Benedito Nunes – entrevista a José Castello

José Castello

Benedito Nunes ensina o caminho de volta

por José Castello.
Crítico paraense defende a radicalidade dos escritores para afirmar grandeza da Amazônia.

Felix Delatour é um professor bretão, circunspecto e quase albino que vive escondido em um sobrado de Manaus. Ele sofre de uma trágica doença que praticamente o imobiliza: o gigantismo. Sobrevive, em seu abafado exílio, ministrando aulas de francês. Em sua sala, despida de qualquer lembrança do passado europeu, há apenas uma mesa de madeira e duas cadeiras de vime. Do lado de fora, com suas ondas de calor e nuvens de mosquitos e sempre indiferente aos requintes da língua, está a Amazônia. Diante de um jovem aluno, Delatour certa vez fez uma importante reflexão sobre seu destino de exilado. “A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o seu olhar”, disse. “A voz do verdadeiro viajante ecoa no rio silencioso do tempo.”

Felix Delatour, esse profeta da distância e do silêncio como métodos fundamentais para o conhecimento, é um personagem de Reflexão sobre uma Viagem sem Fim, um conto (leia íntegra na página ao lado) do escritor amazonense Milton Hatoum, recentemente publicado pela Revista da USP.

O conto é dedicado ao eminente crítico literário e filósofo paraense Benedito Nunes, que vive na vizinha Belém do Pará. Como nos contos de Adolfo Bioy Casares, em que os primeiros parágrafos servem apenas para driblar a atenção do leitor, prometendo-lhe o que não lhe dará, é Benedito Nunes – e não Delatour – quem nos interessa aqui.

A dedicatória, que Milton Hatoum firmou com orgulho, não é mera formalidade. Aos 65 anos, freqüentador assíduo do meio intelectual francês e norte-americano, o paraense Benedito Nunes poderia dizer, sem medo de errar, que também para ele as viagens servem para purificar a visão. Professor da Universidade do Pará e prestigiado conferencista e ensaísta, Benedito Nunes faz muitas viagens, mas retorna sempre a Belém, onde nasceu e nunca deixou de viver.

Ao contrário de Delatour, o professor jamais permitiu que os prazeres do exílio o imobilizassem. Para ele, as viagens apontam sempre para o momento de retorno ao porto de origem. É na volta – novos olhos diante de velhas paisagens – que a aventura da viagem atinge seu apogeu.

Com o espírito depurado pelas aventuras intelectuais no Exterior, Benedito Nunes defende, no entanto, uma visão não-regionalista da região amazônica, que a livra das fantasias românticas e das ilusões de inocência virginal. “Não sou uma planta nativa”, diz.

Nesta entrevista, Benedito Nunes defende a radicalidade de outros escritores e poetas contemporâneos que, exatamente como ele, conseguiram afirmar a grandeza da Amazônia, sem, no entanto, ceder à força inebriante dos mitos. Admira, por isso, o Márcio Souza de Galvez, o Imperador do Acre, mas já não tem o mesmo entusiasmo por seus romances seguintes. Enaltece as qualidades de escritores e poetas nortistas pouco lidos no sul do País, como Dalcídio Jurandir e Age de Carvalho. E se confessa, fechando o círculo, admirador incondicional do amazonense Milton Hatoum, um ficcionista que, como ele, aprendeu a ver a distância como a forma mais eficaz da proximidade.

Caderno 2 – O senhor é um intelectual extremamente fiel à região amazônica. Não paga um caro preço por essa fidelidade?

Benedito Nunes – Não. Se é isso o que você quer saber, mesmo aqui jamais perco contato com o que se passa no resto do mundo. Tenho sempre me afastado da Amazônia, mas são afastamentos por tempo determinado, com volta fixa e garantida. Minha temporada mais longa no Exterior ocorreu na segunda metade dos anos 60, quando fui leitor em Rennes, na França. Depois, nos anos 80, retornei à França por mais um ano, já como professor. Tenho viajado freqüentemente a Paris e aos Estados Unidos, em particular a Austin, no Texas, para aulas, conferências e debates. Mas faço sempre um movimento de saída e retorno, que é importante porque me confere certo afastamento, sem que os vínculos se quebrem. Não tendo uma radicação extrema ao meio, posso pensar com mais independência e vigor. As viagens me fortalecem.

Caderno 2 – O senhor não se sente isolado em relação ao resto do País? Convites para lecionar em grandes capitais brasileiras, certamente, não lhe faltam.

Nunes – Mas prefiro permanecer aqui. Não me sinto isolado em Belém do Pará simplesmente porque sou um homem que gosta do isolamento. No Pará tenho muitas relações, muitos amigos, é bom dizer. Mas conservo também, é verdade, a distância e a calma que, para mim, são condições fundamentais para o trabalho intelectual. Vivo sim em um certo isolamento que não deve ser confundido, no entanto, com insulamento. Não estou incomunicável e não é uma fuga. A distância geográfica, ao contrário, me proporciona um refúgio, para o qual posso sempre retornar em segurança. Mas não sou uma planta nativa, presa definitivamente à floresta. Talvez por isso eu entenda a região amazônica sem precisar do apoio dos localismos. Prefiro falar, por exemplo, em uma literatura “da Amazônia” e não em literatura “amazônica”, denominação que inclui uma perspectiva regionalista. Ao falar em literatura “da Amazônia”, estou me referindo apenas a uma origem, uma procedência e nada além disso.

