Morrissey, o pária


Cover of "Years of Refusal [CD/DVD]"

O EX-VOCALISTA DOS SMITHS REJEITA A VOLTA DO GRUPO, CRITICA ESTRELAS POP, COMO MADONNA, FALA DE SUA VIDA RECLUSA E MAMBEMBE E DIZ SE SENTIR ORGULHOSO POR SER ÍDOLO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA

BENOÎT SABATIER

Julho de 1972. Manchester, cidade industrial do norte da Inglaterra. Steven Morrissey acaba de completar sofridos 13 anos. Ele, que se sente mal consigo mesmo, mal na escola, mal em sua família, pode nessa noite sair de seu cotidiano infeliz: seu pai, carregador de macas no hospital, leva-o para assistir a seu primeiro concerto.
O T. Rex está se apresentando no Belle Vue. Na cabeça de Steven, é uma explosão atômica que se produz. Ele vê um outro mundo possível, enxerga a vida ampliada. No microfone, um deus, Marc Bolan, vestindo calça de lamê dourado, paletó de smoking enfeitado com strass brilhante.

É esse glam rock que faz Steven sentir-se vivo: os discos que ouve religiosamente em seu quarto em Hulme, bairro proletário da cidade, e os visuais que o fazem sonhar. Ou Roxy Music, com suas fotos cheias de glamour e seus figurinos tão extravagantes. Socialmente deficiente, recusando-se a beber muito com seus amigos, Steven passa seu tempo lendo, assistindo a filmes, ouvindo música e escrevendo. Lê Virginia Woolf e Oscar Wilde e encontra ídolos ainda mais loucos. E os New York Dolls.
Quando encontra o jovem guitarrista Johnny Marr, finalmente as coisas começam a rolar. The Smiths lançam seu primeiro single em 1983. A ideia dos Smiths é voltar às guitarras, inventar o futuro evocando Elvis e The Kinks. Os maiores sucessos da época (Spandau Ballet, Duran Duran, Paul Young…) se fundem no pop sintético, veiculam o yuppismo e defendem a diversão. The Smiths partem diretamente para cima de seu alvo -a miséria humana.

Morrissey, que fará 50 anos em maio, acaba de lançar seu novo álbum, “Years of Refusal” (Anos de Recusa, gravadora Decca/Polydor).
“Tenho horror a drogas. Tenho horror a cigarros. Sou celibatário e tenho um modo de vida muito saudável”, diz. E proclama: “Somos reacionários”. Mais tarde: “Os Smiths estavam em ruptura com tudo o que sua época veiculava”.

A “smithsmania” alcança um paroxismo angustiante quando um adolescente armado invade uma rádio de Denver [EUA], em 1987, e ordena que a estação transmita apenas canções de seu grupo adorado.

O rapaz só se rende depois de quatro horas. Já os Smiths se rendem depois de cinco anos. Nick Kent: “A notícia da separação deles provocou mais suicídios que os anúncios da morte de Elvis, da separação dos Beatles ou da divisão dos Stones, todos juntos”.

Fãs chicanos
Sem seu grupo, sai seu primeiro álbum solo, “Viva Hate”, que entra diretamente no primeiro lugar das paradas. Bate o recorde dos Beatles, ao vender em 23 minutos todos os ingressos para seu show no Hollywood Bowl.

Morrissey muda-se para Los Angeles, para o Sunset Boulevard, na mansão que Clark Gable ofereceu a Carole Lombart -uma casa na qual já moraram Francis Scott Fitzgerad e John Schlesinger. Não atende ao telefone; comunica-se por fax.
Seus novos fãs montam acampamento diante de sua casa. São multidões de jovens chicanos com atitude que se unem em torno do canto atormentado de Moz.

Musicalmente, não cede a nenhuma moda, mantendo-se fiel a seus amores, o glam e o pop. Contrata um bando de músicos de rockabilly, cantando canções compostas por nomes secundários.

O importante, na era dos downloads, é fazer apresentações ao vivo instigantes.

“Na realidade o mundo não quer ouvir apenas Brócoli [Britney] Spears. Também existem ouvintes esclarecidos.”

Ofereceram a ele US$ 75 milhões para que reformasse os Smiths. “Eu preferiria comer meus próprios testículos, o que seria uma façanha e tanto para um vegetariano como eu.”
Recusa. Pose. Leia mais na entrevista abaixo, cara a cara, numa mansão londrina.

*
PERGUNTA – Você parece permanecer mais no plano da recusa do que no da aceitação. Vem daí o o título de seu novo álbum?
MORRISSEY – É assim que vejo minha posição artística no meio musical. Desde o começo, vejo-me obrigado a recusar todo tipo de pressão. Para juntar à sua volta a grande família das celebridades da cultura pop, você precisa aceitar certas concessões. Não faço parte desse mundo. Isso não é a cultura pop, é a cultura puta.

