Morrissey, o pária


Cover of "Years of Refusal [CD/DVD]"

O EX-VOCALISTA DOS SMITHS REJEITA A VOLTA DO GRUPO, CRITICA ESTRELAS POP, COMO MADONNA, FALA DE SUA VIDA RECLUSA E MAMBEMBE E DIZ SE SENTIR ORGULHOSO POR SER ÍDOLO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA

BENOÎT SABATIER

Julho de 1972. Manchester, cidade industrial do norte da Inglaterra. Steven Morrissey acaba de completar sofridos 13 anos. Ele, que se sente mal consigo mesmo, mal na escola, mal em sua família, pode nessa noite sair de seu cotidiano infeliz: seu pai, carregador de macas no hospital, leva-o para assistir a seu primeiro concerto.
O T. Rex está se apresentando no Belle Vue. Na cabeça de Steven, é uma explosão atômica que se produz. Ele vê um outro mundo possível, enxerga a vida ampliada. No microfone, um deus, Marc Bolan, vestindo calça de lamê dourado, paletó de smoking enfeitado com strass brilhante.

É esse glam rock que faz Steven sentir-se vivo: os discos que ouve religiosamente em seu quarto em Hulme, bairro proletário da cidade, e os visuais que o fazem sonhar. Ou Roxy Music, com suas fotos cheias de glamour e seus figurinos tão extravagantes. Socialmente deficiente, recusando-se a beber muito com seus amigos, Steven passa seu tempo lendo, assistindo a filmes, ouvindo música e escrevendo. Lê Virginia Woolf e Oscar Wilde e encontra ídolos ainda mais loucos. E os New York Dolls.
Quando encontra o jovem guitarrista Johnny Marr, finalmente as coisas começam a rolar. The Smiths lançam seu primeiro single em 1983. A ideia dos Smiths é voltar às guitarras, inventar o futuro evocando Elvis e The Kinks. Os maiores sucessos da época (Spandau Ballet, Duran Duran, Paul Young…) se fundem no pop sintético, veiculam o yuppismo e defendem a diversão. The Smiths partem diretamente para cima de seu alvo -a miséria humana.

Morrissey, que fará 50 anos em maio, acaba de lançar seu novo álbum, “Years of Refusal” (Anos de Recusa, gravadora Decca/Polydor).
“Tenho horror a drogas. Tenho horror a cigarros. Sou celibatário e tenho um modo de vida muito saudável”, diz. E proclama: “Somos reacionários”. Mais tarde: “Os Smiths estavam em ruptura com tudo o que sua época veiculava”.

A “smithsmania” alcança um paroxismo angustiante quando um adolescente armado invade uma rádio de Denver [EUA], em 1987, e ordena que a estação transmita apenas canções de seu grupo adorado.

O rapaz só se rende depois de quatro horas. Já os Smiths se rendem depois de cinco anos. Nick Kent: “A notícia da separação deles provocou mais suicídios que os anúncios da morte de Elvis, da separação dos Beatles ou da divisão dos Stones, todos juntos”.

Fãs chicanos
Sem seu grupo, sai seu primeiro álbum solo, “Viva Hate”, que entra diretamente no primeiro lugar das paradas. Bate o recorde dos Beatles, ao vender em 23 minutos todos os ingressos para seu show no Hollywood Bowl.

Morrissey muda-se para Los Angeles, para o Sunset Boulevard, na mansão que Clark Gable ofereceu a Carole Lombart -uma casa na qual já moraram Francis Scott Fitzgerad e John Schlesinger. Não atende ao telefone; comunica-se por fax.
Seus novos fãs montam acampamento diante de sua casa. São multidões de jovens chicanos com atitude que se unem em torno do canto atormentado de Moz.

Musicalmente, não cede a nenhuma moda, mantendo-se fiel a seus amores, o glam e o pop. Contrata um bando de músicos de rockabilly, cantando canções compostas por nomes secundários.

O importante, na era dos downloads, é fazer apresentações ao vivo instigantes.

“Na realidade o mundo não quer ouvir apenas Brócoli [Britney] Spears. Também existem ouvintes esclarecidos.”

Ofereceram a ele US$ 75 milhões para que reformasse os Smiths. “Eu preferiria comer meus próprios testículos, o que seria uma façanha e tanto para um vegetariano como eu.”
Recusa. Pose. Leia mais na entrevista abaixo, cara a cara, numa mansão londrina.

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PERGUNTA – Você parece permanecer mais no plano da recusa do que no da aceitação. Vem daí o o título de seu novo álbum?
MORRISSEY – É assim que vejo minha posição artística no meio musical. Desde o começo, vejo-me obrigado a recusar todo tipo de pressão. Para juntar à sua volta a grande família das celebridades da cultura pop, você precisa aceitar certas concessões. Não faço parte desse mundo. Isso não é a cultura pop, é a cultura puta.

