Morrissey, o pária


Cover of "Years of Refusal [CD/DVD]"

O EX-VOCALISTA DOS SMITHS REJEITA A VOLTA DO GRUPO, CRITICA ESTRELAS POP, COMO MADONNA, FALA DE SUA VIDA RECLUSA E MAMBEMBE E DIZ SE SENTIR ORGULHOSO POR SER ÍDOLO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA

BENOÎT SABATIER

Julho de 1972. Manchester, cidade industrial do norte da Inglaterra. Steven Morrissey acaba de completar sofridos 13 anos. Ele, que se sente mal consigo mesmo, mal na escola, mal em sua família, pode nessa noite sair de seu cotidiano infeliz: seu pai, carregador de macas no hospital, leva-o para assistir a seu primeiro concerto.
O T. Rex está se apresentando no Belle Vue. Na cabeça de Steven, é uma explosão atômica que se produz. Ele vê um outro mundo possível, enxerga a vida ampliada. No microfone, um deus, Marc Bolan, vestindo calça de lamê dourado, paletó de smoking enfeitado com strass brilhante.

É esse glam rock que faz Steven sentir-se vivo: os discos que ouve religiosamente em seu quarto em Hulme, bairro proletário da cidade, e os visuais que o fazem sonhar. Ou Roxy Music, com suas fotos cheias de glamour e seus figurinos tão extravagantes. Socialmente deficiente, recusando-se a beber muito com seus amigos, Steven passa seu tempo lendo, assistindo a filmes, ouvindo música e escrevendo. Lê Virginia Woolf e Oscar Wilde e encontra ídolos ainda mais loucos. E os New York Dolls.
Quando encontra o jovem guitarrista Johnny Marr, finalmente as coisas começam a rolar. The Smiths lançam seu primeiro single em 1983. A ideia dos Smiths é voltar às guitarras, inventar o futuro evocando Elvis e The Kinks. Os maiores sucessos da época (Spandau Ballet, Duran Duran, Paul Young…) se fundem no pop sintético, veiculam o yuppismo e defendem a diversão. The Smiths partem diretamente para cima de seu alvo -a miséria humana.

Morrissey, que fará 50 anos em maio, acaba de lançar seu novo álbum, “Years of Refusal” (Anos de Recusa, gravadora Decca/Polydor).
“Tenho horror a drogas. Tenho horror a cigarros. Sou celibatário e tenho um modo de vida muito saudável”, diz. E proclama: “Somos reacionários”. Mais tarde: “Os Smiths estavam em ruptura com tudo o que sua época veiculava”.

A “smithsmania” alcança um paroxismo angustiante quando um adolescente armado invade uma rádio de Denver [EUA], em 1987, e ordena que a estação transmita apenas canções de seu grupo adorado.

O rapaz só se rende depois de quatro horas. Já os Smiths se rendem depois de cinco anos. Nick Kent: “A notícia da separação deles provocou mais suicídios que os anúncios da morte de Elvis, da separação dos Beatles ou da divisão dos Stones, todos juntos”.

Fãs chicanos
Sem seu grupo, sai seu primeiro álbum solo, “Viva Hate”, que entra diretamente no primeiro lugar das paradas. Bate o recorde dos Beatles, ao vender em 23 minutos todos os ingressos para seu show no Hollywood Bowl.

Morrissey muda-se para Los Angeles, para o Sunset Boulevard, na mansão que Clark Gable ofereceu a Carole Lombart -uma casa na qual já moraram Francis Scott Fitzgerad e John Schlesinger. Não atende ao telefone; comunica-se por fax.
Seus novos fãs montam acampamento diante de sua casa. São multidões de jovens chicanos com atitude que se unem em torno do canto atormentado de Moz.

Musicalmente, não cede a nenhuma moda, mantendo-se fiel a seus amores, o glam e o pop. Contrata um bando de músicos de rockabilly, cantando canções compostas por nomes secundários.

O importante, na era dos downloads, é fazer apresentações ao vivo instigantes.

“Na realidade o mundo não quer ouvir apenas Brócoli [Britney] Spears. Também existem ouvintes esclarecidos.”

Ofereceram a ele US$ 75 milhões para que reformasse os Smiths. “Eu preferiria comer meus próprios testículos, o que seria uma façanha e tanto para um vegetariano como eu.”
Recusa. Pose. Leia mais na entrevista abaixo, cara a cara, numa mansão londrina.