PERGUNTA – Essa é uma postura moral ou estética?
MORRISSEY – É o caminho para continuar a fazer arte.

PERGUNTA – Nos anos 1980, a recusa do nivelamento vinha dos selos pós-punk: na realidade, você se manteve fiel a essa ética, a ética da música indie.
MORRISSEY – Bem… Ao espírito da independência, OK.

PERGUNTA – É isso que significa “indie”? Independência?
MORRISSEY – Originalmente, sim, mas o indie virou um gênero musical, do qual minha música não faz parte. Hoje o indie virou um “look”, uma postura, mas, no início dos anos 1980, era uma profissão de fé e também a promessa de alcançar um público muito reduzido. Naquela época era muito difícil os independentes chegarem a um público grande. Os Smiths conseguiram, mas éramos casos isolados.

PERGUNTA – O fato de o indie ter virado mainstream quer dizer que a luta que você travou com os Smiths foi vitoriosa?
MORRISSEY – Uma vitória, sim, mas cujo resultado foi pela metade. Por um lado, podemos nos parabenizar porque alguns grupos indies fazem sucesso hoje, mas eu nunca recebi crédito por essa vitória. Ninguém se encarregará disso.

PERGUNTA – Você usa sua celebridade para obrigar as pessoas a deixá-lo em paz…
MORRISSEY – Não sou uma celebridade. Meu status não tem nada a ver com essa palavra.

PERGUNTA – Quando era adolescente, o glam rock foi a música que fez você finalmente se sentir vivo?
MORRISSEY – Exatamente. Eu tinha só dez anos quando o T. Rex, mas também Bowie, com “The Man Who Sold the World”, mudaram tudo. Além do rótulo glam rock, havia uma visão bombástica. Você não pode imaginar o efeito que exercia, na época, ver aqueles artistas todos usando maquiagem. Hoje em dia isso passa despercebido, é até mesmo um pouco ridículo e, em todo caso, não faz mais sentido. Mas em 1971-72! Era tão estranho! Mais que ousado -era perigoso.

PERGUNTA – Você gravou este novo álbum em Los Angeles…
MORRISSEY – Sim.

PERGUNTA – É um lugar onde você se sente bem?
MORRISSEY – É uma cidade que ainda me fascina. É um bom lugar para minha música, para a inspiração, para minha tranquilidade.

PERGUNTA – Parece incrível que você, popstar tão inglês, tenha se instalado na cidade de 50 Cent e Axl Rose. Mas, quando a gente ouve uma canção como “When I Last Spoke to Carol”, isso passa a parecer quase natural.
MORRISSEY – Verdade? É por causa do lado latino de Los Angeles. Eu tinha ouvido música com som de trompete, inspirei-me nisso.

PERGUNTA – Acha estranho ser idolatrado pela comunidade latina?
MORRISSEY – Sinto-me sobretudo lisonjeado. Quando vejo as tatuagens de “Morrissey”… Acho comovente. O fato de queimarem meu nome na pele… Me sinto devotado a eles, também.

PERGUNTA – São os párias do sonho americano.
MORRISSEY – Sim, de certo modo. Tenho muito orgulho desse título: “O cantor dos párias”.

PERGUNTA – Esse título sempre o agradou?
MORRISSEY – Oh, sim.

PERGUNTA – Por quê?
MORRISSEY – Porque é o que eu sou. Eu me sinto antissocial. É a verdade, eu sou um antissocial. Ao mesmo tempo em que tenho milhares de fãs, mal sou tolerado pela indústria, nunca fui convidado pela MTV, continuo a ser um artista à margem. Não é como se eu tivesse sentado e decidido “vou ser um marginal”. Eu sou marginal no meu eu mais profundo. Portanto, não tenho escolha.

PERGUNTA – Apesar disso, você se integrou à sociedade.
MORRISSEY – Não, de jeito nenhum. Os valores que a sociedade favorece não são os meus. Não quero formar um casal bonito, não quero me integrar aos clichês de uma vida doce, feliz e perfeita. Já há gente suficiente comprometida com isso -não é preciso que eu também o faça.

PERGUNTA – Isso é recusa ou é incapacidade?
MORRISSEY – As duas coisas. Sou tremendamente individualista. Nego-me a ser capaz de pensar como meus vizinhos. Venho sobrevivendo assim há anos; controlo meu corpo e tenho poucas razões para andar na companhia daqueles que chamam de meus semelhantes.

PERGUNTA – Mas você vai a algumas festas de vez em quando, não?
MORRISSEY – Festas? Não, não. É entediante demais, de verdade. A presença das pessoas me desequilibra. A necessidade de falar… é difícil demais.