PERGUNTA – Essa é uma postura moral ou estética?
MORRISSEY – É o caminho para continuar a fazer arte.

PERGUNTA – Nos anos 1980, a recusa do nivelamento vinha dos selos pós-punk: na realidade, você se manteve fiel a essa ética, a ética da música indie.
MORRISSEY – Bem… Ao espírito da independência, OK.

PERGUNTA – É isso que significa “indie”? Independência?
MORRISSEY – Originalmente, sim, mas o indie virou um gênero musical, do qual minha música não faz parte. Hoje o indie virou um “look”, uma postura, mas, no início dos anos 1980, era uma profissão de fé e também a promessa de alcançar um público muito reduzido. Naquela época era muito difícil os independentes chegarem a um público grande. Os Smiths conseguiram, mas éramos casos isolados.

PERGUNTA – O fato de o indie ter virado mainstream quer dizer que a luta que você travou com os Smiths foi vitoriosa?
MORRISSEY – Uma vitória, sim, mas cujo resultado foi pela metade. Por um lado, podemos nos parabenizar porque alguns grupos indies fazem sucesso hoje, mas eu nunca recebi crédito por essa vitória. Ninguém se encarregará disso.

PERGUNTA – Você usa sua celebridade para obrigar as pessoas a deixá-lo em paz…
MORRISSEY – Não sou uma celebridade. Meu status não tem nada a ver com essa palavra.

PERGUNTA – Quando era adolescente, o glam rock foi a música que fez você finalmente se sentir vivo?
MORRISSEY – Exatamente. Eu tinha só dez anos quando o T. Rex, mas também Bowie, com “The Man Who Sold the World”, mudaram tudo. Além do rótulo glam rock, havia uma visão bombástica. Você não pode imaginar o efeito que exercia, na época, ver aqueles artistas todos usando maquiagem. Hoje em dia isso passa despercebido, é até mesmo um pouco ridículo e, em todo caso, não faz mais sentido. Mas em 1971-72! Era tão estranho! Mais que ousado -era perigoso.

PERGUNTA – Você gravou este novo álbum em Los Angeles…
MORRISSEY – Sim.

PERGUNTA – É um lugar onde você se sente bem?
MORRISSEY – É uma cidade que ainda me fascina. É um bom lugar para minha música, para a inspiração, para minha tranquilidade.

PERGUNTA – Parece incrível que você, popstar tão inglês, tenha se instalado na cidade de 50 Cent e Axl Rose. Mas, quando a gente ouve uma canção como “When I Last Spoke to Carol”, isso passa a parecer quase natural.
MORRISSEY – Verdade? É por causa do lado latino de Los Angeles. Eu tinha ouvido música com som de trompete, inspirei-me nisso.

PERGUNTA – Acha estranho ser idolatrado pela comunidade latina?
MORRISSEY – Sinto-me sobretudo lisonjeado. Quando vejo as tatuagens de “Morrissey”… Acho comovente. O fato de queimarem meu nome na pele… Me sinto devotado a eles, também.

PERGUNTA – São os párias do sonho americano.
MORRISSEY – Sim, de certo modo. Tenho muito orgulho desse título: “O cantor dos párias”.

PERGUNTA – Esse título sempre o agradou?
MORRISSEY – Oh, sim.

PERGUNTA – Por quê?
MORRISSEY – Porque é o que eu sou. Eu me sinto antissocial. É a verdade, eu sou um antissocial. Ao mesmo tempo em que tenho milhares de fãs, mal sou tolerado pela indústria, nunca fui convidado pela MTV, continuo a ser um artista à margem. Não é como se eu tivesse sentado e decidido “vou ser um marginal”. Eu sou marginal no meu eu mais profundo. Portanto, não tenho escolha.

PERGUNTA – Apesar disso, você se integrou à sociedade.
MORRISSEY – Não, de jeito nenhum. Os valores que a sociedade favorece não são os meus. Não quero formar um casal bonito, não quero me integrar aos clichês de uma vida doce, feliz e perfeita. Já há gente suficiente comprometida com isso -não é preciso que eu também o faça.

PERGUNTA – Isso é recusa ou é incapacidade?
MORRISSEY – As duas coisas. Sou tremendamente individualista. Nego-me a ser capaz de pensar como meus vizinhos. Venho sobrevivendo assim há anos; controlo meu corpo e tenho poucas razões para andar na companhia daqueles que chamam de meus semelhantes.

PERGUNTA – Mas você vai a algumas festas de vez em quando, não?
MORRISSEY – Festas? Não, não. É entediante demais, de verdade. A presença das pessoas me desequilibra. A necessidade de falar… é difícil demais.