*
PERGUNTA – Você parece permanecer mais no plano da recusa do que no da aceitação. Vem daí o o título de seu novo álbum?
MORRISSEY – É assim que vejo minha posição artística no meio musical. Desde o começo, vejo-me obrigado a recusar todo tipo de pressão. Para juntar à sua volta a grande família das celebridades da cultura pop, você precisa aceitar certas concessões. Não faço parte desse mundo. Isso não é a cultura pop, é a cultura puta.

PERGUNTA – Essa é uma postura moral ou estética?
MORRISSEY – É o caminho para continuar a fazer arte.

PERGUNTA – Nos anos 1980, a recusa do nivelamento vinha dos selos pós-punk: na realidade, você se manteve fiel a essa ética, a ética da música indie.
MORRISSEY – Bem… Ao espírito da independência, OK.

PERGUNTA – É isso que significa “indie”? Independência?
MORRISSEY – Originalmente, sim, mas o indie virou um gênero musical, do qual minha música não faz parte. Hoje o indie virou um “look”, uma postura, mas, no início dos anos 1980, era uma profissão de fé e também a promessa de alcançar um público muito reduzido. Naquela época era muito difícil os independentes chegarem a um público grande. Os Smiths conseguiram, mas éramos casos isolados.

PERGUNTA – O fato de o indie ter virado mainstream quer dizer que a luta que você travou com os Smiths foi vitoriosa?
MORRISSEY – Uma vitória, sim, mas cujo resultado foi pela metade. Por um lado, podemos nos parabenizar porque alguns grupos indies fazem sucesso hoje, mas eu nunca recebi crédito por essa vitória. Ninguém se encarregará disso.

PERGUNTA – Você usa sua celebridade para obrigar as pessoas a deixá-lo em paz…
MORRISSEY – Não sou uma celebridade. Meu status não tem nada a ver com essa palavra.

PERGUNTA – Quando era adolescente, o glam rock foi a música que fez você finalmente se sentir vivo?
MORRISSEY – Exatamente. Eu tinha só dez anos quando o T. Rex, mas também Bowie, com “The Man Who Sold the World”, mudaram tudo. Além do rótulo glam rock, havia uma visão bombástica. Você não pode imaginar o efeito que exercia, na época, ver aqueles artistas todos usando maquiagem. Hoje em dia isso passa despercebido, é até mesmo um pouco ridículo e, em todo caso, não faz mais sentido. Mas em 1971-72! Era tão estranho! Mais que ousado -era perigoso.

PERGUNTA – Você gravou este novo álbum em Los Angeles…
MORRISSEY – Sim.

PERGUNTA – É um lugar onde você se sente bem?
MORRISSEY – É uma cidade que ainda me fascina. É um bom lugar para minha música, para a inspiração, para minha tranquilidade.

PERGUNTA – Parece incrível que você, popstar tão inglês, tenha se instalado na cidade de 50 Cent e Axl Rose. Mas, quando a gente ouve uma canção como “When I Last Spoke to Carol”, isso passa a parecer quase natural.
MORRISSEY – Verdade? É por causa do lado latino de Los Angeles. Eu tinha ouvido música com som de trompete, inspirei-me nisso.

PERGUNTA – Acha estranho ser idolatrado pela comunidade latina?
MORRISSEY – Sinto-me sobretudo lisonjeado. Quando vejo as tatuagens de “Morrissey”… Acho comovente. O fato de queimarem meu nome na pele… Me sinto devotado a eles, também.

PERGUNTA – São os párias do sonho americano.
MORRISSEY – Sim, de certo modo. Tenho muito orgulho desse título: “O cantor dos párias”.

PERGUNTA – Esse título sempre o agradou?
MORRISSEY – Oh, sim.

PERGUNTA – Por quê?
MORRISSEY – Porque é o que eu sou. Eu me sinto antissocial. É a verdade, eu sou um antissocial. Ao mesmo tempo em que tenho milhares de fãs, mal sou tolerado pela indústria, nunca fui convidado pela MTV, continuo a ser um artista à margem. Não é como se eu tivesse sentado e decidido “vou ser um marginal”. Eu sou marginal no meu eu mais profundo. Portanto, não tenho escolha.

PERGUNTA – Apesar disso, você se integrou à sociedade.
MORRISSEY – Não, de jeito nenhum. Os valores que a sociedade favorece não são os meus. Não quero formar um casal bonito, não quero me integrar aos clichês de uma vida doce, feliz e perfeita. Já há gente suficiente comprometida com isso -não é preciso que eu também o faça.