PERGUNTA – Com os Smiths, você cantava como é difícil viver no mundo. Esse ainda é um de seus temas mais importantes?
MORRISSEY – Sim. Não é um assunto que varie conforme mudam as tendências. Em todo caso, não vejo como eu poderia deixar de escrever sobre isso: escrever sobre a condição humana, não existe nisso nada de superado. É algo que será sempre atual.

PERGUNTA – “Life Is a Pigsty”, um dos títulos de seu álbum anterior…
MORRISSEY – Sim, a vida é mesmo um chiqueiro, não é? Uma tortura. O calvário só termina quando se morre. É tão sádico assim.

PERGUNTA – É esse o tema da nova canção “That’s How People Grow Up”?
MORRISSEY – Falo do fato de que, para começar, a gente precisa tentar encontrar seu próprio lugar no mundo, que tudo nos parece impossível, que é preciso ser forte, e então, quando a gente finalmente dá certo, se dá conta de uma coisa: está sozinho. Para o resto da vida.

PERGUNTA – Há a música, os filmes, os livros.
MORRISSEY – É só disso que precisamos.

PERGUNTA – A música pop foi durante muito tempo vista como uma arte menor. Você infundiu nela uma dimensão letrada…
MORRISSEY – Isso me parece importantíssimo. Mas, quando você se engaja nessa via, arrisca muito. Porque a crítica será ainda mais virulenta.

PERGUNTA – A cultura continua a apaixoná-lo? Você ainda descobre novos filmes, ainda lê muito, ainda ouve música?
MORRISSEY – Os livros, os romances novos, alguns me parecem atraentes, mas pressinto a decepção… Quanto ao resto, sim, sem parar.

PERGUNTA – O quê?
MORRISSEY – Tenho visto muitos filmes ultimamente… mas nada de bom. Não, nada que seja inesquecível. Vivo na esperança.

PERGUNTA – Você não vive mais em Roma?
MORRISSEY – Não. Eu estou por aqui, mas não tenho casa. Vou de cidade em cidade, sem me fixar.

PERGUNTA – Você carrega todos os seus livros, discos, DVDs?
MORRISSEY – Na verdade, a maior parte de minhas coisas estão num guarda-móveis.

PERGUNTA – Você é uma espécie de mito vivo. Ainda tem alguma coisa a provar?
MORRISSEY – É claro que sim. Para começar, não devo decepcionar aqueles que me acompanham há tanto tempo e que vão continuar a ouvir minhas canções novas. Depois, sempre há novas pessoas a convencer. E há também os artistas à minha volta. Tenho que provar para mim mesmo que continuo a ser essencial a eles.

PERGUNTA – Você ainda pensa que “todos os dias são silenciosos e cinza” ou há dias em que se diverte?
MORRISSEY – Hoje sou mais tolerante comigo mesmo. Quando você é jovem, é mais intransigente, quer a toda hora provar alguma coisa. E então você chega aos 23 anos, sua mãe morre, e você aprende a tolerância.

PERGUNTA – Se você ficasse feliz, teria menos a dizer?
MORRISSEY – Estou disposto a correr esse risco.

PERGUNTA – Você tem o status de ícone pop, e isso recusando-se a fazer como Madonna ou Mick Jagger, que difundem a imagem de feras do sexo. Esse é um desafio adicional?
MORRISSEY – Um desafio para mim? Em quê?

PERGUNTA – Por recusar-se a se divulgar como hiperssexuado.
MORRISSEY – Bem, sim, de certo modo. Esse tema fascina, especialmente quando se trata de alguém como eu, que, de fato, não tem o mesmo discurso das pessoas que você acaba de citar. Será que tenho que explicar minha vida, me justificar em relação a isso? Não é mais físico, para mim -é metafísico. Mas é preciso que eu dê uma resposta -e, é claro, uma resposta inteligente. Isso às vezes é cansativo, exagerado.

PERGUNTA – Você é uma anomalia, porque, para ser popstar, convém proclamar que se é alguém sedento de sexo.
MORRISSEY – A atitude de Madonna é apenas marketing, nada mais. Saber até que ponto ela se vestiu escandalosamente não tem importância nenhuma. Ela age assim, e, concretamente, isso não tem nada de sexual -é um clichê. Ela ou todos os outros. É bastante assustador pensar que se possa vender milhões e milhões de discos jogando com clichês. Será que realmente não têm consciência de que cada um está jogando um jogo hipócrita?

PERGUNTA – Com você, é “no sex” e “no drugs”?
MORRISSEY – De certo modo, a contracultura virou uma mentira: findo o lado espontâneo, os artistas do rock agem da maneira que se espera deles, ou melhor, como pensam que se espera deles… Isso virou uma camisa-de-força que é preciso vestir para passar uma impressão de descontraído. Mas, se você olhar os artistas da geração da contracultura, hoje eles se comportam da maneira mais sadia possível. Há uma inversão de gerações, um retorno.

