Cynthia Feitosa – Osmair na área

Nem vou subtrair o tempo que vocês têm para ler, com a querela a respeito de “falar em escrita feminina é igual a diminuir a autora com um rótulo que a diminui etceterrá e coisa e tal”.
Faço mais que isso, apresento uma escritora (com toda a pompa do termo quando é verdadeiro como atributo) e lhes mostro um humor da mais alta qualidade. Extremamente bem escrito, eficazmente cheio de “graça”. E, muito importante, eu não conheço a autora!
Para comentar escreva para subros@gmail.com

TE CUIDA, HOMAIADA. OSMAIR NA ÁREA.

Eu adoro supermercado. Assim como a Carol, sou capaz de ficar horas olhando as novidades, apreciando as embalagens, escolhendo entre duas marcas, lendo todos os ingredientes, nutrition facts e prazos de validade, enchendo meu carrinho de coisas essenciais, ligeiramente úteis e muito supérfluas várias vezes por semana, na maior alegria.

Em compensação, odeio passar nos caixas. Odeio muito. É que, assim como nove entre cada dez donas-de-casa conscientes – e o Artur (hohoho) -, eu também tenho minhas manias quanto a compras de supermercado : tudo deve estar separado em grupos, porque eu não misturo produtos de limpeza com alimentos no mesmo saquinho, nem coisas quebradiças e/ou amassáveis com latas e outros pesos-pesados (duh). Por isso, tenho também toda uma ordem para entrada no carrinho, no porta-malas, no carrinho do prédio e… ai meu Zeus, fico cansada só de descrever. Como aparentemente os supermercados aqui (com exceção do Pão de Açúcar, de uma rede local e de um pequeno empório que tem uns importados legais e os melhores hortifruti da cidade) só contratam gente que odeia trabalhar, detesta os clientes e faz questão de tratar mal a quem quer que passe pelo seu caixa, este é sempre um momento de stress pra mim. Tenho que escolher entre tentar bancar a “polva” em fast-motion – pra não deixar que eles joguem engradados de latinhas de refri em cima das torradas nem caixas de leite sobre frutas e verduras que eu levei um tempão pra escolher, não deitem os frascos de alvejante (que sempre vazam, os malditos) – ou já engrossar logo de cara, com um “Pára essa esteira aí um minuto, que cê tá quebrando e amassando minhas compras”. Funciona, mas é chato. Tentar falar isso com educação e jeitinho não adianta nada, podem acreditar. Além de tudo, a lei de Murphy, infalível, garante que eu sempre entrarei na fila do caixa que está em treinamento, ou cuja bobina acaba de acabar e ele não sabe trocar, ou o cliente imediatamente à minha frente é um chato de botas de alpinista, que quer dividir as compras entre cartão de crédito, cartão do super, dinheiro e cheque, ou exige que tirem dois centavos de um produto que o concorrente estava vendendo por um centavo a menos, enfim, sempre tem alguma coisa pegando.

Por isso, ontem, ao sair do trabalho já com preguiça, na hora de passar no caixa eu tava quase chorando só de tentar adivinhar qual seria o imbróglio da vez. Entrei na primeira fila, bem vazia, e vi uma perua-bruxa que é minha vizinha de prédio, com tudo já empacotado mas ainda criando caso com o caixa, que ficava com aquela cara de ônibus enquanto os minutos iam passando. Resolvi me arriscar e saí olhando as filas nos outros. Aí vi um vazio, que a operadora acabava de abrir. Perguntei pra ter certeza, e quando ela miraculosamente disse que tava funcionando sim, comecei a colocar as compras na esteira. Quando levanto a cabeça, a menina tinha sumido e sido substituída por um rapazinho, com o fone, cotoveleiras e uniforme de patinador. “Tapa-buraco”, pensei, “isso vai ser uma merda”. Mas aí o garoto foi passando minhas compras na ordem certa, sem jogar nada, dando pausas aqui e ali pra esperar que eu ensacasse e tirasse produtos do caminho antes de passar mais, pousando os hortifruti com carinho de mãe viúva botando o filho único no berço, e ainda achou tempo pra dar atenção a uma colega que queria ajuda pra passar um cartão de crédito manualmente – e não, ele não disse “sei lá”, disse “olha, eu nunca fiz isso, mas será que não é assim ? Vê com fulaninha que ela sabe”, e também não parou meia hora de me atender pra fazer isso. Quando acabei de empacotar tudo e passei o cartão de débito, ele ainda brincou “Olha só, você ganhou um desconto de 97 centavos !”, sorrindo, mas logo corrigiu, cuidando da imagem da empresa, com um “deve ser por causa dessa promoção de + um centavo”. E deu boa-noite como se realmente quisesse que eu tivesse uma noite boa, olha só. Saí de lá totalmente encantada.

Ele não era um príncipe núbio, um deus de ébano, um supergato musculoso com 800 dentes superbrancos em cada arcada, era só um menino magrelo e comum, com um nome feinho e um sorriso bonito, uma aura zen e uma educação e consideração naturais, não forçadas por treinamento e dinâmica de grupo, do tipo que a gente não anda encontrando nem entre pessoas com quem trabalha e convive todo dia. Mas eu fiquei apaixonada por ele. E torço muito pra que, por mais que ele seja o melhor caixa do mundo, não fique nisso por muito tempo. Espero que consiga empregos muito melhores e bem-pagos que este, que sua delicadeza seja premiada e não motivo de chacota nem razão pra que se aproveitem dele, e que ele nunca perca esse jeito doce e tranqüilo.

Se eu não fosse casada com o melhor homem do mundo, e se o menino não tivesse 20 anos e trinta quilos a menos que eu (e, convenhamos, se estivesse minimamente interessado), teria ganho uma mulher sem fazer a menor força. Portanto, homens que tratam suas mulheres com casca e tudo, que acham que têm justificativas biológicas, históricas, psicológicas ou besteirológicas para tanto, cuidado. Pode ser que um dia elas tenham que ir ao supermercado e ele esteja lá, no caixa, gentil, atencioso, tranqüilo. Osmair na área.

