essa mulher dos arranha-céus” é a Julieta, mentirosa, ardilosa, que quer carícias de papel [dinheiro].

RH: Essa habilidade de fazer críticas com sutilezas é o grande diferencial dele?

JM: Eu acho que ele foi genial por isso. Foi o primeiro letrista da MPB que ensinou que tudo poderia ser usado em letra de música, desde que bem usado. Quando a bossa nova teve um sentido inovador, até ali havia um certo preconceito contra certas coisas… Imagina em 1930! Como é que você vai falar em música que bate na mulher amada, que vai chamar a mulher de mentirosa? O romantismo do Noel é todo às avessas, ele é um romântico que não crê no amor.

RH: E como músico?

JM: Ele foi um dos primeiríssimos brancos a terem adotado o samba do Estácio, que é o grande samba carioca, que substitui o samba amaxixado dos baianos da Cidade Nova. De 1929 a 1933, ele é o único branco de classe média com passagens pela universidade que se tornou parceiro de 16 ou 17 negros dos morros cariocas.

RH: Vila Isabel mudou com Noel?

JM: Ah, sim. Até hoje, as pessoas falam “aqui morou Noel Rosa’, “aqui é o bairro de Noel Rosa”, é um mito. Você pega um táxi, pede pra ir pra Vila Isabel – eu faço isso todo dia – e o taxista comenta: “A vila de Noel, né?”.

RH: O seu livro chega a custar mais de 400 reais nos sebos. Há previsão para reedição?

JM: É, alguns amigos me pedem, mas eu não tenho mais exemplares… Há vários impedimentos para a reedição. Um deles é que há duas herdeiras do Noel Rosa que proibiram. São duas sobrinhas, filhas do Hélio Rosa, irmão de Noel. Elas implicaram com várias coisas, como o suicídio [do pai de Noel], e até com o casamento dele com Lindaura, que parece que dificulta provar que são únicas herdeiras… Já nos processaram algumas vezes e perderam todas.
Outro problema é que os autores não se dão mais, não têm mais uma relação de amizade. Mas não houve briga, não somos inimigos, só não temos mais a relação de amizade que permita a gente sentar pra rever o livro. Por computador eu não faço livro com ninguém. Por isso tudo eu acho que o livro não sai mais.

Todos os direitos : REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL

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SONORO DIAMANTE NEGRO – Suely Nascimento

“‘Sonoro Diamante Negro”, livro  da jornalista e fotógrafa paraense Suely Nascimento, cujo projeto foi o único selecionado da Região Norte para o programa Conexão Artes Visuais 2010, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), será lançado amanhã dia 18 de outubro

fotografia sonoro diamante negro

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O livro ‘Sonoro Diamante Negro’ contém fotografias que mostram a importância do dia a dia do sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. Suely Nascimento retratou a rotina de pessoas envolvidas na montagem do ‘Diamante Negro’. ‘Nas fotos produzidas durante bailes da saudade, pode-se apreciar os pares de dança, os sapatos brancos dos homens e o assoalho em madeira dos salões’, ressalta. Com base nesse acervo fotográfico, já havia sido produzido o audiovisual ‘Sonoro Diamante Negro’, de agosto a novembro de 2003, quando a jornalista e fotógrafa foi contemplada com a Bolsa para Pesquisa em Arte, do Instituto de Artes do Pará.

A aparelhagem de som ‘Diamante Negro’ foi criada em dezembro de 1950, no bairro da Marambaia, em Belém. Seu primeiro nome era em homenagem a um santo, ‘São Sebastião’. ‘À moda da época, sonoro tinha nome de santo. O tempo passa, a aparelhagem aumenta e o nome é mudado para ‘Diamante Negro’. Era o sonoro mais antigo de Belém, em atividade. O diferencial era a qualidade do som, apreciada nas noites do Baile da Saudade, quando casais cativos dançavam antigas canções que falam de dor de cotovelo, de tristeza, de amor…’, conta Suely Nascimento. O sonoro interrompeu as suas atividades em junho de 2004. ‘Acredito que o livro vai resgatar e divulgar uma parte da memória de Belém, da história do ‘Diamante Negro’ e dos dançarinos que frequentavam essas noites meio de sonho. E o ‘Sonoro Diamante Negro’ pode ter, assim, uma obra brasileira que preserve a sua história’, finaliza.

