Borges y Cortázar

   Prólogo  a  CONTOS  de JULIO CORTÁZAR

Por Jorge Luis Borges. 1985

       Lá por mil novecentos e quarenta e tantos, eu era secretário de redação de uma revista literária¹ mais ou menos secreta. Uma tarde, uma tarde como as outras, um rapaz muito alto, cujas feições não consigo resgatar, trouxe-me um conto manuscrito. Disse a ele que voltasse dentro de dez dias e que então eu lhe daria meu parecer. Voltou dali a uma semana. Disse-lhe que eu gostara de seu conto e que ele já fora entregue para publicação. Pouco depois, Julio Cortázar leu em letras de fôrma “Casa tomada” com duas ilustrações a lápis de Norah Borges. Passaram-se os anos e uma noite, em Paris, ele me confiou que essa fora sua primeira publicação. Honra-me ter sido seu instrumento.
O tema daquele conto é a ocupação gradual de uma casa por uma invisível presença. Em obras ulteriores, Julio Cortázar o retomaria de modo mais indireto e portanto mais eficaz.
Quando Dante Gabriel Rossetti leu o romance O Morro dos Ventos Uivantes, escreveu a um amigo: A ação transcorre no inferno, mas os lugares, não sei por quê, têm nomes ingleses”. Algo análogo ocorre com a obra de Cortázar, Os personagens da fábula são deliberadamente triviais. Rege-os uma rotina de casuais amores e casuais discórdias. Movem-se entre coisas triviais: marcas de cigarro, vitrines, bares, uísque, farmácias, aeroportos e plataformas de estações. Resignam-se aos jornais e ao rádio. A topografia corresponde a Buenos Aires ou a Paris, e de início podemos pensar que se trata de meras crônicas. Pouco a pouco sentimos que não é assim. Muito sutilmente o narrador atraiu-nos a seu terrível mundo, onde a felicidade é impossível. É um mundo poroso, em que os seres se entrelaçam; a consciência de um homem pode entrar na de um animal ou a de um animal na de um homem. Também se joga com a matéria de que somos feitos, o tempo. Em algumas narrativas fluem e se confundem duas séries temporais.
O estilo não parece cuidado, mas cada palavra foi escolhida. Ninguém pode contar o argumento de um texto de Cortá¬zar; cada texto consta de determinadas palavras em determinada ordem. Se tentamos resumi-lo, comprovamos que algo precioso se perdeu.

JORGE LUIS BORGES –  Biblioteca Pessoal, 1985  In: BORGES, Jorge Luis, Obras Completas. Volume 4- (1975-1988). S. Paulo: Globo, 1999.

Nota. Este volume IV reúne quatro livros que que compilam prólogos, conferências  [..] e outros textos de fundamental importância como o Prólogos com um Prólogo de Prólogos, a maior parte deles foram  publicados em vida do autor. Especificamente, importante para os fins a que se destina esta publicação (homenagem/centenário de nascimento de Julio Cortázar, o livro Biblioteca Pessoal, Prólogos reúne sessenta e seis prólogos escritos por Borges para uma coleção de cem (100) obras de leitura imprescindível  (grifo meu) publicada por por Hyspamérica de Buenos Aires, em março de 1985.

Vou repetir, por necessário:  Biblioteca Pessoal reúne os prólogos que Jorge Luis Borges escreveu para os livros que integraram uma coleção de cem (100) obras consideradas por ele de leitura imprescindível, publicada pela Editora Hyspamerica, em 1985.

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1 Trata-se de Anales de Buenos Aires. (N. do Coord.)

Imagens

Imagens

Luis Fernando Veríssimo

Nos 33 anos desde a explosão da bomba no seu colo, o então capitão Wilson Machado teve uma carreira militar normal com promoções sucessivas, chegou a coronel

O Millôr pulverizou a frase feita “Uma imagem vale mil palavras” desafiando: “Diga isso sem palavras”. Mas, em alguns casos, uma imagem, ou uma superimposição de imagens, diz tudo sobre um momento, sem precisar de palavras. Há dias os jornais publicaram, simultaneamente, duas fotos, uma do Marcelo Rubens Paiva na Flip, interrompendo um depoimento que fazia sobre o desparecimento de seu pai, Rubens Paiva, morto pela ditadura militar, até poder controlar a emoção, outra, a do coronel Wilson Machado, um dos ocupantes do Puma em que explodiu, prematuramente, a bomba destinada a causar pânico e mortes no Riocentro, no 30 de abril de 1981. O coronel está rindo na foto. Depois de mais de 30 anos desde o seu desaparecimento, a família do Rubens Paiva continua sem saber onde está o seu corpo. Nos 33 anos desde a explosão da bomba no seu colo, o então capitão Wilson Machado teve uma carreira militar normal com promoções sucessivas, chegou a coronel e certamente chegará a general. A julgar pela sua foto, está em paz com sua vida e sua consciência. Os superiores do coronel, que planejaram e ordenaram o atentado, também não têm com o que se preocupar. Os responsáveis pelo desaparecimento de Rubens Paiva também não. A própria instituição militar já disse que nada de anormal aconteceu nos seus quartéis durante o chamado “período de exceção”. Todos podem rir como o coronel.