Escrito por Cynthia às 10h03 – de 10/03/2006
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Um defeito de cor – Marcelo Leite

Marcelo Leite

Um defeito de cor

Há muito mais contribuição iorubá e jeje na herança dos pretos de todo o Brasil, não só da Bahia

Quem não comprar e ler um livro com esse título é ruim da cabeça ou doente do ouvido. Fisgado por ele e pelos elogios de Millôr Fernandes na orelha do romance, enfrentei as 952 páginas escritas por Ana Maria Gonçalves. Saí mais feliz do que entrei. E olhe que o livro tem muitos defeitos, a começar pelo tamanho injustificado (mesmo após ter ceifado 450 páginas, a autora poderia ter muito bem dispensado outras 300, mas parece ter se afeiçoado demais aos frutos de dois anos de pesquisa).
A autobiografia de Kehinde (Luísa Andrade da Silva) narrada por Gonçalves mergulha o leitor na vida atribulada de uma menina do Daomé. Seqüestrada aos oito anos, termina vendida como escrava ao Brasil. Da morte de Taiwo, sua irmã gêmea (“ibêji”, em ioruba), no tumbeiro para Salvador, ao périplo infrutífero em busca do filho mulato vendido pelo pai português para saldar dívida de jogo, o romance é um passeio pouco edificante pelo século 19 afro-brasileiro. As condições de vida de um escravo não servem para deixar ninguém feliz, decerto. Não faltam no livro narrativas cruentas de escravas com olhos arrancados e escravos castrados a faca e tição, apanhados no embate sexual entre sinhô e sinhá.
Há também espaço suficiente, nas 952 páginas, para amizade, amor e sexo consensual entre afro e luso-brasileiros. Sobra cordialidade. Ainda assim, a miscigenação não chega a insinuar signo algum de felicidade. Quando muito, de ambivalência. O contentamento verdadeiro surge com a descoberta de um mundo nunca vislumbrado, o das várias etnias e culturas africanas que aportaram no Brasil por força da escravidão. As religiões, os panos, os falares, as comidas. E as palavras, os nomes… Hauçá. Muçurumim. Koikumo. Malê. Agontimé. Chachá. Axé. Egungum. Egum. Abiku. Geledé. Ebó. Jeje. Tudo tão novo na língua que o leitor branco por vezes se sentirá como se o defeito de cor estivesse na sua (a expressão designava o impedimento legal, porém jeitosamente contornável, a que negros assumissem certos cargos).
A esta altura é o leitor desta coluna que deve estar sentindo algo estranho. Onde foi parar a ciência? Calma. Kehinde/Luísa nasceu no Daomé, Costa da Mina, onde hoje se encontram países como Benin. O leitor desinformado estranhará a quase total ausência de menções a Angola e Moçambique, colônias lusas de onde presumiria que veio a maior parte dos escravos para o Brasil. É o que diz, ou dizia, a historiografia. Mesmo com a destruição dos documentos da escravidão ordenada por Rui Barbosa em 1890, pesquisadores como Herbert Klein e David Eltis (EUA) haviam estimado com base em registros de viagens que só 10% dos escravos embarcados para o Brasil tinham saído da África Ocidental, região entre o Senegal e a Nigéria, berço de Luísa/Kehinde.
Pois essa estimativa foi agora posta em questão pela genética, como revela reportagem de Ricardo Zorzetto na revista “Pesquisa Fapesp“. Analisando o DNA de pretos (negros e pardos) de São Paulo, Rio e Porto Alegre, Maria Cátira Bortolini (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Sérgio Danilo Pena (Universidade Federal de Minas Gerais), encontraram respectivamente 40%, 31% e 18% de tipos genéticos associados com aquele pedaço da África.
Há muito mais contribuição iorubá e jeje, assim, na herança dos pretos de todo o Brasil, não só da Bahia. Os parentes, orixás, ancestrais e voduns de Kehinde povoaram o país, na diáspora que sua biografia representa tão bem.


MARCELO LEITE é autor do livro “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp, 2007), que estará autografando terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073, Centro, São Paulo, tel. 3170-4033)=======Texto aqui colocado, para os que não têm livre acesso à matéria Folha, ressalvando-se porém os direitos autorais.:

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FILMES CANNES 2007

LONGAS DA COMPETIÇÃO

“My Blueberry Nights” (minhas noites de framboesa), do chinês Wong Kar-wai

“Auf Der Anderen Seite” (do outro lado), do alemão Faith Akin

“Une Vieille Maîtresse” (uma velha amante), da francesa Catherine Breillat

“No Country for Old Men” (sem lugar para velhos), dos norte-americanos Joel e Ethan Coen

“Zodiac” (zodíaco), do norte-americano David Fincher

“We Own the Night” (possuímos a noite), do americano James Gray

“Les Chansons d’Amour” (as canções de amor), do francês Christophe Honoré

“Mogari No Mori” (a floresta de Mogari), da japonesa Naomi Kawase

“Breath” (respiração), do sul-coreano Kim Ki Duk

“Promise me This” (prometa-me isso), do sérvio Emir Kusturica

“Secret Sunshine” (brilho secreto), do sul-coreano Chang-dong Lee

“4 Luni, 3 Saptamini Si 2 Zile” (4 meses, 3 semanas e 2 dias), do romeno Cristian Mungiu

“Tehilim”, do francês Raphaël Nadjari

“Stellet Licht” (luz silenciosa), do mexicano Carlos Reygadas

“Persépolis”, dos iranianos Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi

“Le Scaphandre et le Papillon” (o escafandro e a borboleta), do norte-americano Julian Schnabel

“Import Export” (importação exportação), do austríaco Ulrich Seidl

“Alexandra”, do russo Alexander Sokurov

Prova de Morte, do norte-americano Quentin Tarantino

“The Man from London” (o homem de Londres), do húngaro Béla Tarr

“Paranoid Park” (parque da paranóia), do norte-americano Gus Van Sant

“Izghnanie” (a expulsão), do russo Andrey Zvyagintsev

FESTIVAL CANNES – 2007

Cannes anuncia 22 filmes em competição Wong Kar-wai, que ganhou o prêmio de diretor em 1997, abre a disputa

Brasil fica fora da corrida pela Palma de Ouro e norte-americanos têm presença forte; novo filme de Michael Moore é “hors-concours”

