Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

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Uma vida fabiana

Escrito por Isabela Gonçalves de Menezes
Publicado originalmente na Revista Autor, em 01-Nov-2008

Em “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, encontramos Fabiano, um retirante que foge da seca acompanhado de seus dois filhos e de sua mulher. Este é descrito como um homem vermelho, queimado do sol, de olhos azuis, barba e cabelos ruivos. Um homem de coração grosso, duro como cururu, que vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios; que na caatinga às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se, tirando o chapéu na presença dos homens da cidade. Um homem que pensava pouco, desejava pouco e obedecia. Um sertanejo ensimesmado, fechado na ignorância e no analfabetismo, quase incapaz de expressar seu pensamento com palavras.

Porém, no segundo capítulo do livro, depois de enfrentadas seca e estrada, encontramos um Fabiano trabalhando de vaqueiro, às vezes feliz, satisfeito. “Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes […] – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha” (Ramos, 2006: 18-19). Fabiano já anda com firmeza no chão rachado do semi-árido e, empolgado, ‘exclama’ em voz alta que é um homem, mas, ao lembrar que seus filhos estão perto e que poderiam se admirar ouvindo-o falar sozinho, contem-se e a baixa auto-estima volta: não, não é um homem. Então corrige a frase imprudente e ‘murmura’ que não passa de um bicho.

Além de falar pouco, Fabiano às vezes utiliza nas relações com as pessoas exclamações, onomatopéias. Mas admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, chegando até mesmo a reproduzir algumas, em vão, pois sabe que são inúteis e, talvez, perigosas.

Certa vez, um de seus filhos lhe faz uma pergunta. Não compreendendo o que o filho deseja, repreende-o, repele-o envergonhado, vira o rosto para fugir à curiosidade infantil. Para ele, o menino estava ficando muito curioso e, se continuasse assim, como iria acabar? Fabiano acha que não tem o direito de saber, pois, se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender sempre mais, nunca ficaria satisfeito. Indispensável mesmo era que os filhos entrassem ‘no bom caminho’: aprender a cortar mandacaru para o gado, consertar cercas e amansar animais bravos. Entretanto, a partir da indagação do filho, lembra de um conhecido que deixou para trás, seu Tomás da bolandeira. Na verdade, tem sentimentos contraditórios: nutre especial admiração, até certa inveja pela facilidade com que seu Tomás da bolandeira se expressava e, às vezes, repudia seu conhecimento:

Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só se era porque lia demais […] Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros. […] [Mas,] certamente aquela sabedoria inspirava respeito. (Ramos, 2006: 22).

De vocabulário reduzido, mais grunhido do que falado, deseja imitá-lo. Decora algumas palavras que considera difíceis, mas as emprega fora de contexto, truncando tudo. Convencido, chega a pensar que melhora para logo depois se considerar um tolo, pois um sujeito como ele não nasceu para falar certo.  “Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?” (Ramos, 2006: 98-99).

Quando vai à cidade, desconfia que caçoam dele e, assim, evita conversas e fica carrancudo. Acredita que os habitantes da cidade são pessoas sabidas e ruins que só lhe falam com palavras bonitas e difíceis com o intuito de se aproveitar de sua ignorância para obter logro, encobrir ladroeiras e que, finalmente, matutos como ele não passam de cachorros.

Por não ter instrução, Fabiano se considera inferior e não consegue falar com as pessoas em condição de igualdade. É assim com seu patrão, que lhe explora, da mesma forma com o fiscal da prefeitura e com o “soldado amarelo”. Quando é preso, para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra paredes e grita, porém não consegue se explicar: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares” (Ramos, 2006: 35).

Contudo, quando a família segue em direção ao sul, mais uma vez fugindo da seca, para uma cidade grande, desconhecida e civilizada, pensa nos filhos na escola, aprendendo coisas difíceis e necessárias, quando a situação mudar.

No Dicionário Aurélio, o substantivo ‘fabiano’ significa indivíduo inofensivo; pobre-diabo; indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância, um joão-ninguém. Parafraseando Melo Neto (2000), em seu poema “Morte e vida severina”, diante de personagem de tão baixa auto-estima, pode-se pensar sua história como “uma vida fabiana”.

Uma crítica filosófica

O desejo por instrução decorre de conceitos positivistas, que associam o conhecimento a progresso, desenvolvimento e, principalmente, poder. Poder e conhecimento são sinônimos. Francis Bacon, o pai da filosofia experimental, disse que a “superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida”  (Horkheimer e Adorno, 1985: 19).

Para Kant, a emancipação intelectual ou esclarecimento é um “processo resultante, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro lado, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectualmente menores por seus maiores” (idem: 7). É a saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. Entendimento sem a direção de outrem é o entendimento dirigido pela razão.

Em uma das passagens de “Vidas secas”, Fabiano é preso pelo soldado amarelo. Como não tem instrução e por isso se sente inferior, não consegue se defender. Para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra as paredes da cadeia e grita.

Nesta deficiência de Fabiano em desenvolver um pensamento articulado que, manifestado em discurso, buscasse sua defesa e seus direitos, encontra-se um anti-exemplo da definição de esclarecimento como emancipação intelectual, pois a condição para ser homem é pensar por si mesmo, dizia Kant.