PERGUNTA – Com os Smiths, você cantava como é difícil viver no mundo. Esse ainda é um de seus temas mais importantes?
MORRISSEY – Sim. Não é um assunto que varie conforme mudam as tendências. Em todo caso, não vejo como eu poderia deixar de escrever sobre isso: escrever sobre a condição humana, não existe nisso nada de superado. É algo que será sempre atual.

PERGUNTA – “Life Is a Pigsty”, um dos títulos de seu álbum anterior…
MORRISSEY – Sim, a vida é mesmo um chiqueiro, não é? Uma tortura. O calvário só termina quando se morre. É tão sádico assim.

PERGUNTA – É esse o tema da nova canção “That’s How People Grow Up”?
MORRISSEY – Falo do fato de que, para começar, a gente precisa tentar encontrar seu próprio lugar no mundo, que tudo nos parece impossível, que é preciso ser forte, e então, quando a gente finalmente dá certo, se dá conta de uma coisa: está sozinho. Para o resto da vida.

PERGUNTA – Há a música, os filmes, os livros.
MORRISSEY – É só disso que precisamos.

PERGUNTA – A música pop foi durante muito tempo vista como uma arte menor. Você infundiu nela uma dimensão letrada…
MORRISSEY – Isso me parece importantíssimo. Mas, quando você se engaja nessa via, arrisca muito. Porque a crítica será ainda mais virulenta.

PERGUNTA – A cultura continua a apaixoná-lo? Você ainda descobre novos filmes, ainda lê muito, ainda ouve música?
MORRISSEY – Os livros, os romances novos, alguns me parecem atraentes, mas pressinto a decepção… Quanto ao resto, sim, sem parar.

PERGUNTA – O quê?
MORRISSEY – Tenho visto muitos filmes ultimamente… mas nada de bom. Não, nada que seja inesquecível. Vivo na esperança.

PERGUNTA – Você não vive mais em Roma?
MORRISSEY – Não. Eu estou por aqui, mas não tenho casa. Vou de cidade em cidade, sem me fixar.

PERGUNTA – Você carrega todos os seus livros, discos, DVDs?
MORRISSEY – Na verdade, a maior parte de minhas coisas estão num guarda-móveis.

PERGUNTA – Você é uma espécie de mito vivo. Ainda tem alguma coisa a provar?
MORRISSEY – É claro que sim. Para começar, não devo decepcionar aqueles que me acompanham há tanto tempo e que vão continuar a ouvir minhas canções novas. Depois, sempre há novas pessoas a convencer. E há também os artistas à minha volta. Tenho que provar para mim mesmo que continuo a ser essencial a eles.

PERGUNTA – Você ainda pensa que “todos os dias são silenciosos e cinza” ou há dias em que se diverte?
MORRISSEY – Hoje sou mais tolerante comigo mesmo. Quando você é jovem, é mais intransigente, quer a toda hora provar alguma coisa. E então você chega aos 23 anos, sua mãe morre, e você aprende a tolerância.

PERGUNTA – Se você ficasse feliz, teria menos a dizer?
MORRISSEY – Estou disposto a correr esse risco.

PERGUNTA – Você tem o status de ícone pop, e isso recusando-se a fazer como Madonna ou Mick Jagger, que difundem a imagem de feras do sexo. Esse é um desafio adicional?
MORRISSEY – Um desafio para mim? Em quê?

PERGUNTA – Por recusar-se a se divulgar como hiperssexuado.
MORRISSEY – Bem, sim, de certo modo. Esse tema fascina, especialmente quando se trata de alguém como eu, que, de fato, não tem o mesmo discurso das pessoas que você acaba de citar. Será que tenho que explicar minha vida, me justificar em relação a isso? Não é mais físico, para mim -é metafísico. Mas é preciso que eu dê uma resposta -e, é claro, uma resposta inteligente. Isso às vezes é cansativo, exagerado.

PERGUNTA – Você é uma anomalia, porque, para ser popstar, convém proclamar que se é alguém sedento de sexo.
MORRISSEY – A atitude de Madonna é apenas marketing, nada mais. Saber até que ponto ela se vestiu escandalosamente não tem importância nenhuma. Ela age assim, e, concretamente, isso não tem nada de sexual -é um clichê. Ela ou todos os outros. É bastante assustador pensar que se possa vender milhões e milhões de discos jogando com clichês. Será que realmente não têm consciência de que cada um está jogando um jogo hipócrita?

PERGUNTA – Com você, é “no sex” e “no drugs”?
MORRISSEY – De certo modo, a contracultura virou uma mentira: findo o lado espontâneo, os artistas do rock agem da maneira que se espera deles, ou melhor, como pensam que se espera deles… Isso virou uma camisa-de-força que é preciso vestir para passar uma impressão de descontraído. Mas, se você olhar os artistas da geração da contracultura, hoje eles se comportam da maneira mais sadia possível. Há uma inversão de gerações, um retorno.