DA REPORTAGEM LOCAL

O Festival de Cannes anunciou ontem os 22 longas que competirão pela Palma de Ouro de sua 60ª edição (16/5 a 27/5). Não há brasileiros na disputa.
A corrida será aberta por “My Blueberry Nights”, primeiro título em inglês do cineasta chinês Wong Kar-wai (“Amor à Flor da Pele” e “2046”).
Os EUA marcam forte presença na seleção, com os novos títulos de Quentin Tarantino, Gus Van Sant, James Gray, Julian Schnabel, David Fincher e dos irmãos Joel e Ethan Coen.
O júri, presidido pelo cineasta britânico Stephen Frears, terá as atrizes Maggie Cheung (chinesa), Toni Collette (australiana), Maria de Medeiros (portuguesa) e Sarah Polley (canadense), o francês Michel Piccoli, os cineastas Marco Belocchio (italiano) e Abderrahmane Sissako (mauritano) e o escritor turco Orhan Pamuk.
O documentarista Michael Moore, vencedor da Palma com “Fahrenheit 11 de Setembro”, exibe fora de competição “Sicko”, a respeito da assistência médica nos Estados Unidos.
Também fora de competição estão “13 Homens e um Novo Segredo” (Steven Soderbergh), e “A Mighty Heart” (um coração forte), do inglês Michael Winterbottom, em que Angelina Jolie vive a viúva do jornalista norte-americano Daniel Pearl, decapitado por terroristas islâmicos no Paquistão.
Na seção paralela “Um Certo Olhar” está “El Baño del Papa” (o banheiro do papa), produção da brasileira O2 Filmes, de Fernando Meirelles, rodada no Uruguai, pelo brasileiro-uruguaio Cesar Charlone e por Enrique Fernandez.
A competição de curtas da Cinéfondation, dedicada a filmes de estudantes, tem “Saba”, de Thereza Menezes e Gregório Graziosi, inscrito pela Faap, de São Paulo.
O norte-americano de origem brasileira Antonio Campos, que já venceu pela Cinéfondation, está na competição oficial de curtas com “The Last 15” (os últimos 15).

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Joan Brossa – TÚ

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Si fueras una ola, serías mi juego favorito.
Si me quisieras siempre, serías la plenitud.
Si fueras una manera de hablar, serías el diálogo.
Si lloraras inquieta, te buscaría y no te encontraría.
Si fueras una puesta de sol, serías la más bella de todas.
Si fueras un árbol, serías un cedro.
Si ostentases colores, serías blanca y roja.
Si fueras la nieve, pasarías más allá.
Si fueras una sustancia, serías el bálsamo.
Si fueras sustituida, serías la madera de una columna.
Si yo fuera un barco, te llevaría delante mismo de la proa.
Si no fueras una muchacha, serías una rosa silvestre.
Si fueras una estrella invisible, serías el mutuo amor.
Si me rodeases suavemente y te disolvieses, serías el rocío de la
noche que moja los árboles.
Si desfallecieras, serías un escudo roto.
Si fueras una flor, nunca te apagarías.
Si relampaguearas, serías talmente una piedra engastada del color
del flujo del mar.
Si te viese en cualquier lugar, te señalaría a ti.
Si fueras indiferente, serías el crepúsculo.
Si me mirases distraídamente, serías mi esperanza.
Tu presencia me parece la forma más placentera de la armonía
…….misma.
Si la música se llenara de ti, brotaría un acorde grave y lastimero.
Si fueras un trébol, serías la llave de la aurora.
Si fueses la suavidad, serías el peso del agua.
Si fueras la tristeza, serías los días y el tiempo.
Si fueras un deseo, serías pasión desplomada.
Si fueras la luna, serías un ala.
Si fueras un reloj, serías un círculo profundo.
Si fueras el espacio, serías su mitad y su centro.
Si no fueras una estrella favorable, serías una roca que defiende
…….un territorio.
Si te escondieras de mí para siempre, serías la noche circundante.
Si fueras un camino, serías la orilla del mar.
Si fueras un jardín, serías un astro de flores.
Si fueras un paisaje, serías un bosque que respira.
Si fueras un anillo, serías eternamente irrompible.
Si fueras sombra densa, serías un camino entre los astros diáfanos.
Si fueras una tarde, serías un día.
Si fueras un año, serías un siglo.
Si fueras un ruido, serías el ruido de unos pasos que resuenan
oídos en secreto.
Si fueras un pedestal, serías una isla azulada.
Si el mundo fuese roto en pedazos, serías su silencio.
Si inclinaras más la frente, el corazón tintinearía claro.
Si suspiras, el tiempo que pasa se vuelve dulce.
Si te encaramas por el cielo, en la meditación te encuentro.
Si fueras una bolita, serías una sola gota de agua.
Vives en el sentido de la llama, no en el de la ceniza.
Si fueras un número, serías una cantidad inacabable.
Si mudaras de forma, serías una montaña oscura y agradable.
Si fueras el viento terral, dormirías sobre una cola de colores.
Si te conociera la lluvia, caería en el lugar que tú indicaras.
Si intentaras salvar a alguien, lo llenarías de espigas.
Si fueras una pared, te escudarían los árboles.
Si cayera la luz, serías la copa de cada día.
Cubrirías la juventud, si fueras la madrugada.
Si pasara el otoño, tú serías la primavera inminente.
Si fueras un color, serías la alegría del sol en un bancal de hierba.
Si fueras una voz, tendrías el color de un perfume.
Si fueras un perfume, tendrías la voz del color que te llevara.
Si fueras un cristal, apagarías los suspiros.
Si fueras un desierto, ondearías sin ningún límite.
Si eres una palabra, serías amarse
Si fueras un ídolo yo prepararía tu adoración en los santuarios.
Si fueras tibia claridad, te rodearías de rebaños.
Si fueras una gota de sangre, iluminarías.
Si el mundo de vida fuera todo soledad y caos, ya estarías destinada a
……manifestarte.
Si el mundo fuera una brumosa caverna, en ti convergerían infinitudes.
Tu eres el más bello reflejo de la Imagen primordial
Que allende los tiempos se multiplica inexpresable.

