WOODY ALLEN : “A vida é trágica” – O sonho de Cassandra

 
Cineasta expõe sua “visão sombria e pessimista” sobre a condição humana e conta que o assassinato é um ato dramático que o “interessa muitíssimo”

Aos 72, Woody Allen lança “O Sonho de Cassandra”, que estréia hoje no Brasil, reclamando de Hollywood, da velhice, da crítica e até de seus filmes… Em entrevista a Bruno Lester, da International Feature Agency, nega que seja um “intelectual”: “Não me interesso por livros complicados”. Allen comenta ainda o lado trágico de “Cassandra”, em que Ewan McGregor e Colin Farrell vivem irmãos endividados que recebem proposta para cometer um crime. (DA REDAÇÃO)

PERGUNTA – Do que trata “O Sonho de Cassandra”? 
WOODY ALLEN 
– É simplesmente a história de alguns jovens muito simpáticos que se envolvem numa situação trágica, em função de suas fraquezas e ambições. A intenção deles é boa. Eles foram educados com decência, mas os acontecimentos e seus próprios atos os conduzem a um final trágico.

PERGUNTA – Como “Crimes e Pecados”, é sobre morte e culpa. 
ALLEN 
– Sempre me interessei pelo assassinato e pelo lado sombrio do drama e da tragédia. O assassinato é uma das ferramentas que dramaturgos e cineastas vêm usando há séculos para elucidar o que querem mostrar, quer fossem tragédias gregas, Shakespeare ou, mais adiante, os suicídios nas peças de Arthur Miller. Tirar a vida é um ato muito dramático e que me interessa muitíssimo.

PERGUNTA – Fazia algum tempo que você não criava um drama. 
ALLEN 
– Acontece que meus pontos fortes mais evidentes sempre foram cômicos, mas eu sempre quis ser um escritor trágico -escritor de materiais trágicos. Finalmente, agora que estou ficando mais velho, estou tendo a chance de fazê-lo.

PERGUNTA – Você disse uma vez que a vida é “uma experiência bastante trágica”. 
ALLEN 
– Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica.

PERGUNTA – Por que você deixou de fazer filmes nos EUA? 
ALLEN 
– É mais fácil conseguir financiamento na Europa. Me dão mais liberdade, porque se respeita o artista mais do que nos EUA. Quando estúdios de Hollywood financiam meus filmes, eles interferem muito. Na Europa, me deixam fazer o que eu quiser. Além disso, aqui eu consigo fazer filmes a um custo mais baixo, e eles não ficam parecendo filmes feitos com pequeno orçamento.

PERGUNTA – “O Sonho de Cassandra” foi recebido com frieza em Veneza, em setembro do ano passado. Você lê as críticas de seus filmes? 
ALLEN 
– Não o faço há 30 anos. Elas não me ajudam. Também nunca assisto a documentários ou leio artigos a meu respeito, porque representam imagens de mim que não reconheço. Não fiz nada de diferente em “O Sonho de Cassandra” do que fiz em outros filmes anteriores.

PERGUNTA – Todo ano há um novo filme de Woody Allen. Como se explica você ser tão produtivo? 
ALLEN 
– É o que faço e tenho bastante tempo livre. Tenho metade do ano sem nada para fazer. Quando termino um filme, fico parado em meu apartamento, caminho pelas ruas, e então tenho uma idéia e penso: “Meu Deus, isso vai ser um outro “Cidadão Kane’!”. Começo a escrever e, em pouco tempo, estou com um roteiro. É claro que, quando o resultado está ali, não é nenhum “Kane”.

PERGUNTA – Você já recebeu 21 indicações e três Oscars (roteiro e direção de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e roteiro de “Hannah e Suas Irmãs”). O que está faltando? Você pensa em se aposentar algum dia? 
ALLEN 
– Enquanto puder continuar a fazer filmes, não vejo razão para não fazê-los. O que mais deveria fazer? Gosto de trabalhar. Sinto prazer em escrever, é meu hobby.

PERGUNTA – E sua saúde é boa. 
ALLEN 
– Nunca estive no hospital; ainda sou ativo. Tenho bons genes. Minha mãe chegou aos 98 anos; meu pai, aos 100. Mas envelhecer é uma coisa terrível. Minha vista já não é o que era, perdi um pouco da audição, a comida não tem o mesmo gosto. Não ganhei sabedoria nenhuma. Não há nada de bom em envelhecer. Você simplesmente deteriora e morre.