Caderno 2 – Quem são, segundo sua avaliação, os grandes prosadores vivos dessa literatura da Amazônia?

Nunes – Temos de falar, primeiro, de Haroldo Maranhão. Ele se mudou há muitos anos para o Rio, mora atualmente em Juiz de Fora, mas tem uma escrita que é muito paraense. Embora com um círculo de leitores bastante restrito, Haroldo é, há algumas décadas, uma figura-chave para a literatura amazônica. Em 1946, ele foi o inventor do suplemento literário da Folha do Norte, de Belém, um importante jornal que não existe mais, com o qual colaboraram não apenas escritores da região, mas também poetas como Bandeira, Cecília e Drummond. O suplemento durou até meados de 1951, mas, antes disso, surgiu um outro, igualmente importante, editado semanalmente pelo jornal A Província do Pará. Foi nesse caderno que Mário Faustino começou sua carreira de escritor, publicando crônicas no estilo de Rubem Braga.

Caderno 2 – Quais são outros nomes injustamente esquecidos?

Nunes – Penso, por exemplo, em Dalcídio Jurandir, que começou ainda nos anos 40 com um romance chamado Chove nos Campos de Cachoeiro e não parou mais de escrever. Cachoeiro é uma cidade da Ilha do Maranhão, onde Dalcídio nasceu. De lá para cá, seus romances formam um imenso ciclo amazônico que guarda, no entanto, considerável distância das experiências regionalistas. São ficções que apresentam uma interiorização muito grande, cada vez mais densa; são, na verdade, as aventuras de uma experiência interior. Chego a pensar que o conjunto desses romances forma uma espécie de À La Recherche… escrita na Amazônica e que Dalcídio é, um pouco, o nosso Proust. Pois veja o paradoxo: ele sempre foi um escritor publicado no Sul, pela Martins, e só agora está sendo republicado lentamente em Belém, pela Cejup,uma pequena editora que se originou do Centro de Estudos Jurídicos da Universidade do Pará.

Caderno 2 – No Sul e no Sudeste falamos em literatura do Amazonas e pensamos imediatamente em Márcio Souza e seu Galvez, o Imperador do Acre. O que o senhor pensa desse livro?

Nunes – Você fala em Márcio Souza e eu penso em Benedito Monteiro, outro escritor paraense bastante esquecido, autor de dois livros, em particular, de que gosto muito: Verde Vago Mundo e O Minossauro. Ambos são escritores que fazem uma elaboração muito importante das experiências lingüísticas da Amazônia, da diversidade de línguas e perspectivas. São exemplos enfáticos de uma literatura não-regionalista, embora feita com matéria-prima da região. Não faz mais sentido pensar, hoje, em literatura regionalista. O regionalismo tem data certa: nasceu romântico, foi batizado pelo naturalismo e foi crismado em 30, pelos modernistas. Depois, se tornou crônico e, por fim, anacrônico. Os dois golpes de morte mais duros no regionalismo brasileiro foram dados por Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto. Essa distinção entre literatura regionalista e não-regionalista é muito importante para entendermos a produção contemporânea, do contrário continuamos presos a velhos mitos e nos cegamos. A literatura regionalista, oje, não tem mais força na Amazônia. Basta pensar em Márcio Souza e também em Milton Hatoum. Ela sobrevive, de forma decadente, apenas entre os contistas. Nada mais.

Caderno 2 – Qual a importância de Galvez para a literatura da Amazônia?

Nunes – Galvez é um romance escrito dentro da tradição picaresca e foi muito importante retomá-la na Amazônia. Haroldo Maranhão escreveu também um romance dentro dessa tradição, em que ele a prepara ainda com mais refinamento. Refiro-me a O Tetraneto del Rey, em que ele faz uma paródia do modo de escrever seiscentista. Haroldo Maranhão tem sempre muito sucesso nessas experiências. Em Memorial do Fim, sobre os últimos dias de Machado de Assis, por exemplo, ele mimetiza de modo impressionante a escrita machadiana. Eis outro livro que passou despercebido, mas tem qualidades parodísticas extraordinárias.

Caderno 2 – O senhor não parece muito empolgado com Márcio Souza.

Nunes – Dos outros romances de Márcio Souza, na verdade, eu não gosto tanto. Penso que, embora aqui e ali ele encontre certa perspicácia, no geral ele perde por completo a mão na linguagem. Há quem relacione essa degeneração com sua mudança para o Sul, mas penso que é mais um fato interno da obra. A verdade é que, depois do Galvez, ele nunca mais foi o mesmo escritor.