PERGUNTA – Isso é recusa ou é incapacidade?
MORRISSEY – As duas coisas. Sou tremendamente individualista. Nego-me a ser capaz de pensar como meus vizinhos. Venho sobrevivendo assim há anos; controlo meu corpo e tenho poucas razões para andar na companhia daqueles que chamam de meus semelhantes.

PERGUNTA – Mas você vai a algumas festas de vez em quando, não?
MORRISSEY – Festas? Não, não. É entediante demais, de verdade. A presença das pessoas me desequilibra. A necessidade de falar… é difícil demais.

PERGUNTA – Com os Smiths, você cantava como é difícil viver no mundo. Esse ainda é um de seus temas mais importantes?
MORRISSEY – Sim. Não é um assunto que varie conforme mudam as tendências. Em todo caso, não vejo como eu poderia deixar de escrever sobre isso: escrever sobre a condição humana, não existe nisso nada de superado. É algo que será sempre atual.

PERGUNTA – “Life Is a Pigsty”, um dos títulos de seu álbum anterior…
MORRISSEY – Sim, a vida é mesmo um chiqueiro, não é? Uma tortura. O calvário só termina quando se morre. É tão sádico assim.

PERGUNTA – É esse o tema da nova canção “That’s How People Grow Up”?
MORRISSEY – Falo do fato de que, para começar, a gente precisa tentar encontrar seu próprio lugar no mundo, que tudo nos parece impossível, que é preciso ser forte, e então, quando a gente finalmente dá certo, se dá conta de uma coisa: está sozinho. Para o resto da vida.

PERGUNTA – Há a música, os filmes, os livros.
MORRISSEY – É só disso que precisamos.

PERGUNTA – A música pop foi durante muito tempo vista como uma arte menor. Você infundiu nela uma dimensão letrada…
MORRISSEY – Isso me parece importantíssimo. Mas, quando você se engaja nessa via, arrisca muito. Porque a crítica será ainda mais virulenta.

PERGUNTA – A cultura continua a apaixoná-lo? Você ainda descobre novos filmes, ainda lê muito, ainda ouve música?
MORRISSEY – Os livros, os romances novos, alguns me parecem atraentes, mas pressinto a decepção… Quanto ao resto, sim, sem parar.

PERGUNTA – O quê?
MORRISSEY – Tenho visto muitos filmes ultimamente… mas nada de bom. Não, nada que seja inesquecível. Vivo na esperança.

PERGUNTA – Você não vive mais em Roma?
MORRISSEY – Não. Eu estou por aqui, mas não tenho casa. Vou de cidade em cidade, sem me fixar.

PERGUNTA – Você carrega todos os seus livros, discos, DVDs?
MORRISSEY – Na verdade, a maior parte de minhas coisas estão num guarda-móveis.

PERGUNTA – Você é uma espécie de mito vivo. Ainda tem alguma coisa a provar?
MORRISSEY – É claro que sim. Para começar, não devo decepcionar aqueles que me acompanham há tanto tempo e que vão continuar a ouvir minhas canções novas. Depois, sempre há novas pessoas a convencer. E há também os artistas à minha volta. Tenho que provar para mim mesmo que continuo a ser essencial a eles.

PERGUNTA – Você ainda pensa que “todos os dias são silenciosos e cinza” ou há dias em que se diverte?
MORRISSEY – Hoje sou mais tolerante comigo mesmo. Quando você é jovem, é mais intransigente, quer a toda hora provar alguma coisa. E então você chega aos 23 anos, sua mãe morre, e você aprende a tolerância.

PERGUNTA – Se você ficasse feliz, teria menos a dizer?
MORRISSEY – Estou disposto a correr esse risco.

PERGUNTA – Você tem o status de ícone pop, e isso recusando-se a fazer como Madonna ou Mick Jagger, que difundem a imagem de feras do sexo. Esse é um desafio adicional?
MORRISSEY – Um desafio para mim? Em quê?

PERGUNTA – Por recusar-se a se divulgar como hiperssexuado.
MORRISSEY – Bem, sim, de certo modo. Esse tema fascina, especialmente quando se trata de alguém como eu, que, de fato, não tem o mesmo discurso das pessoas que você acaba de citar. Será que tenho que explicar minha vida, me justificar em relação a isso? Não é mais físico, para mim -é metafísico. Mas é preciso que eu dê uma resposta -e, é claro, uma resposta inteligente. Isso às vezes é cansativo, exagerado.

