Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

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Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

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Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

ROBERTO MACHADO – ENTREVISTA

ENTREVISTA  À REVISTA FILOSOFIA
Interdisciplinaridade para a Filosofia da diferença
Roberto Machado, que foi aluno e hoje é estudioso de Deleuze, explica como filósofo francês usa a união de vários pensamentos e disciplinas, como arte e a ciência, para a construção da singularidade e do pensar diferente

POR PATRÍCIA PEREIRA

 
 
FOTOS: SILVIA CONSTANTI
“Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por meio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados -principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamentoda diferença “

Há uma famosa frase de Foucault que diz que “um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Para Roberto cabral de Melo Machado, autor de Deleuze e a Filosofia – já esgotado – e Deleuze, a Arte e a Filosofia, a ser lançado em agosto deste ano, isto não é possível: “Foi uma brincadeira que Foucault fez”, afirma. Machado explica que não tem sentido ser deleuziano, pois, como Nietzsche e Foucault, Deleuze é um filósofo da singularidade, a quem não caberia ter discípulos. Seus escritos devem ser usados, por seus seguidores, como instrumentos para que cada um crie seu próprio pensamento. Machado é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade católica de Louvain, na Bélgica, tendo feito seu pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com Deleuze. “Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar.” hoje, professor titular do Instituto de Filosofia e ciências Sociais da UFRJ (IFcS/UFRJ), Machado diz nesta entrevista que, para Deleuze, há ressonâncias entre a arte, a ciência e a Filosofia, sem que haja prioridade de uma sobre as outras. as três seriam atividades criadoras, com interferências mútuas. ou seja, no “saco” da Filosofia também podem entrar ideias vindas da arte e da ciência. Também aponta como a Filosofia de diferentes pensadores aparece na criação de conceitos por Deleuze: “Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia.”

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – O que mais o instiga em Deleuze? O que o motiva a estudá-lo e publicar livros sobre ele?
Roberto Machado – Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. Admiro-o muito como alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, preparando intensamente seus cursos, transformando esses cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, ele era alguém profundamente comprometido com as questões atuais do mundo, às quais dava respostas originais e muito sugestivas. Fui tocado pela maneira como pensou o socialismo e o capitalismo, a questão palestina, a importância do chamado terceiro-mundo, o movimento de maio de 68, as minorias, as drogas, etc. O que me levou a estudá-lo foi, antes de tudo, o encanto de suas aulas, cheias de sugestões sobre como pensar filosoficamente esses e muitos outros temas. Mas, sobretudo, o desejo de compreender seu pensamento de modo sistemático, pois mesmo notando o quanto suas aulas e seus escritos eram sugestivos, senti necessidade de esclarecer o que possibilitava todas aquelas ideias. Deleuze é um dos filósofos mais complicados que li. Sentia que estávamos maravilhados com o que ele dizia, mas compreendíamos superficialmente seu pensamento. Por isso resolvi estudar sua Filosofia sistematicamente e esclarecer seu modo de pensar em todos os seus livros.

FILOSOFIA – Em 1990, o senhor publicou o livro Deleuze e a Filosofia. Em agosto deste ano, irá publicar Deleuze, a Arte e a Filosofia. Em que sentido o segundo livro complementa o primeiro?
Machado – Logo depois que fiz concurso para professor titular da UFRJ, em 1984, com a tese que foi publicada em livro com o título Nietzsche e a verdade, dediquei meus cursos e minha pesquisa à Filosofia de Deleuze. Foi assim, por exemplo, que fiz pós-doutorado com ele no ano letivo de 1985-1986, na Universidade de Paris VIII, onde ele ensinava. Em 1990, publiquei o livro Deleuze e a Filosofia, que é o resultado desses estudos. As principais hipóteses desse livro, há muito esgotado, são as seguintes: 1) O tema central da Filosofia de Deleuze é o pensamento, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia: filósofos, cientistas, artistas são pensadores, mesmo que pensem com elementos diferentes; 2) Ao estudar a Filosofia ou saberes não filosóficos, Deleuze busca elaborar o conceito de pensamento diferencial e fazer a crítica do pensamento representativo, aquele que subordina a diferença à identidade; 3) Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por intermédio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados – principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamento da diferença. Depois que terminei meu estudo, Deleuze (que morreu em 1995) ainda escreveu alguns livros. Ora, lendo seus novos livros, ou relendo mais atentamente livros que ele havia escrito sobre a pintura, o cinema e a Literatura, que eu não havia analisado, descobri ser possível mostrar que as hipóteses que eu procurava comprovar levando em conta seus textos sobre filósofos, também podiam ser confirmadas pelos textos não analisados anteriormente. Desse modo, levando em consideração tudo o que Deleuze escreveu, cheguei à conclusão nesse meu novo livro, Deleuze, a Arte e a Filosofia, que a questão central de sua Filosofia, “O que significa pensar?”, tem sempre como resposta a afirmação da divergência e da disjunção. Isto é, o que lhe interessa é, antes de tudo, o estabelecimento da relação entre termos, ou entre séries, como uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Enunciado assim, isso pode parecer enigmático, e realmente a Filosofia de Deleuze é muito complicada. Mas, felizmente, fui capaz de mostrar, no que diz respeito a cada um de seus livros e à totalidade do que ele escreveu, o que isso quer dizer.