O CASO DO PICASSO

No recém-lançado filme de Jorge Furtado, “O mercado de notícias”, um semidocumentário sobre a imprensa brasileira, é lembrada a descoberta há alguns anos de um quadro de Picasso numa dependência do INSS, denunciada pela imprensa como um escândalo, prova da ignorância de servidores que não sabiam o tesouro que tinham na parede, e/ou de desperdício indefensável de dinheiro público. O Picasso do INSS rendeu várias reportagens, e, como se não bastasse a indignação já provocada, o prédio em que estava pegou fogo — ameaçando a preciosa obra! Que, é claro, de preciosa não tinha nada. Era um pôster reproduzindo um retrato de mulher do Picasso como se pode comprar em qualquer loja de museu do mundo, emoldurar e botar na parede gastando muito pouco. Jorge conta o caso do Picasso autêntico que era cópia como exemplo de um hábito reincidente de certa imprensa de ver ou fabricar escândalos onde não há nenhum — e vá esperar retratação quando a denúncia é desmentida. Mas o filme de Jorge, com depoimentos de gente como Mino Carta, Bob Fernandes, Janio de Freitas, Cristiana Lôbo, Renata Lo Prete, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Leandro Fortes, Luis Nassif, Mauricio Dias, Paulo Moreira Leite e Raimundo Pereira, acaba sendo um elogio da nossa imprensa. Se mais não fosse, pela qualidade dos depoentes.

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A arte de ser mentor

13/04/2014 01h55

Hoje queria homenagear meus mentores, aquelas pessoas que, no decorrer da vida, dedicam o tempo delas a nos ajudar, muitas vezes redefinindo a nossa trajetória profissional ou pessoal. Mentores são pessoas que doam duas coisas essenciais e que poucos têm: sabedoria e tempo.

Quem nunca se viu confuso e perdido entre escolhas possíveis, entre caminhos que levam a futuros diferentes? Muitas vezes, queremos seguir uma trajetória, mas as circunstâncias não permitem.

A vida, ou suas demandas, se metem no meio, criando uma série de obstáculos. São os pais que não querem que você siga determinada carreira, ou você que tem medo de tomar uma decisão mais radical, ou alguém perto precisa de você e retira-lhe a liberdade de seguir seu rumo. Deve ser por isso que se diz que ser livre é poder escolher a aquilo no que você vai se prender.

Eu mesmo passei por uma crise de escolha quando entrei na universidade. Na verdade, já antes, pois queria fazer física, mas meu pai “sugeriu” que engenharia era melhor. Lá fui eu, contrariado, cursar engenharia química na UFRJ. Ficou logo claro que não ia dar certo. Gostava mesmo era de física. Mas não conhecia nenhum físico, só os que me davam aula no ciclo básico. Tomei coragem e bati na sala de um deles, o Ildeu de Castro Moreira.

Talvez ele nem lembre disso, mas me recebeu de braços abertos e sugeriu que eu tentasse uma bolsa de iniciação científica do CNPq.

Foi o que fiz e logo comecei a estudar teoria da relatividade com Arvind Vaidya. O que me impressionou foi o entusiasmo desses profissionais: o Ildeu, incrível professor e, hoje, incansável defensor do ensino de ciências. Vaidya, com sua paixão pela física, que me contagiou.

Quando chegou a hora da decisão, mais uma vez tive sorte. Fazendo a última prova de Física 4, eis que quando entrego a prova, o professor tomando conta me pergunta: “Você é parente do Luiz Gleiser?” “Sim, meu irmão mais velho”. Esse professor, Francisco Antonio Doria, virou meu mentor de fato por anos, inclusive na minha tese de mestrado. Seu apoio foi essencial na hora da decisão, quando me transferi de engenharia química para o curso de física da PUC-RJ.

Doria tinha (e tem) uma visão matemática da física e uma cultura geral impressionante. Me recebia em sua casa em Petrópolis, onde passávamos dias inteiros conversando sobre quarks e sistemas dinâmicos, espaços fibrados e teorias de grupo.

Hoje percebo a dimensão da sua generosidade; ele não tinha que fazer nada daquilo; fazia porque queria dividir com seus alunos sua paixão pelo conhecimento.

A coisa continuou quando fui fazer o doutorado na Inglaterra, se bem que não lá. Foram anos solitários, onde usei o que aprendi de meus mentores para não afundar: siga seu caminho mesmo que os obstáculos pareçam insuperáveis.

Quando cheguei nos EUA, tive meu último mentor, Edward (Rocky) Kolb, um grande físico e excelente pessoa. Dele, aprendi muita física e a seguinte lição: faça aquilo que te motiva, que faz teu coração bater mais rápido, e não o que está na moda; só assim você dará o máximo de você. Hoje, tento passar essas lições aos meus alunos, cavando tempo mesmo quando não tenho.

 
 
marcelo gleiser

Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de ‘Criação Imperfeita’. Escreve aos domingos.

Publicado na Folha de S. Paulo:  A ARTE DE SER MENTOR- Folha de S. Paulo – Marcelo Gleiserl