PERGUNTA – Você é uma anomalia, porque, para ser popstar, convém proclamar que se é alguém sedento de sexo.
MORRISSEY – A atitude de Madonna é apenas marketing, nada mais. Saber até que ponto ela se vestiu escandalosamente não tem importância nenhuma. Ela age assim, e, concretamente, isso não tem nada de sexual -é um clichê. Ela ou todos os outros. É bastante assustador pensar que se possa vender milhões e milhões de discos jogando com clichês. Será que realmente não têm consciência de que cada um está jogando um jogo hipócrita?

PERGUNTA – Com você, é “no sex” e “no drugs”?
MORRISSEY – De certo modo, a contracultura virou uma mentira: findo o lado espontâneo, os artistas do rock agem da maneira que se espera deles, ou melhor, como pensam que se espera deles… Isso virou uma camisa-de-força que é preciso vestir para passar uma impressão de descontraído. Mas, se você olhar os artistas da geração da contracultura, hoje eles se comportam da maneira mais sadia possível. Há uma inversão de gerações, um retorno.

PERGUNTA – As pessoas perguntam a McCartney há 40 anos quando os Beatles vão voltar juntos. E você, nunca vai aceitar as somas colossais que lhe são oferecidas para voltar a tocar com Johnny Marr ou não tem tanta certeza assim?
MORRISSEY – Nunca me acontece de não ter certeza quanto a isso. Ou de me sentir tentado pelo que chamo de concessão. The Smiths foi algo que aconteceu, que teve um começo e um fim e que foi quase perfeito. Não devemos mudar isso.

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(*) A íntegra dessa entrevista saiu na Technikart.
Tradução de Clara Allain

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Publicado na Folha de S. Paulo, em 15 de março de 2009

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SONORO DIAMANTE NEGRO – Suely Nascimento

“‘Sonoro Diamante Negro”, livro  da jornalista e fotógrafa paraense Suely Nascimento, cujo projeto foi o único selecionado da Região Norte para o programa Conexão Artes Visuais 2010, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), será lançado amanhã dia 18 de outubro

fotografia sonoro diamante negro

baileSonoro-diamanteNegro


O livro ‘Sonoro Diamante Negro’ contém fotografias que mostram a importância do dia a dia do sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. Suely Nascimento retratou a rotina de pessoas envolvidas na montagem do ‘Diamante Negro’. ‘Nas fotos produzidas durante bailes da saudade, pode-se apreciar os pares de dança, os sapatos brancos dos homens e o assoalho em madeira dos salões’, ressalta. Com base nesse acervo fotográfico, já havia sido produzido o audiovisual ‘Sonoro Diamante Negro’, de agosto a novembro de 2003, quando a jornalista e fotógrafa foi contemplada com a Bolsa para Pesquisa em Arte, do Instituto de Artes do Pará.

A aparelhagem de som ‘Diamante Negro’ foi criada em dezembro de 1950, no bairro da Marambaia, em Belém. Seu primeiro nome era em homenagem a um santo, ‘São Sebastião’. ‘À moda da época, sonoro tinha nome de santo. O tempo passa, a aparelhagem aumenta e o nome é mudado para ‘Diamante Negro’. Era o sonoro mais antigo de Belém, em atividade. O diferencial era a qualidade do som, apreciada nas noites do Baile da Saudade, quando casais cativos dançavam antigas canções que falam de dor de cotovelo, de tristeza, de amor…’, conta Suely Nascimento. O sonoro interrompeu as suas atividades em junho de 2004. ‘Acredito que o livro vai resgatar e divulgar uma parte da memória de Belém, da história do ‘Diamante Negro’ e dos dançarinos que frequentavam essas noites meio de sonho. E o ‘Sonoro Diamante Negro’ pode ter, assim, uma obra brasileira que preserve a sua história’, finaliza.

A seleção de fotos foi feita com base no acervo produzido pela jornalista e fotógrafa Suely Nascimento, entre 1997 e 2003.  O livro traz ainda a história do Sonoro a partir da entrevista com o proprietário, Sebastião Nascimento. O material a ser publicado mostra a importância do dia-a-dia do Sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. As fotos mostram o proprietário, os homens que carregavam os móveis e que controlavam o som, as sedes sociais onde o Sonoro tocava e as pessoas que iam às suas festas. Percebe-se uma realidade bem peculiar de Belém, que é um dos poucos lugares do Brasil onde há esse tipo de atividade cultural e social – a do sonoro.