NÃO HÁ CONCEITOS ETERNOS. POR ISSO A FILOSOFIA CONTINUA VIVA, SEMPRE SE TRANSFORMANDO, SEMPRE PENSANDO NOVOS PROBLEMAS E NOVAS QUESTÕES: SEMPRE CRIANDO NOVOS CONCEITOS

 

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – De acordo com Deleuze, o pensamento não é privilégio da Filosofia. Ele também é produzido pela Arte e pela Ciência. Mas qual seria a diferença entre as três formas de pensar: são estruturas diferentes de produção de pensamento (maneiras diferentes de pensar os mesmos temas) ou formas de pensamento com focos distintos (cada uma se volta para certos temas)?
Machado – Há uma tendência da Filosofia moderna, desde Kant, de distinguir a Filosofia dos outros saberes por uma diferença de nível, o que faz da Filosofia um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação. É essa, por exemplo, a posição do neopositivismo, da Epistemologia francesa, da Filosofia Analítica da linguagem. Diferentemente dessas correntes, a Filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a Filosofia com relação às Ciências e às Artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes produziriam conhecimento e a Filosofia seria uma reflexão sobre esses conhecimentos da Ciência, das Artes, da Literatura. Para Deleuze, a Filosofia é criadora e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas isso não significa assimilar os diferentes domínios de saber, pois o poder criador da Filosofia é específico. A diferença é que o objetivo da Ciência é criar funções, o objetivo das Artes e da Literatura é criar agregados sensíveis, sensações, e o objetivo da Filosofia é criar conceitos. Assim, há especificidade dos saberes, no sentido em que cada um responde às suas próprias questões ou procura resolver com seus próprios meios – conceitos, funções, sensações – problemas semelhantes aos colocados pelos outros saberes.

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Uma vida fabiana

Escrito por Isabela Gonçalves de Menezes
Publicado originalmente na Revista Autor, em 01-Nov-2008

Em “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, encontramos Fabiano, um retirante que foge da seca acompanhado de seus dois filhos e de sua mulher. Este é descrito como um homem vermelho, queimado do sol, de olhos azuis, barba e cabelos ruivos. Um homem de coração grosso, duro como cururu, que vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios; que na caatinga às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se, tirando o chapéu na presença dos homens da cidade. Um homem que pensava pouco, desejava pouco e obedecia. Um sertanejo ensimesmado, fechado na ignorância e no analfabetismo, quase incapaz de expressar seu pensamento com palavras.

Porém, no segundo capítulo do livro, depois de enfrentadas seca e estrada, encontramos um Fabiano trabalhando de vaqueiro, às vezes feliz, satisfeito. “Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes […] – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha” (Ramos, 2006: 18-19). Fabiano já anda com firmeza no chão rachado do semi-árido e, empolgado, ‘exclama’ em voz alta que é um homem, mas, ao lembrar que seus filhos estão perto e que poderiam se admirar ouvindo-o falar sozinho, contem-se e a baixa auto-estima volta: não, não é um homem. Então corrige a frase imprudente e ‘murmura’ que não passa de um bicho.

Além de falar pouco, Fabiano às vezes utiliza nas relações com as pessoas exclamações, onomatopéias. Mas admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, chegando até mesmo a reproduzir algumas, em vão, pois sabe que são inúteis e, talvez, perigosas.

Certa vez, um de seus filhos lhe faz uma pergunta. Não compreendendo o que o filho deseja, repreende-o, repele-o envergonhado, vira o rosto para fugir à curiosidade infantil. Para ele, o menino estava ficando muito curioso e, se continuasse assim, como iria acabar? Fabiano acha que não tem o direito de saber, pois, se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender sempre mais, nunca ficaria satisfeito. Indispensável mesmo era que os filhos entrassem ‘no bom caminho’: aprender a cortar mandacaru para o gado, consertar cercas e amansar animais bravos. Entretanto, a partir da indagação do filho, lembra de um conhecido que deixou para trás, seu Tomás da bolandeira. Na verdade, tem sentimentos contraditórios: nutre especial admiração, até certa inveja pela facilidade com que seu Tomás da bolandeira se expressava e, às vezes, repudia seu conhecimento:

Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só se era porque lia demais […] Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros. […] [Mas,] certamente aquela sabedoria inspirava respeito. (Ramos, 2006: 22).

De vocabulário reduzido, mais grunhido do que falado, deseja imitá-lo. Decora algumas palavras que considera difíceis, mas as emprega fora de contexto, truncando tudo. Convencido, chega a pensar que melhora para logo depois se considerar um tolo, pois um sujeito como ele não nasceu para falar certo.  “Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?” (Ramos, 2006: 98-99).

Quando vai à cidade, desconfia que caçoam dele e, assim, evita conversas e fica carrancudo. Acredita que os habitantes da cidade são pessoas sabidas e ruins que só lhe falam com palavras bonitas e difíceis com o intuito de se aproveitar de sua ignorância para obter logro, encobrir ladroeiras e que, finalmente, matutos como ele não passam de cachorros.