Caderno 2 – Qual a real importância do Relato de um Certo Oriente, de Milton Hatoum?

Nunes – É a “desterritorialização”, que Milton sabe transformar em qualidade. Já me referi a essa experiência quando falei de mim mesmo. No livro de Milton, há distância, mas há ao mesmo tempo proximidade. A distância está mais na elaboração. O romance se transforma na busca de um tempo perdido, mas em local bem delineado, pintado com tintas que não são regionalistas. Em dado momento, Milton descreve o quintal de uma casa e, ali, o leitor defronta com todo o mundo amazônico. Esse mundo aparece também nas recordações de seus personagens. Mas há, sempre, um distanciamento reflexivo que confere grandeza ao texto.

Caderno 2 – A Amazônia tem, hoje, bons poetas?

Nunes – Temos Max Martins, um poeta que já está com seus 70 anos e tem uma obra de primeira linha, reunida no volume intitulado Para não Consolar. Temos também o Age de Carvalho, que publicou pela coleção Claro Enigma, aquela que foi dirigida pelo Augusto Massi, em São Paulo. É bem mais jovem, deve ter seus 40 anos, mas é muito chegado a Max Martins. Os dois escreveram, até, um poema a quatro mãos chamado A Fala entre Parênteses, em cuja feitura adotaram os procedimentos da renga. É preciso citar ainda João de Jesus Paes Loureiro, um pouco mais velho que o Age, outro excelente poeta. Temos na Amazônia hoje toda uma geração de bons poetas, mais numerosa e até mais importante que a dos ficcionistas.

Caderno 2 – Seu livro mais recente, No Tempo do Niilismo e Outros Ensaios, lançado pela Ática em 1993, é uma coletânea de ensaios filosóficos. A filosofia está se tornando mais importante para o senhor do que a literatura?

Nunes – Minha origem é a literatura. Meu primeiro livro, O Mundo de Clarice Lispector, editado em 1965 pelo governo do Amazonas, é prova disso. Ele reúne artigos que publiquei no suplemento literário do Estadão, ainda no tempo em que ele era dirigido pelo Décio de Almeida Prado. Tenho também um livro mais recente sobre a Clarice, O Drama da Linguagem, que a Ática publicou em 1989.

Caderno 2 – Por que essa dedicação, que se alonga por três décadas, ao estudo da obra de Clarice Lispector?

Nunes – O que se pode dizer, depois de tudo, sobre a importância de Clarice? Sua escrita é absolutamente ímpar. Há alguns anos participei da organização do volume a ela dedicado pela coleção Archives, de Paris. Organizamos uma edição crítica de A Paixão Segundo G.H., uma edição crítica atípica, porque não havia originais do livro. Para compensar, a Casa de Rui Barbosa me ofereceu para consulta os originais de um conto de Clarice, A Bela e a Fera, um dos últimos que escreveu. Nós o reproduzimos na edição crítica de G.H. e pudemos assim mostrar a maneira entrecortada de escrever que Clarice cultivava. É como se ela escrevesse por fulgurações. O confronto do original com o texto definitivo mostra com muita clareza esses movimentos dentro de sua escrita.

Caderno 2 – O que houve com os originais de G.H.?

Nunes – Infelizmente, eles estão perdidos, ao que parece para sempre. Tentei localizá-los nos arquivos da extinta editora Sabiá, que primeiro editou o livro, mas não tive sorte. Têm um destino enigmático. A Clarice talvez tenha, não digo que motivado isso, mas pelo menos ajudado nesse desaparecimento. Ela foi uma escritora que não tinha grande estima pelos originais. Uma vez o texto publicado, não se interessava mais pelo que tinha escrito.

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Publicado originalmente em Jornal de Poesia.
(todos os direitos reservados)

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Benedito Nunes (1929-2001)- RIP

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor,  Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palvras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

Aqui, uma bela matéria da Revista CULT.

Benedito Nunes: Filosofia Contemporânea – EdUFPA

Livro de Benedito Nunes é relançado pela Edufpa

Tatiana Ferreira

Quem estiver interessado em conhecer o mundo da filosofia contemporânea pode contar, a partir de agora, com uma obra imperdível. Lançada originalmente em 1967 pelo filósofo paraense Benedito Nunes, um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, “Filosofia Contemporânea” acaba de ter sua terceira edição lançada pela Editora da UFPA (Edufpa), totalmente revista e atualizada pelo autor.

Benedito Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor Emérito em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão. Escreveu treze livros (ver box) e atualmente coordena a edição completa dos Diálogos de Platão, também pela Edufpa.

“Filosofia Contemporânea” é uma obra dedicada não só aos estudantes de filosofia, mas das humanidades em geral e a qualquer interessado nesse vasto campo de conhecimentos. Laïs Zumero, diretora da Edufpa, comemora o lançamento. “É uma honra poder lançar esse livro. Benedito Nunes é muito integrado à universidade. Esse ano faz trinta anos do curso de filosofia e ele foi um dos fundadores. Acho que é uma obra importante para todos os estudantes de filosofia e não só de filosofia. Basta dizer que atualmente a filosofia está no programa do vestibular”, acrescenta.