Entretanto, uma fundamentada e radical crítica a estes conceitos está em “Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos” de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Sobre esta obra, pode-se dizer que introduziu uma mudança de paradigma rica de conseqüências para a teoria social. Pois, até então, o pensamento do esclarecimento, da forma como se desenvolvera no século XVIII, era tomado como o legado positivo comum da modernidade (Kurz, 1997).

Este aprofundamento crítico explicita a desilusão no otimismo iluminista, com sua crença no progresso humano através do domínio da natureza. Apesar de não alimentarem dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor, os autores acreditam, contudo, ter reconhecido que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contêm o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda a parte.

Desse modo, a principal crítica que a obra traz diz que, apesar de toda racionalização, a sociedade permanece irracional. O mito do esclarecimento jaz na mimese compulsiva dos consumidores pois, com o advento e triunfo da publicidade no capitalismo cultural, o que se busca é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor, divertir-se e não ter que pensar nisso. Ou seja, a estereotipia é o pão dos homens, o progresso converte-se em regressão e a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.

Ao fim, pode-se inferir a partir de “Dialética do esclarecimento” que o Fabiano duvidoso e dúbio – pois, ora a cidade é lugar de homens fortes, ora é lugar de gente ruim que quer lhe explorar, que ora deseja imitar seu Tomás da bolandeira, ora repudia seu conhecimento, ora se sente bicho, ora homem – revela-se em sujeitos modernos e esclarecidos que, mesmo tendo estudado, são massa de manobra.

Apesar do “esclarecimento”, como criticar se também somos fabianos a imitar os zés da bolandeira, às vezes sem entender significados, signos e significantes, mas falando, usando, repetindo, perpetuando? Na verdade, “o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como progresso” (Horkheimer e Adorno, 1985: 54).

Referências

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. São Paulo: Editora Positivo, 2004.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

KURZ, R. Até a última gota. Como o Esclarecimento tornou-se mito e a promessa de liberdade converteu-se em ‘total empulhação das massas’. São Paulo, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 24 ago 1997.

MELO NETO, J. C. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RAMOS, G. Vidas secas. 99. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Nota: este ensaio é uma homenagem ao aniversário de setenta anos de “Vidas Secas” (1938-2008). Publicado em vários países, em 1962 recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA) como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.

Isabela Gonçalves de Menezes: especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior, é professora de Metodologia do trabalho científico do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade São Luís de França.

Post relacionado: Uma vida fabiana (Sub Rosa – Flabbergasted)

“Divina Comédia” lidera no dominiopúblico.gov.br

Obra de Dante Alighieri desbanca Fernando Pessoa e Machado de Assis e é a mais procurada no portal Domínio Público

Crise da arte contemporânea, aparição do autor em obras atuais e até novela da Globo são causas do sucesso na opinião de especialistas

Reprodução
Clássico de Dante lidera o ranking de downloads
Fonte: Site do Domínio Público, dados de ontem

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Engana-se quem pensa que é Machado de Assis, Shakespeare, Fernando Pessoa ou qualquer outro livro da lista dos obrigatórios para o vestibular o mais procurado dos que estão em domínio público. A obra com mais downloads no portal do governo que pretende reunir os livros disponíveis gratuitamente -ou, pelo menos, os mais importantes- é do século 14, foi escrita em toscano e teve seus versos traduzidos para o português do século 19 por José Pedro Xavier Pinheiro, um baiano que morreu em 1882.
Os números são do portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br), mantido pelo Ministério da Educação: “A Divina Comédia”, do florentino Dante Alighieri (1265-1321), deixa para trás, e por muito, clássicos como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, e “Dom Casmurro”, de Machado -168 mil acessos contra 41 mil e 39 mil, respectivamente.
São obras de domínio público as escritas por autor morto há mais de 70 anos; o site também abriga aquelas cujos autores ou as famílias concedem uma licença. Foi o caso de “Grande Sertão: Veredas” -um link do Domínio Público deu acesso à íntegra do livro durante as comemorações de 50 anos da obra de Guimarães Rosa; depois, a editora Nova Fronteira a retirou da rede. A ação foi considerada “promocional” por funcionários do ministério.

