Gilberto Freyre (1900-1987) – Museu da Língua Portuguesa


Museu da Língua Portuguesa homenageia Gilberto Freyre; montada como uma casa, mostra é visita à obra do autor de “Casa-Grande & Senzala’

Divulgação
Freyre, a mulher, Magdalena, e a filha Sonia Maria, num passeio de gôndola em Veneza, em 1960

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

O Museu da Língua Portuguesa abre hoje, para convidados, e amanhã para o público, sua terceira exposição temporária. Depois de homenagear Guimarães Rosa e Clarice Lispector, o museu abriga, até o dia 4 de maio de 2008, “Gilberto Freyre – Intérprete do Brasil”, seu tributo ao sociólogo e antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, morto há 20 anos.
Freyre é autor, entre outros, de “Casa-Grande & Senzala” (1933), que já está em sua 48ª edição. A obra tornou-se um marco na historiografia brasileira, opondo-se ao mero registro cronológico de feitos grandiosos, para se debruçar sobre hábitos nacionais até então vistos como insignificantes, do ponto de vista da interpretação do país, e ainda sua história oral, manuscritos de arquivos públicos e privados etc.
A mostra é uma visita metafórica à “casa”, à obra de Freyre. Ela reúne, pela primeira vez em conjunto, 27 pinturas, entre aquarelas e telas a óleo, feitas por Freyre, que retratam temas que lhe eram caros, como a religiosidade, a família e os sobrados. Assinadas apenas com “Gil”, as obras não são datadas, mas, segundo a curadora Julia Peregrino, foram feitas durante as décadas de 1940 e 1950.
Peregrino -que já havia feito a curadoria da mostra de Clarice Lispector- divide o trabalho agora com Pedro Vásquez, o cenógrafo André Cortez e a professora Elide Rugai Bastos, da Universidade de Campinas.
“Há recantos que lembram os engenhos, os sobrados, as raízes da obra de Freyre. A idéia é que o espectador viaje na cenografia, conhecendo sua obra ao abrir gavetas, armários etc.”, adianta Peregrino.

A visita
Todo o material em exibição pertence à Fundação Gilberto Freyre ou foi garimpado das coleções particulares da família do escritor. Logo à entrada da exposição, um conjunto de paredes divididas ao meio traz frases do autor em vitrines e nichos com seus quadros.
A casa de Freyre no museu abriga ainda cinco criados-mudos com registros de recepções a que ele compareceu na década de 50, em Portugal. Duas malas com seus passaportes. E uma grande mesa, dividida em duas. Numa parte estão livros de receitas dos engenhos, material de pesquisa que usou para os livros “Açúcar” e “Casa-Grande & Senzala”. Noutra, 26 correspondências trocadas com, entre outros, o pintor Portinari, o compositor Heitor Villa-Lobos, o educador Anísio Teixeira e o sociólogo Florestan Fernandes.
Dois destaques da mostra são a exibição de documentos originais e a reprodução, em áudio, de trechos dos questionários que Gilberto Freyre fez com brasileiros de ambos os sexos, de diferentes classes sociais, nascidos entre 1850 e 1900, para a escrever outro de seus clássicos, “Ordem & Progresso”, de 1959. Os fones estão espalhados em 27 maquetes de sobrados, que novamente remetem à obra do sociólogo

HOUSE: ética?

A casa caiu

Criador da série “House”, que chega ao quarto ano, David Shore adianta os próximos passos do médico ranzinza, abandonado pelos assistentes no fim da temporada passada

Divulgação
 

Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro pelo ersonagem-título; “ele trouxe uma carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil’, diz David Shore

LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL

Ás do diagnóstico, o infectologista Gregory House, protagonista da série que leva seu nome, desta vez falhou: não soube ler os sintomas de insatisfação de sua equipe. Agora, no início da quarta temporada (que estréia nesta quinta, às 23h, no Universal Channel), sente os efeitos colaterais: deixado a sós com sua ranhetice por Foreman, Cameron e cia., não tem a quem esculachar ou exibir seu intelecto.
Mas não há de ser por muito tempo, segundo contou David Shore, criador do programa, na entrevista telefônica a jornalistas latinos da qual a Folha participou, na semana passada.
“Estamos fazendo uma espécie de “Survivor” [reality show americano que inspirou a gincana eliminatória global “No Limite”] neste ano. House não é do tipo que abre um concurso, faz 40 entrevistas e contrata três pessoas. Sua linha é mais contratar 40 e demitir 37. Suas decisões a respeito de quem fica e quem sai darão dicas interessantes sobre quem ele é.”
O “processo seletivo” deve se estender por oito ou nove episódios. Mas o entourage antigo do médico no hospital Princeton-Plainsboro ainda não aposentou os jalecos. “Eles voltarão. A surpresa para o público será a forma como se dará esse retorno”, adianta Shore.
O “enxugamento” súbito de elenco não fez mal à audiência da série. Os sete primeiros episódios da nova safra registraram média de 19,1 milhões de espectadores, garantindo a “House” o sexto lugar no ranking da televisão americana.
No Brasil, em sua terceira temporada, foi o terceiro seriado mais visto nos canais pagos. A Record, que exibe o segundo ano da atração na TV aberta, tem obtido sete pontos (cada ponto equivale a 54,5 mil domicílios na Grande São Paulo), bom índice para uma produção estrangeira.

Perfil contra-indicado
Arrogância, egolatria e rispidez são traços contra-indicados a qualquer protagonista que aspire à admiração do público. Dr. House não dá a mínima para isso -e, ao que parece, nem os fãs da série. “Ele faz sucesso, em primeiro lugar, porque está salvando vidas. Se fosse manobrista e continuasse tão grosseiro, não sairia incólume. Além de ser brilhante no que faz, é capaz de dizer coisas que todos nós gostaríamos de dizer”, diz Shore.
Por sua atuação como o médico genioso, o inglês Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro e duas indicações ao Emmy (o prêmio máximo da TV dos EUA). “Ele trouxe ao personagem uma carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil”, elogia o criador da série, advogado de formação que foi buscar na medicina o pano de fundo para seu primeiro hit televisivo.
“Sei que não faz o menor sentido. É que não vejo “House” como um programa médico. O coração da série é a relação do médico com as pessoas e o posicionamento dele diante de dilemas éticos. Não se trata tanto de diagnóstico ou procedimento médico quanto das decisões morais que ele tem de tomar.”

Diga à TV que fico
Com o nome em alta em Hollywood, Shore diz que não pensa em fazer a transição para o cinema. “A televisão é o meio em que você quer estar hoje, nos EUA, se você é um roteirista. Se estivesse fazendo um filme, o diretor reescreveria o meu script. Na TV, sou eu que digo ao diretor o que estamos buscando. O que importa hoje nos filmes é o espetáculo, o que você pode explodir. Por isso é que a televisão começou a atrair roteiristas. Além disso, esse veículo permite explorar um personagem por muitos anos, o que não acontece no cinema, onde você divide duas horas com efeitos especiais.”
A greve dos roteiristas, que há 15 dias paralisa boa parte da produção de conteúdo televisivo nos EUA (a classe pede participação nos lucros com download na internet e vendas de DVDs), já tem consulta marcada com House. “Estamos rodando o 12º episódio. É o último para o qual há script. Não irei reescrevê-lo para que sirva como encerramento da temporada, caso a greve se estenda. Por isso, espero que os produtores ofereçam logo um contrato justo”, afirma Shore.

Retirado daqui: FSP 

Ciência: “O GENE EGOÍSTA” faz 30 anos

Estudo clássico da biologia faz 30 anos e ganha nova edição
Obra-prima do britânico Richard Dawkins chega com um ano de atraso ao Brasil

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Há uma anedota já clássica no gueto dos jornalistas científicos segundo a qual é possível sustentar qualquer tese sobre o papel dos genes no comportamento humano citando um trecho escolhido de “O Gene Egoísta“, de Richard Dawkins.
Como toda boa piada, esta é cruel, mas tem mais do que um fundo de verdade. Ela revela o barulho que o maior clássico moderno da biologia tem feito desde que saiu, em 1976, e a confusão que ainda causa: determinismo ou livre-arbítrio?