A quem se destina o seu livro “Filosofia Contemporânea”?

O livro, quando foi editado pela primeira vez, era simplesmente de divulgação. A intenção era divulgar a existência das várias modalidades da filosofia contemporânea. Isso foi em 1967. A segunda edição foi em 1991 e esta é a terceira edição. É que faziam falta, à época, livros sintéticos sobre filosofia. Quase na mesma época fiz para a mesma coleção, que se chamava Buriti, um livro sobre estética: “Introdução a Filosofia da Arte”. Hoje já se encontra esse tipo de livro, até mesmo sobre a história da filosofia contemporânea, mas na época não havia, principalmente no Brasil.

Como está dividido o livro?

Ele contempla todas as correntes a partir do século XIX, entrando pelo século XX. Você pode ver bem pelo índice. Dá pra compreender depois o que foi acrescentado. Temos as correntes que ainda persistiram como prolongamento do século XIX. O legado de Kant e Hegel, no século XVIII e começo do século XIX. Depois vem Kierkegaard e Nietzsche entrando pelo século XX. Em seguida, “as filosofias da vida e a fenomenologia” e “de Heidegger a Wittgenstein“, os dois filósofos principais que foram contemplados no livro. Os dois são, aliás, os da minha preferências. Tenho inclusive um livro sobre Heidegger.

Como foi fazer essa revisão. O senhor acabou acrescentando mais uma unidade?

Essa revisão foi feita porque o livro, tal como estava, sem esse acréscimo, ficaria desatualizado. Faltava toda uma parte referente a filósofos mais recentes. Na unidade “Novas correntes” você vê o estruturalismo, a hermenêutica, a arqueologia e a hermenêutica de Michel Foucault, depois vem Ricoeur, que é um dos capítulos mais longos e o último estudado aqui.

Toda essa unidade foi escrita para o livro ou o senhor já tinha esses trabalhos?

Eu já havia feito vários trabalhos e os reuni, então, com o propósito de atualizar o livro. Todos estão referidos.

Fez alterações em outros capítulos?

Fiz alterações em dois capítulos: sobre Heidegger e Wittgenstein. Acrecentei mais e desenvolvi mais, principalmente sobre Heidegger.

Por que eles são seus preferidos?

Todos têm suas preferências, não é? Acho que pelos problemas que tratam, pela ressonância afetiva, intelectual….Esses dois têm recebido minha atenção particular.

O que o senhor achou da inclusão dos conteúdos de filosofia no programa do vestibular da UFPA?

Acho que deveriam fazer muitas observações a respeito disso. Seria essencial que houvesse o ensino de filosofia no secundário. Me parece que isso varia muito. Uns colégios têm e outros não têm. Acho que seria melhor se houvesse Filosofia em todo o ensino secundário, como já se passou há muito tempo. Eu mesmo fui professor de Filosofia no colégio Moderno. Lá tinha filosofia nos últimos anos do chamado curso clássico.

Por que o senhor acha que a filosofia faz diferença na formação do estudante?

Acho que ela faz diferença sim, mas acho que é essencial que o ensino esteja bastante vinculado aos interesses dos estudantes. Isso pode ser provocado pelo próprio professor. Enfim, é necessário que a filosofia esteja voltada para as questões que os jovens se fazem a respeito da vida, da política, da sociedade…

Alguns de seus livros também tratam de literatura. O senhor acha que filosofia e literatura andam de mãos dadas?

É verdade. Tenho treze livros e alguns especialmente dedicados a autores, como Clarice Lispector e João Cabral de Mello Neto. Este último vai ter uma nova edição em Brasília. Escrevi também sobre Oswald de Andrade e vários outros ensaios. Há uma ligação óbvia porque a filosofia comporta a literatura. A filosofia é geralmente um texto corrido, em geral narrativo, e por aí se aproxima da literatura. Acontece que muitos filósofos também foram escritores bons. Platão foi um escritor maravilhoso, Heidegger também escreveu muito bem. Há uma ligação muito íntima, não só pelos assuntos, porque há uma co-relação entre assuntos filosóficos e assuntos literários, mas também por causa da própria passagem dos autores de uma vertente .

O senhor fez literatura?

Não. Só escrevi sobre literatura. Escrevi algumas coisas (de literatura) quando era muito jovenzinho, mas é melhor deixar pra lá (risos).

No que o senhor está trabalhando agora?

Estou fazendo uma coletânea de novos ensaios, mas ainda não tem previsão pra sair.

O senhor tem admiração por algum filósofo das novas gerações?

É muito interessante verificar que não há muitos grandes filósofos importantes atualmente. Há uma escassez no mercado. Se formos pensar naqueles pensadores exponenciais, como houve, a exemplo de um Sartre, Heidegger., não há.

O que o senhor está lendo atualmente?

