Sobre Graciliano Ramos (por Isabela)

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted.

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?
Meus pais moraram durante alguns anos em Palmeira dos Índios (município onde Graciliano Ramos foi prefeito) e foi lá onde nasci e morei até os doze anos. Eu também ia muito à Quebrangulo, cidade natal do escritor. Aos oito/nove anos de idade, quase todos os dias, quando voltava da escola, passava (e entrava) na Casa Museu Graciliano Ramos e foi lá na biblioteca onde li vários livros (não podia pegar emprestado pois era muito pequena), como Robinson Crusoe, Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo e várias estórias infantis. De Graciliano, o primeiro que li foi “São Bernardo”, que adoro, mas já estava com dezessete anos, mais ou menos.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura (“leitura difícil”)?
Não.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Penso que é um autor conhecido, traduzido, mas não é popular no sentido que você apresenta, como Paulo Coelho, não é? Também acho que por ser autor de leitura “obrigatória” para o vestibular, fica difícil não ler ao menos uma de suas obras (ou um resumo).

Sobre citações:
Você tocou em um ponto interessante, realmente, ele não é tão citado. Fiz uma pesquisa no Google (com os nomes entre aspas), veja o que deu:

Autor                              Citações (04/11)              Hoje (24/11)

Graciliano Ramos                    387.000                        397.000
Guimarães Rosa                      696.000                        746.000
Machado de Assis                1.900.000                     2.070.000
Jorge Amado                      17.300.000                   10.700.000

Claro que esses resultados não são apenas de citações, textos, frases ou “pensamentos” mas pode dar uma idéia. Agora, Jorge Amado, ganha até de Paulo Coelho (7.310.000) e de Fernando Pessoa(!!) (3.000.000) que eu imaginava que seria o campeão, mas também não é muito “citado” do tipo “como diz Jorge Amado” em blogs e sites de “frases e pensamentos”. Ah, e Manoel de Barros, que é mais “desconhecido” do público e teve 162.000 citações no Google, acho que é muito mais citado dessa forma. Por falar nisso, uma frase bastante comum na net (707 resultados entre aspas) atribuída a Graciliano Ramos é:

“Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada”.

Você sabe se é, realmente, dele?

Beijos.

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Uma vida fabiana

Escrito por Isabela Gonçalves de Menezes
Publicado originalmente na Revista Autor, em 01-Nov-2008

Em “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, encontramos Fabiano, um retirante que foge da seca acompanhado de seus dois filhos e de sua mulher. Este é descrito como um homem vermelho, queimado do sol, de olhos azuis, barba e cabelos ruivos. Um homem de coração grosso, duro como cururu, que vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios; que na caatinga às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se, tirando o chapéu na presença dos homens da cidade. Um homem que pensava pouco, desejava pouco e obedecia. Um sertanejo ensimesmado, fechado na ignorância e no analfabetismo, quase incapaz de expressar seu pensamento com palavras.

Porém, no segundo capítulo do livro, depois de enfrentadas seca e estrada, encontramos um Fabiano trabalhando de vaqueiro, às vezes feliz, satisfeito. “Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes […] – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha” (Ramos, 2006: 18-19). Fabiano já anda com firmeza no chão rachado do semi-árido e, empolgado, ‘exclama’ em voz alta que é um homem, mas, ao lembrar que seus filhos estão perto e que poderiam se admirar ouvindo-o falar sozinho, contem-se e a baixa auto-estima volta: não, não é um homem. Então corrige a frase imprudente e ‘murmura’ que não passa de um bicho.

Além de falar pouco, Fabiano às vezes utiliza nas relações com as pessoas exclamações, onomatopéias. Mas admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, chegando até mesmo a reproduzir algumas, em vão, pois sabe que são inúteis e, talvez, perigosas.

