Madeleine entre Reino Unido e Portugal

14/09/2007
A cuidadosa encenação dos McCann
subtitulo = ‘Pais de Madeleine manipularam a crise com o apoio de contatos políticos e da mídia’; if (subtitulo.length > 2) { document.write (‘‘+subtitulo+’
‘) }; Pais de Madeleine manipularam a crise com o apoio de contatos políticos e da mídia

Miguel Mora e W. Oppenheimer
Em Lisboa e Londres

O caso Madeleine está abrindo uma fratura entre dois aliados históricos: Reino Unido e Portugal. Onde alguns vêem ineficácia policial, outros vêem pressões insuportáveis da mídia e um papel mal definido do governo britânico. Embora Londres tenha deixado claro que não tem intenções de interferir na investigação policial, a opinião pública portuguesa acredita que a equipe imbatível formada pelo governo de Sua Majestade e a mídia britânica interveio desde o primeiro minuto. Um dos detonadores dessa suspeita é o papel de um funcionário público chamado Clarence Mitchell, enviado pelo Ministério do Exterior britânico no fim de maio à Praia da Luz para assessorar os McCann.

Mitchell é diretor da Media Monitoring Unit, um departamento pouco conhecido mas que faz um trabalho de valor extraordinário para o governo britânico: rastreia a mídia do mundo inteiro para coletar informações que possam interessar ao governo. Inclusive pretende rastrear os blogs mais em moda para detectar novas tendências.

Adrian Dennis/AFP - 10.set.2007
Jornalistas cercam carro que traz Gerry McCann (no banco de passageiro), pai de Madeleine

Quando Mitchell chegou ao Algarve no final de maio, o caso Madeleine já havia se transformado numa feira. O espetáculo alimentado pelos pais para facilitar a busca da pequena Maddie começava a repercutir em meio planeta. Com ele, elevou-se ainda mais o tom católico da missão (Fátima, Vaticano) e a lista da campanha de imprensa, propaganda e solidariedade alcançou níveis globais. O casal percorreu a Europa, foi ao Marrocos, voou a Madri para pedir ajuda ao ministro do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba.

Gerry se entrevistou com o ministro da Justiça dos EUA, Alberto Gonzales, já demitido. Carregando fotos, bonecos de pelúcia e roupas da menina, o casal foi abençoado pelo papa Bento 16. Celebridades como J.K. Rowling, José Mourinho ou David Beckham fizeram apelos e doações que ajudaram a arrecadar 1,4 milhão de euros.

Muitos portugueses crêem agora, diante das suspeitas reunidas pela polícia contra os McCann, que tudo aquilo não passou de uma gigantesca cortina de fumaça promovida pelos pais, dois médicos com contatos e credibilidade, respeitados e com boa situação social, que se agigantou devido à voracidade da mídia e à influência do governo britânico até alcançar um ponto sem retorno.

A impressão em Portugal é de que o clima mundial de opinião gerado por essa campanha político-midiática impediu a polícia de investigar com calma e neutralidade. Primeiro porque a onda de afeto provocada pelo desaparecimento de Madeleine transformou os McCann em um símbolo imaculado de sofrimento e angústia. Segundo, porque a exposição pública dos pais gerou o aparecimento incessante de pistas falsas.

A mídia britânica formou um time com o casal de médicos assim que ocorreu o desaparecimento. Três dias depois da denúncia, o circo estava instalado junto ao Ocean Club. Este jornal visitou nessa semana a Praia da Luz; havia 33 jornalistas da Sky News e 18 da BBC. A Sky teve acesso à notícia do seqüestro antes da polícia portuguesa, como confirma uma fonte policial: “Alguém do círculo dos McCann telefonou do Ocean Club na noite do crime para a delegada da Sky News no Algarve. A ligação ocorreu às 22h11. Nós recebemos o aviso do desaparecimento meia hora depois, às 22h40”.

Pouco antes, às 22h, uma vizinha, que mais tarde depôs à polícia, se ofereceu para ligar para a Guarda Nacional ao saber que a menina não estava. “Kate, a mãe de Madeleine, lhe disse que não era preciso, que eles já haviam telefonado”, diz a polícia.

Essa mentira inicial e outros depoimentos contraditórios dos pais e amigos que jantaram juntos naquela noite no restaurante Tapas chamaram a atenção da polícia desde o primeiro dia. “Uma história mal contada”, foi o título do “Diário de Notícias” do dia 5, quando Maddie era apenas mais uma entre as milhares de crianças que desaparecem no mundo todos os anos.

“Havia muitas coisas estranhas”, recapitula um policial. “A mãe disse para a vizinha que já tinha nos telefonado e não era verdade; afirmou que alguém tinha entrado no lugar mas a janela estava forçada por dentro; disseram que a cada meia hora iam verificar as crianças mas os empregados do restaurante os desmentiram”. Para a polícia, o mais surpreendente é que a primeira preocupação dos pais foi avisar a imprensa antes da polícia. Também chamou sua atenção que Kate pediu à recepção do Ocean Club o telefone do padre do povoado.

Com as câmeras britânicas por testemunhas, os McCann e seus amigos, gente do norte em um povoado do sul, próximo da África, começaram a criticar os métodos da polícia: que demoraram quase uma hora para chegar ao apartamento e que destruíram provas ao tirar todas as evidências com o mesmo par de luvas. A polícia do Algarve, um lugar muito seguro ao qual todo ano chegam centenas de milhares de turistas britânicos, sabia o que esperar: uma vítima inglesa, suspeitos ingleses, tablóides ingleses… “Sempre contamos com isso”, diz um comandante regional.

