LILITCHKA – Wladimir Maiakovski

LILITCHKA (fragmentos)
para Lília Brik
(…)
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia
Afora o teu amor
para mim não há sol
e eu não sei onde estás nem com quem.
Se ela assim torturasse um poeta
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.


Afora
o teu olhar
nehuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…

Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Wladimir Maiakóvski “Em lugar de uma carta”.
26 de maio de 1916 (Petrogrado)

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Lilia Yúrievna Brik  – Ler aqui.

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LOUISE LABÉ: criatura de papel?

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008

Vale a pena, muito: reavaliar Sylvia Plath

post do filme com Gwineth Paltrow

 “Sou habitada por um grito./ Toda noite ele voa/ À procura, com suas garras, de algo para amar./ Tenho medo dessa coisa escura/ Que dorme em mim;/ O dia todo sinto seu roçar suave e macio, sua maldade.

I am inhabited by a cry./ Nightly it flaps out/
Looking, with its hooks, for something to love. / I am terrified by this dark thing/
That sleeps in me; / All day I feel its soft, feathery turnings, its malignity.

( Silvia Plath. The Elm  (excerto) trad. de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo,  2007)

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No inverno de 1963, talvez o mais frio do século, Sylvia Plath, jovem poeta norte-americana radicada na Inglaterra, suicidou-se inalando gás. Pouco tempo antes ela havia rompido com seu marido infiel, o poeta inglês Ted Hughes; seus últimos meses, ela os havia passado escrevendo quatro dezenas de poemas violentos e obcecados com a morte, reunidos depois em “Ariel“.
Pertence a esse conjunto seu célebre “Papai”, um texto no qual ela chega a comparar o pai a um carrasco nazista, algo que, se hoje patenteia um gosto no mínimo duvidoso, parecia então o supra-sumo do revolucionário. A combinação disso tudo e mais um contexto particularmente favorável garantiram a reputação póstuma da autora e de sua obra, que se tornaram objeto (ou, quem sabe, vítimas) de culto, de uma admiração não raro equivocada, de estudos etc.
O contexto favorável em questão era o da emergência do feminismo americano, um movimento excepcionalmente letrado e literário cujas figuras-chave se originavam em boa parte na área de letras. O feminismo precisava de pelo menos uma mártir, e Plath, jovem, talentosa e precocemente desaparecida, havia sido talhada ou talhara-se sob medida para o papel.
Mártires, no entanto, pressupõem geralmente um carrasco e, para tanto, lá estava o viúvo. Hughes reunia todas as pré-condições para ser declarado, sem julgamento, o culpado pelas misérias da vida e pelo fim trágico de sua (ex)-mulher: era homem, fora um marido infiel, era inglês e, de resto, também escrevia, o que o tornava um “competidor”.
A história, contudo, é mais complexa. Plath perdera, aos 8 anos, o pai, e isso não apenas acarretou dificuldades financeiras para a família como se transformou num trauma. Ela sofria de crises de depressão e, numa delas, nos seus tempos de universidade, antes de conhecer Hughes, ela tentara se matar e acabou submetida a meio ano de internação e tratamento.
Há, além disso, o fato de que vários outros poetas americanos mais ou menos contemporâneos de Plath e estilisticamente próximos — por exemplo, John Berryman — também se suicidaram.
O marido, por sua vez, admirava e incentivou sinceramente sua poesia, algo que ela lhe pagou lealmente na mesma moeda. Em termos profissionais, o convívio foi produtivo para ambos. Depois da morte dela, ele cuidou de preservar sua obra e, prudentemente, evitou se estender seja sobre a vida em comum dos dois, seja sobre as causas do desfecho suicida.
Mas, para gerações de feministas e admiradoras em geral da poesia de Plath, ele é o vilão, algo que na cabeça delas parece confirmado pelo suicídio, cinco anos depois, de sua segunda mulher e pelas suspeitas de que ele teria omitido fatos importantes e destruído partes do diário da poeta.
A carreira de Hughes, no entretempo, prosperou e, em 1984, ele chegou ao topo do “establishment” literário britânico, sendo nomeado “poet laureate” (poeta laureado). Três décadas e meia depois daquele inverno, ele finalmente rompeu o silêncio, dando a público uma coleção de seus próprios poemas sobre a história toda, poemas escritos durante anos e que estarão à venda nos EUA, a partir do mês que vem, no livro intitulado “Birthday Letters“.
Pela amostra reproduzida na imprensa americana pode-se, no entanto, deduzir o resto, ou seja, o de que nenhum fato novo e relevante será acrescentado, nenhum eventual enigma elucidado, pois poemas dificilmente se prestam a uma função dessas. Hughes continua em silêncio. Sylvia, por seu turno, segue segura não só em  seu lugar  de grande poeta mas também de mito. (Nelson Ascher) Folha de S Paulo, 1998)