As idéias que permeiam o livro de Dawkins há muito vazaram do laboratório e foram canibalizadas pelo mundo da cultura. Viraram desculpa para um monte de coisas, de infidelidade conjugal a assassinato. E, recentemente, foram ecoadas por ninguém menos que James Watson, o pai do Projeto Genoma Humano, em suas declarações desmioladas sobre diferenças genéticas determinando diferenças de capacidade intelectual entre brancos e negros.
É em boa hora, portanto, apesar do atraso de um ano, que chega ao Brasil a edição comemorativa de 30 anos de “O Gene Egoísta”. Quem já leu pode aproveitar para desfazer mal-entendidos sobre o livro, numa atmosfera política menos carregada que a dos anos 1970. Quem não leu pode se deliciar com a prosa de Dawkins, então um pensador mais arejado (e menos chato) que o militante ateu de “Deus, um Delírio”.

A premissa básica do livro é que os genes são a “unidade” mínima da evolução e “agem” de acordo com o axioma da seleção natural darwinista: maximize sua sobrevivência. Sobreviver, aqui, equivale a espalhar o maior número possível de cópias de si mesmo. Para que isso aconteça em um ambiente em que vários genes competem entre si, é necessário eliminar rivais e recorrer a uma série de truques, tais quais criar “máquinas de sobrevivência” que protejam o DNA do contato direto com o mundo.
Essas máquinas somos nós, os organismos vivos, que Dawkins comparou a “gigantescos e desajeitados robôs”. O valor adaptativo de uma máquina de sobrevivência está em ser melhor que seus competidores na exploração do ambiente. Para o gene, não compensa ajudar outro organismo quando isso implica em custo.
Portanto, na evolução -e, por tabela, no comportamento humano-, impera a lei da selva. Parando por aí, fica-se com a impressão de que Dawkins cede ao determinismo. Mas, embora intencionalmente force a mão na linguagem, ele mesmo desmonta tal sugestão ao postular que o egoísmo dos genes montou uma máquina tão sofisticada -o cérebro e a consciência- que consegue se rebelar contra seus ditames.
A biologia mudou um bocado nestes 31 anos. Mas “O Gene Egoísta” continua sendo obrigatório. Não só para quem quer entender a genética mas também para qualquer um que se pergunte como é possível traduzir conceitos científicos complicados como quem escreve um romance.

 

 

 


O GENE EGOÍSTA
Autor: Richard Dawkins
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 55 (540 págs.)
Avaliação: ótimo

 

Retirado da FSP: Copyright Empresa Folha da Manhã S/A

Música : Jussara Silveira e Maria João Pires

Jussara Silveira traz seu mar de volta ao país

Um ano após o lançamento do CD, cantora estréia a turnê “Entre o Amor e o Mar’

Após temporada no exterior com a pianista Maria João Pires, intérprete canta no show músicas portuguesas que têm “balanço baiano”

RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Houve um intervalo de um ano, além de uma temporada no outro lado do oceano, entre o lançamento do álbum “Entre o Amor e o Mar” (Maianga) e o início da turnê de divulgação, com a qual Jussara Silveira enfim aporta em São Paulo. À espera de soluções para “questões burocráticas” (leia-se patrocínio para os shows), a intérprete de 48 anos fixou bases temporárias no além-mar. Ela era, ao lado de André Mehmari, um dos nomes brasileiros dentre os internacionais convidados para a série “Schubertíade”, da conceituada pianista portuguesa Maria João Pires.
E foi em território ibérico que, caderninho na mão, rascunhou o roteiro dos shows que apresenta hoje e amanhã no Sesc Pompéia, antes de seguir para Salvador -sua terra, se não natal (ela nasceu em Nanuque, no interior de Minas), de coração e criação.
Em meio a canções de temática praieira, entraram no show mais músicas que, imagina ela, ninguém conhece. “É, eu sou louca”, ri Jussara, por telefone, durante uma pausa nos ensaios, no Rio, onde mora há 15 anos. “Primeiro, gravei um CD em que praticamente todas as canções eram inéditas. Daí, quando faço o roteiro para o show, coloco mais canções desconhecidas”, afirma a intérprete -uma das melhores do país, embora conhecida por um público ainda restrito.
“Tenho essa conquista no meu trabalho que é fazer com que as pessoas escutem novidades e se deliciem com elas. É uma marca minha, não planejei ser assim. Coloco aquela que me parece “a” canção ideal no disco, no show, e depois penso: “Pôxa, existem 500 músicas do Roberto, do Caetano, do Chico, e de novo não incluí nenhuma no repertório'”, diz.