AGENDA:

NOVEMBRO

Lançamento do livro

Quando: 18/11 (19h as 23h)
Onde: São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficente (Avenida Roberto Camelier, 816 – Jurunas – Belém)

Publicado a partir de:

1 – Conexão Artes Visuais.

2- Jornal O LIBERAL.


DIAMANTE NEGRO – SEBASTIÃO NASCIMENTO – RIP

Cultura paraense perde pioneiro das aparelhagens

Edição de 16/11/2010
JOIA RARA – Sebastião Nascimento, o Manteguinha, comandou o ‘Diamante Negro’

A cultura musical paraense perdeu ontem um dos pioneiros das aparelhagens sonoras: vítima de câncer, aos 82 anos de idade, o cametaense Sebastião Cosme Nascimento morreu em casa, por volta das 10h30, deixando entristecidos a mulher Marlene, cinco filhas, amigos e muitos admiradores de seu trabalho à frente da aparelhagem sonora Diamante Negro – A Jóia Rara, que, por quase cinco décadas, embalou gerações de dançarinos em bailes de Belém. “Quem fica parado é poste”, costumava dizer Manteguinha, como era conhecido Sebastião, por seu extremo zelo para com a aparelhagem. Sebastião morreu a três dias do lançamento do livro “Sonoro Diamante Negro”, da filha e jornalista Suely Nascimento, que integra a equipe do jornal “Amazônia”. O livro será lançado nesta quinta-feira, às 19 horas, na sede do São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficene, na avenida Roberto Camelier com a Timbiras, no bairro do Jurunas. O corpo de Sebastião está sendo velado na capela mortuária do Recanto da Saudade, na rua Diogo Móia, entre Alcindo Cacela e 9 de Janeiro, e será sepultado às 9h30 de hoje, no Cemitério de Santa Izabel, no Guamá.

O livro faz parte do projeto Conexão Artes Visuais 2010, da Fundação Nacional de Artes (Funarte) / Ministério da Cultura, com patrocínio da Petrobrás, e conta por meio de 65 fotos um pouco da trajetória histórica do Diamante Negro, iniciada quando Sebastião, aos 15 anos, começou a animar casamentos, batizados e eventos familiares de amigos e conhecidos, com apenas uma tuíta e um alto-falante, nos anos 50, tudo dentro de um carrinho de mão. Na época, um irmão dele, o Chiquito chegou a atuar como animador (hoje DJ) do então sonoro São Sebastião; mas, depois, quem pilotou mesmo a aparelhagem sonora foi o “Manteguinha”, até 2004, quando a vendeu.

Nos anos 80 e 90, o Diamante Negro (nome dado pelo técnico de som Benjamim Marques) teve seu auge, comandando festas e bailes quase todos os dias, revelando DJs e locutores de rádio. Sempre cuidando qualidade de som – marca da aparelhagem, porque Sebastião Nascimento não abria mão de ter uma estrutura sonora de primeira -, nas torres de caixas acústicas e na mesa, elepês e compactos de Reginaldo Rossi, Jerry Adriani, Elvis Presley, The Beatles, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga e tantos outros nomes musicais fizeram as festas. O sonoro chegou a tocar no Theatro da Paz, em 1950, e a cobrir apresentações de artistas em Belém.

Sebastião Nascimento deixa saudosos a mulher Marlene e as cinco filhas. A contribuição dada por ele à memória musical do Estado não se esgota no livro a ser lançado quinta-feira. Mas, a publicação é um passaporte para uma viagem ao universo do Diamante Negro, algo tão paraense como a alegria de viver do Manteguinha.

RETIRADO DE O LIBERALDIGITAL

Escritora, feminista, Simone de Beauvoir, esquerdista militante

Crítica a Simone de Beauvoir marca o centenário da intelectual feminista

Octavi Martí
(Em Paris)

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros”. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68” citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

Arquivo Última Hora
Simone de Beauvoir ao lado do escritor Jorge Amado (centro) e do filósofo Jean-Paul Sartre

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -“A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -“Castor de Guerre”– pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

SOBRE O FEMINISMO

“Se ser feminista é ser um homem como qualquer outro, como queria Beauvoir, então não sou feminista!”Antoinette Fouque, fundadora do Movimento de Libertação daMulher, na França. ”

A leitura de seu livro ‘O Segundo Sexo’ me causou a impressão de ter-me colocado óculos para ver o mundo.” Wendy Delorme, escritora, atriz e militante das Panteras Rosa.