Por não ter instrução, Fabiano se considera inferior e não consegue falar com as pessoas em condição de igualdade. É assim com seu patrão, que lhe explora, da mesma forma com o fiscal da prefeitura e com o “soldado amarelo”. Quando é preso, para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra paredes e grita, porém não consegue se explicar: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares” (Ramos, 2006: 35).

Contudo, quando a família segue em direção ao sul, mais uma vez fugindo da seca, para uma cidade grande, desconhecida e civilizada, pensa nos filhos na escola, aprendendo coisas difíceis e necessárias, quando a situação mudar.

No Dicionário Aurélio, o substantivo ‘fabiano’ significa indivíduo inofensivo; pobre-diabo; indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância, um joão-ninguém. Parafraseando Melo Neto (2000), em seu poema “Morte e vida severina”, diante de personagem de tão baixa auto-estima, pode-se pensar sua história como “uma vida fabiana”.

Uma crítica filosófica

O desejo por instrução decorre de conceitos positivistas, que associam o conhecimento a progresso, desenvolvimento e, principalmente, poder. Poder e conhecimento são sinônimos. Francis Bacon, o pai da filosofia experimental, disse que a “superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida”  (Horkheimer e Adorno, 1985: 19).

Para Kant, a emancipação intelectual ou esclarecimento é um “processo resultante, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro lado, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectualmente menores por seus maiores” (idem: 7). É a saída do homem de sua menoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. Entendimento sem a direção de outrem é o entendimento dirigido pela razão.

Em uma das passagens de “Vidas secas”, Fabiano é preso pelo soldado amarelo. Como não tem instrução e por isso se sente inferior, não consegue se defender. Para extravasar seus sentimentos, pois se considera injustiçado, esmurra as paredes da cadeia e grita.

Nesta deficiência de Fabiano em desenvolver um pensamento articulado que, manifestado em discurso, buscasse sua defesa e seus direitos, encontra-se um anti-exemplo da definição de esclarecimento como emancipação intelectual, pois a condição para ser homem é pensar por si mesmo, dizia Kant.

Entretanto, uma fundamentada e radical crítica a estes conceitos está em “Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos” de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Sobre esta obra, pode-se dizer que introduziu uma mudança de paradigma rica de conseqüências para a teoria social. Pois, até então, o pensamento do esclarecimento, da forma como se desenvolvera no século XVIII, era tomado como o legado positivo comum da modernidade (Kurz, 1997).

Este aprofundamento crítico explicita a desilusão no otimismo iluminista, com sua crença no progresso humano através do domínio da natureza. Apesar de não alimentarem dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor, os autores acreditam, contudo, ter reconhecido que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contêm o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda a parte.

Desse modo, a principal crítica que a obra traz diz que, apesar de toda racionalização, a sociedade permanece irracional. O mito do esclarecimento jaz na mimese compulsiva dos consumidores pois, com o advento e triunfo da publicidade no capitalismo cultural, o que se busca é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor, divertir-se e não ter que pensar nisso. Ou seja, a estereotipia é o pão dos homens, o progresso converte-se em regressão e a própria razão se tornou um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba.

Ao fim, pode-se inferir a partir de “Dialética do esclarecimento” que o Fabiano duvidoso e dúbio – pois, ora a cidade é lugar de homens fortes, ora é lugar de gente ruim que quer lhe explorar, que ora deseja imitar seu Tomás da bolandeira, ora repudia seu conhecimento, ora se sente bicho, ora homem – revela-se em sujeitos modernos e esclarecidos que, mesmo tendo estudado, são massa de manobra.

Apesar do “esclarecimento”, como criticar se também somos fabianos a imitar os zés da bolandeira, às vezes sem entender significados, signos e significantes, mas falando, usando, repetindo, perpetuando? Na verdade, “o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como progresso” (Horkheimer e Adorno, 1985: 54).

Referências

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. São Paulo: Editora Positivo, 2004.

HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

KURZ, R. Até a última gota. Como o Esclarecimento tornou-se mito e a promessa de liberdade converteu-se em ‘total empulhação das massas’. São Paulo, Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 24 ago 1997.

MELO NETO, J. C. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RAMOS, G. Vidas secas. 99. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Nota: este ensaio é uma homenagem ao aniversário de setenta anos de “Vidas Secas” (1938-2008). Publicado em vários países, em 1962 recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA) como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.

Isabela Gonçalves de Menezes: especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior, é professora de Metodologia do trabalho científico do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade São Luís de França.

