O Sebo – Carlos Drummond de Andrade

(Para o Alfredo Bragança)

O SEBO

O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e pouco mais, os sebos cariocas foram se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo de moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa este visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é “gente”, na cidade das letras, e como “gente”, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto… mas pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida : operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que me pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo a tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, mas não muito, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como frequentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso ( como os livros ), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeveriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas mas há do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva”. Lá em casa não cabe mais nem aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando lugar dos dicionários, mas o frequentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria pra casa!”. Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável prosmicuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstói e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz… Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.

Carlos Drummond de Andrade in: O Poder Ultra-Jovem

Clarice

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

Para Ryta e para Vera.

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.,

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco.  Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então  vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos. Sua, Clarice”

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Não sei nada sobre a vida, mas…  a única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo. Tenho, às vezes, vontade, mas não, não tenho inclinação para o suicídio.
O resultado disso é que é espantoso:  viver, ter relações comigo mesma, descobrir tantas coisas, grandes e pequenas, não me esconder de mim mesma, (e às vezes, isso é terrível) me fez  desenvolver  uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Pessoas elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Aqui mesmo no Facebook, tenho descoberto a chamada banalidade do maldizer. Fora a transgressão e o crime… mas só estou enumerando para tornar significativo o meu olho para a delicadeza. Sei que parece meio infantil, meio idiota, mas eu sublinho, reforço, passo o highlight sempre na alegria de encontrar um mundo tecido de delicadezas.  E ser alvo de delicadezas.? E aí onde você estiver, tenho a certeza de que… E a política, Ryta,?  É algo que me atropela, e me mata, e  Verinha,   e o terror do  “mal-entendido… acho que é a unica coisa nesta vida que me faz desistir de tudo e achar que nada vale a pena. Quando prevalece o mal-entendido e o julgamento precipitado.  O mal-entendido e seu gêmeo, ‘o calar-se’, encerrar-se na ofensa (pretensa, muita vez)  não dizer nada.  Mal-entendido é para ser desfeito, ao menor sinal de dúvida, pergunte. Enfim, o que temos quase sempre: o horror! o horror!. E  um ror de coisas mais. Eu quero agradecer a vocês duas, hoje, e , por favor, recebam esse agradecimento, a vida é tão curta,  e se eu não aproveitar o momento, pode acontecer de eu nunca mais ter oportunidade de dizer como me sinto sendo alvo de uma atenção que se traduz por sentimentos de valia, eu que vivo sempre no limiar do achar que nada mais tem jeito.

Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolho o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restasse pouquíssimo tempo de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta, só quase viva.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom …  é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, às vezes, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, eles, os que são meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor. Anseio pelo melhor que cada um tem. Não por ética ou religião. Por instinto. Sou só no mundo (é assim que se é, mas …) Por isso sou ansiosa.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) A propósito, faço crítica literária. Ou seria melhor dizer  que “já fiz crítica literária?  E é terrível, porque, se não lidamos bem com o insucesso e perdas, parece que nos damos pior ainda com o sucesso, com alguém mostrando que somos *o cara*, que se é bom, em alguma coisa. As pessoas ficam embaraçadas, dizem que é “generosidade”, que não são isso que se diz; que “não são essa coca-cola toda” como me disse uma vez uma “criticada”-)) Agora, afora isso, há também os.que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce (ou mete) o “pau” hmmm… Masoch perde) Ambos os tipos esquecem algo sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim.

* * *****/////|||//////||||////\\\\*****

(*) Você acha que existe alguém ‘modesto’?. Já existiu? Existirá? Dizem que há teorias tentando provar que modéstia, modéstia mesmo é coisa abstratissíssississima, que nunca existiu e dizem mesmo que ninguém sabe até hoje, quem foi que inventou: no que inventou, mentiu… dizem, eu não sei. Só sei que se for verdade, ninguém peca por imodéstia, não é?

Aos meus professores. Todos.

Hoje é o dia Professor!
Há pessoas que não gostam (ou dizem não gostar) dessas datas comemorativas. Eu gosto. E tenho explicado por que gosto.
Bem entendido, eu gosto de datas em que se *co-memora* ou *re-memora* a força pessoal, subjetiva ou coletiva, empregada pelo homem na transformação da espécie humana, do seu ambiente, e no melhoramento da Vida em geral.
Isto tem a ver, suponho, com o que Dostoiévski, em os Irmãos Karamázov, aponta:
Em todo homem, é claro, habita um demônio oculto: o demônio da cólera, o demônio da luxúria sem peias; o demônio do prazer voluptuoso frente aos gritos da vítima Continuar lendo

MM by…

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Cecilia e Cacaso.