“É importante que tenha demonstrado que a masculinidade não estava reservada aos homens, mas era um signo cultural e social acessível a todas. Isso é o revolucionário.” – Marie-Hélène Bourcier, estudiosa e crítica da obra de Simone de Beauvoir.

“Depois de ler ‘O Segundo Sexo‘, sei tudo sobre a vagina da autora. É asqueroso.” François Mauriac, romancista

“A posição ética de Beauvoir me apaixona por seu radicalismo: ela prefere mudar a ordem do mundo do que mudar de desejos.”Danièle Sallenave, autora da biografia crítica de Beauvoir “Castor de Guerre“.

EL PAÍS –

JEAN PAUL SARTRE

Os novos ricos irlandeses

A ganância dos irlandeses
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John Murray Brown*

Há vinte anos, se podia contar nos dedos de uma das mãos quais eram os irlandeses autenticamente ricos. Hoje em dia, existem tantos ricos que nem mesmo os profissionais que administram fortunas conseguem acompanhar. O país tem tido um desempenho incrível.

Uma das conseqüências disso é que agora os irlandeses estão vendo a si próprios de uma forma diferente. A imagem de católicos humildes, mas poéticos vivendo à sombra dos empolados e esnobes protestantes ingleses não tem mais sentido para nenhum dos lados, nem mesmo como caricatura. O país de “santos e eruditos” mostrou na década passada que tem vocação também para os negócios.

Os irlandeses ganharam dinheiro em gerações anteriores, mas eles geralmente precisavam sair da Irlanda para isso. Os Conselhos de Administração de empresas nos Estados Unidos estão cheios de nomes irlandeses. Na Inglaterra também, várias das maiores empresas são dirigidas por irlandeses de primeira ou segunda geração, tais como Terry Leahy da Tesco ou Niall FitzGerald, ex-presidente da Unilever. Mas a próspera economia reverteu o fluxo de imigrantes e permitiu que esta geração de homens e mulheres irlandeses explorasse em casa seus talentos de empreendedores.

Quando a economia decolou no início da década de 1990, estava bem situado quem estivesse nos setores de imóveis e construção. O aumento dos empregos e a elevação das rendas, associado a custos muito baixos para empréstimos, ao mesmo tempo em que a Irlanda se preparava para aderir ao euro, incentivou a demanda por moradias e imóveis comerciais, pressionando alta ainda maior nos preços. No campo, os controles de planejamento eram mínimos, estimulando uma onda de pequenos projetos de construção, enquanto proprietários agrícolas com terra perto das grandes cidades tornaram-se instantaneamente milionários, e as cadeias familiares de varejo tiveram uma drástica alta em seu valor, com a chegada das grandes varejistas britânicas. Mas quem mais ganhou foram os construtores e empreiteiros que tiveram a visão de adquirir grandes bancos imobiliários antes que os preços disparassem em 1994.

Alguns críticos comparam os magnatas imobiliários da Irlanda aos oligarcas russos. Segundo uma estimativa, seis ou sete empresários possuem quase todos os imóveis comerciais em Dublin. Uma concentração como essa na propriedade provavelmente foi vista pela última vez nos dias antes da independência irlandesa. Naqueles dias a terra na Irlanda valia uma fração do que valia na Inglaterra, mas hoje em dia tem preços superiores, apesar de uma densidade populacional bem menor na Irlanda. Durante os anos de grande crescimento, os produtores agrícolas foram muito bem compensados, pois o governo deu continuidade aos programas de rodovias e infra-estrutura financiados pela União Européia. E em áreas próximas a Dublin e outras cidades, os preços da terra foram inflados, pois os conselhos municipais competiam para atrair empregos e empresas.

Essa base doméstica de imóveis valiosos lançou uma nova geração de investidores imobiliários irlandeses em direção ao mercado internacional, particularmente na antiga capital do império, Londres. Hoje, poucos negócios imobiliários em Londres são feitos sem alguma presença irlandesa. Conta-se que metade da Bond Street é irlandesa agora.

Não é de se surpreender que a emergência dos novos ricos da Irlanda não seja em geral bem-vinda. Embora a Irlanda moderna jamais tenha tido um forte movimento trabalhista ou um eixo nítido esquerda-direita em sua política, existe um pendor de igualdade social e nivelação de classes na auto-imagem nacional que não está completamente à vontade com uma grande classe endinheirada.

Mas desde que a maioria dos eleitores irlandeses continue a se beneficiar do sucesso do país, haverá pouca hostilidade orquestrada em relação aos magnatas. Os irlandeses parecem ter um apego emocional à propriedade e mais visceralmente à terra, uma atitude que alguns dizem ser um legado direto do colonialismo britânico.