Comédia
“A Comédia dos Erros”, de Shakespeare, aparece em quarto lugar na lista das mais baixadas no site -a coincidência do nome com a primeira colocada dá corda para uma piada corrente no MEC, segundo a qual o internauta mais desavisado estaria baixando as duas obras pensando fazerem elas parte do gênero cômico.
Já Maria Teresa Arrigoni, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e especialista em Dante, associa o fenômeno a uma reaparição da obra do autor em manifestações artísticas atuais, como o suspense best-seller “Os Crimes do Mosaico” (Planeta do Brasil, 2006), de Giulio Leoni, que tem o próprio Dante como detetive.
Até mesmo a novela “Sete Pecados”, da Globo, entraria nessa retomada dos temas da “Divina Comédia”, dos pecados à própria noção de paraíso, inferno e purgatório. A noção de purgatório, aliás, era recente quando a obra foi escrita, aponta Arrigoni. Estudos do historiador francês Jacques Le Goff mostram que ela surgiu por volta do século 13.
O professor de teoria literária da Unicamp Carlos Berriel, por sua vez, aponta a coincidência -não casual- da ascensão de Dante com o que chama de crise da arte contemporânea -“”uma crise que antecede o desaparecimento”.
“A agonia da Bienal de São Paulo é um lado da mesma moeda do interesse em Dante”, diz. “Certas manifestações do moderno estão esgotadas, e a Bienal, que é a expressão máxima do moderno, não diz mais nada a mais ninguém.”
Na opinião de Berriel, Dante organiza o mundo. “Ele torna o além algo totalmente hierarquizado. Mostra que, por princípio, todo mundo pode organizar o seu inferno, céu e purgatório. Dante é antípoda da nossa época de ausência de hierarquia, de valores, com uma cultura descentrada.”
O coordenador do Domínio Público, Marco Antonio Rodrigues, por sua vez, apresenta outras hipóteses para o sucesso de Dante. Primeiro: “A Divina Comédia” foi uma das primeiras obras a serem cadastradas no portal. Segundo: diferente de “Dom Casmurro”, por exemplo, só tem uma versão na página. E, por fim, após o alto número de acessos, foi criado um link específico para a obra no menu do Domínio Público.
A própria lista das obras mais acessadas, aponta, é uma alavanca para que as primeiras colocadas permaneçam no rol -ela motiva os internautas a conhecer os “hits”.
Essa seria uma explicação também para outros “fenômenos” do portal, como os infantis “A Borboleta Azul” e “O Peixinho e o Gato”, da professora baiana Lenira Almeida Heck, hoje moradora de Lajeado (RS), que ficam em segundo e terceiro lugar no ranking -para se ter uma idéia, “Dom Casmurro” ocupa só a 11ª posição.
Lenira assina, ao lado de seu nome verdadeiro, como “Júlia Vehuiah”, que junta o apelido da mãe, que se chamava Julieta, com o nome de seu anjo. O codinome foi criado na época da composição do hino de Lajeado; seguiu com a autora e, hoje, serve para o que ela chama de despreocupação com o fato de sua obra estar disponível gratuitamente na internet -embora ela não dê permissão para o internauta imprimi-la.
“Sou professora, não dependo só dos meus livros para viver. E, se sou inspirada por Júlia e Vehuiah, a obra não me pertence.” Ainda assim, ela já cuida da memória de seu nome e vislumbra um futuro de sucesso. “Guardo todas as minhas crônicas e tudo o que sai sobre mim. No dia em que eu não estiver mais aqui, vai haver muito material para falar de Lenira Almeida Heck.”

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RETIRADO DAQUI. FOLHA DE S.PAULO (ILUSTRADA)

ON THE ROAD de Kerouac – 50 anos

Ainda fundamental, “On the Road” faz 50 anos

Motoko Rich e Melena Ryzik

The New York Times

Entre os livros mais vendidos nos Estados Unidos em 1957 estão “Peyton Place” (“A Caldeira do Diabo”, em português), de Grace Metalious, e “On the Road” (“Pé na Estrada”), de Jack Kerouac.

 

Ambos foram marcos culturais: “Peyton Place” como um precursor da moderna novela de televisão e “On the Road” como conclamação à Geração Beat e, mais tarde, como a bíblia underground das décadas de 1960 e 1970. Hoje em dia “Peyton Place” é visto pela maioria dos especialistas como uma mera curiosidade histórica, mas “On the Road”, que comemora os 50 anos da sua publicação, ainda conta com uma vida vibrante nos currículos dos cursos de inglês nas faculdades e nas listas de leitura de verão das escolas de segundo grau, bem como nas mochilas dos jovens viajantes.

 

“É um livro que envelheceu de uma forma legal”, afirma Martin Sorensen, gerente da livraria Kepler’s Books and Magazines em Menlo Park, na Califórnia. “Um número ‘notável’ de cópias ainda é vendido todos os anos na loja. Certamente mais do que a média para um livro de 50 anos de idade”.

 

O autobiográfico “On the Road”, um fluxo de consciência, segue Sal Paradise (um personagem baseado em Kerouac) e Dean Moriarty (baseado em Neal Cassady, amigo de Kerouac) enquanto eles ziguezagueiam pelos Estados Unidos, bebendo, ouvindo jazz e paquerando.

 

A editora Viking está lançando uma edição de 50 anos de aniversário do livro na próxima quinta-feira (o original foi lançado em 5 de setembro de 1957) e está publicando, pela primeira vez em formato de livro, a versão original que Kerouac datilografou em um pergaminho de 36 metros de comprimento, juntamente com uma análise feita por John Leland, um repórter do “New York Times”, intitulada “Why Kerouac Matters: The Lessons of ‘On the Road’ (They’re Not What You Think) [“Por Que Kerouac Tem Importância: As Lições de ‘Pé na Estrada’ (Elas Não São Aquilo que Você Pensa)”]. A editora Library of America incluirá “On the Road” em uma coletânea de “romances pé na estrada” de Kerouac que será publicada no mês que vem. E a Biblioteca Pública de Nova York prestará homenagem ao autor em novembro com uma mostra do pergaminho original e outros materiais do arquivo Kerouac.