PERGUNTA – As pessoas perguntam a McCartney há 40 anos quando os Beatles vão voltar juntos. E você, nunca vai aceitar as somas colossais que lhe são oferecidas para voltar a tocar com Johnny Marr ou não tem tanta certeza assim?
MORRISSEY – Nunca me acontece de não ter certeza quanto a isso. Ou de me sentir tentado pelo que chamo de concessão. The Smiths foi algo que aconteceu, que teve um começo e um fim e que foi quase perfeito. Não devemos mudar isso.

=-=-=-=-=-=-=–
(*) A íntegra dessa entrevista saiu na Technikart.
Tradução de Clara Allain

****
Publicado na Folha de S. Paulo, em 15 de março de 2009

Anúncios

Noel Rosa – entrevista com João Máximo

‘O romantismo do Noel é todo às avessas’

Entrevistamos o jornalista João Máximo, autor da biografia do Poeta da Vila, que conta um pouco mais sobre a história desse músico que nasceu há cem anos
Vivi Fernandes de Lima

O livro “Noel Rosa, uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo, só pode ser encontrado em sebos e por mais de R$ 400. Isso porque sua única edição – lançada pela editora da Universidade de Brasília, em 1990 – virou uma raridade. E, pelo que o jornalista João Máximo nos conta nesta entrevista, o preço deve aumentar. O autor recebeu a RHBN na redação do jornal “O Globo” e, como um bom repórter, começou a conversa antes mesmo de a primeira pergunta ser lançada:

[Foto de Nataraj Trinta]

João Máximo: Quando eu fiz o livro do Noel, não tinha essa tecnologia, não… [Apontando para o gravador digital]. Quando eu gravava, gravava em K-7. Acho que eu poderia ter gravado mais se tivesse um desse.

Revista de História: Que depoimento gostaria de ter gravado e não gravou?

JM: O do Mário Reis. Eu o entrevistei por telefone. Ele nunca dava entrevista… Fiz umas quatro ou cinco longas ligações pra ele. Ele gostava de falar no telefone. Era uma pessoa que não saía do Copacabana Palace, onde ele morava. Foram entrevistas sensacionais.

RH: Por quê?

JM: Porque ele contou, por exemplo, uma viagem com Noel Rosa para o sul. Ele, Noel, Francisco Alves, Peri Cunha e o pianista Nonô passaram por Curitiba, Florianólis e Porto Alegre. Não tínhamos quase nada sobre isso. O Mário Reis contou todas as diabruras que Noel fez. E contava com um humor, um sabor e uma precisão… Lembrava dos nomes e dos lugares. E das bebedeiras do Noel.

RH: Lembra de alguma dessas histórias?

JM: A melhor delas foi que Mário Reis, passando pelo convés do navio, encontrou Noel dedilhando o violão e cantando uma música. Era “Mulato bamba” [O mulato é de fato,/ E sabe fazer frente a qualquer valente/Mas não quer saber de fita/ nem com mulher bonita.] É sem dúvida o primeiro samba a tratar a homossexualidade sem o deboche que as canções carnavalescas sempre trataram. Mário se encantou pela música e disse: “Noel, não mostre essa música pro Francisco Alves. Eu quero gravar”. Isso porque se o Francisco Alves ouvisse e gostasse, ninguém mais gravava. Ele dominava todos eles, dizia o que ele ia gravar sozinho, o que ia gravar com Mário, e o que Mário ia gravar sozinho.

RH: A maior parte da pesquisa se baseou em depoimentos?

JM: Sim, conseguimos muita coisa com ex-alunos do Colégio São Bento. Uma coisa que me impressionou muito foi como é que eles se lembravam de um colega do ginásio. Eles lembravam com clareza os mesmos episódios. Noel marcou a vida de todos deles. Tinha um general, um almirante, um brigadeiro… O médico Lauro de Abreu Coutinho, já falecido, foi quem me contou uma frase clássica de Noel. Numa conversa com o colega, ele lamentou: “Poxa, Noel, você vai largar a medicina…”.  E Noel respondeu: “Lauro, como médico, eu jamais serei um Miguel Couto. Quem sabe não posso ser um Miguel Couto do samba?”.

RH: Além do Colégio São Bento, quais foram as outras referências?