“Nós temos sido pobres há tanto tempo, que qualquer forma de desenvolvimento… é bem-vinda. Não existe disposição da parte da opinião pública de ser muito crítica,” diz Garret FitzGerald, primeiro-ministro na década de 1980 para o partido conservador Fine Gael. E as pessoas comuns estão se beneficiando, pelo menos da prosperidade no setor imobiliário: a proporção de riqueza nacional associada à propriedade residencial é de 74% contra a média européia de 57%. Isso está refletido na taxa de 77% de irlandeses que são donos de seus imóveis, em comparação com 71% no Reino Unido, 56% na França e apenas 43% na Alemanha.

A demanda por moradias também registra um ritmo muito mais acelerado, com 88 mil novas casas construídas em 2006, em comparação com 155 mil na Inglaterra e País de Gales, uma área como 13 vezes mais pessoas. Em 2004, a revista The Economist classificou a qualidade de vida na Irlanda como a melhor do mundo, dizendo que a Irlanda “combina os elementos mais desejáveis do novo, tais como baixo desemprego e liberdades políticas, com a preservação de certos elementos acolhedores do antigo, tais como estabilidade familiar e vida em comunidade.”

Os partidos mais de esquerda, como o Trabalhista e o Sinn Fein, queixam-se do aumento das desigualdades de renda e do fato de a infra-estrutura social não se ter equiparado à riqueza privada, mas nenhum dos dois partidos tem tido bom desempenho nos últimos anos. E embora a desigualdade tenha crescido e ainda exista uma grande quantidade de pobres, que podem ser vistos nas ruas das grandes cidades, não se ouvem protestos. Uma das razões disso é que o modelo econômico e social da Irlanda sempre foi mais próximo do laissez-faire dos Estados Unidos que da Europa continental (“mais para Boston que para Berlim”).

Um grupo que muitas vezes desdenha dos novos ricos da Irlanda é a venha elite irlandesa, formada principalmente por importantes funcionários públicos de Dublin, advogados, jornalistas e artistas. Segundo David McWilliams, o comentarista econômico irlandês, esse grupo está retomando o interesse pelo idioma irlandês e mandando seus filhos para escolas celtas de Dublin, onde o aprendizado é em irlandês, como forma de se diferenciar dos presunçosos recém-chegados.

Garret FitzGerald acredita que a rapidez e a escala da mudança econômica não têm paralelo em nenhum outro lugar da Europa. Entre alguns cidadãos existe, inevitavelmente, uma sensação de desorientação frente às mudanças sociais – incluindo a chegada de imigrantes em massa (10% da população atual nasceu no exterior). Além disso, a instituição que persistiu em se distanciar da adoção do “hipercapitalismo” pela Irlanda – a Igreja Católica – está mais fraca e mais marginalizada que nunca, graças em parte aos escândalos de pedofilia.

A desorientação no tigre pós-Celta foi resumida por muitos na construção de uma alta torre de aço na rua O’Connell em Dublin para marcar o milênio. Para alguns, o monumento é apenas um mastro de bandeira sem bandeira. Mas para outros, o marco – construído no lugar da antiga Coluna de Nelson, explodida pelo IRA em 1966 – traz uma mensagem provocativa a respeito da nova Irlanda, com sua nova riqueza podendo finalmente escapar da sombra de seu vizinho.

No século 19, e grande parte do século 20, os irlandeses foram à Grã-Bretanha para construir canais, estradas e outra infra-estrutura. Hoje, os empreiteiros irlandeses adquirem bens de grande importância na cidade de Londres e em outras partes da capital. Uma das conseqüências dessas mudanças no status relativo, assinala FitzGerald, é que pode ser mais difícil de se conseguir a reunificação da ilha – um projeto ainda de interesse da nacionalista Irlanda. “O norte é muito mais pobre. Eles não poderiam se dar ao luxo de se unir a nós e nós não temos como subsidiá-los,” ele diz.

Ao mesmo tempo, as relações entre a Irlanda e a Grã-Bretanha, e particularmente entre os irlandeses e os ingleses, provavelmente jamais tenham sido tão boas. Enquanto os irlandeses cada vez mais olham para além da Grã-Bretanha, eles se tornaram menos irascíveis a respeito do relacionamento com seu gigante, mas em geral insensível vizinho. “O complexo de inferioridade irlandês desapareceu e o complexo de superioridade britânico se enfraqueceu,” diz FitzGerald. Claro, ele acrescenta, as relações jamais serão realmente iguais e os britânicos continuam a ter uma considerável influência cultural sobre a Irlanda – a televisão britânica, por exemplo, está em toda parte. “Não se pode ter igualdade entre quatro metros e 60 metros. Mas certamente existe menos desigualdade.”