PERGUNTA – As pessoas perguntam a McCartney há 40 anos quando os Beatles vão voltar juntos. E você, nunca vai aceitar as somas colossais que lhe são oferecidas para voltar a tocar com Johnny Marr ou não tem tanta certeza assim?
MORRISSEY – Nunca me acontece de não ter certeza quanto a isso. Ou de me sentir tentado pelo que chamo de concessão. The Smiths foi algo que aconteceu, que teve um começo e um fim e que foi quase perfeito. Não devemos mudar isso.

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(*) A íntegra dessa entrevista saiu na Technikart.
Tradução de Clara Allain

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Publicado na Folha de S. Paulo, em 15 de março de 2009

SONORO DIAMANTE NEGRO – Suely Nascimento

“‘Sonoro Diamante Negro”, livro  da jornalista e fotógrafa paraense Suely Nascimento, cujo projeto foi o único selecionado da Região Norte para o programa Conexão Artes Visuais 2010, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), será lançado amanhã dia 18 de outubro

fotografia sonoro diamante negro

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O livro ‘Sonoro Diamante Negro’ contém fotografias que mostram a importância do dia a dia do sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. Suely Nascimento retratou a rotina de pessoas envolvidas na montagem do ‘Diamante Negro’. ‘Nas fotos produzidas durante bailes da saudade, pode-se apreciar os pares de dança, os sapatos brancos dos homens e o assoalho em madeira dos salões’, ressalta. Com base nesse acervo fotográfico, já havia sido produzido o audiovisual ‘Sonoro Diamante Negro’, de agosto a novembro de 2003, quando a jornalista e fotógrafa foi contemplada com a Bolsa para Pesquisa em Arte, do Instituto de Artes do Pará.

A aparelhagem de som ‘Diamante Negro’ foi criada em dezembro de 1950, no bairro da Marambaia, em Belém. Seu primeiro nome era em homenagem a um santo, ‘São Sebastião’. ‘À moda da época, sonoro tinha nome de santo. O tempo passa, a aparelhagem aumenta e o nome é mudado para ‘Diamante Negro’. Era o sonoro mais antigo de Belém, em atividade. O diferencial era a qualidade do som, apreciada nas noites do Baile da Saudade, quando casais cativos dançavam antigas canções que falam de dor de cotovelo, de tristeza, de amor…’, conta Suely Nascimento. O sonoro interrompeu as suas atividades em junho de 2004. ‘Acredito que o livro vai resgatar e divulgar uma parte da memória de Belém, da história do ‘Diamante Negro’ e dos dançarinos que frequentavam essas noites meio de sonho. E o ‘Sonoro Diamante Negro’ pode ter, assim, uma obra brasileira que preserve a sua história’, finaliza.

A seleção de fotos foi feita com base no acervo produzido pela jornalista e fotógrafa Suely Nascimento, entre 1997 e 2003.  O livro traz ainda a história do Sonoro a partir da entrevista com o proprietário, Sebastião Nascimento. O material a ser publicado mostra a importância do dia-a-dia do Sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. As fotos mostram o proprietário, os homens que carregavam os móveis e que controlavam o som, as sedes sociais onde o Sonoro tocava e as pessoas que iam às suas festas. Percebe-se uma realidade bem peculiar de Belém, que é um dos poucos lugares do Brasil onde há esse tipo de atividade cultural e social – a do sonoro.

AGENDA:

NOVEMBRO

Lançamento do livro

Quando: 18/11 (19h as 23h)
Onde: São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficente (Avenida Roberto Camelier, 816 – Jurunas – Belém)

Publicado a partir de:

1 – Conexão Artes Visuais.

2- Jornal O LIBERAL.


ESPECULAÇÕES

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Tempo e memória by Joan Brossa

Tempo e memória by Joan Brossa

“Não vou me preocupar em ver,

seu caso não é de ver pra crer

– tá na cara!”

(Arnaldo Passos & Monsueto Menezes, Mora na Filosofia)

Mesmo para o mais ingênuo dos espectadores, é evidente que houve, ou talvez se deva “gerundizar”, está havendo, um gigantesco “acordão” envolvendo os quatro poderes da República, Executivo, Judiciário, Legislativo e imprensa: vamos abaixar o fogo, baixar a pressão, que se o caldeirão entorna muita gente vai sair escaldada ou coisa pior; e vamos tratar de “coibir abusos” – leia-se, quebrar os braços e as pernas – de órgãos importunos como Polícia Federal (ou parte dela), Ministério Público Federal, juizados de primeira instância e, para não perder a viagem, Ministério Público do Trabalho e IBAMA.