A seleção de fotos foi feita com base no acervo produzido pela jornalista e fotógrafa Suely Nascimento, entre 1997 e 2003.  O livro traz ainda a história do Sonoro a partir da entrevista com o proprietário, Sebastião Nascimento. O material a ser publicado mostra a importância do dia-a-dia do Sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. As fotos mostram o proprietário, os homens que carregavam os móveis e que controlavam o som, as sedes sociais onde o Sonoro tocava e as pessoas que iam às suas festas. Percebe-se uma realidade bem peculiar de Belém, que é um dos poucos lugares do Brasil onde há esse tipo de atividade cultural e social – a do sonoro.

AGENDA:

NOVEMBRO

Lançamento do livro

Quando: 18/11 (19h as 23h)
Onde: São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficente (Avenida Roberto Camelier, 816 – Jurunas – Belém)

Publicado a partir de:

1 – Conexão Artes Visuais.

2- Jornal O LIBERAL.


WOODY ALLEN : “A vida é trágica” – O sonho de Cassandra

 
Cineasta expõe sua “visão sombria e pessimista” sobre a condição humana e conta que o assassinato é um ato dramático que o “interessa muitíssimo”

Aos 72, Woody Allen lança “O Sonho de Cassandra”, que estréia hoje no Brasil, reclamando de Hollywood, da velhice, da crítica e até de seus filmes… Em entrevista a Bruno Lester, da International Feature Agency, nega que seja um “intelectual”: “Não me interesso por livros complicados”. Allen comenta ainda o lado trágico de “Cassandra”, em que Ewan McGregor e Colin Farrell vivem irmãos endividados que recebem proposta para cometer um crime. (DA REDAÇÃO)

PERGUNTA – Do que trata “O Sonho de Cassandra”? 
WOODY ALLEN 
– É simplesmente a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições. A intenção deles é boa. Eles foram educados com decência, mas os acontecimentos e seus próprios atos os conduzem a um final trágico.

PERGUNTA – Como “Crimes e Pecados”, é sobre morte e culpa. 
ALLEN 
– Sempre me interessei pelo assassinato e pelo lado sombrio do drama e da tragédia. O assassinato é uma das ferramentas que dramaturgos e cineastas vêm usando há séculos para elucidar o que querem mostrar, quer fossem tragédias gregas, Shakespeare ou, mais adiante, os suicídios nas peças de Arthur Miller. Tirar a vida é um ato muito dramático e que me interessa muitíssimo.

PERGUNTA – Fazia algum tempo que você não criava um drama. 
ALLEN 
– Acontece que meus pontos fortes mais evidentes sempre foram cômicos, mas eu sempre quis ser um escritor trágico -escritor de materiais trágicos. Finalmente, agora que estou ficando mais velho, estou tendo a chance de fazê-lo.

PERGUNTA – Você disse uma vez que a vida é “uma experiência bastante trágica”. 
ALLEN 
– Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica.

PERGUNTA – Por que você deixou de fazer filmes nos EUA? 
ALLEN 
– É mais fácil conseguir financiamento na Europa. Me dão mais liberdade, porque se respeita o artista mais do que nos EUA. Quando estúdios de Hollywood financiam meus filmes, eles interferem muito. Na Europa, me deixam fazer o que eu quiser. Além disso, aqui eu consigo fazer filmes a um custo mais baixo, e eles não ficam parecendo filmes feitos com pequeno orçamento.

PERGUNTA – “O Sonho de Cassandra” foi recebido com frieza em Veneza, em setembro do ano passado. Você lê as críticas de seus filmes? 
ALLEN 
– Não o faço há 30 anos. Elas não me ajudam. Também nunca assisto a documentários ou leio artigos a meu respeito, porque representam imagens de mim que não reconheço. Não fiz nada de diferente em “O Sonho de Cassandra” do que fiz em outros filmes anteriores.

PERGUNTA – Todo ano há um novo filme de Woody Allen. Como se explica você ser tão produtivo? 
ALLEN 
– É o que faço e tenho bastante tempo livre. Tenho metade do ano sem nada para fazer. Quando termino um filme, fico parado em meu apartamento, caminho pelas ruas, e então tenho uma idéia e penso: “Meu Deus, isso vai ser um outro “Cidadão Kane’!”. Começo a escrever e, em pouco tempo, estou com um roteiro. É claro que, quando o resultado está ali, não é nenhum “Kane”.