 

Embora grande parte desse material atraia principalmente os aficionados da Geração Beat, “On the Road” continua tendo uma ampla importância cultural, especialmente para os jovens. Devido em parte às tarefas escolares, cerca de 100 mil cópias do livro são vendidas anualmente em várias edições em brochura, segundo a Viking. E embora a sua era como a bússola padrão da contracultura possa ter terminado (é difícil continuar sendo um militante da contracultura quando se é exibido em propagandas da Gap, como ocorreu com a imagem de Kerouac na década de 1990), o livro durou muito mais do que vários outros clássicos do cult.

 

Parte do motivo para que o livro mantenha-se firme e forte é o fato dos artistas populares continuarem a citá-lo (a produção de uma nova versão cinematográfica, dirigida por Walter Salles, que fez “Diários de Motocicleta” [“The Motorcycle Diaries”, EUA, 2004], deverá ter início no começo do ano que vem). Todo mundo, de Bob Dylan aos Beastie Boys, foi inspirado por Kerouac. Mais recentemente, o Hold Steady, um grupo de indie rock, citou “On the Road” no seu álbum “Boys and Girls in America”.

 

“Com a sua imagem de bad boy e a ética de trabalho irrestrita, Kerouac é como a versão rock and roll de um escritor”, afirma Joe Landry, 31, o vocalista da banda Antecedents, de Portland, no Oregon. Assim como diversos outros grupos, o Antecendents aponta Kerouac como uma das suas influências na webpage da banda no MySpace.

 

Erick Barnum, gerente da livraria Northshire Bookstore em Manchester Center, no Estado de Vermont, diz que sempre mantém seis exemplares do livro à mão, um número bem superior ao de outros livros tão antigos. “Esse é um livro que a livraria precisa ter nas prateleiras, ou então alguém vai gritar: ‘Como é que vocês não têm On the Road, de Kerouac?'”, diz ele.

 

Mas ter o livro disponível pode ser difícil: entre os membros do universos dos livros, “On the Road” é conhecido por ser um alvo freqüente de furtos, afirma Robert Contant, um dos proprietários da livraria Saint Mark’s Bookshop, em Nova York. Contant, que diz ter vendido 36 exemplares do livro desde março – um número que “a maioria dos escritores contemporâneos invejaria” – mantém os livros de Kerouac guardados em uma caixa perto do balcão de informações, de forma que eles possam ser monitorados pelos funcionários. “O livro tem um grande valor nas ruas devido à imagem marginal”, diz ele. “E para os jovens que vêm para Nova York existe uma idéia romântica a respeito da era beatnik”.

 

Jacob Silberberg/The New York Times
Manuscrito original de “On the Road”, com 36,5 metros de comprimento

 

Penny Vlagopoulos, uma aluna de pós-graduação da Universidade Columbia (universidade na qual Kerouac estudou), que dá aulas sobre o livro lá e na Universidade de Nova York, diz: “Ainda acho que esse romance é um rito de passagem. Toda essa idéia da liberdade da estrada aberta ainda está bastante viva para os jovens”.

 

Michael Heslop, 30, diz ter lido “On the Road” pela primeira vez como aluno do último ano do segundo grau e que relê o livro de dois em dois anos. Em 2004, ele abriu o Kafe Kerouac, um café, loja de discos, livraria e espaço de apresentações artísticas em Columbus, no Estado de Ohio. “Eu queria que o nome do estabelecimento fosse o de um escritor norte-americano que eu admirasse”, conta Heslop. “Jack Kerouac parecia ser a essência do café independente underground, mais do que Hemingway ou Mark Twain”. (Ele também serve uma curiosa bebida Kerouac, à base de avelã, menta e leite. “É difícil batizar café preto puro com o nome de alguém”, diz Heslop.)

 

Em verdadeiro estilo beat, o Kafe Kerouac organiza sessões de leitura de poesias e de apresentação de músicos, e atrai uma multidão de universitários. Nina Hernandez, 23, uma funcionária do café, leu “On the Road” pela primeira vez um ano atrás. “Gosto do fato de ele não ter se norteado por regras. Ele simplesmente colocou todas as convenções de lado e escreveu aquilo que estava pensando”, diz ela.

 

Mas Hernandez, estudante de engenharia industrial, também diz que nunca tinha ouvido falar de Kerouac até ter começado a trabalhar no café. E, ela observa, o livro tem as suas falhas: “Às vezes eu o acho um pouco prolixo”.

 

Nos meios acadêmicos, “On the Road” tem uma reputação mista. “Não creio que o livro seja levado a sério pela maioria dos acadêmicos e críticos literários”, afirma Bill Savage, professor do departamento de inglês da Universidade Northwestern, na qual dá aulas sobre “On the Road” há duas décadas. “Mesmo assim, os meus alunos sentem uma conexão bastante pessoal com o livro. Os estudantes de graduação são capazes de fato de se identificar com ele porque vivem em um mundo muito marcado pelas mídias, no qual há a Internet, o telefone celular e o iPod. Existem tantas maneiras pelas quais o indivíduo não está de fato no lugar em que se encontra, e Kerouac diz respeito a estar no local exato em que se está”.