Até agora, o “acordão” implicou a degola de alguns delegados da PF, mas isso, em arranjos de tal porte, é trocado miúdo. Especula-se que, pelo sim pelo não, um certo procurador e um certo juiz, ambos federais e de sobrenomes semelhantes, talvez devessem pôr as metafóricas barbas de molho e adotar o “silêncio obsequioso”.

Não se sabe ao certo o que foi alegadamente encontrado em um suposto esconderijo durante a busca e apreensão realizadas na residência do Sr. Daniel Dantas; pode-se apenas especular que não terá sido algo como uma coleção da revista O Cruzeiro. Tampouco se sabe exatamente o que foi conversado no encontro entre o Presidente da República, o Ministro da Justiça e o Presidente do Supremo Tribunal Federal; pode-se apenas especular que o tema central não terá sido a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Milan.

Especulações, especulações. Palavra que, aliás, é correlata de “espectador” e de “espetacularização”, e também de “espelho”.

A quem especular mais queira, uma sugestão. Levantar o histórico, digamos de 1994 em diante, dos dois entre os supracitados que, nos últimos dias, mais freqüentaram as manchetes dos jornais, e de alguns outros personagens que também são, ou no mesmo período foram, figuras de destaque no noticiário político. E cotejar quem fez o quê, quando e onde.

© Carlos Eduardo Martins é economista.

LOUISE LABÉ: criatura de papel?

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008

PELO DIA DA TERRA – Perguntas e Respostas

 

Urso-polar vasculha lixo no Canadá. O maior predador do Ártico está ameaçado pela redução da área de mar congelado, seu território de caça  (Foto de Norbert Rosing/National Geographic/Getty Images)

1. O que é o efeito estufa?

O efeito estufa é o fenômeno natural pelo qual a energia emitida pelo Sol – em forma de luz e radiação – é acumulada na superfície e na atmosfera terrestres, aumentando a temperatura do planeta. De suma importância para a existência de diversas espécies biológicas, o efeito estufa acontece principalmente pela ação de dióxido de carbono (CO2), CFCs, metano, óxido nitroso e vapor de água, que formam uma barreira contra a dissipação da energia solar. A maioria dos cientistas climáticos crê que um aumento na quantidade desses gases provoca uma elevação da temperatura da Terra.  

2. A emissão desses gases está aumentando?

Com o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis cada vez mais intensos, a concentração desses gases está aumentando, especialmente as de CO2 e metano. Desde 1800, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 30%, enquanto a de metano aumentou 130%. Analisando camadas de gelo da Antártica, cientistas europeus descobriram que o ritmo de aumento na concentração de CO2 é impressionante: nos últimos 150 anos, o gás propagou-se pela atmosfera do planeta cerca de 200 vezes mais rápido que nos últimos 650.000 anos.

3. Quais são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

Os maiores emissores de gases responsáveis pelo efeito estufa são Estados Unidos, União Européia, China, Rússia, Japão e Índia. Entre essas nações, os Estados Unidos – responsáveis por cerca de 36% do total mundial – lideram as emissões tanto em termos absolutos como per capita. Entre 1990 e 2002, os EUA aumentaram em 15% o nível de emissão de gases, chegando a 6 bilhões de toneladas ao ano. Para efeito de comparação, todos os países membros da UE emitiram, juntos, cerca de 3,4 bilhões em 2002. A China, terceira colocada no ranking, emitiu 3,1 bilhões de toneladas.

4. Quais são as evidências do aquecimento do planeta?

Há diversas evidências de que a temperatura global aumentou. Os termômetros subiram 0,6°C entre meados do século XIX e o início do século XXI – desses, 0,5°C apenas nos últimos 50 anos. Outra evidência é a elevação de 10 cm a 20 cm no nível dos oceanos nesse período. Além disso, as regiões glaciais do planeta estão diminuindo: em algumas zonas do Ártico, por exemplo, a cobertura de gelo encolheu até 40% em décadas recentes. Cientistas também consideram prova do aquecimento global a diferença de temperatura entre a superfície terrestre e a troposfera – zona atmosférica mais próxima do solo.  

5. Quanto a temperatura pode subir?

Os atuais modelos científicos prevêem que, se nada for feito, a temperatura global pode aumentar entre 1,4°C e 5,8°C até 2100. Cientistas menos otimistas acreditam que a temperatura de certas áreas do globo pode subir até 8°C no período, e que, mesmo com um corte radical na emissão de gases, os efeitos do aquecimento continuarão. Isso porque são necessárias décadas para que as moléculas dos gases que já estão na atmosfera sejam desfeitas e parem de acumular energia solar em excesso.