PERGUNTA – Você já recebeu 21 indicações e três Oscars (roteiro e direção de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e roteiro de “Hannah e Suas Irmãs”). O que está faltando? Você pensa em se aposentar algum dia? 
ALLEN 
– Enquanto puder continuar a fazer filmes, não vejo razão para não fazê-los. O que mais deveria fazer? Gosto de trabalhar. Sinto prazer em escrever, é meu hobby.

PERGUNTA – E sua saúde é boa. 
ALLEN 
– Nunca estive no hospital; ainda sou ativo. Tenho bons genes. Minha mãe chegou aos 98 anos; meu pai, aos 100. Mas envelhecer é uma coisa terrível. Minha vista já não é o que era, perdi um pouco da audição, a comida não tem o mesmo gosto. Não ganhei sabedoria nenhuma. Não há nada de bom em envelhecer. Você simplesmente deteriora e morre.

PERGUNTA – É mais fácil escrever comédias do que dramas? 
ALLEN 
– Sei mais sobre a comédia, então ela parece vir à tona a todo momento. É claro que quem escreve comédia pensa que a verdadeira essência do mundo está nas mãos dos escritores de dramas sérios. E não há nada que os autores de dramas sérios gostariam mais do que escrever comédias.

PERGUNTA – Por que você não anda atuando tanto quanto antes? 
ALLEN 
– Eu atuo apenas quando acho que sou a pessoa perfeita para o papel. Não sou realmente um ator. Sou muito, muito limitado. Sou capaz de dizer falas espirituosas curtas, e isso é divertido. Consigo representar o tipo de personagem nova-iorquino neurótico que se assemelha ao que sou na vida real.

PERGUNTA – Quando passa algum tempo sem atuar, sente falta disso? 
ALLEN 
– Não. Não me chatearia se eu nunca mais voltasse a atuar. Não ligo. Acho difícil avaliar minha própria performance quando estou na sala de edição. Quase sempre me odeio. É tão constrangedor ver sua imagem na tela grande, agindo como uma pessoa tola. Então, minha tendência é jogar fora muitas coisas que faço, enquanto outras pessoas dizem: “Oh, não tire isso do filme, isso é engraçado”. Então, o que você vê na tela -acredite se quiser- é a destilação do que eu consegui fazer de melhor. Portanto, você pode imaginar o que vai parar na máquina de picar papel!

PERGUNTA – Por que você não deixa seus atores lerem o roteiro inteiro? 
ALLEN 
– Constatei que, se eles não sabem o que está acontecendo, não representam o resultado de suas ações. Eles não atuam sabendo para onde vai o roteiro -atuam de maneira muito espontânea, porque não têm certeza do que está acontecendo. E, de fato, os personagens não devem saber o que está acontecendo.

PERGUNTA – Você é conhecido por não dar muita direção. 
ALLEN 
– Não gosto de sobrecarregar atores com muita conversa, análise e direção. Contrato as melhores pessoas, e então saio do caminho delas. Dou liberdade enorme aos atores.

PERGUNTA – “Vicky Cristina…” é estrelado por Scarlett Johansson. É o terceiro filme que fazem juntos. O que há de especial nela? 
ALLEN 
– Ela tem tudo: é linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa e boa para se trabalhar. Gosto de tudo nela. Se ela mantiver a cabeça no lugar nesse campo de trabalho maluco, o futuro será dela.

PERGUNTA – Como você se sente com a história de ela ser descrita como sua musa? 
ALLEN 
– Fico grato quando a chamam de minha musa, mas não é verdade. Com Diane Keaton, foi diferente. Fizemos oito ou nove filmes e tínhamos uma ligação especial. Mas gosto de trabalhar com Scarlett.

PERGUNTA – Você fica nervoso durante as filmagens? 
ALLEN 
– Nunca fico nervoso quando estou escrevendo ou dirigindo, mas o pânico se instala no momento da montagem, quando você vê tudo o que fez. É um banho de água fria.

PERGUNTA – Você não costuma ficar satisfeito com os resultados? 
ALLEN 
– Não. Quando está filmando, você sempre pensa que está fazendo história, e, quando termina, você diz: “Meu Deus, o que eu fiz?”. Sempre pensei que tenho um pouco de talento e muita sorte.

PERGUNTA – De quais filmes seus você se orgulha mais? 
ALLEN 
– Tenho três dos 39 filmes que fiz: “Match Point”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Maridos e Esposas”. Todos os outros, eu gostaria de refazer.