JOAN BROSSA ( 1919 – 1998)

Versión de Alfonso Alegre y Victoria Padilla

BENEDITO NUNES :-Entrevista para o Jornal “O Liberal” (Belém)

Entrevista
Benedito Nunes discorre sobre a dor e a delícia de viver em uma cidade que mudou tanto. Um lugar que tem todo o direito de se modernizar, mas não de perder as raízes e a própria beleza.

IRAN DE SOUZA
Editor Executivo

Se procurar pelo nome, você não vai mais localizar a travessa da Estrela no bairro do Marco, embora, de certa forma, ali esteja um dos pontos mais luminosos da cidade. Também não anda fácil de encontrar a Belém que o maior intelectual paraense vivo emoldurou no coração, apesar de ela ser um lugar inesquecível para ele e para a História.

Isto porque o tempo passou e a capital do Pará, enfim, nem tinha mais como ser a mesma de 10, 30 ou de 77, quase 78 anos atrás, quando Benedito José Viana da Costa Nunes nasceu. Filósofo, ensaísta e crítico literário referencial na cultura brasileira, ele contempla a cidade com um misto de amor e severas restrições. E no cruzamento de dados historiográficos e afetivos conclui: o problema não é que Belém tenha mudado tanto, mas que tenha mudado para pior. ‘É tão ou mais complicado viver aqui do que em São Paulo, que é maior em tudo’, lamenta.

Ainda assim, na Estrela que agora é Mariz e Barros, e na Belém que já não é a aprazível cidade de outrora, Benedito vive entre plantas e livros, depois da infância e juventude em Nazaré, depois de temporadas alternadas entre a Europa e os Estados Unidos, onde consolidou sua trajetória como intelectual, estudando, lecionando, escrevendo (confira seus livros abaixo) e fazendo amigos. Constituir amizades, aliás, deve ser fácil para este homem simples e acessível que cultiva hábitos como caminhar pela manhã com a esposa Maria Sylvia Nunes no Bosque Rodrigues Alves, a poucas quadras de sua casa; fácil também porque Benedito não exala a soberba do conhecimento – aglutina e agrega, ao invés de espantar seus interlocutores – e também por isso é sábio, o nosso sábio da Estrela.

O que se vê e se sente ao conversar com Benedito Nunes, ainda mais no aconchego de sua invejável biblioteca, é que, mesmo morando na cidade, ele anda acometido de uma saudade louca de Belém. Sintoma claro dessa nostalgia é seu último livro, ‘Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus’ (Secult, 2006), escrito meio a meio com o romancista amazonense Milton Hatoum, e em cujas páginas confessa que redigi-lo foi pagar uma dívida com sua própria terra.

Entre débitos e créditos, porém, Benedito está no lucro, tantas são as suas contribuições naquilo que um dia já se definiu como Humanidades. Quem está no vermelho com ele – e com os quase dois milhões de habitantes de sua região metropolitana – é um certo lugar cujo nome próprio, por extenso, foi registrado em cartório como Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Um lugar em que cidadãos, empreendedores e governantes, por amor próprio, por respeito ao passado, por responsabilidade com o futuro, deveriam ouvi-lo mais, tomá-lo mais em conta, referenciá-lo como voz, fecunda e idônea, que tanto tem a dizer. Afinal, a crítica de Benedito ao que está sendo feito da cidade é dura, implacável, mas sempre construtiva em seus conceitos e indicações, como você pode ler na entrevista a seguir.

Esta entrevista é um convite a um passeio pela memória de Belém e de Benedito Nunes. O senhor o aceita?

Aceito, sim. Gosto de falar de Belém justamente porque revivo uma cidade que conheci e que não existe mais, embora saiba, é claro, que as instituições mudam, que as cidades se transformam, se modificam.

Belém se transformou a tal ponto de Benedito Nunes já não poder emoldurá-la no próprio coração?

Acho que a modificação de Belém foi um rebaixamento da cidade. Ela cresceu sem planejamento e continua crescendo desordenadamente, com edifícios em toda parte, por exemplo. Vejo, enfim, um desprezo muito grande pela cidade. A cidade, em si, ela desaparece. O que subsiste são certas coisas que não podem deixar de ser mencionadas: o que Antonio Lemos fez, em parte, e o que Paulo Chaves recentemente fez.

Há muito eu não passo ali pelo lado da rua João Alfredo. E pensar que lá era o centro da cidade, que todo o movimento comercial da cidade se concentrava lá… Depois foi mudando. Hoje já temos os shoppings, deslocou-se o eixo, o centro. Belém não tem mais centro. Logo esta que era uma cidade extremamente cêntrica, inclusive porque sempre conjugou os elementos do interior, ou seja, atraía gente do interior, gente que vinha para cá. Até intelectualmente Belém era uma cidade que centralizava. Hoje não tem mais essa função cêntrica, que foi perdida. É claro que há coisas novas, elementos novos. Intelectualmente, por exemplo, vejo como hoje é relevante a Universidade Federal do Pará, onde eu lecionei. E aí já estão, além dela, muitas outras universidades. Sob esse ponto de vista, então, há alterações positivas, significativas e até muito fecundas. Por outro lado, existe em Belém a impiedade do desleixo, a falta de uma visão de conjunto. Vejo que, do ponto de vista urbano, não se faz em Belém, com as raras exceções que citei, obras com visão de conjunto da cidade. Executam-se sempre coisas localizadas – e local é prédio, local é uma vala… Quem se preocupou em fazer obras para a cidade, levando em conta o seu conjunto, recentemente, foi o [arquiteto e ex-secretário estadual de Cultura] Paulo Chaves. É um mérito que devemos reconhecer.

Entáo, pelo olhar de Benedito Nunes, qual a atmosfera de Belém do Pará hoje?

A atmosfera é aquilo que confere uma personalidade à cidade. Todas as cidades grandes e mercantes no desenvolvimento europeu e norte-americano – particularmente no europeu isso é mais significativo -, todas as cidades têm uma personalidade, uma característica indivisa. Isso se vê em Paris, isso vê em cidades da Inglaterra – cidades que não perderam o seu centro. É muito curioso isso. Essas cidades conservam suas partes antigas. A parte antiga se torna um núcleo ou então uma parte reservada da cidade. Nunca se estraga ou se derruba como se faz aqui. Aqui se derruba tudo para construir o novo, que em geral é muito feio e sem gosto. É isso que vemos em Belém: uma mistura arquitetônica tremenda, sem configuração estilística. Já houve, mas hoje não há mais. ‘Grande Hotel’ e Theatro da Paz se conjugavam, havia um estilo, uma personalidade.