É até difícil te dizer porque eu leio muitas coisas ao mesmo tempo e também releio outras. Mas sempre estou lendo porque a curiosidade não cessa, felizmente. Quando cessar a curiosidade, já acabei, estou morto (risos).


Obras De Benedito Nunes

O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. Editora Ática, São Paulo, 1989;

O tempo da narrativa. Editora Ática, São Paulo, 1988;

Introdução à Filosofia da Arte, Editora Ática, São Paulo, 1989;

O Dorso do Tigre (ensaios literários e filosóficos), Col. Debates, Editora Perspestiva, São Paulo, 1969;

João Cabral de Melo Neto, Col. Poetas Modernos do Brasil, Editora Vozes, 1974;

Oswald Canibal, Col. Elos, Editora Perspectiva, São Paulo, 1979;

Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), Editora Ática, 1986;

A Filosofia Contemporânea, Editora Ática, São Paulo, 1991;

No tempo do niilismo e outros ensaios, Editora Ática, São paulo, 1993;

Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos), Editora Ática, São Paulo, 1998;

Hermenêutica e poesia – O pensamento poético – Organização: Maria José Campos, Editora UFMG, Belo Horizonte, 1999;

Dois Ensaios e Duas Lembranças. Secult, Belém-PA, 2000;

O Nietzsche de Heidegger. Pazulim, Rio de Janeiro, 2000;

Heidegger e Ser e Tempo, Zahar, Rio de Janeiro, 2002.

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Texto retirado de BEIRA do RIO/Arquivo (Jornal da UFPa).

A autora da matéria é Tatiana Ferrreira, ‘jornalista, mestranda em Comunicação, Linguagens e Cultura (Unama). ‘Pesquisa atualmente Amazônia e sociedade no webjornalismo’.

BEIRA DO RIO!,

Outro link.

Fica, portanto, registrado para fins de divulgação: a edição é de 2009.

SONORO DIAMANTE NEGRO – Suely Nascimento

“‘Sonoro Diamante Negro”, livro  da jornalista e fotógrafa paraense Suely Nascimento, cujo projeto foi o único selecionado da Região Norte para o programa Conexão Artes Visuais 2010, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), será lançado amanhã dia 18 de outubro

fotografia sonoro diamante negro

baileSonoro-diamanteNegro


O livro ‘Sonoro Diamante Negro’ contém fotografias que mostram a importância do dia a dia do sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. Suely Nascimento retratou a rotina de pessoas envolvidas na montagem do ‘Diamante Negro’. ‘Nas fotos produzidas durante bailes da saudade, pode-se apreciar os pares de dança, os sapatos brancos dos homens e o assoalho em madeira dos salões’, ressalta. Com base nesse acervo fotográfico, já havia sido produzido o audiovisual ‘Sonoro Diamante Negro’, de agosto a novembro de 2003, quando a jornalista e fotógrafa foi contemplada com a Bolsa para Pesquisa em Arte, do Instituto de Artes do Pará.

A aparelhagem de som ‘Diamante Negro’ foi criada em dezembro de 1950, no bairro da Marambaia, em Belém. Seu primeiro nome era em homenagem a um santo, ‘São Sebastião’. ‘À moda da época, sonoro tinha nome de santo. O tempo passa, a aparelhagem aumenta e o nome é mudado para ‘Diamante Negro’. Era o sonoro mais antigo de Belém, em atividade. O diferencial era a qualidade do som, apreciada nas noites do Baile da Saudade, quando casais cativos dançavam antigas canções que falam de dor de cotovelo, de tristeza, de amor…’, conta Suely Nascimento. O sonoro interrompeu as suas atividades em junho de 2004. ‘Acredito que o livro vai resgatar e divulgar uma parte da memória de Belém, da história do ‘Diamante Negro’ e dos dançarinos que frequentavam essas noites meio de sonho. E o ‘Sonoro Diamante Negro’ pode ter, assim, uma obra brasileira que preserve a sua história’, finaliza.

A seleção de fotos foi feita com base no acervo produzido pela jornalista e fotógrafa Suely Nascimento, entre 1997 e 2003.  O livro traz ainda a história do Sonoro a partir da entrevista com o proprietário, Sebastião Nascimento. O material a ser publicado mostra a importância do dia-a-dia do Sonoro na vida social e cultural de pessoas simples, moradoras de bairros afastados do centro da cidade. As fotos mostram o proprietário, os homens que carregavam os móveis e que controlavam o som, as sedes sociais onde o Sonoro tocava e as pessoas que iam às suas festas. Percebe-se uma realidade bem peculiar de Belém, que é um dos poucos lugares do Brasil onde há esse tipo de atividade cultural e social – a do sonoro.

AGENDA:

NOVEMBRO

Lançamento do livro

Quando: 18/11 (19h as 23h)
Onde: São Domingos Esporte Clube Recreativo e Beneficente (Avenida Roberto Camelier, 816 – Jurunas – Belém)

Publicado a partir de:

1 – Conexão Artes Visuais.