PERGUNTA – Alguma vez você já ficou tão decepcionado com um filme que não queria que estreasse? 
ALLEN 
– Fiquei muito decepcionado com “Manhattan”. Prometi ao estúdio que, se não o lançasse, eu faria o filme seguinte de graça. Mas o estúdio se recusou, e o filme teve bom desempenho. Com “Setembro”, foi o mesmo. Disse ao estúdio que queria refilmar tudo.

PERGUNTA – Você é admirado por outros cineastas. Você enxerga a sua influência no trabalho deles? 
ALLEN 
– Nunca senti que influenciei ninguém. Não quero que isso soe como falsa modéstia, mas sempre pude sentir a influência de meus contemporâneos -Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Steven Spielberg- e nunca vi minha influência sobre ninguém.

PERGUNTA – Quem o inspirou mais? 
ALLEN 
– Provavelmente os comediantes Groucho Marx e Bob Hope. 


Tradução de CLARA ALLAIN 

 

 

REtirado daqui: FSP

NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” [“Dinheiro Queimado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do El País

BENEDITO NUNES :-Entrevista para o Jornal “O Liberal” (Belém)

Entrevista
Benedito Nunes discorre sobre a dor e a delícia de viver em uma cidade que mudou tanto. Um lugar que tem todo o direito de se modernizar, mas não de perder as raízes e a própria beleza.

IRAN DE SOUZA
Editor Executivo

Se procurar pelo nome, você não vai mais localizar a travessa da Estrela no bairro do Marco, embora, de certa forma, ali esteja um dos pontos mais luminosos da cidade. Também não anda fácil de encontrar a Belém que o maior intelectual paraense vivo emoldurou no coração, apesar de ela ser um lugar inesquecível para ele e para a História.

Isto porque o tempo passou e a capital do Pará, enfim, nem tinha mais como ser a mesma de 10, 30 ou de 77, quase 78 anos atrás, quando Benedito José Viana da Costa Nunes nasceu. Filósofo, ensaísta e crítico literário referencial na cultura brasileira, ele contempla a cidade com um misto de amor e severas restrições. E no cruzamento de dados historiográficos e afetivos conclui: o problema não é que Belém tenha mudado tanto, mas que tenha mudado para pior. ‘É tão ou mais complicado viver aqui do que em São Paulo, que é maior em tudo’, lamenta.

Ainda assim, na Estrela que agora é Mariz e Barros, e na Belém que já não é a aprazível cidade de outrora, Benedito vive entre plantas e livros, depois da infância e juventude em Nazaré, depois de temporadas alternadas entre a Europa e os Estados Unidos, onde consolidou sua trajetória como intelectual, estudando, lecionando, escrevendo (confira seus livros abaixo) e fazendo amigos. Constituir amizades, aliás, deve ser fácil para este homem simples e acessível que cultiva hábitos como caminhar pela manhã com a esposa Maria Sylvia Nunes no Bosque Rodrigues Alves, a poucas quadras de sua casa; fácil também porque Benedito não exala a soberba do conhecimento – aglutina e agrega, ao invés de espantar seus interlocutores – e também por isso é sábio, o nosso sábio da Estrela.

O que se vê e se sente ao conversar com Benedito Nunes, ainda mais no aconchego de sua invejável biblioteca, é que, mesmo morando na cidade, ele anda acometido de uma saudade louca de Belém. Sintoma claro dessa nostalgia é seu último livro, ‘Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus’ (Secult, 2006), escrito meio a meio com o romancista amazonense Milton Hatoum, e em cujas páginas confessa que redigi-lo foi pagar uma dívida com sua própria terra.

Entre débitos e créditos, porém, Benedito está no lucro, tantas são as suas contribuições naquilo que um dia já se definiu como Humanidades. Quem está no vermelho com ele – e com os quase dois milhões de habitantes de sua região metropolitana – é um certo lugar cujo nome próprio, por extenso, foi registrado em cartório como Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Um lugar em que cidadãos, empreendedores e governantes, por amor próprio, por respeito ao passado, por responsabilidade com o futuro, deveriam ouvi-lo mais, tomá-lo mais em conta, referenciá-lo como voz, fecunda e idônea, que tanto tem a dizer. Afinal, a crítica de Benedito ao que está sendo feito da cidade é dura, implacável, mas sempre construtiva em seus conceitos e indicações, como você pode ler na entrevista a seguir.