Se Belém perdeu o centro, por outro lado ganhou uma periferia que só cresce. Para onde vai assim?

Espero que não vá para o brejo [risos]. Essa anarquia urbana é terrível, seríssima. É incrível que viver em Belém seja hoje tão difícil como viver em São Paulo. Economicamente, produtivamente, populacionalmente, Belém é uma cidade pequena se comparada a São Paulo, mas a nossa vida aqui é tão complicada quanto lá – ou mais. Precisamos usar melhor os recursos públicos, as riquezas que geramos. Se há alguma distribuição disso, essa distribuição está alcançando pouca gente.

Uma curiosidade: o senhor teve muitas oportunidades para viver longe de Belém, mas sempre voltou para cá. Por quê?

Aqui é o meu canto. Eu sou um pouco animal sob esse ponto de vista, gosto da minha toca, da minha concha. E Belém é minha concha existencial, sempre foi. Tem também outro fato: vivo muito acompanhado de livros. Formei minha biblioteca aos poucos, por circunstâncias até certo ponto estranhas à minha vontade. Então, com tantos livros, como é que eu poderia me mudar? Era impensável. Ainda é. Minha biblioteca ocupa cinco salas da minha casa.

São quantos livros?

Nunca contei, mas devem ser mais de cinco mil. Então formei essa biblioteca e ela também é parte importante da minha vida. Veja bem: na época em que comecei a lecionar, havia uma grande falta de bibliografia à mão. Livros estrangeiros, quase nenhum. Em filosofia não se conseguia traduções; elas foram aparecendo aos poucos. Hoje isso mudou muito: há um grande número de traduções, algumas muito boas, mesmo em filosofia. Então esse domínio aumentou consideravelmente. Sob esse aspecto, a mudança [em Belém] foi muito fecunda, muito positiva.

O senhor vai completar 78 anos em dia 21 de novembro. Quantos deles passou fora da cidade?

Passei vários períodos fora. O primeiro foi por volta de 1960, em Austin, no Texas. Foi a primeira vez que eu passei uma temporada longa fora. Depois estive nos Estados Unidos outras vezes. A última foi em Berkeley, na Califórnia, há três ou quatro atrás. Na França, de tempos em tempos, estive muitas vezes. Na época do regime militar fiquei três anos lá. Depois, já na década de 1980, voltei. Em cada lugar, em cada universidade, foi um ano, um ano e meio, em média. Somando tudo, devo ter passado uns dez anos fora daqui, não mais do que isso.

Belém despertou e desperta sentimentos contraditórios. Como o senhor mesmo diz em sua crônica, houve viajantes que aqui passaram, como La Condamine, que tiveram uma visão idílica da metrópole colonial; outros, como Henry Walter Bates, disseram que ela era sombria, um coração nas trevas. O senhor se inclina mais para que visão?

Para mim, apesar de tudo, vale mais a primeira, a mais recuada. É uma cidade que já não existe, eu sei, mas para mim subsistiu, digamos, até os anos 1950 – uma Belém de ruas largas, arejadas, passeáveis; podia-se andar por elas, enquanto hoje já não se pode mais; enfim, uma Belém livre do trânsito intenso e desorganizado, com essa profusão que vemos de automóveis e de veículos de toda sorte. Então é essa Belém que subsiste, para mim, nas entrelinhas de uma escrita citadina tumultuosa e desorganizada.

Ao longo do anos, Belém negou ostensivamente a sua vocação fluvial e deu as costas para o rio. O que temos são janelas aqui e ali. Como o senhor considera que deveria ser a cidade nesse sentido?

Essa vocação fluvial foi perdida. Acho muito difícil recuperá-la. Tanta coisa já se construiu. Já há uma fachada desordenada na cidade que é difícil remover. É difícil, veja bem, mas não impossível. E alternativas para aprofundar essa vocação fluvial não faltam: existem grandes porções de verde, existem ilhas fronteiras à cidade que podem ser perfeitamente conquistadas sob esse ponto de vista. Enfim, nossa orla combina-se a um manancial ‘selvático’, floresta e rio, que pode ser amplamente recuperado. Mais do que ‘cidade das mangueiras’, esta é uma cidade de muitas árvores, as mangueiras predominantemente. E isso, vale lembrar, foi uma coisa muito sábia da parte do Antonio Lemos: plantar mangueiras, que são frondosas, que dão bastante sombra. Se não fossem as mangueiras, nós torrávamos aqui.

Como o senhor avalia a expressão cultural de Belém cem anos depois do tempo de glória da borracha?

A expressão cultural de Belém é indigente. Salvo um ou outro caso, é indigente. Na publicação de livros, em certos periódicos, há honrosas exceções. Mas no geral Belém perdeu muito culturalmente. Felizmente, houve casos de recuperação: se refez o Festival de Ópera, se deu uma certa vitalidade ao teatro, isso é muito considerável. Mas de modo geral, a meu ver, essa vitalidade diminuiu bastante. Quanto às riquezas produzidas hoje, seria bom que elas fossem distribuídas, que houvesse repercussão delas na economia local. Mas a distribuição de riquezas nunca é feita em benefício da maioria, essa é que é a verdade.

Então esta é mesmo a ‘terra do já teve’, então ainda somos, como disse Fábio Castro em um trabalho citado pelo senhor, uma cidade sebastiana à espera de uma nova época de ouro?

Não haverá mais época de ouro. Nem ‘época do ouro’, como dizia Oswald de Andrade [risos]. É difícil prever a conformação da economia. Aqui, infelizmente, os planejamentos são todos disparatados. Portanto, eu vejo essa situação com muito pessimismo. Se quisermos um futuro melhor, precisamos levar mais a sério a economia e a educação. Aqui se valoriza pouquíssimo a educação no sentido mais alto da palavra. Precisamos, por exemplo, conjugar melhor os tantos cursos que hoje existem, focalizá-los mais em direção dos nossos tantos problemas. Do ponto de vista da economia, está na hora de abandonarmos esse conceito desenvolvimentista, ultrapassado e que sofre duras críticas. Fazer uma cidade melhor às vezes é partir mesmo do trivial necessário como empregar melhor as verbas, destiná-las adequadamente, ter bom senso.Chegamos a um ponto em que o que se vê já não é nem falta de senso – é senso estragado mesmo.