Post relacionado: Uma vida fabiana (Sub Rosa – Flabbergasted)

Invasão na USP revela um desejo paradoxal por ordem

Os sociólogos Francisco de Oliveira e Laymert Garcia dos Santos e o filósofo Paulo Eduardo Arantes discutem o significado da crise na USP

Movimento estudantil rompeu hiato de apatia, mas seu objetivo é conservador

UIRÁ MACHADO
COORDENADOR DE ARTIGOS E EVENTOS

“O período das grandes marchas acabou”, afirma o filósofo Paulo Arantes. A invasão da reitoria da USP também. E agora?
Seria um equívoco procurar no passado -e na mística de 68- a chave de compreensão do movimento liderado pelos estudantes contra o governo do Estado e o comando da universidade. Parece haver algo de novo no ar, embora ainda não seja possível dizer exatamente o que nem afirmar qual o legado que deixará para a esquerda.
O que já se sabe é que nasce com o mérito de romper um hiato de apatia e desmobilização, mas marcado por um paradoxo: o movimento que se pretende revolucionário e desafia a ordem legal é o mesmo que luta por pautas conservadoras e para restabelecer a ordem.
A análise é de Paulo Arantes e dos sociólogos Francisco de Oliveira e Laymert Garcia dos Santos, três dos mais importantes intelectuais da esquerda brasileira, próximos dos estudantes e simpáticos ao movimento. A Folha os convidou na última terça-feira para debater o significado da crise na USP, quando o cenário para o fim da invasão já estava desenhado.
Naquele dia, Arantes e Oliveira -e mais alguns colegas- participaram de uma reunião com a reitora da USP, Suely Vilela, para discutir os rumos da crise na universidade. Ficaram ainda mais convencidos da irrelevância da política.
“A ocupação da reitoria da USP mostra de forma escancarada que a política tradicional não tem mais capacidade de processar os conflitos sociais”, afirma Oliveira. “É essa incapacidade que eu venho chamando de irrelevância da política.”

Adeus às marchas
“Simplesmente estamos nos dando conta de que política pode ser outra coisa. Um pontapé na porta rompeu uma rotina de decretos, de apatia. E fez com que um governo prepotente revogasse os decretos. Pode ser que o movimento não tenha um futuro. Daqui a dois dias [última quinta-feira] vão desocupar e não se sabe o que vai acontecer. Estamos vivendo um tempo inesperado, porque não entra nos parâmetros antigos. O período das grandes marchas acabou”, diz Arantes.
O filósofo compara a situação atual com a de 2000, quando os alunos se associaram a outros setores em greve e conseguiram mobilizar 50 mil pessoas na avenida Paulista (15 mil, segundo a Polícia Militar).
Ele diz que o movimento de agora, “do ponto de vista política, é uma molécula”, mas produziu “um deus-nos-acuda que não havia sido visto”. A reação, diz Arantes, é desproporcional.
Se a política tradicional está em xeque, dizem eles, é preciso buscar outras formas de olhar para a crise na USP. E uma delas é justamente a reação da sociedade -mas, sobretudo, a da própria universidade.
Quando os estudantes estavam havia poucos dias na reitoria, professores da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), unidade tradicionalmente de esquerda, escreveram textos condenando a violência da ocupação. Outros professores organizaram uma passeata anti-invasão.
“São manifestações de extrema-direita que nem na ditadura nós tivemos”, diz Arantes.
“O grau de apatia, letargia e neutralização da política chegou a um ponto que reivindicar o que os alunos estão reivindicando e apontar os limites das ações do governo já é uma coisa escandalosa”, diz Laymert.
Aí apontam o que, para eles, é o grande mérito dos estudantes: se manifestar contra algo com o que não concordavam.
Essa linha de raciocínio os leva a considerar que a ordem, na verdade, é uma desordem aceita por todos. O primeiro ato de violência, dizem, não partiu dos estudantes, mas de José Serra, que decidiu governar por decreto e atacar a autonomia das universidades. O mesmo vale para o plano federal, em que, desde FHC, a prática é governar por medidas provisórias.
“A surpresa foi que ainda existe gás para reagir quando tudo vinha sendo engolido passivamente”, diz Laymert.
No começo do ano, o governador José Serra (PSDB) editou uma série de decretos que, segundo parte da comunidade acadêmica, ameaçavam a autonomia universitária. No dia 31 de maio, publicou um inédito decreto declaratório e revogou quase todos os itens que estavam sob a mira dos alunos.

Paradoxo
A medida foi considerada um recuo de Serra e uma vitória dos estudantes. Mas essa conquista encerra um paradoxo.
“Eu já disse isso a eles [os alunos], e eles ficam meio aborrecidos: foi uma ação de subversão -que parece subversão, mas não existe subversão numa sociedade permissiva- para o retorno ao statu quo ante. Zapatistas, ex-maoístas, trotskistas, independentes se juntaram, ocuparam a reitoria para que o reitor tivesse o direito do pleno exercício da execução orçamentária e financeira de uma universidade, que é puro establishment. É uma subversão pela ordem”, afirma Arantes, o mais próximo dos alunos.
“O famoso Estado democrático de Direito sendo violado nas suas regras elementares -que é o funcionamento de uma autarquia- provocou um ato considerado de subversão revolucionária para colocar as coisas no seu lugar, que é um lugar conservador”, completa.
Para Arantes, as demais reivindicações vão na mesma linha. A pauta inclui, entre outras, medidas de inclusão social (“assistencialismo”) e a Estatuinte (“dentro da normalidade de uma vida institucional”).
“A pauta de reivindicações, a própria reitora o disse, é perfeitamente realizável. Um dos pontos é o serviço de ônibus da USP. Ora, o que isso quer dizer para uma universidade como a de São Paulo? Não vejo como isso possa estar dizendo que se trata de nova forma de política”, diz Oliveira.