Esta entrevista é um convite a um passeio pela memória de Belém e de Benedito Nunes. O senhor o aceita?

Aceito, sim. Gosto de falar de Belém justamente porque revivo uma cidade que conheci e que não existe mais, embora saiba, é claro, que as instituições mudam, que as cidades se transformam, se modificam.

Belém se transformou a tal ponto de Benedito Nunes já não poder emoldurá-la no próprio coração?

Acho que a modificação de Belém foi um rebaixamento da cidade. Ela cresceu sem planejamento e continua crescendo desordenadamente, com edifícios em toda parte, por exemplo. Vejo, enfim, um desprezo muito grande pela cidade. A cidade, em si, ela desaparece. O que subsiste são certas coisas que não podem deixar de ser mencionadas: o que Antonio Lemos fez, em parte, e o que Paulo Chaves recentemente fez.

Há muito eu não passo ali pelo lado da rua João Alfredo. E pensar que lá era o centro da cidade, que todo o movimento comercial da cidade se concentrava lá… Depois foi mudando. Hoje já temos os shoppings, deslocou-se o eixo, o centro. Belém não tem mais centro. Logo esta que era uma cidade extremamente cêntrica, inclusive porque sempre conjugou os elementos do interior, ou seja, atraía gente do interior, gente que vinha para cá. Até intelectualmente Belém era uma cidade que centralizava. Hoje não tem mais essa função cêntrica, que foi perdida. É claro que há coisas novas, elementos novos. Intelectualmente, por exemplo, vejo como hoje é relevante a Universidade Federal do Pará, onde eu lecionei. E aí já estão, além dela, muitas outras universidades. Sob esse ponto de vista, então, há alterações positivas, significativas e até muito fecundas. Por outro lado, existe em Belém a impiedade do desleixo, a falta de uma visão de conjunto. Vejo que, do ponto de vista urbano, não se faz em Belém, com as raras exceções que citei, obras com visão de conjunto da cidade. Executam-se sempre coisas localizadas – e local é prédio, local é uma vala… Quem se preocupou em fazer obras para a cidade, levando em conta o seu conjunto, recentemente, foi o [arquiteto e ex-secretário estadual de Cultura] Paulo Chaves. É um mérito que devemos reconhecer.

Entáo, pelo olhar de Benedito Nunes, qual a atmosfera de Belém do Pará hoje?

A atmosfera é aquilo que confere uma personalidade à cidade. Todas as cidades grandes e mercantes no desenvolvimento europeu e norte-americano – particularmente no europeu isso é mais significativo -, todas as cidades têm uma personalidade, uma característica indivisa. Isso se vê em Paris, isso vê em cidades da Inglaterra – cidades que não perderam o seu centro. É muito curioso isso. Essas cidades conservam suas partes antigas. A parte antiga se torna um núcleo ou então uma parte reservada da cidade. Nunca se estraga ou se derruba como se faz aqui. Aqui se derruba tudo para construir o novo, que em geral é muito feio e sem gosto. É isso que vemos em Belém: uma mistura arquitetônica tremenda, sem configuração estilística. Já houve, mas hoje não há mais. ‘Grande Hotel’ e Theatro da Paz se conjugavam, havia um estilo, uma personalidade.

Se Belém perdeu o centro, por outro lado ganhou uma periferia que só cresce. Para onde vai assim?

Espero que não vá para o brejo [risos]. Essa anarquia urbana é terrível, seríssima. É incrível que viver em Belém seja hoje tão difícil como viver em São Paulo. Economicamente, produtivamente, populacionalmente, Belém é uma cidade pequena se comparada a São Paulo, mas a nossa vida aqui é tão complicada quanto lá – ou mais. Precisamos usar melhor os recursos públicos, as riquezas que geramos. Se há alguma distribuição disso, essa distribuição está alcançando pouca gente.

Uma curiosidade: o senhor teve muitas oportunidades para viver longe de Belém, mas sempre voltou para cá. Por quê?

Aqui é o meu canto. Eu sou um pouco animal sob esse ponto de vista, gosto da minha toca, da minha concha. E Belém é minha concha existencial, sempre foi. Tem também outro fato: vivo muito acompanhado de livros. Formei minha biblioteca aos poucos, por circunstâncias até certo ponto estranhas à minha vontade. Então, com tantos livros, como é que eu poderia me mudar? Era impensável. Ainda é. Minha biblioteca ocupa cinco salas da minha casa.