 

Porém, alguns alunos rejeitam o livro, taxando-o de ultrapassado. Ann Douglas, uma acadêmica beat que dá aulas sobre o livro há mais de 25 anos na Universidade Columbia, reconhece que os alunos não o aceitam como um “evangelho”. “Eles o criticam sob diversos ângulos diferentes, descobrindo, por exemplo, que o autor é condescendente com os mexicanos e as mulheres”.

 

Mas Douglas diz que o seu seminário sobre o movimento Beat conta com um número de candidatos seis vezes maior que o de vagas, e que o livro ainda tem um forte impacto, em parte porque ela dá aos seus alunos a tarefa de escrever um ensaio autobiográfico com o estilo espontâneo que Kerouac tornou famoso.

 

“Invariavelmente, os alunos criam os melhores textos de suas carreiras”, diz ela. “É uma conclamação para deixar de lado o temor quanto ao que as outras pessoas dirão e o que a família espera, e encontrar uma voz que seja realmente aquela do aluno”.

 

Na livraria City Lights Books, um marco literário de São Francisco (ela vende mil cópias de “On the Road” por ano), Lawrence Ferlinghetti, o poeta beat, editor e co-fundador do estabelecimento, demonstra espanto com o sucesso contínuo do livro.

 

Ferlinghetti, 88, contrasta o trabalho de Kerouac com “Look Homeward, Angel”, de Thomas Wolfe, que, segundo ele, “é o tipo de livro que você lê quando tem 18 anos e acha maravilhoso, mas quando o relê aos 35 ou 50 anos, fica embaraçado devido ao estilo exageradamente romântico e a exuberância floreada”.

 

Mas, tendo lido “On the Road” quando o livro foi lançado e ele tinha pouco mais de 30 anos, e o relido no mês passado, Ferlinghetti afirma: “Pode-se dizer que ‘On the Road” ainda tem a mesma mágica”.

Visite o site do The New York Times

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Graciliano Ramos e o romance brasileiro

Estilo de Graciliano Ramos marcou construção do Brasil


gracilano.jpgDono de estilo contundente e direto, Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores da literatura brasileira, cujo interesse estético é inseparável do comprometimento ético. O escritor é tema de um dos volumes da coleção “Folha Explica”, cujo primeiro capítulo pode ser lido abaixo.

Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores do Brasil

Seja por suas intervenções no campo político, pelo empenho em favor dos oprimidos ou ainda pela defesa do artista no mundo moderno, Graciliano Ramos reafirma, de modo inconfundível, o vínculo entre literatura e vida.

Assim, “Folha Explica Graciliano Ramos” mostra que ler os livros do escritor alagoano é tarefa fundamental para todos que têm interesse em entender o Brasil –e entender a si mesmos.

Wander Melo Miranda é professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais e supervisor do projeto de reedição da obra completa de Graciliano Ramos.

“Folha Explica Graciliano Ramos”
Autor: Wander Melo Miranda
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

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Confira a introdução do “Folha Explica Graciliano Ramos”:As Armas Insignificantes

Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.

Murilo Mendes

Literatura e experiência confundem-se na obra de Graciliano Ramos (1892-1953) como se fossem a urdidura de uma trama comum. Romances, memórias, contos e textos circunstanciais parecem repetir a afirmação do escritor –“Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou” 1–, chamando a atenção para o espaço autobiográfico em que sua obra se insere. À primeira vista parecerá uma perspectiva restrita, encerrada nos limites de uma subjetividade que reduz o mundo a dimensão muito particular ou a visão demasiadamente referencial. Mas, à medida que avançamos na leitura de livros como Angústia (1936) ou Infância (1945), nos quais traços da personalidade do autor e episódios de sua vida pessoal aparecem fortemente marcados –pela via da ficção ou da autobiografia–, nossa expectativa se transforma.

A aderência textual à vida concreta é acompanhada da superação de seus limites autobiográficos ou referenciais, compondo a química paradoxal da obra de Graciliano Ramos. Visto de hoje, seu compromisso político-partidário é um complicador a mais. Legítimo em suas aspirações e coerente do ponto de vista ideológico –Graciliano pertenceu aos quadros do Partido Comunista Brasileiro desde 1945 até a morte–, seu engajamento retrata um período crucial da história brasileira, que culmina com o Estado Novo. Indiscutivelmente articulado com a prática literária que constitui, em nenhum momento faz essa prática resvalar para as facilidades do panfleto ou ceder à sedução das relações imediatas. Ao contrário, em razão do conflito que apresentam entre texto e história, sujeito e discurso, memória e imaginação, seus livros se abrem a uma série de indagações experimentais que, desde o romance de estréia, Caetés (1933), desautorizam toda sorte de respostas excludentes e definitivas, para nosso espanto e dos próprios narradores colocados em cena pelo autor, sejam eles autobiográficos ou não.

No território minado por onde transitam suas personagens, em busca de uma unidade de antemão impossível no decurso da experiência desdobrada no tempo, não há lugar para ilusões compensatórias, nem para processos conciliadores de integração social. Seres à margem, João Valério, Luís da Silva, os retirantes de Vidas Secas, o menino de Infância, os presos de Memórias do Cárcere, e mesmo Paulo Honório, trazem todos a marca da “desgraça irremediável que os açoita”2, para usar as palavras do escritor, que deles se aproxima solidário, com uma simpatia ora mais ora menos distanciada, sempre comovente na cautela com que se expõe.