2- Jornal O LIBERAL.


PEDRINHO CAVALLÉRO e ANINHA PORTAL

Pedrinho Cavalléro convida Aninha Portal
Pedrinho Cavalléro recebe Aninha Portal-Belém-Pará

Absolutamente imperdível, para todos os que amam a música popular brasileira e sabem o valor que ela tem:
Nesta terça, dia 19 , ás 21h no Bar Vitrola em Belém do Pará, nosso grande Pedrinho Cavalléro recebe como convidada a sambista paraense rainha da Lapa -RJ, Aninha Portal no show Vinícius, Saravá!!!

O Bar Vitrola fica na Rua dos 48, nº42, próximo ao shopping Pátio Belém.
Andréa Cavalero é a produtora e reitera que  ‘não dá  pra  perder’!

Informações 91464526.

Todos lá!

(*) Siga os links e conheça melhor  Aninha Portal, a convidada do consagrado Pedrinho Cavalléro.

DESTAQUE:  Blog  Música Paraense. Da Conexão VIVO.

PEDRINHO CAVALLÉRO

Pedrinho Cavalléro - Vinicius Saravá

Pedrinho Cavalléro - Vinicius Saravá - Belém

Vinícius Saravá! 30 Anos de Saudade

   Em 09 de julho de 1980, parte o nosso Vinícius de Moraes. O “Poetinha”, como era conhecido. É considerado o mais poeta dos poetas e a mais real e clara expressão do romantismo. Sua obra serviu de referencial para muitos compositores e intérpretes. Em suma, ele faz parte da história musical e literária desse país, e só por isso, merece ser eternamente lembrado, cantado e recitado.

            Para relembrar o grande poeta é que desenvolvemos o projeto “Vinícius Saravá – 30 Anos de Saudade” que conta com o patrocínio da Y.Yamada através do incentivo da Lei Semear.

Convidamos o compositor, músico e intérprete Pedrinho Cavalléro, para apresentá-lo, por todo seu conhecido amor pela obra do poeta, mais o ator Ricado Tomaz e as intérpretes Aninha Portal, Silvia Lobo, Patrícia Rabelo, Adriana Cavalcante, Marcia Yamada e Karen Tavares, que irão se apresentar a cada terça feira.

Dividindo o palco com Pedrinho Cavalléro estarão os músicos Lenilson Albuquerque, Mário Jorge e Bruno Mendes.

As apresentações serão no Bar Teatro Vitrola, todas as terças-feiras, nos meses de outubro e novembro, às 21h, ingressos a R$ 10,00.

 Ficha Técnica:

Produção: Igara Produções – Nayana Reis

Projeto Visual: Andréa Cavalléro, Ricardo Tomaz e Nayana Reis

Direção Musical: Pedrinho Cavalléro

Produção Executiva: Andréa Cavalléro

 

 

 

A riqueza sem preço de Belém

Por Carlos Aberto Dória

Na fronteira do capitalismo moderno, uma cidade amazônica subsiste longe dos olhos do turismo

“Menina, coma a goma! Ela é boa porque forra o estomago e protege do ácido do tucupi. E olha que eu não coloquei muita para você…” Desse modo, entre medicinal e maternal, a senhora procura convencer a turista de que o tacacá deve ser consumido do modo como foi apresentado, sem aquelas simplificações que sempre se procura impor às comidas regionais, como ao vatapá baiano, hoje já feito na versão “para paulista”. Mas, ao contrário do comedimento da pimenta baiana, em Belém a gosma da goma é uma proteção, um antídoto contra qualquer excesso que já vem incluído na iguaria.Criada em 1621 por Felipe III da Espanha, a capitania do Gram-Pará Maranhão, tendo passado por subdivisões em 1755, só veio a se integrar de fato ao Brasil na Independência, em 1822. Daí em diante suas rendas deveriam ajudar a sustentar a burocracia da corte em território brasileiro. Mas ali, ainda durante o século 19, falava-se a “língua geral” que os jesuítas, expulsos pelo Marquês de Pombal, improvisaram num misto de português e tupi. Talvez por essa história ainda se tenha a estranha sensação de que o Brasil está de costas para o Pará, assim como o Pará está de costas para o Brasil. Nenhum parece depender do outro.

De fato, é um destino longínquo. Custa tanto ir a Belém quanto a Paris. Para um turista do Sul ou do Sudeste, só o raciocínio utilitário suscitado pelo uso de milhagem aérea doméstica aponta em direção ao Pará. E, claro, um certo apelo moderno pelo “exótico” ajuda a vislumbrar ali a valorizada Amazônia.

Manaus é a “capital real” da Amazônia, devorada pela lógica mercantilista da sua zona franca. Belém é a “capital ideal” da Amazônia, ainda não totalmente afetada pelo capitalismo transnacional. Ali, o isolamento histórico é uma virtude notável.

Apesar das ruas largas, cujo traçado no início do século 20 mostra uma mesma influência francesa que se fez sentir também no Rio de Janeiro, Belém é uma cidade que não esconde sua feição antiga.