São quantos livros?

Nunca contei, mas devem ser mais de cinco mil. Então formei essa biblioteca e ela também é parte importante da minha vida. Veja bem: na época em que comecei a lecionar, havia uma grande falta de bibliografia à mão. Livros estrangeiros, quase nenhum. Em filosofia não se conseguia traduções; elas foram aparecendo aos poucos. Hoje isso mudou muito: há um grande número de traduções, algumas muito boas, mesmo em filosofia. Então esse domínio aumentou consideravelmente. Sob esse aspecto, a mudança [em Belém] foi muito fecunda, muito positiva.

O senhor vai completar 78 anos em dia 21 de novembro. Quantos deles passou fora da cidade?

Passei vários períodos fora. O primeiro foi por volta de 1960, em Austin, no Texas. Foi a primeira vez que eu passei uma temporada longa fora. Depois estive nos Estados Unidos outras vezes. A última foi em Berkeley, na Califórnia, há três ou quatro atrás. Na França, de tempos em tempos, estive muitas vezes. Na época do regime militar fiquei três anos lá. Depois, já na década de 1980, voltei. Em cada lugar, em cada universidade, foi um ano, um ano e meio, em média. Somando tudo, devo ter passado uns dez anos fora daqui, não mais do que isso.

Belém despertou e desperta sentimentos contraditórios. Como o senhor mesmo diz em sua crônica, houve viajantes que aqui passaram, como La Condamine, que tiveram uma visão idílica da metrópole colonial; outros, como Henry Walter Bates, disseram que ela era sombria, um coração nas trevas. O senhor se inclina mais para que visão?

Para mim, apesar de tudo, vale mais a primeira, a mais recuada. É uma cidade que já não existe, eu sei, mas para mim subsistiu, digamos, até os anos 1950 – uma Belém de ruas largas, arejadas, passeáveis; podia-se andar por elas, enquanto hoje já não se pode mais; enfim, uma Belém livre do trânsito intenso e desorganizado, com essa profusão que vemos de automóveis e de veículos de toda sorte. Então é essa Belém que subsiste, para mim, nas entrelinhas de uma escrita citadina tumultuosa e desorganizada.

Ao longo do anos, Belém negou ostensivamente a sua vocação fluvial e deu as costas para o rio. O que temos são janelas aqui e ali. Como o senhor considera que deveria ser a cidade nesse sentido?

Essa vocação fluvial foi perdida. Acho muito difícil recuperá-la. Tanta coisa já se construiu. Já há uma fachada desordenada na cidade que é difícil remover. É difícil, veja bem, mas não impossível. E alternativas para aprofundar essa vocação fluvial não faltam: existem grandes porções de verde, existem ilhas fronteiras à cidade que podem ser perfeitamente conquistadas sob esse ponto de vista. Enfim, nossa orla combina-se a um manancial ‘selvático’, floresta e rio, que pode ser amplamente recuperado. Mais do que ‘cidade das mangueiras’, esta é uma cidade de muitas árvores, as mangueiras predominantemente. E isso, vale lembrar, foi uma coisa muito sábia da parte do Antonio Lemos: plantar mangueiras, que são frondosas, que dão bastante sombra. Se não fossem as mangueiras, nós torrávamos aqui.

Como o senhor avalia a expressão cultural de Belém cem anos depois do tempo de glória da borracha?

A expressão cultural de Belém é indigente. Salvo um ou outro caso, é indigente. Na publicação de livros, em certos periódicos, há honrosas exceções. Mas no geral Belém perdeu muito culturalmente. Felizmente, houve casos de recuperação: se refez o Festival de Ópera, se deu uma certa vitalidade ao teatro, isso é muito considerável. Mas de modo geral, a meu ver, essa vitalidade diminuiu bastante. Quanto às riquezas produzidas hoje, seria bom que elas fossem distribuídas, que houvesse repercussão delas na economia local. Mas a distribuição de riquezas nunca é feita em benefício da maioria, essa é que é a verdade.

Então esta é mesmo a ‘terra do já teve’, então ainda somos, como disse Fábio Castro em um trabalho citado pelo senhor, uma cidade sebastiana à espera de uma nova época de ouro?