Mesmo o recurso à memória, de que o narrador na maioria das vezes se vale, não conduz ao abrigo das certezas apaziguadoras e da verdade incontestável, espaço que é da contradição e da recorrência desintegradoras. No ato de recompor a vida pela linguagem, de ser escrevendo, a idéia do conhecimento de si a que chegam os narradores de Graciliano resulta numa construção móvel e aleatória, fruto de um saber precário, provisório nas suas conclusões e cético no tocante à validade de suas premissas. Talvez por isso nada resista em pé diante do desejo de destruir, segundo Otto Maria Carpeaux, o ‘edifício da nossa civilização artificial – cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais”3. Destruição para transformar, para reverter por “linhas tortas” as diretrizes e os valores que o processo de modernização brasileira começava a implantar no país nas primeiras décadas do século 20. Recalcadas pelo poder dominante, regiões sombrias da ordem estabelecida atingem o primeiro plano do texto, que torna visível a violência contra os excluídos, então revelados em sua alteridade e desolação.

Nas brechas abertas numa modernidade assim desencantada, Graciliano, firme na sua disposição de ir contra a amnésia histórica e social, torna efetiva, talvez como nenhum outro escritor entre nós, a possibilidade de uma prática política do texto artístico. Daí o papel fundamental desempenhado pela memória em seus livros. Operadora da diferença e trabalhando com pontos de esquecimento da história oficial, ela se formula como atividade produtiva, que tece com as idéias e imagens do presente a experiência do passado, sempre renovada, refeita, recriada – vida e morte, vida contra a morte.

A possibilidade da reminiscência descortina-se justamente onde a história triunfante dos “homens gordos do primado espiritual”4 procede ao cancelamento do que ficou para trás, ou seja, no detalhe, no pequeno, no insignificante, a partir deles e com eles, como revelam as Memórias do Cárcere, publicadas logo após a morte de Graciliano, em 1953. Se a perspectiva da morte, de fim de caminho, autoriza o autor a levar adiante suas memórias, é o desejo de fazer viver o que estaria morto para sempre, mas que ainda persiste na sua demanda, o que deflagra o processo da escrita. Reviver o passado sim, porém enterrar de vez o que mantém o memorialista encarcerado e o impede de tomar posse efetiva do presente.

O corpo do sujeito –o do preso, mas também o do menino, o dos retirantes– é o lugar privilegiado onde se marca a história e se enuncia, em carne viva, sem subterfúgios, a violência desmedida do poder. Instrumento de ataque e defesa no embate com o “nosso pequenino fascismo tupinambá”,5 o corpo vai além de si mesmo e se faz voz do vivido coletivo, balizando a dura aprendizagem da posição marginal do escritor que teima em manter-se, apesar de tudo, livre, independente e fiel a si mesmo. O instável campo de manobra que a situação de pária social lhe delega desdobra-se em vários níveis de indagações, que vão desde a consciência sofrida, que separa o intelectual da massa com a qual se solidariza, até a relação conflituosa do escritor com o mercado de trabalho.

O espaço de atuação intelectual e artística de Graciliano revela-se intervalar: entre formação burguesa e empenho político a favor do excluído, entre imposições do poder e anseio de transformação, entre qualidade artística da obra e necessidade de sobrevivência do artista. A possibilidade de a literatura realizar uma intervenção diferenciada no campo político, com os instrumentos de que só ela dispõe, reveste-se, na prosa do escritor, da reafirmação do vínculo estreito entre arte e vida, submetida com força de persuasão ao domínio da linguagem, ao território também conflituoso da palavra literária.

A auto-reflexão textual catalisa as preocupações de Graciliano Ramos. O exercício obsessivo e artesanal da linguagem e a lucidez na escolha dos procedimentos narrativos usados impedem a subserviência do texto à realidade imediata e à gratuidade lúdica, abrindo novos caminhos para a representação literária. Há um silêncio que procura fazer-se ouvir, uma fala emudecida a que o narrador procura dar ouvidos, desobstruindo, sem paternalismos, suas vias de expressão. Daí o caráter experimental da narrativa, que ensaia aproximações e recuos diante de imposições retóricas e estereótipos literários, solapados no cerne de sua orientação hegemônica, ou seja, no seu intuito de impor-se como autoridade absoluta – “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.6

É dessa forma que Graciliano Ramos contribui para ampliar os limites da narrativa regionalista que começa, por volta de 1930, a retratar o país pela óptica da consciência do subdesenvolvimento e do engajamento político. Pelos livros de escritores como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego ou Jorge Amado, o romance nordestino impõe-se como nova linguagem e nova modalidade de “interpretar” o Brasil, dessa vez pela via da abordagem ficcional dos impasses regionais. De todo o grupo, o autor de Vidas Secas é, sem dúvida, o que mais avança no sentido de desmontar as estruturas de dominação literária, cultural e política, ao mesmo tempo que confere a seus textos um valor artístico efetivamente inovador.