Os casarões coloniais, muitos em fase de restauração, não foram destruídos até agora pela voragem imobiliária. Galos cantam em sinfonia de madrugada, em pleno coração da cidade. As avenidas arborizadas com mangueiras remetem a um tempo em que certamente não havia carros como hoje, mas nem por isso foram arrancadas como seriam árvores paulistanas que atrapalham o trânsito. Ao contrário, o capitalismo teve que se adaptar: há seguros de veículos com cláusula de danos provocados por mangas…

O comércio de frutas locais nas ruas, além da marginalidade que todo tipo de camelô exprime, revela uma economia de subsistência tentacular, que une locais distantes às margens do grande rio ao núcleo urbano. Os gadgets chineses ainda não têm a mesma importância que as frutas da época.

O rio preside a cidade. Há um esforço para voltar a expansão urbana para o traçado do rio Guamá, como se a civilização devesse seguir sempre os caprichos da natureza. Novas avenidas são desenhadas, dando a direção dos negócios imobiliários, onde começam a surgir condomínios modernos, guetos de classe média. Ainda que haja uma “miamização” da orla, talvez ela não pressione a cidade de forma tão destrutiva como ocorre com outras cidades, pois aponta no sentido de uma zona de escape sobre territórios novos. O rio dirige e limita.

Nos próximos anos, 5 mil novos leitos hoteleiros de quatro e cinco estrelas serão disponíveis na cidade, onde hoje existe quase nada. O aeroporto já está dimensionado para o futuro. A restauração de locais forjados para a visitação turística, que até dois, três anos atrás não ocupavam mais de um dia do visitante, hoje já podem preencher de três a quatro dias. Não há dúvida: o boom turístico acontecerá em breve.

Ao contrário de destinos como os do litoral nordestino, que oferecem sol o ano todo, Belém oferece chuva o ano todo. Meses nos quais chove todo dia alternam-se como outros, nos quais chove o dia todo -brincam os habitantes da cidade. Este “clima de Macondo”, que Garcia Márquez imortalizou, é a marca da Amazônia. Mas, além de se molhar à beça em qualquer trajeto que se faça por mais de uma hora a pé, o visitante se depara com outros ineditismos.
A cozinha que sai da água

Se fosse possível definir em poucas palavras a cozinha paraense, teríamos que nos entregar às metáforas aquáticas. As coisas saem da água, do brejo, da beira-rio, para mergulhar em alguma espécie de caldo saboroso ao qual em geral se acrescenta, como “terra firme”, um tanto de farinha de mandioca.

A culinária gira em torno do rio e dos caldos; como a cidade de Belém, em cujo horizonte sempre se vê uma nesga do Guamá. É uma cozinha palafitada, onde nem se quer os limites entre o rio e o mar são muito claros, conforme mostrou o recente episódio de uma baleia que foi encontrar o seu fim mais de 100 km longe do mar; como a deliciosa pescada amarela que, sendo um peixe comum a todo o litoral brasileiro, só encontra um sabor excepcional em Belém, talvez graças à água doce na qual transita e se alimenta antes de mergulhar nas panelas.

Um panorama vivo dessa cozinha é dado por uma visita ao Mercado Ver-o-peso. Mesmo sucessivas reformas não foram capazes de descaracterizá-lo, como aconteceu ao Mercado Municipal de São Paulo ou, mais remotamente, ao Mercado Modelo de Salvador, onde sequer deixaram frutas e legumes como décor…

A onda de “refuncionalização” dos mercados parece ter preservado poucos destes no mundo. O Boqueria, em Barcelona; o Ver-o-peso, em Belém, são exemplos que escaparam com vida. A “refuncionalização” dos Armazéns das Docas do porto de Belém, bem ao lado do mercado, salvou-o, e pode-se dizer que a sua última reforma até o melhorou, em termos de higiene. Uma sorte danada.

Frutas in natura e em polpa, farinhas em enorme variedade, peixes, ervas, mezinhas, galinhas caipiras em pé, para abate; alguns exemplares de orquídeas amazônicas; quase tudo alheio ao turista, mostrando que o impulso dessa economia quase nada deve aos de fora -em geral alemães, americanos e franceses, mais do que brasileiros. É uma realidade tão pouco óbvia que, em geral, exige um intérprete. Como Paulo Martins.

Com a aparência física que beira a de um guru indiano, Paulo Martins é um pioneiro. Há mais de 20 anos sua família possui o restaurante “Lá em Casa”, agora definitivamente sob sua direção após a morte recente de sua mãe, Anna Maria. Em meio ao caos que é a “cozinha paraense”, esse restaurante se dedica a fixar um menu que possa ser reconhecido como “regional” não só pelos guias de turismo mas em qualquer parte do mundo.