Balanço baiano
Tirando releituras de “Morena do Mar”, de Dorival Caymmi -a quem Jussara já homenageou no disco “Canções de Caymmi” (1998)-, e “Oferenda”, de Itamar Assumpção, o álbum “Entre o Amor e o Mar” é quase todo composto por músicas pouco ou nada conhecidas. Estão lá composições de nomes como Adriana Calcanhoto (“Meu Coração Só”), Quito Ribeiro (“Braço de Mar”, que também entrou no disco de estréia dele) e Rômulo Fróes e Gustavo Moura (“Só pra Ver Onde Dá”). Para completar, no show, o rol de músicas que quase ninguém ouviu por aqui, Jussara incluiu duas canções portuguesas: o fado “És Livre”, de Alves Coelho Neto, e “Uma Canção por Acaso”, de Pedro Jóia e Thiago Torres da Silva.
Músicas que, para ela, têm muito a ver com o disco. “”Uma Canção por Acaso” tem um balanço, eu diria, quase de um ijexá. Não em características do arranjo nem na letra de um ijexá, mas um balanço baiano. Parece que o Pedro e o Thiago aportaram em Salvador”, diz. O show terá ainda “Eu Vi”, versão de José Miguel Wisnik para “J’ai Vu”, de Henri Salvador, e “Maria, Particularmente”, de Luiz Melodia.
“Essa [do Melodia] tem um refrão incrível, que já cantei há muito tempo”, conta Jussara, implacável recitadora de refrãos. “Ela fala assim: “Fado é na ponta da língua, ô lê lê, samba é na ponta do pé, ô lé lé”. É uma canção que combina com o mundo em que vivo, que é brasileiro, português, baiano, de samba, de fado.”
Jussara canta no Sesc Pompéia acompanhada por Luiz Brasil (violões e vocais), com quem lançou no começo do ano passado o CD “Nobreza”, além de Alberto Continentino (baixo), Vítor Gonçalves (teclados, piano e sanfona) e Tamina Brasil (percussão). O show tem ainda participação do articulista da Folha Arthur Nestrovski, que fez arranjos que entraram no disco, incluindo os de “Morena do Mar”.

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ADEUS À CAPES


 

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

Ao arrotar estatísticas sobre o aumento do número de doutores, a Capes não nota a farsa dos cursos de pós-graduação em humanidades

DURANTE um mês, a Folha de S.Paulo esperou que a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do Ministério da Educação) respondesse a um pedido de informação a respeito do fechamento do Programa de Formação de Quadros Profissionais do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). No mesmo dia em que a reportagem veio à luz, a presidência da Capes divulgou em seu site um texto em que insulta o Cebrap e dá a versão dos fatos que convém a ela.

Afirmar que “sabidamente é muito mais cômodo receber recém-doutores para executar atividades de pesquisa institucional do que formar pós-graduandos” é não ter idéia do que seja o programa de formação de quadros e é, sem prova nenhuma, denunciar que o Cebrap está usando bolsistas como mão-de-obra não paga para realizar pesquisas próprias.
Esse programa surgiu em 1986, no governo Sarney, e perdurou sem que ninguém o acusasse de ter qualquer orientação ideológica. Serviu de válvula de escape para dar uma alternativa a bons alunos de mestrado que, premidos pela redução de prazo das bolsas -que, nessa época, era a política de todos nós-, pudessem dar continuidade a seus trabalhos e passar por uma experiência interdisciplinar.

Os estudantes permaneciam dois anos no Cebrap, tendo um orientador, mas sem aulas, embora ligados a seu próprio projeto. Apenas se submetiam a um programa por eles mesmos elaborado, mas sob a supervisão do responsável do programa; obrigavam-se ainda a assistir a qualquer conferência pronunciada na casa.
Nessas condições, nunca poderia vir a ser um programa de pós-graduação “stricto sensu” ou “lato sensu” pela simples razão de que tinha sido inventado para corrigir sua rigidez.
E assim ele perdurou até 2003, formando 98 pesquisadores que se mostraram do mais alto nível, a maioria deles ocupando hoje cargos nas universidades e na alta administração pública. Note-se ainda que em 1998 foi feita uma avaliação pela Capes que, para nós, foi excelente.