A estratégia dissimulatória que propicia ao escritor mover-se no interior de um sistema fechado e a ele opor resistência se formula em termos de afrontamento do interdito através da ironia e da redução da linguagem àquele mínimo de recursos que a faz funcionar sem perder a carga explosiva que encerra. Num pequeno texto, “Os Sapateiros da Literatura’, Graciliano realça a dimensão utilitária da escrita ao comparar pronomes e verbos a sovelas e ilhoses: “São armas insignificantes, mas são armas”.7 É esse movimento que pretendemos mostrar na leitura dos textos do escritor.

1 ‘Revisão do Modernismo’. Em: Homero Senna, República das Letras. 20 Entrevistas com Escritores. Rio de Janeiro: São José, 1957; p. 238. A entrevista foi publicada pela primeira vez em 1948.
2 ‘Discurso de Graciliano Ramos’. Em: Augusto Frederico Schmidt et al., Homenagem a Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Alba, 1943; p. 29.
3 ‘Visão de Graciliano Ramos’. Em: Origens e Fins. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943; p. 350.
4 Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953; v. 1, p. 7.
5 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
6 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
7 ‘Os Sapateiros da Literatura.’ Em: Linhas Tortas. São Paulo: Martins, 1962; p. 191.

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“Quem faz literatura atualmente?”

Livro explica obra de 60 autores da literatura brasileira atual Quem faz a literatura brasileira atualmente? O que está em jogo na poesia e na prosa que se escreve no Brasil? O livro “Literatura Brasileira Hoje”, da coleção “Folha Explica”, dá destaque a 60 autores –30 poetas e 30 prosadores– da atualidade.

“Literatura Brasileira Hoje” descreve obras de 60 autores

De Manoel de Barros (nascido em 1916) a Tarso de Melo (1976), de Lygia Fagundes Telles (1923) a Nelson de Oliveira (1966), eles compõem um número amplo o bastante para demonstrar o que de mais relevante se tem escrito em nosso país. Dezenas de outros autores comparecem também, nos comentários à obra dos 60, para formar junto com eles um panorama único da nossa literatura.

O livro é assinado por Manuel da Costa Pinto, mestre em teoria literária e literatura comparada pela USP (Universidade de São Paulo) e colunista da Folha –leia o primeiro capítulo abaixo.

Como o nome indica, a série “Folha Explica” ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

Para saber quais os livros da coleção “Folha Explica” cujos primeiros capítulos já foram publicados, clique aqui.

“Folha Explica Literatura Brasileira Hoje”
Autor: Manuel da Costa Pinto
Editora: Publifolha
Páginas: 168
Quanto: R$ 20,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

Confira a introdução do “Folha Explica Literatura Brasileira Hoje”:

Este livro tem a pretensão de apresentar um panorama da literatura brasileira contemporânea. Não propõe juízos de valor ou veredictos, mas procura salientar as razões pelas quais alguns autores se tornaram representativos da diversidade de nossa produção poética e ficcional.

Escrever a história do presente é sempre arriscado –e isso também vale para a literatura. Sem o necessário distanciamento que o passar do tempo proporciona, podemos avaliar um autor ou uma obra com base em sua repercussão imediata, que pode ser desmentida ou ratificada por obras posteriores e novas gerações de leitores. Mas se “poesia é risco” (como quer um poeta que será abordado aqui) e se o mesmo se aplica à prosa, então a crítica literária consiste em compreender o alcance e a permanência da aventura da escrita.

De certo modo, cada poema, conto ou romance contém uma concepção do que é a literatura –e o fato de que essas concepções muitas vezes se excluem mutuamente faz parte dos impasses que estão no coração do trabalho criativo. Por isso, o leitor não encontrará aqui um ponto de vista unívoco, mas obras que criam seus próprios pressupostos e os desenvolvem coerentemente. De acordo com essa idéia, a forma de exposição escolhida não poderia ser o ensaio (que supõe um centro organizador, impõe continuidades e exclusões), mas um mosaico de escritores, em que o centro está por toda parte e a circunferência em parte alguma.

Sendo assim, o volume 60 da coleção “Folha Explica” enfoca 60 autores: 30 poetas, 30 prosadores. Esse número, necessariamente arbitrário, expressa os limites de seu método e a opulência de sua matéria-prima. O livro não tem ambições enciclopédicas: os textos aqui apresentados não são verbetes que elencam a miríade de obras da literatura atual, mas leituras que procuram identificar singularidades. Por outro lado, cada um dos autores abordados constitui uma espécie de campo de força, ou seja, aponta para certas tendências ou dicções presentes em outros escritores, cujo número ultrapassa em muito os 60 capítulos aqui dispostos. Esses autores são mencionados no interior dos capítulos, estabelecendo-se correlações e diálogos. Para facilitar a leitura, ao final do volume há um índice onomástico no qual o leitor poderá visualizar a incidência dos autores e as relações que se estabelecem entre eles.