Não haverá mais época de ouro. Nem ‘época do ouro’, como dizia Oswald de Andrade [risos]. É difícil prever a conformação da economia. Aqui, infelizmente, os planejamentos são todos disparatados. Portanto, eu vejo essa situação com muito pessimismo. Se quisermos um futuro melhor, precisamos levar mais a sério a economia e a educação. Aqui se valoriza pouquíssimo a educação no sentido mais alto da palavra. Precisamos, por exemplo, conjugar melhor os tantos cursos que hoje existem, focalizá-los mais em direção dos nossos tantos problemas. Do ponto de vista da economia, está na hora de abandonarmos esse conceito desenvolvimentista, ultrapassado e que sofre duras críticas. Fazer uma cidade melhor às vezes é partir mesmo do trivial necessário como empregar melhor as verbas, destiná-las adequadamente, ter bom senso.Chegamos a um ponto em que o que se vê já não é nem falta de senso – é senso estragado mesmo.

A cidade surgiu no Ocidente como espaço de convivência e diálogo. Hoje é mais de confinamento e conflito. Mudamos para pior?

Acho que sim. Nesse sentido, lembro-me de ‘Zero’, de Ignácio de Loyola Brandão, um livro que teve muita repercussão à época do regime militar. Nele, o autor imagina uma cidade exatamente como estão ficando as cidades de hoje, com casamatas, pontos de segurança, com torres de vigilância como estamos vendo hoje. Todos os nossos pedaços da cidade são sempre pedaços confinados e, mais do que isso, vigiados por problemas de segurança, uma questão que se tornou fundamental hoje em dia. Não houve, portanto, evolução urbana, não houve desenvolvimento gradual para se atingir uma meta. Não tivemos isso.

De todos os espaços urbanos, o do trânsito parece o mais complicado. O LIBERAL, em reportagem publicada no domingo passado, mostrou que o trânsito de Belém, e do Pará em geral, é uma selva dominada por trogloditas ao volante.

Há problemas mais amplos nisso aí do que os de engenharia de tráfego. A adoção de meios tecnológicos aumenta a falsa idéia de poder no homem. A velocidade, por exemplo – desenvolvê-la cada vez mais ao volante de um carro é um encanto, é um poder. Há uma alteração psicológica nisso, isso está entronizado nas pessoas. Mesmo em condições comuns, normais, há uma alteração psicológica. Quem está ao volante se sente como senhor da máquina e senhor do espaço. Portanto, esse problema aí está em duas divisas, a divisa da economia e a divisa da educação. Se a pessoa não tem o senso de cumprir a lei, como ele pode respeitar o outro? Aí os problemas jurídico e moral também se cruzam. E esse cruzamento, esse entrosamento, é muito precário entre nós – trogloditas como você definiu [risos]. Mesmo em condições normais, como eu disse, a condução leva a uma alteração de conduta. E isso é muito perigoso. Mais perigoso ainda em condições anormais como as nossas, onde não há respeito nenhum às leis de trânsito. Eu, por exemplo, deixei de guiar há muito tempo por causa disso – e me senti muito bem por ter deixado. Sei que nem todos podem, mas felizmente tive condições para isso e não me arrependo.

O senhor escreveu que Belém perderá a face ‘sem o seu barroco, sem as suas árvores’. Concorda que a nova face da cidade já está mais para o Umarizal, com seus espigões residenciais e comerciais, do que para a Cidade Velha?

A grosso modo, pode-se dizer que sim, já que você coloca a questão nesses termos, Umarizal versus Cidade Velha. Mas acho que Belém poderia ter alcançado a mediania, um meio termo – nem a velhice decadente que a Cidade Velha exprime nem a urbanização louca do Umarizal. Ao se pensar uma cidade, ao se fazer projetos para ela, é preciso, como eu disse, levar sempre em conta a visão de conjunto, o senso da convivência social. Isso não existe entre nós.

Além do Grande Hotel e do Largo de Nazaré, que já não existem, do Bosque Rodrigues Alves, hoje jardim botânico, da loja Paris n’América, prestes a arruinar-se, e do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, listados em sua crônica, que ícones de Belém merecem a sua paixão?

Eu elegeria dois lugares. Um, a Estação das Docas. Outro, o Mangal das Garças, um empreendimento notável de urbanismo, de meio ambiente, de criação de condições de vida não apenas para o homem, mas para as espécies animais também. São recantos que foram recompostos, restabelecidos. Há ainda o Parque da Residência, um outro recanto muito bom. São os aspectos novos de Belém que interessam à cidade no seu conjunto. No mais, no que toca a construções, traçado urbano, Belém foi muito desprezada. Por isso, meus afetos são muito anacrônicos, embora outros sejam também muito atuais. Anacrônico, fora de época, é gostar de certos trechos como Batista Campos, Largo da Pólvora [risos], ou melhor, Praça da República. Essas coisas antigas são trechos, pedaços, retalhos. A fisionomia da cidade mudou muito, até internamente.