6. Os atuais modelos de previsão de clima são confiáveis?

Os debates em torno da eficácia e precisão dos atuais modelos de previsão climática são acalorados. Uma minoria científica crê que os sistemas computadorizados são demasiadamente simplificados, incapazes de simular as complexidades do clima real. Porém, a maior parte comunidade científica mundial defende que as atuais análises feitas em computador, apesar de precisarem ser aperfeiçoadas, já são confiáveis para simulações de futuro próximo – intervalos de 25 ou 30 anos.

7. Quais serão os principais efeitos do aquecimento?

Os cientistas climáticos são unânimes em afirmar que o impacto do aquecimento será enorme. A maioria prevê falta de água potável, mudanças drásticas nas condições de produção de alimentos e aumento no número de mortes causadas por inundações, secas, tempestades, ondas de calor e fenômenos naturais como tufões e furacões. Além disso, pesquisadores europeus e americanos estimam que, caso as calotas polares derretam, haverá uma elevação de cerca de 7 metros no nível dos oceanos. Outro impacto provável é a extinção de diversas espécies animais e vegetais.

8. Quais países serão mais afetados?

Apesar de os grandes responsáveis pelo aquecimento global serem as nações desenvolvidas da América do Norte e Europa Ocidental, os chamados países em desenvolvimento serão os que mais sentirão efeitos negativos. Isso acontecerá porque essas nações possuem menos recursos financeiros, tecnológicos e científicos para lidar com os problemas de inundações, secas e, principalmente, com os surtos de doenças decorrentes. A malária, por exemplo, deve passar a matar cerca de 1 milhão de pessoas ao ano com o aquecimento do planeta.

9. Quais espécies animais serão mais afetadas?

Segundo as estimativas da Convenção das Nações Unidas para Mudanças do Clima (UNFCCC), a maioria das espécies atualmente ameaçadas de extinção pode deixar de existir nas próximas décadas. As projeções indicam que 25% das espécies de mamíferos e 12% dos tipos de aves seriam totalmente banidos do planeta com o aumento da temperatura, que provocaria mudanças drásticas principalmente nos frágeis ecossistemas florestais e pantanosos.

10. Como impedir um aquecimento global exagerado?

Cientistas e engenheiros defendem que a solução para o aquecimento global exagerado está no desenvolvimento de tecnologias energéticas que emitam menos dióxido de carbono. Entre as mais pesquisadas atualmente estão a fissão nuclear, células combustíveis de hidrogênio, desenvolvimento de motores elétricos e também o aprimoramento de motores à combustão pela diminuição do consumo e pela diversificação de substâncias combustíveis. No Brasil, ganha destaque o desenvolvimento de matrizes energéticas de origens vegetais, como o etanol, o biodiesel e também o Hbio.

11. Qual a importância do Protocolo de Kioto para conter o aquecimento?

 O protocolo de Kioto – que entrou em vigor em fevereiro de 2005 e conta com a participação de 163 nações – prevê que até 2012 seus signatários reduzam as emissões combinadas a níveis 5% abaixo dos índices de 1990. A eficácia do acordo, contudo, é limitada, pois até o momento os Estados Unidos, maior emissor mundial de dióxido de carbono, não ratificaram o pacto. Especialistas acreditam que as resoluções de Kioto apenas combatem a camada mais superficial do problema do aquecimento global.   Retirado de http://www.uol.com.br

Heath Ledger – novo ícone?

02/02/2008
Jovens astros que se tornaram ícones pela morte: James Dean, Kurt Cobain… e Heath Ledger?

Maria Puente
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Viva intensamente, morra jovem, torne-se imortal.

Bem, talvez não.

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Nesta era acelerada e de Internet global, a trajetória tradicional para alcançar o status de figura cult após a morte está mudando.

Enquanto os fãs em luto declaram o ator jovem Heath Ledger “o James Dean de sua geração”, há questionamentos. Estaremos falando de Ledger no futuro como ainda falamos sobre Dean -que morreu há mais de 50 anos?

A morte de Ledger foi diferente da de Dean, apesar de não menos comovedora. O australiano de 28 anos foi encontrado no dia 22 de janeiro em seu apartamento em Nova York por sua faxineira e sua massagista. A causa não foi determinada.

Marko Georgiev/Reuters - 25.jan.2008
Fãs se aglomeram diante de local onde seria velado o corpo do ator Heath Ledger em NY

Não há mistério sobre como Dean morreu. De fato, foi seu final fora de hora em 1955 que marcou o ponto de nascimento da cultura de celebridade americana, diz Chris Epting, autor de “James Dean Died Here” e de outros livros sobre os locais e artefatos da cultura popular americana.