PERGUNTA – É mais fácil escrever comédias do que dramas? 
ALLEN 
– Sei mais sobre a comédia, então ela parece vir à tona a todo momento. É claro que quem escreve comédia pensa que a verdadeira essência do mundo está nas mãos dos escritores de dramas sérios. E não há nada que os autores de dramas sérios gostariam mais do que escrever comédias.

PERGUNTA – Por que você não anda atuando tanto quanto antes? 
ALLEN 
– Eu atuo apenas quando acho que sou a pessoa perfeita para o papel. Não sou realmente um ator. Sou muito, muito limitado. Sou capaz de dizer falas espirituosas curtas, e isso é divertido. Consigo representar o tipo de personagem nova-iorquino neurótico que se assemelha ao que sou na vida real.

PERGUNTA – Quando passa algum tempo sem atuar, sente falta disso? 
ALLEN 
– Não. Não me chatearia se eu nunca mais voltasse a atuar. Não ligo. Acho difícil avaliar minha própria performance quando estou na sala de edição. Quase sempre me odeio. É tão constrangedor ver sua imagem na tela grande, agindo como uma pessoa tola. Então, minha tendência é jogar fora muitas coisas que faço, enquanto outras pessoas dizem: “Oh, não tire isso do filme, isso é engraçado”. Então, o que você vê na tela -acredite se quiser- é a destilação do que eu consegui fazer de melhor. Portanto, você pode imaginar o que vai parar na máquina de picar papel!

PERGUNTA – Por que você não deixa seus atores lerem o roteiro inteiro? 
ALLEN 
– Constatei que, se eles não sabem o que está acontecendo, não representam o resultado de suas ações. Eles não atuam sabendo para onde vai o roteiro -atuam de maneira muito espontânea, porque não têm certeza do que está acontecendo. E, de fato, os personagens não devem saber o que está acontecendo.

PERGUNTA – Você é conhecido por não dar muita direção. 
ALLEN 
– Não gosto de sobrecarregar atores com muita conversa, análise e direção. Contrato as melhores pessoas, e então saio do caminho delas. Dou liberdade enorme aos atores.

PERGUNTA – “Vicky Cristina…” é estrelado por Scarlett Johansson. É o terceiro filme que fazem juntos. O que há de especial nela? 
ALLEN 
– Ela tem tudo: é linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa e boa para se trabalhar. Gosto de tudo nela. Se ela mantiver a cabeça no lugar nesse campo de trabalho maluco, o futuro será dela.

PERGUNTA – Como você se sente com a história de ela ser descrita como sua musa? 
ALLEN 
– Fico grato quando a chamam de minha musa, mas não é verdade. Com Diane Keaton, foi diferente. Fizemos oito ou nove filmes e tínhamos uma ligação especial. Mas gosto de trabalhar com Scarlett.

PERGUNTA – Você fica nervoso durante as filmagens? 
ALLEN 
– Nunca fico nervoso quando estou escrevendo ou dirigindo, mas o pânico se instala no momento da montagem, quando você vê tudo o que fez. É um banho de água fria.

PERGUNTA – Você não costuma ficar satisfeito com os resultados? 
ALLEN 
– Não. Quando está filmando, você sempre pensa que está fazendo história, e, quando termina, você diz: “Meu Deus, o que eu fiz?”. Sempre pensei que tenho um pouco de talento e muita sorte.

PERGUNTA – De quais filmes seus você se orgulha mais? 
ALLEN 
– Tenho três dos 39 filmes que fiz: “Match Point”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Maridos e Esposas”. Todos os outros, eu gostaria de refazer.

PERGUNTA – Alguma vez você já ficou tão decepcionado com um filme que não queria que estreasse? 
ALLEN 
– Fiquei muito decepcionado com “Manhattan”. Prometi ao estúdio que, se não o lançasse, eu faria o filme seguinte de graça. Mas o estúdio se recusou, e o filme teve bom desempenho. Com “Setembro”, foi o mesmo. Disse ao estúdio que queria refilmar tudo.

PERGUNTA – Você é admirado por outros cineastas. Você enxerga a sua influência no trabalho deles? 
ALLEN 
– Nunca senti que influenciei ninguém. Não quero que isso soe como falsa modéstia, mas sempre pude sentir a influência de meus contemporâneos -Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Steven Spielberg- e nunca vi minha influência sobre ninguém.