Contágio
Os três concordam quanto ao caráter algo conservador das reivindicações dos estudantes. Ao mesmo tempo, enxergam uma certa novidade no movimento: além da capacidade de quebrar o silêncio, apontam a forma de manifestação.
“No conteúdo, não há nenhuma alternativa política substantiva. Na forma, é uma ação política inédita, que tende a se multiplicar, como fórmula, independentemente do conteúdo. O contágio então vem da tecnologia política, do modo de fazer. O conteúdo está na forma”, diz Arantes.
Se a novidade está na forma, é porque os tempos são outros. Os modos antigos de fazer política, insistem eles, não têm mais alcance nem sentido.

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Levar a Filosofia para a empresa pode ajudar a encontrar o melhor de cada um, segundo Jerry Walls

Entrevista concedida a Jacqueline Sobral

Jerry Walls fará a abertura do 33º Congresso Estadual de RH – De Platão a Peter Drucker: A Sabedoria na Gestão com Pessoas, promovido pela ABRH-RJ entre os dias 17 e 19 de junho, no Hotel Intercontinental. Para mais informações, acesse http://www.abrhrj.org.br

Num mundo em que novas tecnologias são descobertas todos os dias e em que as empresas competem entre si para reter e atrair novos clientes ávidos por produtos e serviços, há um grupo de pessoas que prega o retorno a idéias do passado. A palavra grega Filosofia, que teria sido criada no século 5 a.C. por Pitágoras, volta a ser objeto de estudo de profissionais em pleno século 21. Jerry Walls, PhD em Filosofia e consultor do Morris Institute, afirma que as pessoas devem implementar em seu cotidiano pensamentos que conseguiram sobreviver ao teste do tempo. Em entrevista à MELHOR, Walls afirma que a Filosofia é uma grande libertadora e pode ajudar gestores e funcionários a dar o melhor de si, a conquistarem satisfação em seu trabalho e a serem persistentes para a conquista do sucesso.

MELHOR – Que filósofos, idéias e pensamentos o senhor sugere a profissionais que querem ter sucesso?

Walls – Acredito que o sucesso sempre surge da excelência e da paixão, conjugadas com as idéias certas e da maneira correta. Grandes filósofos práticos como Lao Tsu, Confúcio, Sêneca, Marco Aurélio, Cícero e Ralph Waldo Emerson nos aconselharam a nos conhecer – nossos talentos, nossos entusiasmos e nossas oportunidades -, e fazer surgir as melhores oportunidades todos os dias. Eu incitaria os profissionais de qualquer nível a redescobrir os maiores pensadores práticos da História e usar suas idéias. Um colega meu, Tom Morris, está levando as pessoas a terem essa sabedoria com os seus livros, como E Se Aristóteles Dirigisse a General Motors?, O Verdadeiro Sucesso e E se Harry Potter Dirigisse a General Electric?.

Existem casos de executivos de empresas de segmentos altamente competitivos que efetivamente colocaram lições filosóficas em prática, com resultados bem-sucedidos comprovados?

John Alison, presidente e CEO do BB&T Bank, conversa com todos os seus associados sobre Aristóteles e pede que leiam sobre Filosofia para melhorar e aprofundar o comportamento deles nos negócios. Steve Leveen, co-fundador e presidente da Levenger, a maior empresa de catálogos e varejo dos EUA, lê Filosofia o tempo todo – especialmente sobre os *estóicos (Originado no século IV a.C., com o filósofo Zenão de Cicio, o estoicismo tinha como princípios a conformação e imperturbabilidade. ) – e usa as idéias tanto para continuar tendo sucesso quanto para ajudar as pessoas a sua volta a se fortalecerem internamente de modo a atrair novos desafios. Uma grande cadeia de restaurantes americana, a Chic-Fil-A, baseia tudo que eles fazem em uma filosofia de vida muito positiva e obtém resultados incríveis com isso. Em termos de resultados mensurados, nós temos uma forte evidência anedótica de que a sabedoria dos grandes pensadores do passado pode levar as pessoas a altos níveis de sucesso no presente. Banqueiros e varejistas não têm tempo de se entregar ao hobby da Filosofia a não ser que isso traga resultados. Alguns são difíceis de serem quantificados e isso explica o porquê de muitas pessoas ainda negligenciarem tais idéias. Como na vida em geral, é freqüente que as coisas mais difíceis de se mensurar sejam as mais importantes, porque servem de suporte àquelas que podemos quantificar, como satisfação dos funcionários, taxas de rotatividade, manutenção de clientes e performance em indústrias altamente competitivas.

Em países como o Brasil, onde o nível educacional é baixo, é possível falar no uso da Filosofia na vida profissional?