Encurtado com sucesso o prazo de mestrado, os melhores alunos passaram a ser diretamente dirigidos para o doutoramento, o que prejudicou nossa seleção.
Constatamos, porém, enorme carência na área dos recém-doutores, muitos permanecendo sem emprego e sem nenhuma atividade acadêmica.
Em 2003, alteramos o programa para receber quatro recém-doutores por dois anos, mantendo a mesma estrutura interdisciplinar à base de seminários. De 2003 até agora, recebemos 24 bolsistas doutores, dos quais oito fizeram concursos e foram aprovados nas melhores universidades públicas.

Espanta-nos, assim, a Capes considerar um “extraordinário privilégio” conceder oito bolsas anuais quando financia cerca de 500 bolsas de pós-doutoramento no país, sendo esse o único programa unicamente dedicado à formação dos pesquisadores.
As bolsas são pagas diretamente aos estudantes, o Cebrap não recebe nem R$ 1 pela estadia nem cobra deles por qualquer despesa (os orientadores não são remunerados por esse trabalho extra nem são computados os gastos com papel, xerox, lugar de trabalho etc.). Sempre imaginamos que estivéssemos servindo ao país.

É patente que o nível dos doutores hoje formados é insuficiente. Para quatro bolsas, em 2003, recebemos 19 candidatos; em 2004, 45 candidatos; em 2005, 58 candidatos; em 2006, 24 candidatos; em 2007, 34 candidatos de todo o país. Em geral, o nível dos projetos é muito baixo.

No delírio de arrotar estatísticas exibindo o aumento do número de doutores no país, a Capes não percebe a enorme farsa dos cursos de pós-graduação nas humanidades. Apenas constata que há muitos recém-doutores desempregados e informa que, “dada a importância dos programas de absorção de recém-doutores”, lançará “brevemente o Programa Nacional de Pós-Doutorado, cujo objetivo é propiciar que recém-doutores que não foram absorvidos pelo mercado de trabalho possam elaborar e implementar projetos de desenvolvimentos de novas tecnologias”.

A Capes descobre um problema com o qual já estamos lidando há cinco anos, mas lhe interessa apenas o setor de novas tecnologias. Sem avaliar nossa experiência de cinco anos que ela mesma financiou, aconselha-nos a postular bolsas no novo programa. Os outros 16 anos de intensa experiência interdisciplinar não passam de um privilégio que ela concedeu ao Cebrap. A atual presidência da Capes se pensa o umbigo do mundo e corregedora das humanidades.


JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo, é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador da área de filosofia do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), onde coordena o Programa de Formação de Quadros Profissionais. É autor, entre outras obras, de “Certa Herança Marxista“.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

A Bienal de São Paulo

O papelão da Bienal

MARCO AUGUSTO GONÇALVES
O cancelamento da mostra expõe a incompetência da fundação e a face jeca e atrasada de São Paulo