Certa vez, um de seus filhos lhe faz uma pergunta. Não compreendendo o que o filho deseja, repreende-o, repele-o envergonhado, vira o rosto para fugir à curiosidade infantil. Para ele, o menino estava ficando muito curioso e, se continuasse assim, como iria acabar? Fabiano acha que não tem o direito de saber, pois, se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender sempre mais, nunca ficaria satisfeito. Indispensável mesmo era que os filhos entrassem ‘no bom caminho’: aprender a cortar mandacaru para o gado, consertar cercas e amansar animais bravos. Entretanto, a partir da indagação do filho, lembra de um conhecido que deixou para trás, seu Tomás da bolandeira. Na verdade, tem sentimentos contraditórios: nutre especial admiração, até certa inveja pela facilidade com que seu Tomás da bolandeira se expressava e, às vezes, repudia seu conhecimento:

Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só se era porque lia demais […] Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros. […] [Mas,] certamente aquela sabedoria inspirava respeito. (Ramos, 2006: 22).

De vocabulário reduzido, mais grunhido do que falado, deseja imitá-lo. Decora algumas palavras que considera difíceis, mas as emprega fora de contexto, truncando tudo. Convencido, chega a pensar que melhora para logo depois se considerar um tolo, pois um sujeito como ele não nasceu para falar certo.  “Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?” (Ramos, 2006: 98-99).

Quando vai à cidade, desconfia que caçoam dele e, assim, evita conversas e fica carrancudo. Acredita que os habitantes da cidade são pessoas sabidas e ruins que só lhe falam com palavras bonitas e difíceis com o intuito de se aproveitar de sua ignorância para obter logro, encobrir ladroeiras e que, finalmente, matutos como ele não passam de cachorros.

Por não ter instrução, Fabiano se considera inferior e não consegue falar com as pessoas em condição de igualdade. É assim com seu patrão, que lhe explora, da mesma forma com o fiscal da prefeitura e com o “soldado amarelo”. Quando é preso, para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra paredes e grita, porém não consegue se explicar: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares” (Ramos, 2006: 35).

Contudo, quando a família segue em direção ao sul, mais uma vez fugindo da seca, para uma cidade grande, desconhecida e civilizada, pensa nos filhos na escola, aprendendo coisas difíceis e necessárias, quando a situação mudar.

No Dicionário Aurélio, o substantivo ‘fabiano’ significa indivíduo inofensivo; pobre-diabo; indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância, um joão-ninguém. Parafraseando Melo Neto (2000), em seu poema “Morte e vida severina”, diante de personagem de tão baixa auto-estima, pode-se pensar sua história como “uma vida fabiana”.

Uma crítica filosófica

O desejo por instrução decorre de conceitos positivistas, que associam o conhecimento a progresso, desenvolvimento e, principalmente, poder. Poder e conhecimento são sinônimos. Francis Bacon, o pai da filosofia experimental, disse que a “superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida”  (Horkheimer e Adorno, 1985: 19).

Para Kant, a emancipação intelectual ou esclarecimento é um “processo resultante, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro lado, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectualmente menores por seus maiores” (idem: 7). É a saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. Entendimento sem a direção de outrem é o entendimento dirigido pela razão.

Em uma das passagens de “Vidas secas”, Fabiano é preso pelo soldado amarelo. Como não tem instrução e por isso se sente inferior, não consegue se defender. Para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra as paredes da cadeia e grita.

Nesta deficiência de Fabiano em desenvolver um pensamento articulado que, manifestado em discurso, buscasse sua defesa e seus direitos, encontra-se um anti-exemplo da definição de esclarecimento como emancipação intelectual, pois a condição para ser homem é pensar por si mesmo, dizia Kant.

Entretanto, uma fundamentada e radical crítica a estes conceitos está em “Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos” de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Sobre esta obra, pode-se dizer que introduziu uma mudança de paradigma rica de conseqüências para a teoria social. Pois, até então, o pensamento do esclarecimento, da forma como se desenvolvera no século XVIII, era tomado como o legado positivo comum da modernidade (Kurz, 1997).