MADRIGAL PARA CECÍLIA

(Cacaso)*

Quando na brisa dormias,
não teu leito, teu lugar,
eu indaguei-te Cecília:
Que sabe o vento do mar?
Os anjos que enternecias
romperam liras ao mar.
Que sabem os anjos, Cecília
de tua rota lunar?
Muitas tranças arredias,
um só extremo a chegar:
Teu nome sugere ilha.
teu canto: um longo mar.
Por onde as nuvens fendias
Aaface deixou de estar.
Vida tão curta, Cecília
pra quê então tanto mar?
Que música mais tranqüila,
quem se dispôs a cantar?
São tuas falas, Cecília,
o barco tragando o mar.
Que céu escuro havia
há tanto por te espreitar?
Que alma se perderia
na noite de teu olhar?
Sabemos pouco, Cecília,
temos pouco a contar:
Tua doce ladainha,
a fria estrela polar
a tarde em funesta trilha,
a trilha por terminar
precipita a profecia:
Tão curta a vida, Cecília
tão longa a rota do mar.
Em te saber andorinha
Cravei tua imagem no ar.
Estamos quites, Cecília:

Joguei a estátua no mar.
A face é mais sombria
quanto mais se ensimesmar:
Tão curta a vida, Cecília,
tão negra a rota do mar
Que anjos e pedrarias
para erguer um altar?
Escuta o coral, Cecília
O céu mandou te chamar.
Os anjos com tantas liras
precisam do teu cantar.
Com tua doce ladainha
(vida curta, longo mar)
Proclames a maravilha.

Rio, 1964

(*)Antônio Carlos de Brito (Cacaso) [1944-1987]. In:Cacaso lero-lero. Rio de Janeiro,7 letras, 2002/ São Paulo,Cosac&Naify,2002 (Col Ás de Colete)

*  *  *

Cecília Meireles (7/11/1901-9/11/1964) é a intelectual mais consistente de toda a literatura brasileira. Conhecida pelo profundo lirismo, de tal modo deixou uma nação mergulhada na *encantaria* de seu verso, no reino do *maravilhoso* que esse lado quase ofusca o seu brilhantismo na cena pública por muitos anos.

Viajora admirável, correspondente inigualável. Escritora, dramaturga, jornalista ( seu último escrito foi para a Folha de S. Paulo)… Tradutora dos poetas chineses Li PO e Tu Fu (em edição de 1996) e antologista da poesia de vários países: de poetisas japonesas, persas e árabes. Traduziu Rabindranath Tagore…Escreveu cinco (5) peças para teatro.

* * *
Entre junho de 1930 e janeiro de 1933, CECÍLIA MEIRELES dirigiu a ‘Página da Educação‘ no Diário de Notícias do Rio de Janeiro. Em seus artigos sobre política, educação e cultura, defendia uma política menos casuísta e uma educação moderna. Ela rompeu tabus de uma sociedade, deixando sua marca na História Brasileira como defensora da idéia universal de democracia,  numa década em que o mundo vivia o período de transição das duas Grandes Guerras. No Brasil,  Getúlio Vargas era o vitorioso da Revolução de 1930.

Pois bem, a “Página da Educação”, comandada por CECÍLIA MEIRELES,
causava fúria no meio político nacional. Ela referia-se ao presidente Vargas como “Sr. Ditador”. Sustentando a idéia de um Brasil menos ufanista, coleciona inimigos e desafetos. Entre eles Alceu Amoroso Lima, crítico católico que, em 1971, reconheceria na poeta “uma grande figura feminina do
modernismo”. Os modernistas, aliás, já a consideravam uma revelação, a partir da publicação de “Espectros” e “Baladas Para El-Rei”.

Em janeiro de 1933, ela encerrou seu trabalho frente à Página da Educação, cansada da perseguição que sofria e manifestou, em correspondência, seu “horror” ao jornalismo. No entanto, troca o Diário de Notícias pelo jornal A Nação, contratada sob a condição de não escrever sobre política. Em 1934, com o marido, inaugurou o Centro de Cultura Infantil do Pavilhão do Mourisco, no Rio, a primeira biblioteca infantil do país. A convite do governo português, dá início a um período de viagens ao exterior. Em Lisboa e Coimbra difunde a cultura, literatura e o folclore brasileiros, em uma série de conferências.

Em 1940 , o poeta e crítico portugues Vitorino Nemésio a definiu como uma intelectual completa, de vastíssima erudição: ‘Humanista que libou o mel das grandes culturas’.

Você, como, praticamente,  todo o mundo associa de imediato o seu nome com o Romanceiro da Inconfidência (toda vez que um justo grita/um carrasco o vem calar/ quem não presta fica vivo/quem é bom mandam matar/. Ou com o poema musicado pelo compositor e cantor Fagner (canto porque o instante existe/e a minha vida está completa/não sou alegre nem sou triste/sou poeta) Mas, ela escreveu muito, muito mais. Sua obra, infelizmente, rareia nas editoras: problemas com direitos de herdeiros, não que eu esteja afirmando, assim parece.

Morreu também num mês de novembro. Coberta de glória, Todos os intelectuais , principalmente poetas como Manuel Bandeira, Drummond e tantos outros fizeram homenagens poéticas explícitas. Morreu, com apenas, 63 anos. Cacaso tem toda razão.

=-=-=-

A amiga imprevista

“11-12-70. “Olga, datilografo esta carta porque minha letra anda péssima.
“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?
“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.

               “Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

               “Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.

                 Sua, Clarice”

Clarice escreveu esta carta para Olga, sua secretária, acompanhante e amiga Olga Borelli.

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FONTE: BORELLI, Olga.  “Clarice Lispector: esboço para um possível retrato” . Rio, Ed.Nova Fronteira/1981).