A cidade surgiu no Ocidente como espaço de convivência e diálogo. Hoje é mais de confinamento e conflito. Mudamos para pior?

Acho que sim. Nesse sentido, lembro-me de ‘Zero’, de Ignácio de Loyola Brandão, um livro que teve muita repercussão à época do regime militar. Nele, o autor imagina uma cidade exatamente como estão ficando as cidades de hoje, com casamatas, pontos de segurança, com torres de vigilância como estamos vendo hoje. Todos os nossos pedaços da cidade são sempre pedaços confinados e, mais do que isso, vigiados por problemas de segurança, uma questão que se tornou fundamental hoje em dia. Não houve, portanto, evolução urbana, não houve desenvolvimento gradual para se atingir uma meta. Não tivemos isso.

De todos os espaços urbanos, o do trânsito parece o mais complicado. O LIBERAL, em reportagem publicada no domingo passado, mostrou que o trânsito de Belém, e do Pará em geral, é uma selva dominada por trogloditas ao volante.

Há problemas mais amplos nisso aí do que os de engenharia de tráfego. A adoção de meios tecnológicos aumenta a falsa idéia de poder no homem. A velocidade, por exemplo – desenvolvê-la cada vez mais ao volante de um carro é um encanto, é um poder. Há uma alteração psicológica nisso, isso está entronizado nas pessoas. Mesmo em condições comuns, normais, há uma alteração psicológica. Quem está ao volante se sente como senhor da máquina e senhor do espaço. Portanto, esse problema aí está em duas divisas, a divisa da economia e a divisa da educação. Se a pessoa não tem o senso de cumprir a lei, como ele pode respeitar o outro? Aí os problemas jurídico e moral também se cruzam. E esse cruzamento, esse entrosamento, é muito precário entre nós – trogloditas como você definiu [risos]. Mesmo em condições normais, como eu disse, a condução leva a uma alteração de conduta. E isso é muito perigoso. Mais perigoso ainda em condições anormais como as nossas, onde não há respeito nenhum às leis de trânsito. Eu, por exemplo, deixei de guiar há muito tempo por causa disso – e me senti muito bem por ter deixado. Sei que nem todos podem, mas felizmente tive condições para isso e não me arrependo.

O senhor escreveu que Belém perderá a face ‘sem o seu barroco, sem as suas árvores’. Concorda que a nova face da cidade já está mais para o Umarizal, com seus espigões residenciais e comerciais, do que para a Cidade Velha?

A grosso modo, pode-se dizer que sim, já que você coloca a questão nesses termos, Umarizal versus Cidade Velha. Mas acho que Belém poderia ter alcançado a mediania, um meio termo – nem a velhice decadente que a Cidade Velha exprime nem a urbanização louca do Umarizal. Ao se pensar uma cidade, ao se fazer projetos para ela, é preciso, como eu disse, levar sempre em conta a visão de conjunto, o senso da convivência social. Isso não existe entre nós.

Além do Grande Hotel e do Largo de Nazaré, que já não existem, do Bosque Rodrigues Alves, hoje jardim botânico, da loja Paris n’América, prestes a arruinar-se, e do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, listados em sua crônica, que ícones de Belém merecem a sua paixão?

Eu elegeria dois lugares. Um, a Estação das Docas. Outro, o Mangal das Garças, um empreendimento notável de urbanismo, de meio ambiente, de criação de condições de vida não apenas para o homem, mas para as espécies animais também. São recantos que foram recompostos, restabelecidos. Há ainda o Parque da Residência, um outro recanto muito bom. São os aspectos novos de Belém que interessam à cidade no seu conjunto. No mais, no que toca a construções, traçado urbano, Belém foi muito desprezada. Por isso, meus afetos são muito anacrônicos, embora outros sejam também muito atuais. Anacrônico, fora de época, é gostar de certos trechos como Batista Campos, Largo da Pólvora [risos], ou melhor, Praça da República. Essas coisas antigas são trechos, pedaços, retalhos. A fisionomia da cidade mudou muito, até internamente.

O senhor não é governante, é pensador. Mas, se tivesse o poder de fazer, qual a Belém que Benedito Nunes deixaria para as futuras gerações?

Eu ia derrubar muita coisa [risos]. Procuraria reordenar a cidade de modo que Belém voltasse a ter um centro, o centro antigo que de certa forma não temos mais. Talvez fosse o caso até de tornar a cidade multicêntrica, ou seja, com vários centros. É o que acontece nas cidades grandes, elas têm vários. Paris, por exemplo, não tem apenas um, mas vários centros. Ora, Belém está se tornando uma cidade grande, mas completamente anárquica, perdeu o seu centro, não ganhou novos, de modo que parece mais um grande acampamento feito de edifícios. Não sou absolutamente contra a modernização, quero deixar bem claro, porém gostaria de ver a minha cidade com uma modernização de bom gosto. Para isso, os projetos imobiliários e urbanísticos do setor privado e do setor público precisam ser avaliados de forma mais criteriosa, com visão de conjunto, mas não é isso que está acontecendo.

PARA LER BENEDITO NUNES

Benedito Nunes foi professor titular de Filosofia na Universidade Federal do Pará. Ensinou literatura e filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Recebeu, dentre outros, o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987. Suas obras são as seguintes:

O drama da linguagem
Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989.

Na fronteira entre a literatura e a filosofia, Benedito Nunes faz uma leitura já clássica da obra da autora. Nunes é considerado o melhor intérprete da contista e romancista.

No tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988.

Neste livro, Benedito Nunes analisa a pluralidade do tempo na obra lietrária, estudada a partir das noções de ordem, duração e direção.

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989.

Mostra como se deu a construção da idéia de Arte em Aristóteles e Platão para analisar os principais filósofos de arte contemporâneos. O modernismo merece atenção especial.