Este aprofundamento crítico explicita a desilusão no otimismo iluminista, com sua crença no progresso humano através do domínio da natureza. Apesar de não alimentarem dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor, os autores acreditam, contudo, ter reconhecido que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contêm o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda a parte.

Desse modo, a principal crítica que a obra traz diz que, apesar de toda racionalização, a sociedade permanece irracional. O mito do esclarecimento jaz na mimese compulsiva dos consumidores pois, com o advento e triunfo da publicidade no capitalismo cultural, o que se busca é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor, divertir-se e não ter que pensar nisso. Ou seja, a estereotipia é o pão dos homens, o progresso converte-se em regressão e a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.

Ao fim, pode-se inferir a partir de “Dialética do esclarecimento” que o Fabiano duvidoso e dúbio – pois, ora a cidade é lugar de homens fortes, ora é lugar de gente ruim que quer lhe explorar, que ora deseja imitar seu Tomás da bolandeira, ora repudia seu conhecimento, ora se sente bicho, ora homem – revela-se em sujeitos modernos e esclarecidos que, mesmo tendo estudado, são massa de manobra.

Apesar do “esclarecimento”, como criticar se também somos fabianos a imitar os zés da bolandeira, às vezes sem entender significados, signos e significantes, mas falando, usando, repetindo, perpetuando? Na verdade, “o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como progresso” (Horkheimer e Adorno, 1985: 54).

Referências

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. São Paulo: Editora Positivo, 2004.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

KURZ, R. Até a última gota. Como o Esclarecimento tornou-se mito e a promessa de liberdade converteu-se em ‘total empulhação das massas’. São Paulo, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 24 ago 1997.

MELO NETO, J. C. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RAMOS, G. Vidas secas. 99. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Nota: este ensaio é uma homenagem ao aniversário de setenta anos de “Vidas Secas” (1938-2008). Publicado em vários países, em 1962 recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA) como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.

Isabela Gonçalves de Menezes: especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior, é professora de Metodologia do trabalho científico do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade São Luís de França.

Post relacionado: Uma vida fabiana (Sub Rosa – Flabbergasted)

Sobre Graciliano Ramos, por Rose Prado

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted

Sobre Graciliano Ramos por Rose Prado. (*)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?

Li Graciliano com uns 20 anos.
O primeiro contato foi acachapante, fiquei horrorizada, cheia de poeira, sede, poeira por dentro. Lágrima por dentro que não sou de chorar.
Ainda que o livro seja linear, diz um caminho a pé, seguindo o trajeto imaginado.
Eu sofri. Eu me identifiquei com Graciliano, na busca da água. E com o Menino Mais Velho, o Menino Mais novo. Porque me faltam palavras.
Li como se o livro fosse eu. Sofri com a morte da Baleia. Faltou água pra eu chorar.
E aquele sangue que Sinha Vitória lambia era eu. Porque a vida que levo é seca, tão seca.
A segunda vez, eu já tinha os conceitos, a Literatura, a estrutura. Então não vou falar sobre o estilo de Graciliano, que não carece.
É o relógio, a faca, o sol pontuando, sem sombra, sem trégua.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura “leitura difícil”)

Não acho. E penso nos alunos. Eles lêem bem, sem dificuldade. Aquela que encontram no Rosa.
Mas não acho que aos 18 anos tenham ( alguns sim) a compreensão larga. Ainda não sabem da seca. Seca em nós, viventes.
Concordo com o filósofo Savater que propõe que se peçam leituras adequadas à faixa etária.
No nosso tempo, questionávamos, Meg. Os jovens de hoje carecem (!) de leituras com que se identifiquem.
Quando tinham de ler A hora da Estrela, ficavam desesperados. O texto de Lispector é cheio de nuances quase inacessíveis ao jovem de hoje.
Quando eu lia com eles, junto, dramatizava, explicada. Então, entendiam e iam sozinhos. Gostavam.
Quando ao livro de Graciliano: não têm dificuldade alguma. Lêem com tranqüilidade. Porque, embora Vidas Secas não seja contemporâneo, no sentido de contar a vida deles pra eles, é universal e tanto que compreendem. Por causa da brasilidade, por causa do problema da seca, que eles não sabem ser também a seca existencial. Eles entendem porque conhecem – de ler – a miséria do povo brasileiro.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
É popular sim, não exatamente pop. Popular por apontar a cultura do povo. Mas popular, assim como a Semana Santa, o Carnaval? Não acho que seja, não. Acabou ficando porque é leitura obrigatória do vestibular e das aulas de Literatura. Pode ser popular, poderia, se a Literatura fosse ensinada como devia. Não é.

