ARIANO POR MILLÔR

O nome de Millôr Fernandes está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958. Abaixo, o que Millôr diz de Ariano.

“O passado, todos sabem, é uma invenção do presente. Quem busca datas para os acontecimentos já os está deturpando. Além do que, de datas eu não sei mesmo. Por isso afirmo que foi no fim dos anos 50 que me levantei entusiasmado e invejoso, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, para aplaudir o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao meu lado, fazendo o mesmo, Silveira Sampaio, médico que há pouco tinha abandonado a medicina para se transformar no autor de algumas peças  leves e refinadas, que dirigia e interpretava. Terminado o espetáculo, fomos os três para minha casa — já na praia de Ipanema, idílica então — e ficamos conversando, varando a noite. E o dia foi amanhecendo por trás das montanhas Dois Irmãos, ainda livres do Hotel Sheraton, da favela do Vidigal, dos sinais luminosos, do tráfego ensandecido, enfim, da civilização. Só com raparigas em flor caminhando cronologicamente pro encontro fatal com Vinicius e Tom.

 Não me lembro de uma só palavra de Ariano. Ficou-me a forte impressão. Resíduos. A memória da memória.

 Quantos encontros tive com Ariano desde então? Não mais de dez. mas em nossa profissão, lavradores do nada, o contato é permanente. E, se fiz alguma coisa para decepcioná-lo, não sei. Ele não fez nada que me decepcionasse. Não lhe cobro nem com a Academia. Merece todas as imortalidades, até mesmo essa, pechisbeque (corrida aoAurélio).

 Meu outro e imediato contato com Ariano foi em O Santo e a Porca. A pedido de Walmor Chagas e Cacilda Becker fiz o cartaz para a peça, cartaz que me defrontou um dia, para minha vergonha — sempre tenho vergonha do que faço, meu sonho é ser autor morto —, num dos caminhos do Aterro. Nem sei se Ariano jamais viu ou soube desse contato.

 Enquanto isso, Ele se expandia. Professor nato — não há nada mais fascinante do que didática, e a dele é excepcional — e criador compulsivo, se fez batalhador de causas culturais populares, exibiu em espetáculos teatrais sua capacidade de representar — é um grande showman, quem não viu não sabe o que perdeu —, fez-se um desenhista primoroso e escreveu A Pedra do Reino, que coloco facilmente entre os 10 maiores romances brasileiros (nunca me arrisco a dizer que alguma coisa é a maior), incluindo aí Guimarães Rosa e excluindo Machado de Assis, quem quiser que me siga.

 Uma das outras vezes que estive com meu herói foi no Recife, Instituto Joaquim Nabuco, onde Ele, enquanto aguardávamos minha oportunidade de incitar o povo com meu verbo flamante, recitou o primeiro poema (soneto) que escrevi na vida, aos 20 anos (já tive!, posso provar), e que também recito aqui, para vocês verem que há que ter memória:

Penicilina puma de casapopéia

Que vais peniça cataramascuma

Se partes carmo tu que esperepéias

Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso

Sem ter mavorte fide lastimina

És todavia piso de horroroso

E eu reclamo Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco

Martume ezole, ezole martumar

Que tua pára enfim é mesmo um taco.

E se rabela capa de casar

Estrumenente siba postguerra

Enfim irá, enfim irá pra serra.

No dia seguinte, autor ingrato, almoçando com Ele, cobrei ter errado uma palavra no soneto. ‘Errei não’, voltou ele. ‘Corrigi. Você é que errou a métrica.’

 Somos do tempo em que havia métrica.

 E a última vez em que estivemos juntos foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.

 A meu lado, dentro das águas claras, mansas e verdes, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Verissimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Verissimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora.

 Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos precisos, e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços — os da amizade.

PS: Ah, e existe coisa mais nobre do que criar cabras? Ele cria. Coisas de grão-senhor.”

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 20-21.

 

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sobre Ariano Suassuna
Instituto Moreira Salles
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BARBARA _Letra&Musica

 

Dis, quand reviendras-tu ?

by Barbara

 

Voilà combien de jours, voilà combien de nuits,
Voilà combien de temps que tu es reparti,
Tu m´as dit cette fois, c´est le dernier voyage,
Pour nos cœurs déchirés, c´est le dernier naufrage,
Au printemps, tu verras, je serai de retour,
Le printemps, c´est joli pour se parler d´amour,
Nous irons voir ensemble les jardins refleuris,
Et déambulerons dans les rues de Paris,Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus,

Le printemps s´est enfui depuis longtemps déjà,
Craquent les feuilles mortes, brûlent les feux de bois,
A voir Paris si beau dans cette fin d´automne,
Soudain je m´alanguis, je rêve, je frissonne,
Je tangue, je chavire, et comme la rengaine,
Je vais, je viens, je vire, je me tourne, je me traîne,
Ton image me hante, je te parle tout bas,
Et j´ai le mal d´amour, et j´ai le mal de toi,

Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus,

J´ai beau t´aimer encore, j´ai beau t´aimer toujours,
J´ai beau n´aimer que toi, j´ai beau t´aimer d´amour,
Si tu ne comprends pas qu´il te faut revenir,
Je ferai de nous deux mes plus beaux souvenirs,
Je reprendrai la route, le monde m´émerveille,
J´irai me réchauffer à un autre soleil,
Je ne suis pas de celles qui meurent de chagrin,
Je n´ai pas la vertu des femmes de marins,

Dis, quand reviendras-tu,
Dis, au moins le sais-tu,
Que tout le temps qui passe,
Ne se rattrape guère,
Que tout le temps perdu,
Ne se rattrape plus…