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969.

Benedito Nunes analisa, no calor da hora, a simbiose entre literatura e filosofia promovida por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Considerado um dos dez mais importantes trabalhos de crítica literária do Brasil.

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974.

Pela lente de Benedito Nunes, a obra rica e complexa de um dos maiores poetas da língua da língua portuguesa ganha uma nova e original intepretação.

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979.

Uma visão promordial para a compreensão do pensamento de Oswald de Andrade. Nele, o autor defende o caráter especifico da ‘antropofagia’ oswaldiana.

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986.

A passagem do filosófico para o poético na obra do pensador alemão Martin Heidegger.

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991.

As correntes e tendências que não só prefiguram um estilo de pensamento diferente da tradição filosófica moderna, como também manifestam a crise da filosofia enquanto discurso teórico.

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São Paulo, 1993.

Em treze ensaios brilhantes, Nunes expõe toda a vivacidade e originalidade do seu pensamento.

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998.

Crivo de Papel reproduz o que há de mais denso e constante na obra de Benedito Nunes. O ponto de partida, seminal, é a filosofia.

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999.

Resultado de um curso sobre o Pensamento Poético, em 1994. A partir de sua interpretação original de Heidegger, Nunes examina a relação filosofia-poesia oferecendo também elementos para o entendimento dos passos históricos da arte.

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000.

Um pequeno grande livro. Seus quatro breves textos não somam cinqüenta páginas e trazem uma visão condensada das qualidades especulativas e analíticas de Benedito Nunes.

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Em que medida a ‘identidade filosófica’ que Heidegger atribui a Nietzsche constitui um ponto decisivo e fundamental da constituição da ‘identidade filosófica’ do próprio Heidegger? É em torno deste círculo que se move a argumentação de Benedito Nunes e é a partir dele que são esboçadas algumas conclusões.

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

Esse livro esmiúça a reflexão do filósofo sobre o sentido mais profundo da existência humana, a terminologia por ele criada e a famosa ‘virada’ em seu pensamento.

Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus (com Milton Hatoum). Secult, Belém-PA, 2006.

A quatro mãos com o colega amazonense, Benedito Nunes repassa a formação de sua cidade natal e faz reflexões sobre o passado e o presente de Belém, lançando indicações para o futuro.

Daniel Faria por Alcir Pécora

Close reading de um poema de Daniel Faria


Penso que talvez não deva acender outra luz para poder me fixar na que escoa dos
onze versos que escolhi como guia de Daniel Faria:
Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro
da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco das
palavras com as mãos

Como a paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que
correm
E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o
pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos

Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre,
tombando. Digo:
Imaginai
Ateio às escuras o primeiro deles:

Escrevo do lado mais invisível das imagens. As imagens, portanto,são o lugar de inscrição ou de abrangência do que é escrito e não apenas parte de seu efeito. Ao mesmo tempo, a escrita dá-se no plano menos visível da imagem. Postula-se, pois, que a imagem é anterior e maior do que a escrita e que o ponto onde se cruzam é aquele em que a imagem não se
vê. Os estranhamentos são vários. A primeira parte da premissa produz uma inversão da expectativa temporal de causa-efeito e da expectativa espacial de maior-menor (imagem anterior e maior do que a escrita). A segunda parte insinua o paradoxo: o ato da escrita do sujeito dá-se onde a imagem pode não ter imagem (lado invisível do que é visível por definição). A imagem anterior à escrita e que preexiste ao ato particular do sujeito reclama, assim, a sua resolução como imagem original, primeira — como Imagem. Aqui,
em termos pertinentes, como platonismo católico: Imagem de Deus, Verbo. A hipótese teológica favorece igualmente a dissolução do paradoxo insinuado: o Verbo é a Imagem que efetivamente é e se mostra além dos sentidos, ou do que apenas se apresenta aos olhos. O valor do que o sujeito escreve parece estar, pois, na transmissão da imagem que está na sua origem, o que não significa que o corpo sensível da letra que escreve está excluído desse valor, mas tão somente que não o esgota.
Na parede de dentro da escrita e penso.
Trata-se de escrever dentro da escrita, no que está oculto no interior do que já se encontra escrito. Assim, antes de referir a impressão sensível, a escrita na parede interna solicita lembrança, pensamento e meditação da palavra original. Escrever, nesses termos, não equivale a descrever o visto, ou a alimentar de imagens os sentidos, mas ao ato de quem toma por objeto de reflexão precisamente o que define a imagem como segunda imagem ou participação. Vale dizer, o que a entende como hipóstase do Verbo criador, e que não se revela senão dentro do homem, ele próprio entendido como imagem da Imagem. Olhar para a palavra, aqui, é análogo a olhar para dentro de si como espelho.
E penso) é também a sua síntese, e pode ser lido como intransitiva: o que escrevo, como a imagem de que escrevo, é ato de pensamento, pensamento em ato.
Erguer à altura da visão o candeeiro. Ou seja, o escrever oculto que manifesta a primeira imagem ou enigma original da palavra divina é sobretudo meditação que busca a elevação, a ascese, o rapto até o ponto de visão ou de iluminação que está acima ou além da imagem obscurecida dos sentidos, mera sombra que os habita. Mas um novo equívoco se introduz pelo corte operado pelo verso na sintaxe: erguer é tanto o sentido ascético do ato da meditação, quanto o imperativo ético implícito na compreensão da escrita como imagem
de outra, na crença do enigma na base da representação. Nesta leitura, não apenas se medita e deseja ardentemente a iluminação, mas se está obrigado a ela. Há um campo de deveres da imagem a elevar-se além do sensível, com implicações educacionais ou edificantes na ascese. enjambement sucessivo da estrofe. Dos três, o único abrupto é
também o que obtém o efeito menos ambíguo, isto é, justamente o que existe na passagem do terceiro para o quarto verso, quando se divide o termo candeeiro de sua qualidade ou cor: (Candeeiro) Branco da palavra com as mãos.