Com apenas 24 anos e três papéis no cinema, Dean morreu em uma estrada solitária da Califórnia após uma colisão de frente em seu Porsche. Seis meses depois, seu terceiro filme, “Rebelde sem causa” foi lançado, causando sensação, especialmente entre os jovens. Dean ascendeu ao status de cult que perdura até hoje.

“Heath Ledger é uma das primeiras pessoas ao estilo Dean a morrer na era da Internet, então sua morte será um teste para ver quanto tempo a Net abanará esta chama”, diz Epting. “Será interessante ver: será imortalizado ou a próxima grande coisa o suplantará totalmente em algumas semanas?”

Karal Ann Marling, por exemplo, acha que sim. Professora de estudos americanos e cultura popular da Universidade de Minnesota, Marling acredita que é natural todo mundo se sentir triste com a morte de um jovem, famoso ou não. Mas o grande interesse na morte de Ledger em breve esmaecerá, prevê.

“Eles não vão erguer um busto dele no Grifftih Park” em Los Angeles, diz Marling. “Isso é mais sobre celebridade e diversão -o país é tão louco por celebridades que quase qualquer coisa que uma celebridade faça vale uma notícia, e a maior parte ‘disso’ é uma forma de evitar a política.”

Ser jovem, ter boa aparência e estar morto, apesar de trágico, não é sempre suficiente para garantir que a pessoa perdurará na consciência pública. Veja Brad Renfro, jovem ator encontrado morto com 25 anos em seu apartamento de Los Angeles uma semana antes de Ledger. Renfro (que começou quando criança), tinha mais filmes que Ledger, mas sua carreira estava empacada -e sua morte passou praticamente despercebida.

É um debate de bar argumentar quem pertence ao panteão da cultura popular permanente e quem não. A lista de “figuras do entretenimento” que inegavelmente pertencem ao panteão é relativamente curta: além de James Dean e Marilyn Monroe, inclui Elvis Presley, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Marley, Jim Morrison, John Belushi, John Lennon, Kurt Cobain.

“Há algo de místico, alguma magia sobre eles, porque nem todo mundo sabia tudo sobre eles quando eram vivos”, diz Lynn Bartholome, do Colégio Comunitário Monroe em Rochester, Nova York, presidente da Associação de Cultura Popular -acadêmicos que estudam a cultura americana.

A lista daqueles sobre quem há dúvidas é maior: Freddie Prinze, Tupac Shakur, Buddy Holly, River Phoenix, Ritchie Valens, John Candy, Phil Hartman, Brandon Lee, Cass Elliot, Keith Moon, Brian Jones, Hank Williams, Selena.

Na Internet, as listas compiladas por várias pessoas que ligam para essas coisas são intermináveis. Uma equipe de pesquisadores no Reino Unido até fez um estudo sobre a fama e a morte prematura. Os pesquisadores da Universidade John Moores, em Liverpool, avaliaram 1.064 astros do rock e pop norte-americanos e britânicos -100 dos quais tinham morrido cedo- e concluíram que há mais do que o dobro de probabilidade da pessoa morrer cedo com a chegada da fama, segundo publicaram em uma revista de epidemiologia no ano passado.

Então quem fica entre os imortais, e por quê?

Ajuda ser um pouco excêntrico. Ajuda ter uma alma torturada, demônios pessoais, problemas com pílulas ou álcool ou comportamento ilegal. Principalmente, ajuda ter seguidores apaixonados “antes” da morte -como Dean e Monroe, diz Patrícia King Hanson, historiadora do Instituto de Cinema Americano. Ambos tinham forte conexão com o público, especialmente com os jovens, que respondiam às notas de vulnerabilidade e tragédia que mostravam em tela e em suas vidas pessoais.

“Nenhuma pessoa é lançada à grandeza só pela morte”, diz Hanson. “É um certo tipo de pessoa que parece atrair seguidores e apenas por virtude de sua morte parece expandir. As pessoas ficam com uma imagem maquiada deles -sempre jovens e sempre vibrantes.

“O sujeito feliz sem problemas que morre cedo não vira cult.”

A Internet apressa e espalha a reação a alguma coisa como a morte de Ledger, mas pode sumir igualmente de maneira rápida. “É um mini-cult e é muito temporário”, diz ela. “Talvez em três meses não haverá tanto”.

Epting acha que é cedo para dizer, mas se pergunta se a morte de Ledger terá o poder de perdurar. “Meu filho tem 14 anos e freqüenta uma escola pública no Sul da Califórnia. Ele me conta sobre os jovens afetados com isso. Eles captaram aquele sentimento solitário, que Ledger era torturado em sua vida pessoal, que era marginalizado, que fazia seus papéis com seriedade.”

Há algumas similaridades entre Dean e Ledger.