Fazer uma ementa é essencialmente discriminar, incluir e excluir, firmando a visão do todo. Maniçoba, feijão manteiguinha de Santarém, várias farofas aproveitando a enorme diversidade de farinhas de mandioca, caldeiradas, tucupi, pato; peixes como o filhote, a pescada amarela, o tambaqui, o pirarucu e o tucunaré; o jambu com sua sensação “elétrica” na boca; frutas como o bacuri e a taperebá -tudo isso expressa opções que deixam de lado coisas igualmente interessantes para o investigador gastronômico mas que, no conjunto, apresentam o risco de desenraizar por completo o turista, atirando-o num abismo sem fundo.

Paulo busca criar um solo firme para a culinária local, eis o seu pioneirismo. Também por isso pagou do próprio bolso estudos que permitiram a descrição e tipificação do tucupi, em fase de registro oficial. Ele pretende criar o tucupi “DOC” e exportá-lo, ganhando o mundo com esse produto que, hoje, só aparece na alta gastronomia através de pratos elaborados por Alex Atala, em São Paulo, ou em ensaios dos modernos espanhóis.
A viagem gastronômica de Adrià

Paulo Martins está por trás de muita coisa que Alex Atala faz. Por isso, 2008 promete ser um ano decisivo, estratégico. Ferran Adrià deverá vir ao Brasil e, dentre suas exigências, figura uma estada com Paulo Martins em breve viagem de exploração gastronômica pelo rio Amazonas. O Brasil, desde 1500, se descobre de fora para dentro. Mas parece que isso já começou, e Paulo Martins, que cultiva velha relação com Adrià, sabe disso muito bem.

Fica-se sabendo, à boca pequena, que o “aerolula” já fez “escala técnica” em Belém só para recolher umas porções de picadinho de peixe de Paulo Martins para recepção oficial. Paulo Martins não confirma nem desmente. Prefere lembrar que, em breve, irá fazer um dos seus jantares em Beirute, e que já recusou fazer o mesmo nos Estados Unidos, pois não se dispõe a ir a Brasília fazer entrevista na embaixada americana para obter o necessário visto. “Se eles me convidam, deviam saber se eu posso ou não entrar nos Estados Unidos, não é?” Tem sua lógica.
Um museu da riqueza amazônica
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Nua e crua, a biodiversidade é um tema chatíssimo. Coisa de ONG, não da gente. Mas quando se visita o Museu Emílio Goeldi, a abstração se desfaz em tantas materializações que ganha outro significado. Aquele péssimo desenho da vitória-régia, ou aquela foto aguada dos livros de geografia, cedem lugar para algo realmente exuberante neste quadrilátero de Belém que existe como instituição científica desde pelo menos 1820.

A fundação do Museu visava criar uma base local para coleções de flora e fauna, além de etnográfica, procuradas de forma crescente desde as viagens dos naturalistas pioneiros, como a conhecida dupla Spix e Martius.

Em vez de só se coletar espécimes que integrariam coleções de museus europeus, por que não constituir no Brasil um museu que desse uma idéia dessa riqueza amazônica? Assim, a formação do museu e a designação, pelo imperador, do suíço Emílio Goeldi para dirigi-lo, estão na raiz do nascimento das ciências naturais no Brasil. O melhor da cerâmica marajoara e tapajônica; espécimes raríssimos da nossa flora (como arvores frutíferas provenientes do alto Rio Negro), um zoológico pequeno e expressivo, encontram-se no Museu Goeldi. Lá a velha legenda dos livros escolares -“Anta ou tapir”- se corporifica.

Com uma história, cheia de altos e baixos, semeada de abandonos e retomadas, está há pelo menos uma década em boa fase, graças às administrações de Peter Mann e Ima Vieira. Prova disso é a sua linha editorial, onde surgem coisas importantíssimas, como a edição anotada de um texto setecentista de Antonio Giuseppe Landiwrt_note()1.

Publica-se coisas raríssimas, preciosas, em edições que logo se esgotam. Como um livro sobre frutas comestíveis da Amazônia, do recém falecido botânico Paulo Cavalcante. É uma cultura à parte, só acessível para as pessoas antenadas nas instituições científicas, ainda que possam ser de interesse bem mais amplo.

O museu é o principal foco de visitação dos estrangeiros em Belém. É uma maravilha muito mais maravilhosa do que o Cristo Redentor do Rio de Janeiro; escondida, sequer foi a votos dos que escolheram a obviedade carioca. Nem mesmo as empresas adeptas da Lei Rouanet descobriram o manancial de possibilidades que o Museu Goeldi encerra. Assim é Belém. Um recôndito de nós mesmos, uma dignidade insuspeita, uma fronteira do capitalismo moderno, uma riqueza ainda sem preço.
Publicado em 14/1/2008

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de “Ensaios Enveredados”, “Bordado da Fama” e “Os Federais da Cultura”, entre outros livros. Acaba de publicar “Estrelas no Céu da Boca – Escritos Sobre Culinária e Gastronomia” (ed. Senac).

1 – LANDI: “Fauna e Flora da Amazônia Brasileira”, Nelson Papavero e outros, Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002.