A articulação inicial deste verso propõe que se eleve à luz a meditação da palavra, o que, como se viu, implica subtraí-la à autonomia dos sentidos. Quer-se produzir a luz e a inteligência pela manifestação ostensiva do que se mantém oculto na palavra refletida. Mas é mais do que isso: o candeeiro branco, que ilumina a palavra, também a
amadurece, pela imposição das mãos. Nesta imposição, evidencia-se o
aspecto eficaz da cadeia de transmissão da representação imagética. O que
se escreve e medita não é apenas símbolo, mas causa simbólica eficiente da
iluminação pela palavra. Trata-se de transmitir a graça da luz pela
escrita escura, invisível, que, por ser enigmática, define ostensivamente
o mistério da origem, obrigando à leitura espiritual, alegórica, ascética,
que se produz como ato. A primeira estrofe, pois, assinala o
dever da imagem que se obscurece para evidenciar o mistério que a sustenta. Há um especial modo de especificação disso na estruturação
rítmica da estrofe, com versos que se ajustariam facilmente em versos
regulares de 9 e 10 sílabas. Contudo, os versos recebem acréscimos,
predominantemente de pés espondeus e peônios, que impedem o arredondamento
do ritmo poético, e postulam o oratório, o meditativo e, em todo caso, o que não se fecha na fruição do ritmo. Os versos oferecem deliberada resistência à sua forma poética. Aliás, dos sucessivos enjambements pode-se dizer o mesmo: que assinalam a determinação poética, mas, ao mesmo tempo, pelo encadeamento acumulado e ostensivo, uma espécie de prolongamento do verso em oração pausada, que se incomoda com o
barulho do ritmo.
O primeiro verso da segunda estrofe, Como a paveia atrás do segador, já se introduz,
ambiguamente, como comparação que anuncia o que se dirá a seguir, ou como
síntese do que se escreveu antes, ainda na primeira estrofe. Quer dizer, a comparação ganha certa autonomia, ou certa polivalência, que a torna capaz de ser aplicada em qualquer direção. Nela, está claro que a imagem do
segador é a figuração bíblica mais usual dos que fazem o anúncio do
Evangelho ou da Palavra de Deus, pois a semeadura propriamente dita já
está feita pelo Cristo, que renova a aliança com os homens. No tempo
escatológico posterior à sua vinda, cabe apenas ceifar os campos já
brancos de trigo. A Palavra, fértil por si mesma, amadurece e prepara o ato de quem a colhe, como a Imagem que dá lugar e ato de ser à escrita.
Mas a posição de quem escreve ou colhe, aqui, é a de quem está atrás, como quem chega por último ao campo ou à vigília, para usar os termos do Eclesiástico (33, 16): “Quanto a mim, sou o último a ficar em vigília, como quem cata espigas (como o que ajunta as bagas) atrás dos vindimadores”. Trata-se, pois, da posição última, por isso humilde, mas também a de afirmação da disposição de entregar-se sem demora à vindima e encher o lagar.
>Do lugar humilde no campo terrestre dos homens, o que medita ou vê com o coração pode enxergar os que correm descalços nele, como pobres em meio aos campos abundantes de colheita. Já no terceiro verso da segunda estrofe, após a apresentação das conhecidas imagens escriturais da colheita nos dois anteriores, recolhe-se enfim a imagem da escrita
desenvolvida nos dois primeiros versos da primeira estrofe: E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão. E tais parecem ser tanto os que não possuem bens materiais, sentido reforçado pela referência aos pés descalços do verso anterior, quanto os que não colheram o pão espiritual da semeadura divina, segundo as linhas de ponderação admitidas nas imagens bíblicas tradicionais. O que se quer tornar visível pela escrita ostensiva do mistério tem a finalidade salvífica de falar ou mover aos que não possuem os bens da terra, nem os do céu. No primeiro caso, acentua-se a oração aos últimos e deserdados; no segundo, a desolação profunda, própria da condição de exílio em que se encontram todos os que vivem fora da comunhão divina. No primeiro caso, o lugar humilde que é condição e grau da ascese tem conseqüências acentuadamente sociais; no segundo, sem exclusão da hipótese anterior, elas são mais genericamente missionárias e escatológicas.
imaginai o que nunca tivestes nas mãos — o verso que fecha a estrofe eleva a grito ou advertência dramática a voz correlata da escrita e meditação do mistério:
trata-se justamente de produzir a imagem do que nunca foi visível, a
riqueza e o sabor do pão jamais experimentado. O instrumento dessa
produção não é, mais uma vez, o que olha para o que é sensível apenas e se
manifesta fora, mas o que se aplica a descobrir o que está na natureza
criada do homem: a palavra plantada dentro dele, com suficiente força e
carisma para salvá-lo. Descobrir o infuso, isto é, imaginar a Imagem: eis
o anúncio gritado. A meditação, tornada também predicação, solicita a
imaginação e a lembrança da imagem já semeada, mas obscurecida.
Correi. Como o segador seguindo o segador — ou seja, a corrida dos descalços, antes cega, movida pela roda mortal, tem agora direção e sentido conduzidos pela imaginação de
Deus no homem, por meio da palavra invisível que o solicita. Assim
meditada, descobre-se um dinamismo da palavra que tende para sua
realização: é eficaz quando religada ao mistério que conserva como imagem
na sombra. A corrida perdida reorienta-se como imitação do que colhe a
semente madura do primeiro semeador. Numa ceifa terrestre, tomando.
Digo:
— e novamente, como nos enjambements sucessivos da
primeira estrofe, apresenta-se, adiada, a determinação do lugar da
colheita, o campo mortal da vida humana. O surpreendente, contudo, não
está nisso, mas na estupenda revelação de que o trabalho do segador se faz
tombando. Certamente, o tombar é análogo da semente que cai na
terra fértil e frutifica, mas é-o também da morte que interrompe os
trabalhos e fadigas do homem indigente:
“Não temas a sentença da morte:
lembra-te dos que te precederam e dos que te seguirão”
(Ecl. 41,3).
Sentença de morte que é beneplácito de Deus, por meio da morte
expiatória na Paixão. Imaginai — eis aqui, reposta na figura da
morte do corpo fatigado, a força pura da palavra que aniquila o que resto
dos que, afinal, nada possuíram. É na imaginação da morte que repousa a
palavra invisível.

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IN: Dos Líquidos. Porto, Fundação Manoel Leão,