Filme: Sylvia além das Palavras, 

  “O filme sobre a poeta Sylvia Plath e seu marido Ted Hudghes, dois dos grandes poetas do século 20, expõe o sofrimento da mulher, papel de Gwyneth Paltrow. Pode ser que Sylvia, Paixão além das Palavras seja mesmo um mau filme. São tantos críticos a achá-lo frio e sem graça. Devem ter razão. Mas talvez valha prestar atenção, mesmo assim, à cinebiografia da poetisa Sylvia Plath, realizada pela diretora Christine Jeffs. Ela ou seu roteirista, John Brownlow, possivelmente os dois, viram o velho Sílvia, de Gordon Douglas, com Carroll Baker, nos anos 1960. Aquela Sílvia não tinha nada a ver com esta, mas também era uma mulher da palavra, uma escritora. Uma fictícia, a outra real, as duas Sílvias são vítimas de uma sociedade controlada pelos homens. O filme de Gordon Douglas é melhor. Possui um desenho de cena, uma importância conferida aos objetos, que escapa a Christine Jeffs. Mas ela viu a Sílvia de Douglas, com certeza.
Seu filme conta a história da complicada relação entre dois dos maiores poetas do século 20 – Sylvia Plath e Ted Hughes. Conheceram-se quando, ainda jovens, estudavam na Universidade de Cambridge. O casamento foi marcado pela infidelidade e pela violência. Amargurada, Sylvia se matou aos 30 anos. A Sílvia de Gordon Douglas é um enigma que o detetive interpretado por George Maharis tenta decifrar. Garota, ela adorava os livros, mas era pobre e teve de se prostituir. Violentada por um cliente, tirou dele o dinheiro que lhe permitiu fazer uma carreira como escritora, mas de alguma forma ela morre interiormente. É assim que Maharis a encontra. E tenta retirá-la de entre os mortos.
A Sylvia da neozelandesa Christine Jeffs é a de Douglas sem Maharis. Ao assumir o papel, Gwyneth Paltrow talvez tenha pensado em Nicole Kidman e os produtores numa repetição de As Horas, com a bela atriz como Virginia Woolf, outra suicida. Você pode até falar mal do filme, mas não de Gwyneth. Ela vive Sylvia Plath com sinceridade. E, talvez por ter sido ´liberada´ por Bruno Barreto em Voando Alto, a andrógina atriz de Shakespeare Apaixonado revela sua voltagem erótica em cenas intensas com o ator Daniel Craig, que faz Ted Hughes. Ela você conhece. Ele, pode ser que não – Craig fazia o filho vingativo do gângster Paul Newman em Estrada para Perdição, de Sam Mendes.
Sylvia Plath revelou-se uma das fortes e originais vozes da poesia americana por volta de 1960. Sua morte a transformou num ícone feminista. Ela teria sido vítima do marido. A diretora não repete o erro de Brian Gilbert em Tom & Viv, sugerindo que Vivienne Haigh-Wood não apenas foi levada à loucura por T.S. Eliot, como era melhor poeta do que o marido famoso. Christine não aponta o dedo acusador para Ted Hughes. Ela reconhece que a infidelidade dele produziu a infelicidade no casamento que desestabilizou Sylvia, mas não o transforma em vilão. A compulsão desse homem é motivo de sofrimento para ele próprio.
O filme é falho justamente como retrato de uma poetisa. O universo poético de Sylvia Plath, seu domínio das palavras, tudo isso permanece indecifrável para a diretora. Mas, como retrato triste e amargurado das cenas de um casamento que implode, seu trabalho impressiona e incomoda. Christine não carrega na emoção. Seu filme permanece frio e distante. E a Sylvia de Gwyneth, loira e linda, mas não exatamente platinada como a de Carroll Baker, passa uma insuperável imagem de sofrimento.”
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