JM: O objetivo era saber quem era Noel Rosa segundo uma lição que me foi ensinada: você não pode conhecer um homem se não conhecer profundamente o lugar e o tempo a que ele pertenceu. Então, tinha que conhecer os lugares que ele frequentava: Vila Isabel, Lapa… E também tinha que saber o que as pessoas pensavam, que valores elas tinham, seus preconceitos… Isso tudo pra saber até onde ele foi rebelde. E, é claro, o seu tempo, que é uma coisa que o Caetano Veloso ainda não entendeu. Quando ele diz que Noel é racista por causa dos versos de “Feitiço da Vila” [“A vila tem um feitiço sem farofa/ Sem vela e sem vintém que nos faz bem…], ele está julgando Noel Rosa pelos padrões de hoje. Mas você não vai pegar uma samba que Noel fez em 1935 e julgar sob os padrões de hoje! Pra aparecer, ele fez isso com Noel Rosa.

RH: Você encontrou muitas contradições nos depoimentos?

JM: Encontrei contradições que não alteram muito quem foi Noel Rosa. As pessoas têm memória às vezes fraca, às vezes seletiva. Por exemplo, a Ceci, que foi a paixão da vida dele, me contou que o primo dele, Jacy Pacheco, primeiro biógrafo de Noel Rosa, teria dado uma bofetada nela. Isso porque ele ficou indignado com ela, que já estava com outro namorado, enquanto Noel estava muito doente. Ela contou isso. Mas ele negou veementemente. Obviamente, eu tive que contar as duas versões. Mas isso não altera a essência do Noel Rosa. A essência dele, o grande achado é a importância que ele tem na música popular brasileira.

Primeiro, ele foi um tipo fascinante, bem rebelde em relação ao Brasil, à cidade, às diferenças sociais. O Mulato Bamba, o João Ninguém, a Maria Fumaça são a parte desvalida da população, pisoteada pelas relações econômicas de status social. Quando ele fala do barracão lá na Penha, fala contra os arranha-céus. “Essa mulher dos arranha-céus” é a Julieta, mentirosa, ardilosa, que quer carícias de papel [dinheiro].

RH: Essa habilidade de fazer críticas com sutilezas é o grande diferencial dele?

JM: Eu acho que ele foi genial por isso. Foi o primeiro letrista da MPB que ensinou que tudo poderia ser usado em letra de música, desde que bem usado. Quando a bossa nova teve um sentido inovador, até ali havia um certo preconceito contra certas coisas… Imagina em 1930! Como é que você vai falar em música que bate na mulher amada, que vai chamar a mulher de mentirosa? O romantismo do Noel é todo às avessas, ele é um romântico que não crê no amor.

RH: E como músico?

JM: Ele foi um dos primeiríssimos brancos a terem adotado o samba do Estácio, que é o grande samba carioca, que substitui o samba amaxixado dos baianos da Cidade Nova. De 1929 a 1933, ele é o único branco de classe média com passagens pela universidade que se tornou parceiro de 16 ou 17 negros dos morros cariocas.

RH: Vila Isabel mudou com Noel?

JM: Ah, sim. Até hoje, as pessoas falam “aqui morou Noel Rosa’, “aqui é o bairro de Noel Rosa”, é um mito. Você pega um táxi, pede pra ir pra Vila Isabel – eu faço isso todo dia – e o taxista comenta: “A vila de Noel, né?”.

RH: O seu livro chega a custar mais de 400 reais nos sebos. Há previsão para reedição?

JM: É, alguns amigos me pedem, mas eu não tenho mais exemplares… Há vários impedimentos para a reedição. Um deles é que há duas herdeiras do Noel Rosa que proibiram. São duas sobrinhas, filhas do Hélio Rosa, irmão de Noel. Elas implicaram com várias coisas, como o suicídio [do pai de Noel], e até com o casamento dele com Lindaura, que parece que dificulta provar que são únicas herdeiras… Já nos processaram algumas vezes e perderam todas.
Outro problema é que os autores não se dão mais, não têm mais uma relação de amizade. Mas não houve briga, não somos inimigos, só não temos mais a relação de amizade que permita a gente sentar pra rever o livro. Por computador eu não faço livro com ninguém. Por isso tudo eu acho que o livro não sai mais.

Todos os direitos : REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL

PEDRINHO CAVALLÉRO e ANINHA PORTAL

Pedrinho Cavalléro convida Aninha Portal
Pedrinho Cavalléro recebe Aninha Portal-Belém-Pará

Absolutamente imperdível, para todos os que amam a música popular brasileira e sabem o valor que ela tem:
Nesta terça, dia 19 , ás 21h no Bar Vitrola em Belém do Pará, nosso grande Pedrinho Cavalléro recebe como convidada a sambista paraense rainha da Lapa -RJ, Aninha Portal no show Vinícius, Saravá!!!

O Bar Vitrola fica na Rua dos 48, nº42, próximo ao shopping Pátio Belém.
Andréa Cavalero é a produtora e reitera que  ‘não dá  pra  perder’!

Informações 91464526.

Todos lá!

(*) Siga os links e conheça melhor  Aninha Portal, a convidada do consagrado Pedrinho Cavalléro.