Se Aristóteles dirigisse a General Motors, ele teria se concentrado nos quatro fundamentos da excelência: verdade, beleza, bondade e unidade. Ele teria se perguntado, todos os dias, como aplicar essas coisas no local de trabalho

É possível sim. A Filosofia não começa nas universidades. Tem início com as pessoas que são curiosas o suficiente para fazer perguntas sobre as coisas mais importantes da vida. Todos nós precisamos de sabedoria em nossas vidas. Algumas das pessoas mais sábias do mundo não são necessariamente as mais educadas no sentido comum. Mas são pessoas que prestam atenção no que elas vêem e em suas experiências, e que lembram das lições que têm aprendido sobre a vida. Essas pessoas respondem muito bem à grande sabedoria do passado. A Filosofia não precisa ser complexa para ser poderosa. Normalmente, é mais profunda quando é mais simples.

Mas as lições filosóficas não vão de encontro às expectativas de curto prazo das empresas?

Filósofos apreciam a verdade. É difícil obter resultados sólidos a longo ou a curto prazo se você não está aberto e sensível à verdade. Filósofos apreciam a beleza. Uma bonita solução para um problema do cliente pode criar resultados incríveis em curto prazo. Filósofos enfatizam a importância da bondade e da ética. Pessoas que acreditam em seu trabalho e no do colega trabalham melhor juntas e são as mais produtivas. Uma falta de bondade gera ressentimento e, quando não são bem tratadas, as pessoas nunca alcançam seu máximo e fazem o seu melhor.

Vamos pegar um exemplo prático: o que podemos aprender com a Alegoria da Caverna, de Platão, e a gestão de pessoas de hoje em dia?

Platão acreditava que todos nós somos pessoas acorrentadas em uma caverna, olhando uma dança de sombras pela parede e confundindo essas ilusões com a realidade. O filósofo é uma pessoa que liberta a si próprio dessas correntes, que sai dessa caverna de ilusões, vê a verdadeira luz do dia e retorna à caverna para ajudar a libertar os outros. Na área de Recursos Humanos, como em qualquer função empresarial, nós damos o nosso melhor se estamos livres de ilusões e entendemos as realidades de nossa situação. Nós também contratamos os melhores profissionais quando conseguimos achar pessoas que saibam distinguir aparências de realidades. A Filosofia é uma grande libertadora. Quando é bem usada, pode libertar as pessoas para serem o seu melhor e fazerem o seu melhor em qualquer ambiente.

Nietzsche costumava dizer que “acreditar que a satisfação vem facilmente é destrutivo em seus efeitos, por nos fazer desistir prematuramente frente aos desafios que podem ser superados somente se estivermos preparados.” Esse é um bom pensamento para ser seguido? Persistência é sempre sinônimo de sucesso?

Persistência é sempre uma pré-condição para o sucesso que vale a pena alcançar. As pessoas mais bem-sucedidas não são sempre as mais talentosas ou as mais inteligentes, mas tendem a ser as mais comprometidas, as mais resistentes e as mais persistentes. Cervantes uma vez escreveu: “Diligência é a mãe da boa fortuna.” Trabalhe em qualquer coisa que você queira e continue a trabalhar com diligência. Não desista. Nietzsche estava certo e ele entendeu o poder da persistência em sua própria vida. É uma qualidade que todos nós temos de ter.

É realmente possível aplicar a Filosofia em nosso trabalho diário e na administração de nossas carreiras, mesmo quando somos bombardeados o tempo todo por novas informações e quando somos cobrados a fazer o melhor em menos tempo?

Thomas Hobbes era pessimista sobre a natureza humana. Mas a maioria dos pensadores práticos da História compreendeu que a preocupação com os outros e um senso sobre a importância de atender os outros são os maiores atalhos para verdadeiros resultados excelentes

Precisamos estabelecer uma distinção cuidadosa entre a Filosofia Teórica e a Prática. A Filosofia Teórica requer sentar e ponderar. A Filosofia Prática procura levar as pessoas à ação –  não simplesmente qualquer ação, mas uma ação inteligente. Em tempos de mudança, precisamos basear nossas ações em idéias que vêm sobrevivendo ao teste do tempo. Os valores e os insights que nunca mudam são os que podem melhor nos ajudar a obter nossas orientações e a fazer nosso melhor em circunstâncias que estão mudando tremendamente. A maior prática da Filosofia Clássica proporciona a qualquer pessoa um norte nos negócios e na vida, uma verdadeira vantagem.

Podemos começar a questionar tudo na busca pela verdade, se tomarmos Sócrates como exemplo.  Mas o que pode ser a verdade nos negócios e em RH? É possível questionar tudo em uma empresa sem colocar em risco o seu emprego?

Pessoas questionadoras são pessoas que podem descobrir maneiras de melhorar o trabalho delas. Ao adotarmos a Filosofia Prática, questionamos com o objetivo de melhorar. Não estamos apenas contemplando e fazendo perguntas sem fim. Queremos melhores caminhos, queremos metas mais altas e queremos valores mais profundos para basear o nosso trabalho. Dessa forma, em bons ou maus momentos, podemos trazer idéias de poder para o ambiente.