Como Dean, Ledger era jovem e sensual, com meia dúzia de papéis no cinema, uma nomeação ao Oscar por um papel transcendental (“O Segredo de Brokeback Mountain”) e uma atuação potencialmente memorável como um Coringa especialmente maldoso no novo filme de Batman que ainda será lançado. (Dean recebeu duas nomeações, por seu primeiro papel em “Vidas Amargas” [1955] e por “Assim Caminha a Humanidade” [1956]; ele foi o primeiro a receber nomeações póstumas.)

Diferentemente de Dean, Ledger era pai há pouco tempo; sua filha tem dois anos. Ledger também morreu em uma era da mídia de cerco às celebridades. Minutos depois, a cobertura tornou-se global; o choque, palpável. Sua família na Austrália soube que estava morto junto com todo mundo; hoje em dia, não há tempo para a amenidade de notificar os parentes antes de a notícia chegar ao mundo.

Diante de seu apartamento no SoHo, multidões se reuniram, tributos fluíram pelos blogs e websites e buquês de flores e outras lembranças empilharam-se na porta do prédio após retirarem seu corpo.

“Sempre teremos orgulho de você, Heath. Descanse em paz, amigo”, dizia uma mensagem em uma impressão da bandeira australiana.

Até hoje, as pessoas ocasionalmente deixam tributos diante da boate Viper Room, no Sunset Boulevard em West Hollywood, onde o jovem ator River Phoenix morreu de overdose aos 23, em 1993.

“Esses lugares vão se tornando templos, e acho que (a porta do prédio de Ledger) será um altar por um tempo”, diz ele.

Será que “The Dark Night”, último filme de Ledger, vai acabar sendo seu “Rebelde Sem Causa”, levando-o à fama duradoura? Talvez, mas em uma era em que mais jovens freqüentadores de cinema vêem filmes em iPods e iPhones, será que poderão se conectar com aquelas imagens minúsculas da mesma forma que seus avós se ligaram a Dean em telas prateadas gigantes, questiona Epting.

É útil lembrar que a imortalidade não é assegurada mesmo quando há confrontos no funeral. Lembra-se de Rudolph Valentino? Antes de Dean, a morte mais memorável de Hollywood tinha sido a do astro do cinema mudo italiano, conhecido como “amante latino”, que morreu em Nova York em 1926 aos 31, depois de uma operação de úlcera que deu errado.

A reação foi cataclísmica: uma multidão de 100.000 pessoas apareceu para o funeral carnavalesco em Nova York, tentando ver o corpo na capela Frank E. Campbell (mesmo lugar para o qual o corpo de Ledger foi levado antes da família levá-lo de volta para a Austrália). Quando o corpo de Valentino foi levado de trem para o enterro em Hollywood, milhares viram-no passar, e milhares estavam lá no Hollywood Memorial Park quando quilos de flores caíram de um avião.

Foi um show e tanto, amplamente coberto pela mídia na época. Ainda assim, quantas pessoas ainda falam de Valentino hoje?

Como diz Bartholome sobre o lugar de Ledger na mente pública: “Muito poucos chegariam ao panteão hoje, e isso é por causa da mídia e por causa da Internet -simplesmente sabemos demais sobre pessoas demais.”

Tradução: Deborah Weinberg

Escritora, feminista, Simone de Beauvoir, esquerdista militante

Crítica a Simone de Beauvoir marca o centenário da intelectual feminista

Octavi Martí
(Em Paris)

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros”. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68” citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

Arquivo Última Hora
Simone de Beauvoir ao lado do escritor Jorge Amado (centro) e do filósofo Jean-Paul Sartre

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -“A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -“Castor de Guerre”– pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

SOBRE O FEMINISMO

“Se ser feminista é ser um homem como qualquer outro, como queria Beauvoir, então não sou feminista!”Antoinette Fouque, fundadora do Movimento de Libertação daMulher, na França. ”

A leitura de seu livro ‘O Segundo Sexo’ me causou a impressão de ter-me colocado óculos para ver o mundo.” Wendy Delorme, escritora, atriz e militante das Panteras Rosa.

“É importante que tenha demonstrado que a masculinidade não estava reservada aos homens, mas era um signo cultural e social acessível a todas. Isso é o revolucionário.” – Marie-Hélène Bourcier, estudiosa e crítica da obra de Simone de Beauvoir.

“Depois de ler ‘O Segundo Sexo‘, sei tudo sobre a vagina da autora. É asqueroso.” François Mauriac, romancista

“A posição ética de Beauvoir me apaixona por seu radicalismo: ela prefere mudar a ordem do mundo do que mudar de desejos.”Danièle Sallenave, autora da biografia crítica de Beauvoir “Castor de Guerre“.

EL PAÍS –

JEAN PAUL SARTRE