Como tornar essa leitura popular? Usando metodologias que usassem intertextualidade.Ou mesmo que associasse outras linguagens.

O filme (de Nelson Pereira dos Santos) ajuda o pessoal a entender.

Se eu trabalhasse em escola, faria teatro, leitura em voz alta, filmes, jogos. Aí o livro ficava popular. Do jeito que é só mesmo a obrigatoriedade na escola o faz popular.

Sobre citações:
Quem cita geralmente o faz porque as frases de Machado e Guimarães Rosa já estão na boca do povo. Mas povo aí é palavra perigosa. São letrados de classe-média que ouvem cantar o galo mas não desconfiam que era uma gravação.

Não vejo citações de Graciliano. Porque o livro dele embora de leitura circular não é dado ao ato de despedaçar. O todo é a seca, os passos, o olho no texto, nas pegadas de Fabiano e Sinha Vitória. Não dá pra arrancar pés, olhos, braços, rabo, sangue.

Vidas Secas é um caleidoscópio cuja haste não sai sob pena de destruir o livro.
Não acho que haverá citações de frases .

*Editado

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Obrigadíssima, Rose.

Belíssimo trabalho.

Você é “fera”. 😉

Graciliano Ramos (1)

Saint-John PERSE – Amers: marcas marinhas

Zero Hora / Data: 21/2/2004
Perse é um Rimbaud adulto

Fabrício Carpinejar

O que seria da poesia de Rimbaud, que abandonou a literatura aos 20 anos, se ele continuasse a escrever? Ele realizaria o que Saint-John Perse alcançou. Essa crença leva em conta a língua como resultado de seus habitantes, a evolução de um poeta a outro, a reencarnação de livros e temas. Perse é um Rimbaud adulto; Rimbaud é um Perse jovem. O mesmo destemor oracular, as mesmas fagulhadas precisas, incisivas, simbólicas. Ambos chegaram tão próximo da verdade que ultrapassaram a loucura. O primeiro retratou o inferno; o segundo, o paraíso. Rimbaud denuncia; Perse celebra. Somando os dois, tem-se uma nova Divina Comédia.

Natural da ilha de Guadalupe, Prêmio Nobel de Literatura de 1960, Saint-John Perse (1887-1975) foi uma das expressões mais puras da língua francesa. Sua importância pode ser avaliada pela qualidade de seus tradutores: T.S Eliot em inglês (que confessou que seu conhecimento de inglês e de francês não abarcava o potencial do estilo), Ungaretti em italiano, Lezama Lima em espanhol, Walter Benjamin em alemão. O nome do poeta, na verdade, é Alexis Léger. O pseudônimo foi escolhido ao acaso e às pressas para sua estréia e gerou a independência de visão de mundo, diferenciando o escritor do diplomata.

Ninguém é capaz de repetir as miragens de Perse. O autor queima consigo as possibilidades de sua fórmula. Percebia a poesia como o território mais próximo do real absoluto, um real mítico, escapando de qualquer demarcação histórica, pessoal e geográfica. Não imita a realidade, mas a transfigura, recenseando as dimensões do sonho e do inconsciente. A manifestação lírica emerge avulsa, autônoma, como nascimento de um corpo, contra a abstração e tratando a métrica ora como movimento marítimo, ora como as dunas dos deserto. Sua fala se derrama em mágica oralidade e se desdobra em imagens alucinantes. A claridade disputa espaço com a clareza, como lâmpadas acesas durante o dia.