As pessoas, hoje, querem o sucesso. Mas o que é o sucesso? O profissional não precisa saber primeiro exatamente o que ele sente e o que ele quer, em vez de apenas seguir o que a sociedade diz a ele?

O verdadeiro sucesso está relacionado à conquista de metas valiosas que nós, como indivíduos, achamos realmente animadoras e significativas. Essas metas podem não combinar com o que a sociedade, nossa família ou nossos amigos pensam. Gestores precisam saber casar suas verdadeiras paixões com seus objetivos, assim como os seus subordinados também. Quando essas metas são identificadas e conhecidas, tanto os administradores quanto os seus funcionários terão um senso de satisfação que está no coração do verdadeiro sucesso.

Ética é um tema importante nas empresas. O que os filósofos podem nos ensinar sobre a questão?

Muitas pessoas confundem Ética. Pensam que se trata somente de ficar longe de problemas. Os grandes filósofos entendiam que Ética é criar força – pessoas fortes, empresas fortes, relacionamentos fortes com clientes. Se entendermos a verdadeira natureza da Ética, ficaremos motivados a ser o mais ético possível em qualquer situação. E no centro desse complicado tema está algo mais simples que a Regra de Ouro: trate os outros da maneira com a qual você gostaria de ser tratado se estivesse no lugar deles. Esse é o fundamento para um ótimo trabalho e ótimos relacionamentos.

O filósofo Thomas Hobbes, no livro Leviatã, dizia que o soberano é movido por orgulho. Muitos executivos têm esse tipo de raciocínio?

Aqueles que buscam sua própria glória e fama de uma forma egocêntrica normalmente alienam todos a sua volta. As melhores pessoas não querem trabalhar para um egomaníaco. E uma pessoa arrogante, que só se preocupa com si própria, perderá o suporte dos melhores profissionais capazes de ajudá-la a fazer ótimas coisas. Hobbes era pessimista sobre a natureza humana e criou o termo “estado natural” [que seria um estágio anterior ao estado do homem em sociedade]. Mas a maioria dos pensadores práticos da História, independentemente de terem começado com uma visão pessimista ou otimista do ser humano, compreenderam que a preocupação com os outros e um senso sobre a importância de atender os outros são os maiores atalhos para verdadeiros resultados excelentes.

Sobre o livro de seu amigo Tom Morris, E Se Aristóteles Dirigisse a General Motors?, o que o filósofo, afinal, teria feito na empresa?

Ele teria se concentrado nos quatro fundamentos da excelência: verdade, beleza, bondade e unidade. Ele teria se perguntado, todos os dias, como aplicar essas coisas no trabalho, no design de produtos, nas vendas e em todas as outras facetas da empresa. Teria contratado não apenas pessoas inteligentes, mas realmente sábias. Ele teria criado parcerias em novos formatos. Teria sido um grande pensador que se preocuparia com todas as pequenas coisas. E ele alcançaria alguns resultados surpreendentes.

PÍLULAS FILOSÓFICAS

Como Goethe afirmou: “Nada é mais valioso que este dia”. Então, curta o dia o máximo que você conseguir

Jerry Walls dá algumas dicas baseadas em lições filosóficas para um profissional que está em busca de sucesso:

– Estabeleça objetivos claros enraizados no autoconhecimento e na compreensão do que é bom para os outros e para você próprio.
– Construa uma forte autoconfiança no que você está fazendo, baseada em competências pessoais verdadeiras.
– Foque sua concentração no que será preciso para atingir seus objetivos. Então, trabalhe duro, começando de onde você estiver. Jose Ortega y Gassett afirmou uma vez: “Nós distinguimos o homem excelente do homem comum dizendo que o primeiro é o que mais exigiu de si próprio e o segundo o que não fez nenhuma exigência a si mesmo.”  No mundo antigo, Publilius Syrus afirmou: “Se você quer alcançar o ponto mais alto, comece do mais baixo.”
– Seja consistente no que faz. Consistência é uma fonte de grande poder na vida. Epictetus nos lembra que “nenhuma grande coisa foi criada de repente”. A conquista de grandes coisas requer esforços consistentes e constantes.
– Tenha entusiasmo e paixão pelo que você faz. Nietzsche disse: “A vida não é cem vezes tão curta para entediarmos a nós mesmos?” Faça alguma coisa que ame, encontre o caminho para amar o que faz e, então, você será bem-sucedido.
– Para citar o pensador antigo Heráclito, “Caráter é destino.” Sucesso anti-ético é sempre auto-destrutivo. Somente o sucesso ético irá durar. Tenha cuidado com pequenas coisas. Sempre aja com integridade.
– Cultive uma capacidade de curtir o processo durante o caminho. Somos tão auto-orientados que esquecemos de curtir o processo. Mas é o processo que produz os resultados. As melhores pessoas em qualquer desafio são aquelas que amam o que estão fazendo. Como Goethe afirmou: “Nada é mais valioso que este dia”. Então, curta o dia o máximo que você conseguir!