PERGUNTA – Quem o inspirou mais? 
ALLEN 
– Provavelmente os comediantes Groucho Marx e Bob Hope. 


Tradução de CLARA ALLAIN 

 

 

REtirado daqui: FSP

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PELO DIA DA TERRA – Perguntas e Respostas

 

Urso-polar vasculha lixo no Canadá. O maior predador do Ártico está ameaçado pela redução da área de mar congelado, seu território de caça  (Foto de Norbert Rosing/National Geographic/Getty Images)

1. O que é o efeito estufa?

O efeito estufa é o fenômeno natural pelo qual a energia emitida pelo Sol – em forma de luz e radiação – é acumulada na superfície e na atmosfera terrestres, aumentando a temperatura do planeta. De suma importância para a existência de diversas espécies biológicas, o efeito estufa acontece principalmente pela ação de dióxido de carbono (CO2), CFCs, metano, óxido nitroso e vapor de água, que formam uma barreira contra a dissipação da energia solar. A maioria dos cientistas climáticos crê que um aumento na quantidade desses gases provoca uma elevação da temperatura da Terra.  

2. A emissão desses gases está aumentando?

Com o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis cada vez mais intensos, a concentração desses gases está aumentando, especialmente as de CO2 e metano. Desde 1800, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 30%, enquanto a de metano aumentou 130%. Analisando camadas de gelo da Antártica, cientistas europeus descobriram que o ritmo de aumento na concentração de CO2 é impressionante: nos últimos 150 anos, o gás propagou-se pela atmosfera do planeta cerca de 200 vezes mais rápido que nos últimos 650.000 anos.

3. Quais são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

Os maiores emissores de gases responsáveis pelo efeito estufa são Estados Unidos, União Européia, China, Rússia, Japão e Índia. Entre essas nações, os Estados Unidos – responsáveis por cerca de 36% do total mundial – lideram as emissões tanto em termos absolutos como per capita. Entre 1990 e 2002, os EUA aumentaram em 15% o nível de emissão de gases, chegando a 6 bilhões de toneladas ao ano. Para efeito de comparação, todos os países membros da UE emitiram, juntos, cerca de 3,4 bilhões em 2002. A China, terceira colocada no ranking, emitiu 3,1 bilhões de toneladas.

4. Quais são as evidências do aquecimento do planeta?

Há diversas evidências de que a temperatura global aumentou. Os termômetros subiram 0,6°C entre meados do século XIX e o início do século XXI – desses, 0,5°C apenas nos últimos 50 anos. Outra evidência é a elevação de 10 cm a 20 cm no nível dos oceanos nesse período. Além disso, as regiões glaciais do planeta estão diminuindo: em algumas zonas do Ártico, por exemplo, a cobertura de gelo encolheu até 40% em décadas recentes. Cientistas também consideram prova do aquecimento global a diferença de temperatura entre a superfície terrestre e a troposfera – zona atmosférica mais próxima do solo.  

5. Quanto a temperatura pode subir?

Os atuais modelos científicos prevêem que, se nada for feito, a temperatura global pode aumentar entre 1,4°C e 5,8°C até 2100. Cientistas menos otimistas acreditam que a temperatura de certas áreas do globo pode subir até 8°C no período, e que, mesmo com um corte radical na emissão de gases, os efeitos do aquecimento continuarão. Isso porque são necessárias décadas para que as moléculas dos gases que já estão na atmosfera sejam desfeitas e parem de acumular energia solar em excesso.

6. Os atuais modelos de previsão de clima são confiáveis?

Os debates em torno da eficácia e precisão dos atuais modelos de previsão climática são acalorados. Uma minoria científica crê que os sistemas computadorizados são demasiadamente simplificados, incapazes de simular as complexidades do clima real. Porém, a maior parte comunidade científica mundial defende que as atuais análises feitas em computador, apesar de precisarem ser aperfeiçoadas, já são confiáveis para simulações de futuro próximo – intervalos de 25 ou 30 anos.

7. Quais serão os principais efeitos do aquecimento?

Os cientistas climáticos são unânimes em afirmar que o impacto do aquecimento será enorme. A maioria prevê falta de água potável, mudanças drásticas nas condições de produção de alimentos e aumento no número de mortes causadas por inundações, secas, tempestades, ondas de calor e fenômenos naturais como tufões e furacões. Além disso, pesquisadores europeus e americanos estimam que, caso as calotas polares derretam, haverá uma elevação de cerca de 7 metros no nível dos oceanos. Outro impacto provável é a extinção de diversas espécies animais e vegetais.