O escritor Bruno Palma devotou três décadas para traduzir Amers, obra central de Perse, com a experiência de ter trazido a lume Anábase, em 1979, pela Nova Fronteira, Prêmio Jabuti na época. Em 1971, pela editora Grifo, verteu excertos do livro em antologia do poeta francês com o título Marimarcas. Repensou a opção e escolheu para a edição o nome de Marcas Marinhas, favorecendo a leitura do sentido original em detrimento do neologismo. O trabalho é monumental, vencendo adversidades como a sucessão interminável de elipses, as orações intercaladas e a pontuação sistêmica do universo persiano. O resultado recompensa. Palma ressuscitou arcaísmos e se valeu do Glossário de Terminologia Marítima Internacional para preencher lacunas. Houaiss e Merquior ovacionaram os achados. “La Mer errante prise au piège de son aberration” passa a ser “o Mar errante apanhado na armadilha da sua aberração”, mantendo a gravidade das aliterações e a fluência das vogais. Assim como a limpidez de “roueries d’ ailes rétives” continua potável em português, “ardis de asas arredias”, reforçando o recuo dos “erres”. Há momentos em que a versão supera a matriz: “les vieux flocons d’ écume jaunissante” vira “os velhos flocos de espuma amarelescente”.

O escritor Saint-John Perse empreendeu Marcas Marinhas (Ateliê, 333 páginas) em oito anos, de 1948 a 1956, cinco longos poemas publicados separados que se juntaram com a febre. Apesar de escritos em épocas diferentes, possuem uma unidade ímpar, dando a impressão de que foram compostos ininterruptamente em um único dia. A obra é um poema dramático, girando em torno de três figuras: o mar, o poeta e a multidão, com nove vozes que aparecem de vez em quando e pontuam a narrativa das águas, expressas nos discursos dos oficiais e os trabalhadores do porto, do mestre de astros e de navegação, das Trágicas, das Patrícias, da Poetisa, das Profetisas, das jovens e dos Amantes. Seguindo o formato circular das tragédias gregas, o coro resume a história poética, avaliando e pesando as profecias. Trata-se de um livro em que a autoria é do Mar. “É o mar em nós que sonhará.” O segredo da poética é incorporar o duelo entre homem e imensidão. Com inveja da extensão marinha, o homem não suporta permanecer na estreiteza do barco e do leito, assim como acaba esmagado na falta de limites. O que começa como desafio do amante frente às forças subterrâneas marinhas se encerra com seu despojamento humilde em Dedicação.

Diante do mar, não adianta sussurrar, cochichar, falar baixo. O mar pede o grito, a empostação da voz, a enxada do pulmão. “Há que gritar? Há que criar? – Quem pois nos cria neste instante? E contra a morte mesma não há senão criar?” Nesse sentido, o “oceano severo” exige o teatro proposto por Saint-John Perse, uma arena multifacetada que envolve tematicamente suas relações com o comércio, os amores, o alfabeto dos astros e com a religiosidade. “Há que gritar? Há que rezar?…” O mar é a seara escolhida entre o mundo físico e imaginário, capaz de revelar “o gosto de viver o homem, em toda a sua medida”. Depois da Odisséia de Homero e antes de Omeros do caribenho Derek Walcott, Saint-John Perse é o que melhor explorou o arquétipo como epicentro de façanhas e dos desastres humanos, caos disciplinado, elemento que vai integrar o seu repertório simbólico preferido, ao lado do vento e do deserto (Anábase). Sua linhagem é do poeta criador, inventor fora de si. Não descreve as coisas ou a paisagem, funda o mundo verbal. Estranha o viver, rompendo os costumes. Acredita que a missão do poeta é ser a “má consciência do seu tempo”, o que contesta a inércia visual. Nem que para isso custe sobrepassar o entendimento e conviver com as coisas ilícitas. Porque o mar que se abre à beleza é ainda o mar do transe e do delito. Perse não é maniqueísta, mostra a verdade sem apagar a crueldade e o mistério de sua busca, provando que o útil não é o verdadeiro.