DESTAQUE:  Blog  Música Paraense. Da Conexão VIVO.

TIM MAIA – 10 anos sem o Síndico

14/03/2008 – 18h05
Morto há dez anos, Tim Maia reclamou do som até o último show
MARCELO NEGROMONTE
Editor de Entretenimento do UOL

Dadá Cardoso/ Folha Imagem

O cantor e compositor Tim Maia, em fevereiro de 1996

O cantor e compositor Tim Maia, em fevereiro de 1996


No dia 8 de março de 1998, um domingo, Tim Maia subiu pela última vez ao palco. O cantor morreu uma semana depois, no dia 15, há dez anos.

O último show do Síndico seria um espetáculo acústico gravado pelo canal pago Multishow no Teatro Municipal de Niterói, no Rio. Mas esse foi um show que não aconteceu, afinal duas músicas, sendo só uma delas com a presença do cantor, não configuram um show propriamente.

Famoso pelo não comparecimento a inúmeros espetáculos e pelos atrasos, Tim Maia demorou a aparecer também no último show de sua vida.

O evento era especial. Na platéia lotada estavam convidados, artistas, celebridades, atores, músicos e jornalistas. Era a reabertura do pequeno e charmoso Teatro Muncipal de Niterói, que havia passado por uma reforma e cheirava a tinta fresca.

Mais de uma hora depois do início programado, a banda Vitória Régia, que acompanhava o músico havia uns 20 anos, finalmente deu início ao show apenas com os backing vocals. Cadê o Síndico? Nada.

Na segunda música, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, aplausos. Eis o carioca da Tijuca, 55 anos, imenso, terno azul claro, camisa branca, suor no rosto.

Reclamou do “ré menor” e interrompeu a música –outra característica marcante do cantor era a eterna insatisfação com os técnicos de som a quem pedia sempre o “retorno” e mandava tirar o “reverb” ou qualquer outra coisa que o incomodasse.

A música começou novamente. “Vou pedir…”, “Vou pedir…”, cantou Tim, e a platéia completava os versos que todo mundo conhece. Com sinais claros de que daquele jeito não dava mais para continuar, Tim Maia deixou o palco sob risadas do público, que imaginava se tratar de mais um episódio temperamental do cantor.

Não era possível, ele iria dar o cano num especial de TV ao qual ele havia comparecido? A banda terminou a música pouco depois da saída do cantor.

“A semana inteira fiquei te esperando, pra te ver sorrindo, pra te ver cantando”, cantou a platéia com palmas, pedido claro para que Tim retornasse. Não houve retorno –cadê o retorno?

“Tim Maia não está passando bem. Tem algum médico na platéia?”, foi o que saiu do sistema de som do teatro para perplexidade geral. Até havia um, Drauzio Varella, acompanhado de sua mulher, a atriz Regina Braga.

A partir daí, foi o caos. Vários minutos depois, chegou a ambulância do Corpo de Bombeiros, que entrou no átrio do teatro, ocupado agora pelos convidados que haviam saído da sala de espetáculo.

Amparado dos dois lados e com máscara de oxigênio, o hipertenso Tim Maia subiu na ambulância com pés trêmulos. Fotógrafos, cinegrafistas e curiosos dificultavam o trabalho de resgate do rei do soul brasileiro.

Às 23h, o cantor foi encaminhado ao hospital Antônio Pedro, em Niterói, que parecia mais uma delegacia, com grades na entrada a impedir a entrada de quem fosse. Aflita, só se via a secretária particular do cantor, Adriana Silva, ao celular.

 

Uma semana depois, Sebastião Rodrigues Maia morria no mesmo hospital de infecção generalizada em conseqüência de um edema pulmonar, seguido de parada respiratória.

Mais
“Tim Maia se orgulhava de ser como era”, disse Nelson Motta sobre o cantor no Bate-papo UOL
Amigo Fabio fala sobre o livro “Até Parece que Foi Sonho” e a amizade de 30 anos com Tim Maia

Música : Jussara Silveira e Maria João Pires

Jussara Silveira traz seu mar de volta ao país

Um ano após o lançamento do CD, cantora estréia a turnê “Entre o Amor e o Mar’

Após temporada no exterior com a pianista Maria João Pires, intérprete canta no show músicas portuguesas que têm “balanço baiano”

RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Houve um intervalo de um ano, além de uma temporada no outro lado do oceano, entre o lançamento do álbum “Entre o Amor e o Mar” (Maianga) e o início da turnê de divulgação, com a qual Jussara Silveira enfim aporta em São Paulo. À espera de soluções para “questões burocráticas” (leia-se patrocínio para os shows), a intérprete de 48 anos fixou bases temporárias no além-mar. Ela era, ao lado de André Mehmari, um dos nomes brasileiros dentre os internacionais convidados para a série “Schubertíade”, da conceituada pianista portuguesa Maria João Pires.
E foi em território ibérico que, caderninho na mão, rascunhou o roteiro dos shows que apresenta hoje e amanhã no Sesc Pompéia, antes de seguir para Salvador -sua terra, se não natal (ela nasceu em Nanuque, no interior de Minas), de coração e criação.
Em meio a canções de temática praieira, entraram no show mais músicas que, imagina ela, ninguém conhece. “É, eu sou louca”, ri Jussara, por telefone, durante uma pausa nos ensaios, no Rio, onde mora há 15 anos. “Primeiro, gravei um CD em que praticamente todas as canções eram inéditas. Daí, quando faço o roteiro para o show, coloco mais canções desconhecidas”, afirma a intérprete -uma das melhores do país, embora conhecida por um público ainda restrito.
“Tenho essa conquista no meu trabalho que é fazer com que as pessoas escutem novidades e se deliciem com elas. É uma marca minha, não planejei ser assim. Coloco aquela que me parece “a” canção ideal no disco, no show, e depois penso: “Pôxa, existem 500 músicas do Roberto, do Caetano, do Chico, e de novo não incluí nenhuma no repertório'”, diz.

Balanço baiano
Tirando releituras de “Morena do Mar”, de Dorival Caymmi -a quem Jussara já homenageou no disco “Canções de Caymmi” (1998)-, e “Oferenda”, de Itamar Assumpção, o álbum “Entre o Amor e o Mar” é quase todo composto por músicas pouco ou nada conhecidas. Estão lá composições de nomes como Adriana Calcanhoto (“Meu Coração Só”), Quito Ribeiro (“Braço de Mar”, que também entrou no disco de estréia dele) e Rômulo Fróes e Gustavo Moura (“Só pra Ver Onde Dá”). Para completar, no show, o rol de músicas que quase ninguém ouviu por aqui, Jussara incluiu duas canções portuguesas: o fado “És Livre”, de Alves Coelho Neto, e “Uma Canção por Acaso”, de Pedro Jóia e Thiago Torres da Silva.
Músicas que, para ela, têm muito a ver com o disco. “”Uma Canção por Acaso” tem um balanço, eu diria, quase de um ijexá. Não em características do arranjo nem na letra de um ijexá, mas um balanço baiano. Parece que o Pedro e o Thiago aportaram em Salvador”, diz. O show terá ainda “Eu Vi”, versão de José Miguel Wisnik para “J’ai Vu”, de Henri Salvador, e “Maria, Particularmente”, de Luiz Melodia.
“Essa [do Melodia] tem um refrão incrível, que já cantei há muito tempo”, conta Jussara, implacável recitadora de refrãos. “Ela fala assim: “Fado é na ponta da língua, ô lê lê, samba é na ponta do pé, ô lé lé”. É uma canção que combina com o mundo em que vivo, que é brasileiro, português, baiano, de samba, de fado.”
Jussara canta no Sesc Pompéia acompanhada por Luiz Brasil (violões e vocais), com quem lançou no começo do ano passado o CD “Nobreza”, além de Alberto Continentino (baixo), Vítor Gonçalves (teclados, piano e sanfona) e Tamina Brasil (percussão). O show tem ainda participação do articulista da Folha Arthur Nestrovski, que fez arranjos que entraram no disco, incluindo os de “Morena do Mar”.

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A.

Madeleine Peyroux

A cantora, que faz shows no Rio e em SP em setembro, fala sobre a volta ao país e a dificuldade para achar a “canção certa’

Um dos mais importantes nomes do jazz atual, a norte-americana afirma gostar de pensar a “música em um contexto dramático”

Divulgação
Madeleine Peyroux, que costuma ser comparada a Billie Holiday; cantora fará show no Via Funchal e no Teatro Municipal do Rio

RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quase dois anos e 1 milhão de discos vendidos depois de sua última apresentação em SP, em novembro de 2005, a cantora Madeleine Peyroux volta ao Brasil para shows no Via Funchal, no dia 18 de setembro, e no Teatro Municipal do Rio, no dia 26 do mesmo mês, com a turnê do seu novo álbum, “Half the Perfect World”.
Conhecida por sua interpretação melancólica de canções que vão de antigos compositores de blues como Hank Williams e W.C. Handy a Leonard Cohen e Bob Dylan, Peyroux criou um culto em torno de si também por sua personalidade atípica e abordagem peculiar do lado “business” da música: a cantora chegou a desaparecer por alguns dias em 2005 para fugir do esquema de divulgação criado por sua gravadora, a Universal.
Por telefone, de Nova York, simpática e falante, Peyroux conversou com a Folha sobre as lembranças do Brasil, a busca pelas músicas perfeitas e sua preferência por cantar ao vivo.

