PARA LER COMO UM ESCRITOR

PARA LER COMO UM ESCRITOR – UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVÊ-LOS

É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que, sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa, em busca do segredo do ‘escrever bem’. De cada um, extrai lições.

A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividadenão pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso Perdido, ou Kafka suportando um seminário em queseus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeitoacorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não osconvence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo?Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendouma fraude criminosa.

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frasee identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que afrase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada:clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiropúblico real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópiapermitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nossotrabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a sermeu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mimfoi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimuladapela ânsia que tinham de ouvir mais.

Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoasque me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma ofi cina podeser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que oajudará e sustentará.

Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendia escrever.

Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendoe lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente dealguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores.Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero,comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases clarasde Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhoresprofessores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio,tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres deuma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continha, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentementeuma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em quecito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagensde suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco maisfluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de quemais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneiramais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como oescritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregandodetalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgulade volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderandocada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução,posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particularesda arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode serensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemosa escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que desejaser escritor a compreender como um escritor lê. (…)

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“A Cultura das Aparências” – Daniel Roche

Da sociologia à arte, “A Cultura das Aparências” analisa a evolução das roupas nos séculos 17 e 18

JOÃO BRAGA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Que maravilha! Que intensidade! Que maravilha de texto, que intensidade de conteúdo! Historiografar à francesa é sem dúvida obedecer a uma metodologia de pesquisa e um rigor com a veracidade dos fatos que todos os historiadores deveriam seguir como exemplo.
A Escola dos Annales deixou um legado científico para a historiografia e uma maneira muito abrangente de pesquisar não só a “grande história” mas especialmente as “pequenas histórias” por meio dos vieses que outrora não eram observados como fonte de informação.
A excelência do texto de Daniel Roche [“A Cultura das Aparências”] já nos é antecipada pelas palavras do jornalista e professor Tarcísio d’Almeida na orelha do livro e na apresentação à edição brasileira, escrita pela professora Denise Bernuzzi de Sant’Anna.
Roche é um historiador francês, nascido em 1935, que trabalha especialmente com as histórias cultural e social francesas do Antigo Regime. É professor honorário no Collège de France desde 1998 e titular da cadeira de história da França iluminista. Além de professor universitário e pesquisador, é também diretor do Instituto de História Moderna Contemporânea e diretor, com Pierre Milza, da “Revista de História Moderna e Contemporânea”.
Sua carreira é fascinante e sua literatura é de primeira ordem, dando à França e, por extensão, ao mundo uma produção bibliográfica importantíssima no campo dos estudos históricos da cultura e da sociedade por meio de diversos títulos. Trata-se, portanto, de um dos historiadores mais respeitados da atualidade.

Luzes
O seu título “A Cultura das Aparências – Uma História da Indumentária (séculos 17-18)”, editado originalmente em francês em 1989 (Fayard) e já traduzido para o italiano em 1993 (Einaudi) e para o inglês em 1994 (Cambridge), é agora acessível em português, magistralmente traduzido por Assef Kfouri (que acrescenta excepcionais “notas do tradutor”).
Chega em momento oportuno para a crescente academia de moda no Brasil. Seu texto é memorável e de extrema valia para a compreensão da moda num momento de grandes transformações intelectuais e culturais como o foi o século das Luzes e, obviamente, sua continuidade de percurso.
Entende-se como a França, especialmente Paris, adquiriu o posto de epicentro criador e difusor de moda para o mundo por meio de estudos e conclusões como, por exemplo, nos é dito na página 301: “O passado, que molda silenciosamente o futuro”.
Roche, com uma citação de Rousseau, à página 514, legitima que “o signo diz tudo antes que se fale”, e parece que nessa frase está contida toda a essência de “A Cultura das Aparências”, tão praticada, difundida e assimilada pelas mentalidades e comportamentos seiscentistas e setecentistas.
De Luís 14 a Luís 16, Roche percorre as “Luzes” por meio de uma riqueza de pesquisa em fontes primárias, incluindo gráficos e tabelas, fundamentais ao historiador ou ao interessado em história. As roupas e a moda são minuciosamente estudadas em quatro capítulos maiores e inúmeras subdivisões específicas por meio de diversos olhares e vieses.
Discursa com propriedade sobre a “revolução indumentária”, contando-nos processos historiográficos e leis suntuárias. Descreve-nos as roupas brancas, trajes de corte, paramentos, andrajos, roupas campesinas e folclóricas, uniformes, trajes militares, tecidos e tinturarias.
Elucida-nos os profissionais de então, tais como alfaiates, modistas, cabeleireiros, tintureiros, costureiras, bordadeiras, cerzideiras, comerciantes, vendedores e revendedores.
Informa-nos de hábitos não idôneos, como os roubos de roupas, e também da importância econômica para os indivíduos e para a sociedade das vestimentas, desde as meias até os redingotes. Fala-nos do comércio, da lavagem e manutenção das roupas, dos hábitos dos penteados e das perucas, além de enumerar e esclarecer provérbios relativos às roupas e à moda.

Intertextualidade
Não ficam esquecidos as utopias e os romances que descrevem os trajes, e, substancialmente, ele também analisa os aspectos e compreensões sobre o luxo; estuda o corpo, as bonecas de moda e historiografa o surgimento da imprensa de moda.
Familiariza-nos tanto com a nobreza quanto com os menos favorecidos materialmente. Como se não bastasse, Roche intertextualiza seu trabalho com diversos outros autores franceses e estrangeiros ao longo de todo o livro, o que enriquece e complementa o conteúdo. Não só cita grandes nomes do passado, como Rouseau, Diderot e D’Alambert, entre outros filósofos e enciclopedistas, como também nomes atuais tão conhecidos no Brasil como Norbert Elias, Gilles Lipovetsky e Yvonne Deslandres e autores de inúmeras dissertações e teses.
Percorre a sociologia, a antropologia, a história cultural, a economia, a religião, as artes para nos esclarecer sobre as roupas. Isso tudo ainda podendo nos favorecer a inúmeras associações com o atual mundo da moda, por meio de esclarecimentos históricos que permitam a compreensão dos tempos presentes.
Roche, com sua erudição histórica, nos dá “A Cultura das Aparências”, que se torna de indispensável leitura para eruditos, profissionais e iniciantes ao universo da moda, além, obviamente, para os estudantes da área. Verdadeira obra de referência. Ler e reler, eis a sugestão.


JOÃO BRAGA é pesquisador e professor de história da indumentária e da moda na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), em SP.

A CULTURA DAS APARÊNCIAS
Autor:
Daniel Roche
Tradução: Assef Kfouri
Editora: Senac-SP
Quanto: R$ 82 (528 págs.)


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