Em sua cosmogonia, o poema é maior do que o escritor. Ao mesmo tempo em que apresenta uma liberdade metafórica excessiva, não abdica da construção formal rigorosa e exata. Instaura uma sensualidade líquida entre as palavras, canção derramada, marcha das marés, reproduzindo o fervilhar das correntes com a repetição das consoantes. Radicaliza o texto em vibrações, provocando uma leitura pela intensidade dos sismos. O poeta caminha em direção ao absoluto com a simplicidade de quem levanta a âncora. Barqueiro ébrio das metáforas, suas composições são desconcertantes, com uma solidez pictórica que materializa o fantasmagórico e o sobrenatural. “O relâmpago no mar busca a bainha do navio…” ou “até seus fins de vespas amarelas,/ O verão que perde memória nos roseirais brancos” são alguns exemplos de hiperatividade sensorial. O que para a maioria dos escritores seria gordura e excesso, em Perse é essencial como uma vértebra. A atmosfera suntuosa dosa ternura com ferocidade. A dificuldade de interpretação estimula a polissemia.

O escritor transforma o verso em versículo, em altissonante timbre profético. Exulta o mar como uma pátria autêntica. Uma monarquia onírica. Não é uma poesia que se define, mas que se multiplica na dúvida, no escoamento de hipóteses. Segundo ele, a poesia é filha da interrogação mais do que a filosofia. Perguntar para Saint-John Perse é se maravilhar. Desloca vogais, migra sílabas, acumulando anáforas, denotações e conotações. Em Marcas Marinhas, o mar é apanhado em frenética metamorfose. A toda hora, “muda de dialeto”. Para acompanhar, o poeta habita a mutação, o fulgor. Do lento artesanato das ondas, o mar aparece em diversas roupagens, como “uma pele de búfalo”, “cor de pedra de estábulo’, “carne de romã, figo da África e fruto da Ásia”. Fixa-se ao mudar, revirando as vagas, captando o insondável, das sandálias deixadas nas areias pelos afogados até as naus encalhadas das estrelas. Perse acorda as lendas, atravessando as águas e suas efêmeras vidas. Seu tema de meditação é a água salgada, selvagem, de início longínquo. Se a água doce é reflexo, a matéria viva persiana não permite a cristalização, espelhamento, cresce proporcional às distorções produzidas.

O mar trabalha no descanso. Surge como um ente incorruptível, cruel e generoso no julgamento, fazendo o homem sangrar como um galo ou se reencontrar na alga da mulher. Converte o medo em aventura, o receio em excitação. “Do mar também, sabias tu? Nos vem às vezes esse grande pavor de viver.” O homem louva o mar, como um cego. Não existe uma condição de impotência humana, mas de respeito e reverência ao que não se entende o suficiente para opinar. Quem vive perto do mar, demonstra Perse, absorve o seu cheiro e a fome de eternidade. Torna-se para sempre cúmplice de seus crimes e desejos. “E de um odor de mar em nossa roupa e em nossos leitos, no mais íntimo da noite.”

Repassar Saint-John Perse para o português é comparável a traduzir o cubano José Lezama Lima e o neobarroco Paradiso (missão cumprida pela poeta Josely Vianna Batista). Se a poesia é “fotografia da respiração” (Lezama Lima), respira-se com Perse o oxigênio letal da profundeza.

Sobre o autor:

PERSE, SAINT-JOHN

Né à Pointe-à-Pitre (Guadeloupe) le 31 mai 1887, Alexis Saint-Leger Leger est appelé à parcourir le monde en tant que diplomate. Il rencontre Claudel et le groupe de La Nouvelle Revue Française. En 1940, il quitte la France pour les États-Unis et le gouvernement de Vichy le déchoit de la nationalité française. Rétabli dans sa dignité d’ambassadeur de France, il reçoit le Grand Prix national des Lettres en 1959 et le Prix Nobel de Littérature en 1960. Il meurt à Giens le 20 septembre 1975.