O CANCELAMENTO da Bienal de São Paulo, que se realizaria no ano que vem, é um atestado de incompetência da atual direção da fundação e de seu conselho, que reúne representantes da elite paulista para os quais a arte parece ser o que menos importa.
A rocambolesca novela em que se transformou a recondução do empresário Manoel Pires da Costa à presidência da instituição, recheada de lances obscuros, irregularidades e movimentações de bastidores, já prenunciava o papelão que ora se consuma. Sem muitas opções, o curador Ivo Mesquita, com a respeitabilidade e as credenciais que possui para ocupar o cargo, propõe, no lugar da tradicional exposição, uma reflexão sobre o vazio. Vazio estará um andar inteiro do prédio de Niemeyer em meio a debates e, ao que parece, realização de performances e exibição de vídeos.
Tudo não passa de uma operação tampão ou de uma tentativa de reduzir os danos, que, a essa altura, já são consideráveis. Perdem artistas, público, cultura, cidade, país.
Num contexto em que a produção de arte e o mercado brasileiro vêm se fortalecendo e ganhando crescente inserção e reconhecimento internacionais, era de esperar que instituições do porte da Bienal já não fossem conduzidas por personagens defasados, amadores em busca de prestígio, alheios à dinâmica cada vez mais profissional e sofisticada do meio artístico.
Paralela e análoga, a crise do Masp é mais um lance dessa realidade crítica. É verdade que a desastrosa situação do principal museu de arte do país foi amenizada com a nomeação de um curador e a retomada de algumas exposições de qualidade. Mas isso é o mínimo que se poderia esperar. O Masp, de fato, continua muito distante do papel que poderia e deveria exercer.
Essa não é uma opinião pessoal, idiossincrática. É a avaliação da esmagadora maioria (senão da totalidade) dos artistas que importam e dos profissionais mais qualificados que trabalham na área.
Voltando à Bienal, disse o presidente da instituição que não há crise nenhuma, numa patética e frustrada tentativa de tapar o sol com a peneira. Em artigo publicado ontem pela Ilustrada, o curador Marcio Doctors, que deixou o cargo, aponta as limitações financeiras para fazer uma “Bienal completa”. Para citarmos alguns exemplos: artistas e curadores ficaram sem receber e os catálogos da mostra, realizada no ano passado, ainda estão por ser publicados.
Agora, depois de uma série de escaramuças e idas e vindas, chegamos ao que se poderia chegar com tamanho despreparo: à impossibilidade de realizar um evento à altura do que São Paulo e a arte brasileira merecem. Foco de atração de artistas e curadores de todas as partes do mundo, a elite da cidade, com o flop da próxima Bienal, mostra sua face jeca e atrasada.
Enquanto isso, em Porto Alegre, a Bienal do Mercosul melhora a cada edição e, em março, será inaugurado o Museu Iberê Camargo, um projeto magnífico do arquiteto português Álvaro Siza.
Bem, deu pra ti, baixo-astral…

Transcrito da F.S.P 


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HQ: Marvel on line

 Marvel coloca parte de acervo para leitura na Internet

A Marvel, gigante americana dos quadrinhos, está oferecendo parte de seu acervo para internautas.

A maioria dos 2,5 mil exemplares ficará disponível mediante assinatura mensal ou anual. Mas, para conquistar internautas que não estão acostumados a pagar por conteúdo, 250 exemplares estarão disponíveis de graça.

Os assinantes terão acesso a exemplares raros on-line, como os primeiros números de séries como “Homem-Aranha”, “O Incrível Hulk” e “Quarteto Fantástico”.

Divulgação

O Homem-Aranha, um dos personagens da Marvel que terá histórias distribuídas online

Segundo o jornal americano USA Today, os internautas poderão avançar pela história de várias formas, inclusive quadro a quadro. A página da Marvel informa que não é necessário baixar nenhum programa para ver os exemplares e que serão oferecidos também tutoriais explicando como os quadrinhos poderão ser acessados.

“Nossos fãs já estão na Internet. [Disponibilizar os quadrinhos na Internet] Parecia o caminho natural a seguir”, disse o presidente da Marvel Dan Buckley ao USA Today.

Para Buckley, não existe problema no fato de a maior parte do conteúdo da Marvel estar disponível apenas mediante pagamento enquanto a maioria dos sites de notícias oferece seu conteúdo de graça.

“Você consegue ver as notícias em qualquer lugar. Nós somos os únicos que têm o Homem-Aranha”, afirmou.

Seis meses
Para proteger as vendas das revistas, novos exemplares da Marvel só serão colocados online seis meses depois de seu lançamento.

Os clientes também não poderão baixar os exemplares em seus computadores – apenas ver os quadrinhos enquanto navegam na Internet.

Histórias em quadrinhos já são disponibilizadas online, mas, ao contrário de arquivos de música ou filmes, os fãs não encontraram um formato que facilite o compartilhamento. Mesmo assim, ele ocorre mais rapidamente do que em seis meses, segundo analistas.

“Cerca de 90% dos quadrinhos vendidos atualmente são escaneados e colocados na rede em 36 horas”, afirmou ao USA Today o especialista em quadrinhos da Newsarama.com, Chris Arrant.

“Nossa qualidade é bem maior, o acervo é enorme e nunca ficará fora de moda. Esta é a forma legal de fazer as coisas”, disse o editor-chefe da Marvel, Joe Quesada.

A grande adversária da Marvel, a DC Comics, já disponibilizou alguns de seus exemplares pelo site de relacionamento MySpace.

Retirado daqui