8. Quais países serão mais afetados?

Apesar de os grandes responsáveis pelo aquecimento global serem as nações desenvolvidas da América do Norte e Europa Ocidental, os chamados países em desenvolvimento serão os que mais sentirão efeitos negativos. Isso acontecerá porque essas nações possuem menos recursos financeiros, tecnológicos e científicos para lidar com os problemas de inundações, secas e, principalmente, com os surtos de doenças decorrentes. A malária, por exemplo, deve passar a matar cerca de 1 milhão de pessoas ao ano com o aquecimento do planeta.

9. Quais espécies animais serão mais afetadas?

Segundo as estimativas da Convenção das Nações Unidas para Mudanças do Clima (UNFCCC), a maioria das espécies atualmente ameaçadas de extinção pode deixar de existir nas próximas décadas. As projeções indicam que 25% das espécies de mamíferos e 12% dos tipos de aves seriam totalmente banidos do planeta com o aumento da temperatura, que provocaria mudanças drásticas principalmente nos frágeis ecossistemas florestais e pantanosos.

10. Como impedir um aquecimento global exagerado?

Cientistas e engenheiros defendem que a solução para o aquecimento global exagerado está no desenvolvimento de tecnologias energéticas que emitam menos dióxido de carbono. Entre as mais pesquisadas atualmente estão a fissão nuclear, células combustíveis de hidrogênio, desenvolvimento de motores elétricos e também o aprimoramento de motores à combustão pela diminuição do consumo e pela diversificação de substâncias combustíveis. No Brasil, ganha destaque o desenvolvimento de matrizes energéticas de origens vegetais, como o etanol, o biodiesel e também o Hbio.

11. Qual a importância do Protocolo de Kioto para conter o aquecimento?

 O protocolo de Kioto – que entrou em vigor em fevereiro de 2005 e conta com a participação de 163 nações – prevê que até 2012 seus signatários reduzam as emissões combinadas a níveis 5% abaixo dos índices de 1990. A eficácia do acordo, contudo, é limitada, pois até o momento os Estados Unidos, maior emissor mundial de dióxido de carbono, não ratificaram o pacto. Especialistas acreditam que as resoluções de Kioto apenas combatem a camada mais superficial do problema do aquecimento global.   Retirado de http://www.uol.com.br

Otávio Paz

 

Há dez anos morria o escritor Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura em 1990. Nascido na Cidade do México em 1914, ele se notabilizou como ensaísta e poeta.

Reprodução
Morte de escritor Octavio Paz (foto)completa uma década
Morte do escritor e poeta Octavio Paz (foto) completa uma década

O escritor teve cedo contato com a literatura graças à biblioteca de seu avô, segundo a biografia de Paz no site do prêmio Nobel. O pai do poeta também teve um papel determinante em sua carreira, pois junto a outros intelectuais apoiou os levantes comandados por Emiliano Zapata.

Após uma viagem à Espanha em 1937, Paz retorna ao México e se torna um dos fundadores da revista “Taller”. A publicação acaba se dedicando à literatura, sendo que Paz já tinha uma atitude engajada mais à esquerda.

Foi na França, no serviço diplomático, que o Paz escreveu o ensaio “O Labirinto da Solidão” e participou ativamente de publicações surrealistas. Em 1962, foi apontado como embaixador na Índia.

Em 1968 ele sai do serviço diplomático em protesto à repressão do governo a protestos estudantis em Tlateloco.

Ele continuou sua carreira como editor e publisher. Paz acabou sendo nomeado doutor honorário em Harvard e ganhou diversos prêmios em vida, como o Cervantes em 1981.

Saltos, suplício e sedução (I)


Please =^.^.=

Eu acho que pés, ops… digo, *sapatos” têm uma significado especial e muito diferente para homens e para mulheres.

Aliás, permitam-me um digressão : tenho um  amigo que diz, que homens e mulheres não se entendem mesmo  e period.  Claro, explica ele: Havia, no início os Homens e as Hóminas, os Mulheros e as Mulheres .

Tanto a classe das Hominas quanto a dos Mulheros ~ficaram em risco de extinção, ninguém fez nada para salvá-los e aí deu-se a melódia, extinguiram-se, aí os Homens e as Mulheres  se juntaram,  e deu no que deu;-)

Acho que ‘se’ experimentaram, ‘se’ tentaram e até hoje vivem sem compreender direito quem são e o que pensam os companheiros.

