MURILO MENDES – 40 anos…

MAPA

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

[…..]

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”. ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

Murilo Mendes (*Juiz de Fora, 1901-+Lisboa, 1975), com Jorge de Lima e Mario Faustino são os meus Poetas (brasileiros), do coração e da alma.
Não que eu não ame profundamente João Cabral e Drummond (a quem muito homenageio aqui no Sub Rosa), o grande Manuel Bandeira, Mario de Andrade.e mais alguns outros….mas Murilo é diferente, especialíssimo.
Murilo jamais escreveu um verso ou poema banal. Foi barroco e surrealista. Moderno e tradicional; sempre mantendo uma independência e um certo desprezo, pelo enquadramento dos manifestos.
Veio à luz, como poeta, no mesmo ano (1930) que Drummond, e foi logo saudado por Mario de Andrade. Em tudo, Murilo foi revolucionário. Até sua conversão para o cristianismo, tão incompreendida na polaridade angelismo/demonismo foi, ao contrário, um ato de resistência, (que estava ao mesmo tempo acontecendo na Europa, principalmente na França) e não se tratava de aceitação e sim, uma nova proposição: a saber, a proposta de um catolicismo mais voltado para os problemas humanos, terrenos.

Satírico, irônico, é dele o que já se viu atribuído a Oswald de Andrade:

“O homem
é o único animal que joga no bicho”

que depois renegaria:-)

Em 1941, conheceu Maria da Saudade Cortesão, filha do grande historiador português, Jaime Cortesão, exilado no Brasil.
Seis anos depois Murilo e Saudade casaram-se.
Em 1956, ele e Saudade mudaram-se para a Itália e Murilo foi ser professor de Cultura Portuguesa, na Universidade de Roma.
O casal formou um círculo lítero-artístisco-cultural (no mesmo prédio morava Audrey Hepburn, amiga do casal), freqüentado por músicos, artistas plásticos, atores, homens de letras e artes; críticos, como o linguista Roman Jakobson, que muito o admirava.

Influenciou e foi reverenciado por alguns dos maiores poetas brasileiros de sua época. Foi um arrebanhador de poetas futuros.

Com seus poemas , grafittis e murilogramas, o Poeta era apenas e sempre *o Poeta*.
Um Imperador das Palavras, que sofreu, se atormentou sempre, com o descaso e a indiferença com que o Brasil costuma tratar e dedicar a seus filhos grandiosos.

“Não sou brasileiro, nem russo nem chinês,
Sou da terra que me diz NÃO eternamente-
Eu sou terrivelmente do mundo”

Sobre Murilo Mendes é rezar -os que não tem a ventura de ter suas Obras Completas , ou seja TODOS NÓS – pois há muita cois inédita de Murilo. Daí a demora de uma nova Edição. Há muita coisa publicada em Prosa e VERSO.
Mas o livro imprescindível é o de LAÍS CORRERA DE ARAÚJO. Da Editora Perspectiva.
ARAUJO> Laís Corrêa de. Murilo mendes. S. Paulo, Perspectiva. 2000. Col. Signos, 29.

Enquanto isso, o livro traz uma Antologia, Ensaios, Iconografia extensa Bibliografia, e a Correspondência trocada entre a estudiosa e o Poeta.
Murilo era grande Amigo dos mais expressivos Poetas portugeseses à sua época, pois lá viveu e morreu… Procurem conhecer JANELAS VERDES.
Uau! Quem não tiver – e realmente esteja ou querira estar *in* coisas poeticas, não é poeta nem nada se não correr e ir procurar um imediatamente;-)
Dersafio feito!.

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