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Lula e seus irmãos

Relação de Vavá e frei Chico com o presidente da República se ajusta mais ao gênero cômico do que ao trágico

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Faltam alguns dos precedentes trágicos da situação vivida hoje por Lula e seus irmãos.
Com efeito, quando Aristóteles pensou sobre os eventos favoráveis à excitação do sentimento trágico, assinalou aqueles que diziam respeito aos amigos e, em particular, às ligações de sangue.
Isso porque, diz ele, “se as coisas se passam entre inimigos, não há que compadecer-nos nem pelas ações nem pelas intenções deles, a não ser pelo aspecto lutuoso dos acontecimentos; e assim também entre estranhos. Mas, se ações catastróficas sucederem entre amigos -como, por exemplo, irmão que mata ou esteja em via de matar o irmão, ou um filho o pai, ou a mãe um filho, ou um filho a mãe, ou quando aconteçam outras coisas que tais- eis os casos a discutir”.
Tais eventos são os que mais diretamente provocam em nós terror e piedade, os afetos trágicos por excelência.
Ambos decorrem da empatia, isto é, do sentimento de que também a nós poderia ocorrer um desastre semelhante, pois todos os que têm parentes e os amam podem intuir o temor de tê-los contra si, assim como estão aptos a sentir compaixão por quem sofresse pesar semelhante.
Por isso mesmo, Hegel entendeu que a essência da tragédia se caracterizava pelo confronto entre dois direitos antagônicos e contraditórios: os da leis escritas do Estado e os da lei não-escrita da família. Um belo exemplo dessa essência trágica, em língua portuguesa, encontra-se em “A Castro”, de António Ferreira, na qual se encena a conhecida história de Inês, amante do infante d. Pedro, que é assassinada a mando do rei, d. Afonso 4ø, temeroso de que a paixão ilícita do filho pusesse a perder os seus esforços de autonomia do trono português diante do poder de Castela.

Temor e compaixão
Em “Os Lusíadas”, não faltam células trágicas similares, em que o rei se deixa arrastar pelas contingências afetivas de sua “persona personalis” em detrimento dos deveres transcendentes de sua “persona ficta” ou “mystica”, que representa o Estado.
A considerar desse modo o caso, a atual irrupção de Vavá no noticiário do governo, guardaria em si o embrião de uma cena trágica, na qual o irmão no poder se vê constrangido e contraditado pelas ações do irmão imprudente ou desonesto, não importa se lambari ou tubarão.
Aliás, a levar adiante a analogia, a potência trágica do episódio deveria tornar mais cautos os críticos que vêem em Vavá causas para a queda de Lula: um episódio familiar é potencialmente lugar de simpatia, isto é, de temor e compaixão partilhados.
A tragédia, contudo, não parece ser o gênero mais ajustado à comparação com a situação vivida pelo presidente.
Pois a imitação trágica só funciona, no dizer de Aristóteles, quando o objeto da imitação são aqueles sobre os quais não restam dúvidas sobre o seu “caráter elevado”, como ocorre quando pessoas que julgamos de grande valor acabam sofrendo algum mal irreversível, por um erro involuntário cometido.
Quando, ao contrário, a ação em cena diz respeito a quem julgamos iguais ou piores do que gente como nós, o que se produz é comédia.
Como diz o filósofo, “a mesma diferença separa a tragédia da comédia; procura esta imitar os homens piores, e aquela, melhores do que ordinariamente são”.
Os efeitos correspondentes ao novo gênero já nada têm a ver com temor e compaixão, mas sim basicamente com o “ridículo”.
Este, aliás, em termos aristotélicos, não é qualquer defeito, mas apenas o que refere a “torpeza anódina”. Assim, quando não há certeza sobre a grandeza de um caráter, que apenas pode estar assentada sobre ações habitualmente virtuosas, está definitivamente perdida a possibilidade da imitação trágica.
Nesses termos, convenhamos, Lula, como persona trágica, já não é verossímil há muito tempo, ao menos desde que reinventou a si mesmo no pragmatismo eleitoreiro e vulgar do “Lulinha paz e amor”.
Se houve algum dia um verossímil trágico associado ao tema da catástrofe familiar na persona de Lula, talvez devesse ser buscado no pesar advindo da exposição de Lurian, a filha até então oculta, e da posterior derrota política decorrente da sórdida campanha movida por Fernando Collor de Mello, em 1989.

Anedota de corte
Agora, não. Agora a figura de Vavá apenas acrescenta mais um elemento pitoresco à baixeza ordinária. O episódio é absorvido genericamente como mais uma anedota da corte indecorosa.
Literariamente, a revelação das trapaças do irmão encontra, no máximo, analogia com as tópicas ridículas das comédias seiscentistas, quando a corte recentemente aburguesada se torna palco de toda sorte de ostentação reles.
Ali, falsos fidalgos, velhacos e emergentes, de cabeleira postiça e empoada, sentados sobre o próprio rabo, negando enfaticamente o próprio passado, fingem em vão acreditar nos áulicos venais que os pintam maiores do que são. Na hipótese trágica definitivamente perdida, Vavá seria parte das “ações paradoxais” a se abater sobre a excelência de um grande homem; na versão cômica atual, não passa de simples confirmação da “torpeza anódina” instalada na cena palaciana.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de Máquina de Gêneros (Edusp)

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