O clássico ensaio de Roy Foster sobre as relações culturais anglo-irlandesas no período vitoriano recebeu o título “Marginal Men and Micks on the Make” (livremente, “Homens marginais e irlandeses tentando tirar vantagem”), descrevendo os irlandeses que se deram bem na Grã-Bretanha naquela época. Mas em seu livro mais recente sobre a Irlanda moderna, “Luck & the Irish” (“Sorte e os irlandeses”), ele descreve como a nova fartura transformou a imagem que a Irlanda tinha de si mesma. “A Irlanda é como a terceira república francesa,” ele disse recentemente. “Temos a corrupção irresponsável. Temos a instabilidade política. Há uma enxurrada de dinheiro em volta e um grande momento de vigor cultural… É uma combinação interessante e de certa forma, dado o histórico da Irlanda, sem dúvida alguma libertadora.”

*John Murray Brown é correspondente do The Financial Times na Irlanda

Tradução: Claudia Dall’Antonia

A Bienal de São Paulo

O papelão da Bienal

MARCO AUGUSTO GONÇALVES
O cancelamento da mostra expõe a incompetência da fundação e a face jeca e atrasada de São Paulo

O CANCELAMENTO da Bienal de São Paulo, que se realizaria no ano que vem, é um atestado de incompetência da atual direção da fundação e de seu conselho, que reúne representantes da elite paulista para os quais a arte parece ser o que menos importa.
A rocambolesca novela em que se transformou a recondução do empresário Manoel Pires da Costa à presidência da instituição, recheada de lances obscuros, irregularidades e movimentações de bastidores, já prenunciava o papelão que ora se consuma. Sem muitas opções, o curador Ivo Mesquita, com a respeitabilidade e as credenciais que possui para ocupar o cargo, propõe, no lugar da tradicional exposição, uma reflexão sobre o vazio. Vazio estará um andar inteiro do prédio de Niemeyer em meio a debates e, ao que parece, realização de performances e exibição de vídeos.
Tudo não passa de uma operação tampão ou de uma tentativa de reduzir os danos, que, a essa altura, já são consideráveis. Perdem artistas, público, cultura, cidade, país.
Num contexto em que a produção de arte e o mercado brasileiro vêm se fortalecendo e ganhando crescente inserção e reconhecimento internacionais, era de esperar que instituições do porte da Bienal já não fossem conduzidas por personagens defasados, amadores em busca de prestígio, alheios à dinâmica cada vez mais profissional e sofisticada do meio artístico.
Paralela e análoga, a crise do Masp é mais um lance dessa realidade crítica. É verdade que a desastrosa situação do principal museu de arte do país foi amenizada com a nomeação de um curador e a retomada de algumas exposições de qualidade. Mas isso é o mínimo que se poderia esperar. O Masp, de fato, continua muito distante do papel que poderia e deveria exercer.
Essa não é uma opinião pessoal, idiossincrática. É a avaliação da esmagadora maioria (senão da totalidade) dos artistas que importam e dos profissionais mais qualificados que trabalham na área.
Voltando à Bienal, disse o presidente da instituição que não há crise nenhuma, numa patética e frustrada tentativa de tapar o sol com a peneira. Em artigo publicado ontem pela Ilustrada, o curador Marcio Doctors, que deixou o cargo, aponta as limitações financeiras para fazer uma “Bienal completa”. Para citarmos alguns exemplos: artistas e curadores ficaram sem receber e os catálogos da mostra, realizada no ano passado, ainda estão por ser publicados.
Agora, depois de uma série de escaramuças e idas e vindas, chegamos ao que se poderia chegar com tamanho despreparo: à impossibilidade de realizar um evento à altura do que São Paulo e a arte brasileira merecem. Foco de atração de artistas e curadores de todas as partes do mundo, a elite da cidade, com o flop da próxima Bienal, mostra sua face jeca e atrasada.
Enquanto isso, em Porto Alegre, a Bienal do Mercosul melhora a cada edição e, em março, será inaugurado o Museu Iberê Camargo, um projeto magnífico do arquiteto português Álvaro Siza.
Bem, deu pra ti, baixo-astral…

Transcrito da F.S.P 


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