Os agentes decidiram agüentar o temporal. Não havia outra opção, embora soubessem que algo cheirava muito mal em torno dos pais da menina e que a estatística não costuma enganar: os seqüestros de crianças em edifícios ocupados são praticamente inexistentes.

Junto com a tropa de jornalistas, chegaram à Praia da Luz o embaixador britânico em Lisboa, John Buck; Shree Dodd, a primeira assessora de comunicação enviada pelo Ministério do Exterior, que seria substituída semanas depois por Mitchell, e vários agentes da Scotland Yard. Buck pediu confiança na polícia. Dodd começou a espalhar pelo mundo a versão oficial do seqüestro. Mitchell acelerou a máquina. Surgiram os slogans (“Encontrem Madeleine”, “Devolvam Madeleine”, “Sabemos que está viva”, “Não deixaremos uma pedra sem levantar”…), a página na Web foi aperfeiçoada, começaram as viagens de fé. A fria desolação de Kate, sua beleza roubada pela desgraça, sua extrema magreza começavam a forjar a imagem de uma nova Lady Di.

Durante dois meses a polícia foi obrigada a investigar centenas de pistas falsas. Supostos avistamentos chegavam de toda parte: Chipre, Malta, Holanda, Grécia, Buenos Aires, Bélgica… Num dia, no final de maio, houve mais de 200 denúncias. Uma das mais confiáveis pareceu a de uma cidadã norueguesa, que disse ter visto Maddie com um homem de aspecto árabe em um posto de gasolina em Marrakech. Ela esqueceu de dar um detalhe: seu marido era de Leicestershire, o condado onde vivem os McCann.

Pouco a pouco a tensão foi diminuindo, o caso esmoreceu. Os McCann tinham convencido o mundo. Foi um seqüestro, e parecia não haver mais esperança. Depois de declarar formalmente suspeito e investigar sem êxito Robert Murat, um morador anglo-português da Praia da Luz que trabalhou como tradutor para a própria polícia, começou a ganhar forma a hipótese da morte da menina. A Scotland Yard sugeriu enviar dois cães (Eddie, 7 anos, e Keela, 3) especializados em detectar restos de sangue e cheiro de cadáver. Os spaniels, que ajudaram a resolver mais de 200 crimes no Reino Unido e nos EUA, encontraram as duas coisas: no apartamento e no carro alugado pelos McCann. A conclusão policial: na casa aconteceu um acidente ou talvez um incidente, Madeleine morreu, os pais e amigos decidiram esconder o cadáver e fingir um seqüestro, organizaram seu álibi, a cortina de fumaça cresceu tanto que não foi mais possível voltar atrás.

“Provavelmente se assustaram, pensaram que ninguém iria entender que, sendo médicos, sua filha tivesse morrido, não souberam como explicar que tinham ido tomar drinques durante três horas deixando as crianças sozinhas”, diz uma fonte policial. “Além disso, tinham uma reputação a defender”.

Qual deles? Gerry McCann, o cardiologista de olhar de gelo. “Logo percebemos que tinha amigos poderosos, parece que aspirava a um cargo importante no Ministério da Saúde, esperava fazer carreira política… Isso deve ter pesado em sua decisão”, reflete uma fonte policial.

Os ministros do Exterior e do Interior britânicos reiteraram que não se trata de um caso político. O primeiro-ministro português afirmou o mesmo anteontem a este jornal. O caso é que alguns cidadãos começaram a enviar cartas e mensagens eletrônicas a seus parlamentares e a Downing Street para protestar pela estreita ligação entre Mitchell e os McCann. Os leitores do jornal eletrônico Mirror.co.uk estão indignados. No sábado, um internauta escreveu: “Os McCann voltarão ao Reino Unido. A imprensa os apoiará até a náusea. As vozes dissidentes poderiam ser ignoradas nas páginas de cartas dos jornais e nos comentários a suas edições eletrônicas (o que já aconteceu). O público desinformado apoiará sua luta contra a polícia portuguesa e a mídia difamadora. Finalmente, o governo fará pressão contra o governo português para deixar o caso cair se não tiverem provas 100% concludentes […] O que poderá ser fácil neste caso”.

Até hoje Maddie continua desaparecida. Nós a conhecemos, vimos suas fotos, seu sorriso, seus vídeos, sua íris retangular. Lembraremos dela por muito tempo. Conheceremos algum dia a verdade? Ela aparecerá para dizer a última palavra?

“Observador neutro”
Clarence Mitchell, que já está em Londres, sabia no sábado que os McCann voltariam para casa no dia seguinte. Segundo a agência Associated Press, Mitchell aconselhou os McCann a partir depois de serem declarados suspeitos. Ele nega: “Não é verdade. Eles tinham decidido que preferiam voltar e foi o que informaram à polícia judiciária”, declarou ontem a este jornal.

Ele não vê problemas em seu papel de assessor dos McCann. “É normal que um cidadão britânico com problemas no estrangeiro receba assistência consular; quando a família contratou um representante particular, o governo decidiu que não fazia sentido continuar gastando o dinheiro dos contribuintes”, disse.

“Agora já não tenho qualquer papel oficial com eles”, esclarece Mitchell, que levou o casal até o então vice-primeiro-ministro John Prescott e ao atual primeiro-ministro, Gordon Brown, escocês como Gerry McCann. Ao se despedir, salienta: “Não trabalho para eles. O governo britânico é um observador neutro da situação”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do El País

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Uma resposta em “Madeleine entre Reino Unido e Portugal

  1. mesmo quase tres anos depois do desaparecimento da nossa querida Maddie eu acredito que os pais dela sabem algo que nao revelaram as autoridades
    e que estao escondendo muita coisa

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