Pois bem , eu adoro essa história , acho que está certíssima e seguimos pela vida felizes e incompreendidos.

No que diz respeito a sapatos eu sou  rigorosa  e clássica. ;-))))  Ah sim, sou apaixonada pelo Salvatore.  E qual mulher de bom gosto não é? 😉
Sabem aquela foto da Marilyn er.. refrescando-se na ventilação do metrô em Seven Year’s Itch?.
Iiiisssso mesmo, aquela do vestido branco;-) …pois é, a sandália maravilhosa que ela está wearing;-) é dele, do Shoes Dreammaker.

Vale a pena, muito: reavaliar Sylvia Plath

post do filme com Gwineth Paltrow

 “Sou habitada por um grito./ Toda noite ele voa/ À procura, com suas garras, de algo para amar./ Tenho medo dessa coisa escura/ Que dorme em mim;/ O dia todo sinto seu roçar suave e macio, sua maldade.

I am inhabited by a cry./ Nightly it flaps out/
Looking, with its hooks, for something to love. / I am terrified by this dark thing/
That sleeps in me; / All day I feel its soft, feathery turnings, its malignity.

( Silvia Plath. The Elm  (excerto) trad. de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo,  2007)

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No inverno de 1963, talvez o mais frio do século, Sylvia Plath, jovem poeta norte-americana radicada na Inglaterra, suicidou-se inalando gás. Pouco tempo antes ela havia rompido com seu marido infiel, o poeta inglês Ted Hughes; seus últimos meses, ela os havia passado escrevendo quatro dezenas de poemas violentos e obcecados com a morte, reunidos depois em “Ariel“.
Pertence a esse conjunto seu célebre “Papai”, um texto no qual ela chega a comparar o pai a um carrasco nazista, algo que, se hoje patenteia um gosto no mínimo duvidoso, parecia então o supra-sumo do revolucionário. A combinação disso tudo e mais um contexto particularmente favorável garantiram a reputação póstuma da autora e de sua obra, que se tornaram objeto (ou, quem sabe, vítimas) de culto, de uma admiração não raro equivocada, de estudos etc.
O contexto favorável em questão era o da emergência do feminismo americano, um movimento excepcionalmente letrado e literário cujas figuras-chave se originavam em boa parte na área de letras. O feminismo precisava de pelo menos uma mártir, e Plath, jovem, talentosa e precocemente desaparecida, havia sido talhada ou talhara-se sob medida para o papel.
Mártires, no entanto, pressupõem geralmente um carrasco e, para tanto, lá estava o viúvo. Hughes reunia todas as pré-condições para ser declarado, sem julgamento, o culpado pelas misérias da vida e pelo fim trágico de sua (ex)-mulher: era homem, fora um marido infiel, era inglês e, de resto, também escrevia, o que o tornava um “competidor”.
A história, contudo, é mais complexa. Plath perdera, aos 8 anos, o pai, e isso não apenas acarretou dificuldades financeiras para a família como se transformou num trauma. Ela sofria de crises de depressão e, numa delas, nos seus tempos de universidade, antes de conhecer Hughes, ela tentara se matar e acabou submetida a meio ano de internação e tratamento.
Há, além disso, o fato de que vários outros poetas americanos mais ou menos contemporâneos de Plath e estilisticamente próximos — por exemplo, John Berryman — também se suicidaram.
O marido, por sua vez, admirava e incentivou sinceramente sua poesia, algo que ela lhe pagou lealmente na mesma moeda. Em termos profissionais, o convívio foi produtivo para ambos. Depois da morte dela, ele cuidou de preservar sua obra e, prudentemente, evitou se estender seja sobre a vida em comum dos dois, seja sobre as causas do desfecho suicida.
Mas, para gerações de feministas e admiradoras em geral da poesia de Plath, ele é o vilão, algo que na cabeça delas parece confirmado pelo suicídio, cinco anos depois, de sua segunda mulher e pelas suspeitas de que ele teria omitido fatos importantes e destruído partes do diário da poeta.
A carreira de Hughes, no entretempo, prosperou e, em 1984, ele chegou ao topo do “establishment” literário britânico, sendo nomeado “poet laureate” (poeta laureado). Três décadas e meia depois daquele inverno, ele finalmente rompeu o silêncio, dando a público uma coleção de seus próprios poemas sobre a história toda, poemas escritos durante anos e que estarão à venda nos EUA, a partir do mês que vem, no livro intitulado “Birthday Letters“.
Pela amostra reproduzida na imprensa americana pode-se, no entanto, deduzir o resto, ou seja, o de que nenhum fato novo e relevante será acrescentado, nenhum eventual enigma elucidado, pois poemas dificilmente se prestam a uma função dessas. Hughes continua em silêncio. Sylvia, por seu turno, segue segura não só em  seu lugar  de grande poeta mas também de mito. (Nelson Ascher) Folha de S Paulo, 1998)