FOLHA – O que você se lembra do Brasil?
MADELEINE PEYROUX
– O Brasil foi o lugar para onde mais gostei de viajar. Infelizmente, não consegui ver tanto quanto gostaria do país na primeira vez que fui, espero dessa vez ter mais tempo. Para mim, ir ao Brasil é algo muito significativo, quero continuar indo e aprendendo. Aprendi um pouco sobre música brasileira, mas não muito.
Fui a um show do Martinho da Vila e gostei das canções e dos sambas. Não aprendi muito sobre músicas, mas aprendi sobre cachaça [risos]. No Rio, minha maior experiência foi com um motorista de táxi muito generoso, que dirigiu por duas horas me mostrando a cidade. Em SP, fiquei triste ao ver as favelas e as pessoas na rua -me fez pensar como o Brasil pode ser tão diferente dos EUA, considerando que não estamos tão longe.

FOLHA – Você costuma interpretar canções de origens diferentes e é sempre elogiada por colocar sua personalidade nelas. É difícil encontrar as músicas certas para sua voz?
PEYROUX
– Sim, é difícil encontrar a música certa. Gostaria de ter mais tempo para procurar as músicas e cantá-las mais.
Achar uma música da qual me sinto próxima é difícil, mas entendo que faz parte do trabalho de cantora estar sempre procurando a canção perfeita. Foi difícil fazer o disco, ouvi e escrevi muitas músicas que acabaram ficando de fora. Sei que trabalho em uma velocidade menor que muitos outros artistas, que sou um pouco devagar, mas é que eu definitivamente gosto de achar canções que sei que vou cantar pro resto da vida.

FOLHA – O que há em comum entre as diferentes músicas que canta?
PEYROUX
– Talvez um monólogo introspectivo, questões sobre a vida. Todas as minhas canções têm a mesma filosofia de vida, quase sempre são questões. Essas são as minhas músicas favoritas. Gosto de cantar sobre as questões, admitir que não sei a resposta. Isso para mim é ser filósofo, ser poeta: fazer perguntas, ao contrário de buscar respostas.

FOLHA – Qual é a principal diferença entre ouvir seu disco e vê-la cantando em um show?
PEYROUX
– O processo de gravação é muito diferente de cantar ao vivo. Quando você está gravando, tenta criar uma conversa com quem está ouvindo, porque o cantor não existe sem público. Acho que cantar ao vivo é uma coisa mais pura musicalmente. Podem acontecer erros, imprevistos, você pode passar vergonha, mas é o motivo pelo qual fundamentalmente vivo.

FOLHA – Então você prefere tocar ao vivo a gravar um disco?
PEYROUX
– Com certeza. Gosto de pensar na música em um contexto dramático. A diferença entre um disco e música ao vivo é como a diferença entre um filme e uma peça: o filme está ali, não muda, não importa o que aconteça. No teatro você tem a reação do público, que faz com que tudo mude a cada noite. A música tem que ser ao vivo para você entendê-la, é uma forma de arte que existe ao vivo, tem que estar acontecendo no momento. Ela existe em um contexto de tempo e espaço, é uma arte de performance. Não há música sem audiência.

FOLHA – Existem artistas que não gostam de se apresentar ao vivo.
PEYROUX
– Se faço um som no quarto, não é arte. Arte é comunicação. Tem gente que gosta de fazer e ouvir música sozinho. Mas acredito que música seja interação. Quando faço algo no palco e a platéia responde -com um suspiro, qualquer coisa assim-, cumpri minha função. Sem platéia não tenho razão para ser artista.

FOLHA – A sua música tem algo de teatral? Um ator, quando está no palco, está atuando -mas um cantor não é ele mesmo?
PEYROUX
– Um ator também está sendo ele mesmo. E um músico pode estar atuando. É importante ver os dois lados. Nenhum músico pode cantar todas as emoções. Se eu fosse eu mesma o tempo inteiro no palco seria entediante. Porque eu pararia para tomar um café.
Desceria do palco para comentar com alguém do público que gostei da roupa dele. Para um show, você tem que ter a ilusão do teatro, um personagem. Não estou querendo dizer que uso uma máscara, não coloco uma máscara quando estou no palco. Mas todos os músicos estão atuando. Precisamos entender isso para entender essa forma de arte. Precisamos da ilusão para acreditar que é verdade.

FOLHA – Quando você canta e o público sente a tristeza de uma música, você também se emociona?
PEYROUX
– Sim, a audiência me ajuda a criar o personagem. Sinto a tristeza do público. Mas sinto isso como uma intérprete. Senão eu pararia o show para chorar [risos]. Sei que alguém na audiência pode estar passando por um momento difícil e se emocionar. Tudo que quero é cantar pra essa pessoa sem saber que ela existe e sem pedir nada em troca.