O senhor não é governante, é pensador. Mas, se tivesse o poder de fazer, qual a Belém que Benedito Nunes deixaria para as futuras gerações?

Eu ia derrubar muita coisa [risos]. Procuraria reordenar a cidade de modo que Belém voltasse a ter um centro, o centro antigo que de certa forma não temos mais. Talvez fosse o caso até de tornar a cidade multicêntrica, ou seja, com vários centros. É o que acontece nas cidades grandes, elas têm vários. Paris, por exemplo, não tem apenas um, mas vários centros. Ora, Belém está se tornando uma cidade grande, mas completamente anárquica, perdeu o seu centro, não ganhou novos, de modo que parece mais um grande acampamento feito de edifícios. Não sou absolutamente contra a modernização, quero deixar bem claro, porém gostaria de ver a minha cidade com uma modernização de bom gosto. Para isso, os projetos imobiliários e urbanísticos do setor privado e do setor público precisam ser avaliados de forma mais criteriosa, com visão de conjunto, mas não é isso que está acontecendo.

PARA LER BENEDITO NUNES

Benedito Nunes foi professor titular de Filosofia na Universidade Federal do Pará. Ensinou literatura e filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Recebeu, dentre outros, o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987. Suas obras são as seguintes:

O drama da linguagem
Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989.

Na fronteira entre a literatura e a filosofia, Benedito Nunes faz uma leitura já clássica da obra da autora. Nunes é considerado o melhor intérprete da contista e romancista.

No tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988.

Neste livro, Benedito Nunes analisa a pluralidade do tempo na obra lietrária, estudada a partir das noções de ordem, duração e direção.

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989.

Mostra como se deu a construção da idéia de Arte em Aristóteles e Platão para analisar os principais filósofos de arte contemporâneos. O modernismo merece atenção especial.

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969.

Benedito Nunes analisa, no calor da hora, a simbiose entre literatura e filosofia promovida por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Considerado um dos dez mais importantes trabalhos de crítica literária do Brasil.

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974.

Pela lente de Benedito Nunes, a obra rica e complexa de um dos maiores poetas da língua da língua portuguesa ganha uma nova e original intepretação.

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979.

Uma visão promordial para a compreensão do pensamento de Oswald de Andrade. Nele, o autor defende o caráter especifico da ‘antropofagia’ oswaldiana.

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986.

A passagem do filosófico para o poético na obra do pensador alemão Martin Heidegger.

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991.

As correntes e tendências que não só prefiguram um estilo de pensamento diferente da tradição filosófica moderna, como também manifestam a crise da filosofia enquanto discurso teórico.

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São Paulo, 1993.

Em treze ensaios brilhantes, Nunes expõe toda a vivacidade e originalidade do seu pensamento.

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998.

Crivo de Papel reproduz o que há de mais denso e constante na obra de Benedito Nunes. O ponto de partida, seminal, é a filosofia.

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999.

Resultado de um curso sobre o Pensamento Poético, em 1994. A partir de sua interpretação original de Heidegger, Nunes examina a relação filosofia-poesia oferecendo também elementos para o entendimento dos passos históricos da arte.

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000.

Um pequeno grande livro. Seus quatro breves textos não somam cinqüenta páginas e trazem uma visão condensada das qualidades especulativas e analíticas de Benedito Nunes.

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Em que medida a ‘identidade filosófica’ que Heidegger atribui a Nietzsche constitui um ponto decisivo e fundamental da constituição da ‘identidade filosófica’ do próprio Heidegger? É em torno deste círculo que se move a argumentação de Benedito Nunes e é a partir dele que são esboçadas algumas conclusões.

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

Esse livro esmiúça a reflexão do filósofo sobre o sentido mais profundo da existência humana, a terminologia por ele criada e a famosa ‘virada’ em seu pensamento.

Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus (com Milton Hatoum). Secult, Belém-PA, 2006.

A quatro mãos com o colega amazonense, Benedito Nunes repassa a formação de sua cidade natal e faz reflexões sobre o passado e o presente de Belém, lançando indicações para o futuro.