Obviamente, o critério de escolha dos escritores analisados tem algo de imponderável: crítica literária também é risco –mesmo quando não expressa uma opinião pessoal, mas procura entender a importância que autores e obras adquiriram dentro de nosso sistema literário.
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Da Folha On line

Lula e seus irmãos

Relação de Vavá e frei Chico com o presidente da República se ajusta mais ao gênero cômico do que ao trágico

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Faltam alguns dos precedentes trágicos da situação vivida hoje por Lula e seus irmãos.
Com efeito, quando Aristóteles pensou sobre os eventos favoráveis à excitação do sentimento trágico, assinalou aqueles que diziam respeito aos amigos e, em particular, às ligações de sangue.
Isso porque, diz ele, “se as coisas se passam entre inimigos, não há que compadecer-nos nem pelas ações nem pelas intenções deles, a não ser pelo aspecto lutuoso dos acontecimentos; e assim também entre estranhos. Mas, se ações catastróficas sucederem entre amigos -como, por exemplo, irmão que mata ou esteja em via de matar o irmão, ou um filho o pai, ou a mãe um filho, ou um filho a mãe, ou quando aconteçam outras coisas que tais- eis os casos a discutir”.
Tais eventos são os que mais diretamente provocam em nós terror e piedade, os afetos trágicos por excelência.
Ambos decorrem da empatia, isto é, do sentimento de que também a nós poderia ocorrer um desastre semelhante, pois todos os que têm parentes e os amam podem intuir o temor de tê-los contra si, assim como estão aptos a sentir compaixão por quem sofresse pesar semelhante.
Por isso mesmo, Hegel entendeu que a essência da tragédia se caracterizava pelo confronto entre dois direitos antagônicos e contraditórios: os da leis escritas do Estado e os da lei não-escrita da família. Um belo exemplo dessa essência trágica, em língua portuguesa, encontra-se em “A Castro”, de António Ferreira, na qual se encena a conhecida história de Inês, amante do infante d. Pedro, que é assassinada a mando do rei, d. Afonso 4ø, temeroso de que a paixão ilícita do filho pusesse a perder os seus esforços de autonomia do trono português diante do poder de Castela.

Temor e compaixão
Em “Os Lusíadas”, não faltam células trágicas similares, em que o rei se deixa arrastar pelas contingências afetivas de sua “persona personalis” em detrimento dos deveres transcendentes de sua “persona ficta” ou “mystica”, que representa o Estado.
A considerar desse modo o caso, a atual irrupção de Vavá no noticiário do governo, guardaria em si o embrião de uma cena trágica, na qual o irmão no poder se vê constrangido e contraditado pelas ações do irmão imprudente ou desonesto, não importa se lambari ou tubarão.
Aliás, a levar adiante a analogia, a potência trágica do episódio deveria tornar mais cautos os críticos que vêem em Vavá causas para a queda de Lula: um episódio familiar é potencialmente lugar de simpatia, isto é, de temor e compaixão partilhados.
A tragédia, contudo, não parece ser o gênero mais ajustado à comparação com a situação vivida pelo presidente.
Pois a imitação trágica só funciona, no dizer de Aristóteles, quando o objeto da imitação são aqueles sobre os quais não restam dúvidas sobre o seu “caráter elevado”, como ocorre quando pessoas que julgamos de grande valor acabam sofrendo algum mal irreversível, por um erro involuntário cometido.
Quando, ao contrário, a ação em cena diz respeito a quem julgamos iguais ou piores do que gente como nós, o que se produz é comédia.
Como diz o filósofo, “a mesma diferença separa a tragédia da comédia; procura esta imitar os homens piores, e aquela, melhores do que ordinariamente são”.
Os efeitos correspondentes ao novo gênero já nada têm a ver com temor e compaixão, mas sim basicamente com o “ridículo”.
Este, aliás, em termos aristotélicos, não é qualquer defeito, mas apenas o que refere a “torpeza anódina”. Assim, quando não há certeza sobre a grandeza de um caráter, que apenas pode estar assentada sobre ações habitualmente virtuosas, está definitivamente perdida a possibilidade da imitação trágica.
Nesses termos, convenhamos, Lula, como persona trágica, já não é verossímil há muito tempo, ao menos desde que reinventou a si mesmo no pragmatismo eleitoreiro e vulgar do “Lulinha paz e amor”.
Se houve algum dia um verossímil trágico associado ao tema da catástrofe familiar na persona de Lula, talvez devesse ser buscado no pesar advindo da exposição de Lurian, a filha até então oculta, e da posterior derrota política decorrente da sórdida campanha movida por Fernando Collor de Mello, em 1989.

Anedota de corte
Agora, não. Agora a figura de Vavá apenas acrescenta mais um elemento pitoresco à baixeza ordinária. O episódio é absorvido genericamente como mais uma anedota da corte indecorosa.
Literariamente, a revelação das trapaças do irmão encontra, no máximo, analogia com as tópicas ridículas das comédias seiscentistas, quando a corte recentemente aburguesada se torna palco de toda sorte de ostentação reles.
Ali, falsos fidalgos, velhacos e emergentes, de cabeleira postiça e empoada, sentados sobre o próprio rabo, negando enfaticamente o próprio passado, fingem em vão acreditar nos áulicos venais que os pintam maiores do que são. Na hipótese trágica definitivamente perdida, Vavá seria parte das “ações paradoxais” a se abater sobre a excelência de um grande homem; na versão cômica atual, não passa de simples confirmação da “torpeza anódina” instalada na cena palaciana.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de Máquina de Gêneros (Edusp)

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