Filme: Sylvia além das Palavras, 

  “O filme sobre a poeta Sylvia Plath e seu marido Ted Hudghes, dois dos grandes poetas do século 20, expõe o sofrimento da mulher, papel de Gwyneth Paltrow. Pode ser que Sylvia, Paixão além das Palavras seja mesmo um mau filme. São tantos críticos a achá-lo frio e sem graça. Devem ter razão. Mas talvez valha prestar atenção, mesmo assim, à cinebiografia da poetisa Sylvia Plath, realizada pela diretora Christine Jeffs. Ela ou seu roteirista, John Brownlow, possivelmente os dois, viram o velho Sílvia, de Gordon Douglas, com Carroll Baker, nos anos 1960. Aquela Sílvia não tinha nada a ver com esta, mas também era uma mulher da palavra, uma escritora. Uma fictícia, a outra real, as duas Sílvias são vítimas de uma sociedade controlada pelos homens. O filme de Gordon Douglas é melhor. Possui um desenho de cena, uma importância conferida aos objetos, que escapa a Christine Jeffs. Mas ela viu a Sílvia de Douglas, com certeza.
Seu filme conta a história da complicada relação entre dois dos maiores poetas do século 20 – Sylvia Plath e Ted Hughes. Conheceram-se quando, ainda jovens, estudavam na Universidade de Cambridge. O casamento foi marcado pela infidelidade e pela violência. Amargurada, Sylvia se matou aos 30 anos. A Sílvia de Gordon Douglas é um enigma que o detetive interpretado por George Maharis tenta decifrar. Garota, ela adorava os livros, mas era pobre e teve de se prostituir. Violentada por um cliente, tirou dele o dinheiro que lhe permitiu fazer uma carreira como escritora, mas de alguma forma ela morre interiormente. É assim que Maharis a encontra. E tenta retirá-la de entre os mortos.
A Sylvia da neozelandesa Christine Jeffs é a de Douglas sem Maharis. Ao assumir o papel, Gwyneth Paltrow talvez tenha pensado em Nicole Kidman e os produtores numa repetição de As Horas, com a bela atriz como Virginia Woolf, outra suicida. Você pode até falar mal do filme, mas não de Gwyneth. Ela vive Sylvia Plath com sinceridade. E, talvez por ter sido ´liberada´ por Bruno Barreto em Voando Alto, a andrógina atriz de Shakespeare Apaixonado revela sua voltagem erótica em cenas intensas com o ator Daniel Craig, que faz Ted Hughes. Ela você conhece. Ele, pode ser que não – Craig fazia o filho vingativo do gângster Paul Newman em Estrada para Perdição, de Sam Mendes.
Sylvia Plath revelou-se uma das fortes e originais vozes da poesia americana por volta de 1960. Sua morte a transformou num ícone feminista. Ela teria sido vítima do marido. A diretora não repete o erro de Brian Gilbert em Tom & Viv, sugerindo que Vivienne Haigh-Wood não apenas foi levada à loucura por T.S. Eliot, como era melhor poeta do que o marido famoso. Christine não aponta o dedo acusador para Ted Hughes. Ela reconhece que a infidelidade dele produziu a infelicidade no casamento que desestabilizou Sylvia, mas não o transforma em vilão. A compulsão desse homem é motivo de sofrimento para ele próprio.
O filme é falho justamente como retrato de uma poetisa. O universo poético de Sylvia Plath, seu domínio das palavras, tudo isso permanece indecifrável para a diretora. Mas, como retrato triste e amargurado das cenas de um casamento que implode, seu trabalho impressiona e incomoda. Christine não carrega na emoção. Seu filme permanece frio e distante. E a Sylvia de Gwyneth, loira e linda, mas não exatamente platinada como a de Carroll Baker, passa uma insuperável imagem de sofrimento.”
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