Oliverio Girondo – Poema 12

OLIVERIO GIRONDO

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Poema 12

Se miran, se presienten, se desean,
se acarician, se besan, se desnudan,
se respiran, se acuestan, se olfatean,
se penetran, se chupan, se demudan,
se adormecen, despiertan, se iluminan,
se codician, se palpan, se fascinan,
se mastican, se gustan, se babean,
se confunden, se acoplan, se disgregan,
se aletargan, fallecen, se reintegran,
se distienden, se enarcan, se menean,
se retuercen, se estiran, se caldean,
se estrangulan, se aprietan, se estremecen,
se tantean, se juntan, desfallecen,
se repelen, se enervan, se apetecen,
se acometen, se enlazan, se entrechocan,
se agazapan, se apresan, se dislocan,
se perforan, se incrustan, se acribillan,
se desmayan, reviven, resplandecen,
se contemplan, se inflaman, se enloquecen,
se derriten, se sueldan, se calcinan,
se desgarran, se muerden, se asesinan,
resucitan, se buscan, se refriegan,
se rehuyen, se evaden y se entregan.

. ( 1932 ).

Oliverio Girondo foi um poeta de vanguarda, argentino, nasceu em Buenos Aiires. O poema acima é do livro Espantapajaros. 1932.

De gripe, infância, amor e desamor –

DE GRIPE, lNFÂNClA, AMOR E DESAMOR
Rubem Braga
A gripe tem alguns momentos bons: aquele em que se sente uma febre leve e um pouco de frio, e se toma um chá quente, e se abandona o corpo na cama e a alma no ar, à toa. Então a gente se desliga de todos os abor­recimentos e problemas do dia, e volta à infância e seu aconchego maternal.
O doente é outra vez um menino, e um ‘menino im­portante porque está doente e, portanto, tem mais di­reitos; tem direito a uma dourada canja de galinha, com o coração, a moela e o fígado e até a pequenina gema que não chegou a ser ovo; tem direito a pedir melado de cana com aipim quente … Não importa que não peça esses tesouros; nem sequer fica triste por não tê los, nem mesmo os deseja; é um adulto, e está sólido na sua soli­dão de adulto já ido e vivido; mas se compraz nessa re­nascença do menino e se deixa embalar, na doçura da febre leve, por essas remotas lembranças.
Mas a gripe é principalmente, e quase sempre, má. Não tem aquele elemento salutar de outras doenças, que é a idéia da morte e seu medo. O doente teve outras gri­pes iguais, sabe que ela passa, não chega a ser uma do­ença, é um aborrecimento. O que tem a fazer é compor­tar-se bem, ter paciência; mas sente a cabeça confusa, ao mesmo tempo vaga e pesada; pensa mal e sonha mal; tem uma série de pesadelos mornos onde o horror é subs­tituído pelo desconforto, e a angústia por uma aflição mesquinha; não são verdadeiros pesadelos, mas sonhos ruins, que nem sequer trazem, no momento de desper­tar, aquele grande alívio da gente sentir que era tudo mentira, e está vivo e salvo.
Não ouso aconselhar uma gripe às pessoas que estão sofrendo alguma crise sentimental. Pode agravar. Uma combinação de vírus de gripe e de amor pode conduzir à paixão ou à pneumonia.
Assim como há alguns remédios para a gripe que só valem quando tomados no começo, assim também a gripe é um remédio para o amor, mas só no fim; nesses casos de amor encruado, que está custando a acabar, embora não tenha mais os delírios dos primeiros tempos, mas ainda sujeito a recidivas intermitentes.
Em casos desses é preciso aproveitar a depressão e a irritação causadas pela gripe, utilizando-as contra a pessoa amada que se quer desamar. O paciente deve cer­car-se de fotografias da pessoa amada, sempre que possí­vel em atitudes alegres, sorrindo; com um pouco de boa vontade se convencerá de que ela está se rindo é dele, de seu amor e de sua gripe.
Irá associando a pessoa a todos os seus momentos de aborrecimento e mal-estar, tendo-a sob o prisma desa­gradável fácil de adotar quando se tem os olhos doloridos à luz, e o nariz entupido; imaginá-la nas atitudes mais prosaicas, perfumar seus cabelos, na imaginação, com allium sativum. Enfim, ir incorporando a imagem da amada à sensação da gripe, e cultivando o desejo de se ver quanto antes livre dessas duas servidões, sentir-se li­berto, andando ao sol, respirando bem.Um amigo meu fez essa experiência, depois me con­tou: “Eu pensei que estava apaixonado por ela, não era nada, era falta de vitamina “C” …