Paulo Vanzolini

“A Amazônia quer destruir a floresta”, diz Vanzolini

Zoólogo-sambista nega autoria da teoria dos refúgios; “só estudamos um bicho”

Autor de “Ronda” e teórico da biodiversidade, que faz 84 anos em abril, diz que única saída para a floresta é “trancar e perder a chave”

Carol Guedes/Folha Imagem
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O herpetólogo (especialista “cobras e lagartos”, como diz) Paulo Vanzolini, em sua casa em SP

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

A generosidade e as opiniões contundentes -e muitas vezes politicamente incorretas- de um zoólogo compositor poderiam servir de inspiração para um grande samba. Mas Paulo Emílio Vanzolini, que completa 84 anos no dia 25 de abril, não faz mais música. E, mesmo na ciência, anda acertando as contas com sua obra-prima: a teoria dos refúgios.
“Nem deveria chamar teoria dos refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. Não usamos o termo teoria dos refúgios no trabalho de 1970.”
Vanzo, como é conhecido, conta como surgiu a explicação científica mais ilustre (e debatida) sobre a origem da biodiversidade amazônica.
O ano é 1969. Trabalho quase pronto sobre um lagarto do gênero Anolis, que existe em boa parte do Brasil. Vanzolini, que dividia o projeto com o americano Ernest Williams, recebe um pacote da revista científica americana “Science”. Era um trabalho assinado por Jürgen Haffer sobre distribuição de aves na Amazônia brasileira.
“Ernest, acho que passaram a perna na gente”, foi a reação de Vanzolini. Logo em seguida, o trabalho sobre a distribuição de répteis no Brasil foi enviado para Haffer. “Gosto muito dele, que é pessoa inteligente, e, além disso, como bom alemão, gosta muito de cerveja.”
Haffer, que estava na África do Sul, pegou um avião e veio para o Brasil discutir o assunto com Vanzolini. Os dois trabalhos foram publicados em 1970. A concepção dos refúgios, provavelmente, ecoou porque encontrou dois autores generosos, algo nem sempre fácil de ocorrer no mundo da ciência.
Outro pesquisador que contribuiu, com seus estudos paleoclimáticos, para o trabalho de Vanzolini e Williams foi o geógrafo Aziz Ab’Sáber, amigo com quem Vanzo anda chateado. “O Aziz é uma criança. Somos muito amigos, apesar de que agora ele está nessa fase de invenção, de dizer que ele descobriu a teoria dos refúgios. Ele colocou isso na internet.”
Nem Haffer nem Vanzolini aceitam as críticas que vêm sendo feitas nos últimos anos aos refúgios -nome dado às “ilhas” de mata úmida e cerrado que se formaram na Amazônia à medida que o clima oscilou entre seco e úmido da Era do Gelo para cá. Essas “ilhas” isolam geograficamente as populações, estimulando o surgimento de novas espécies.
Mas críticas são algo que não falta quando o zoólogo-sambista fala da Amazônia atual.

Insustentável
“Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. A equipe dessa ministra [Marina Silva] é muito ruim. Você conhece o [João Paulo] Capobianco [secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente]? É o pior que tem. Agora ele inventou essa história de gestão do patrimônio genético”, dispara.
Do governo, Vanzo parte para criticar os próprios moradores da floresta e as ONGs.
“A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa. Enquanto a população crescer, você não vai negar comida”. A única solução é: “Tranca a porta e perde a chave. Enquanto tiver gente e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá?”
Em seguida, muda de bioma, mas mantém o alvo. “O grande mal são as ONGs. Elas são ignorantes e muito militantes. Fico feliz que agora liberaram a usina de Tijuco Alto.” O projeto da hidrelétrica, que poderá ser erguida sul do Estado de São Paulo pelo Grupo Votorantim, se arrasta há 20 anos na Justiça.
“Eu e algumas alunas tínhamos uma firma de impactos ecológicos. Fizemos estudos naquela área. Lá não tem um metro de mata atlântica. Tem só capoeira, o que é pior.”
Mas as boas lembranças amazônicas do autor de “Volta por Cima” -expressão que virou verbete em dicionário e o único samba, segundo Vanzolini, que rendeu algum dinheiro (“Comprei muitos livros com ele”)- voltam logo.
“Uma das maiores emoções que eu tive na vida foi na Amazônia, ao lado do Márcio Ayres [primatólogo morto em 2003], que eu conheci no berço.”
Os dois cientistas estavam atrás de uma espécie nova de macaco e pararam seu barco em uma ilha, na região de Mamirauá. “Logo quando chegamos pensaram que nós éramos regatões e foram logo perguntando o que vendíamos. Dissemos que estávamos trabalhando nessa coisa do mico-de-cheiro. “Qual o senhor quer?” -perguntaram. “O da cabecinha ruiva ou o outro?” Quase desmaiei na hora. Eles já sabiam que eram dois [tipos].”
Quando um exemplar da espécie nova foi encontrado, o próprio Vanzolini matou o animal. Ayres afirmou que não sabia fazer aquilo. “Eu fui lá e matei. Depois taxidermizei e o Márcio descreveu (e fez uma homenagem ao então orientador, dando o nome ao macaco de Saimiri vanzolinii).
Apesar de ter ficado de fora dessa descrição, a obra de Vanzolini não se resume ao estudo que acabou gerando a teoria dos refúgios. Nas coletas de campo ou no Museu de Zoologia da USP, ele não tem conta do número de espécies que descreveu e batizou, principalmente de répteis e anfíbios (“Quem é sério tem perfil baixo”, disse uma vez).
Matar bicho para fins científicos é cada vez mais importante, segundo Vanzolini. “As ONGs acham isso besteira porque elas não entendem de nada”, generaliza o zoólogo.

Rodas de samba
O sorriso maroto volta a se abrir quando Vanzolini – depois de tomar dois cafés feitos por sua mulher, a cantora Ana Bernardo, e elogiá-los muito- volta a falar de música, atividade da qual, diga-se de passagem, ele nunca precisou para viver. “A zoologia foi muito boa para mim. Me deu bom emprego, viagens, boas amizades.”
O compositor está aposentado mas, segundo ele, continua tendo a música como diversão. “Compor é muito difícil. Toma muito tempo. Perdi o gosto.” Porém, alguns botequins do bairro da Aclimação, como o do Heleno, ainda são testemunhas das rodas de samba de que Vanzolini e os amigos costumam participar de longe em longe.
“Ainda frequento, a cada dois ou três meses. Beber eu tive de parar. A proibição é só para cachaça, porque eu tomava um pouco demais. Mas cerveja e vinho eu tomo.”
Vanzolini, que em 2004 ficou 51 dias na UTI após a eclosão de quatro úlceras hemorrágicas e após ter três paradas cardíacas no mesmo dia, continua acompanhando tudo do seu refúgio na Aclimação (uma vila inteira dele e dos irmãos, com e uma das casas para ensaios). A eleição nos EUA, por exemplo.
“E essa do Obama agora? Vai ser a glória. Mas duvido que eles tenham coragem. No fim, eles [os americanos] votam em um republicano”, explica Vanzo, que ainda se considera um homem de esquerda.

Na escrivaninha
Entrevista encerrada. O zoólogo se levanta e convida o repórter a subir as escadas do sobrado. Passos lentos. Entramos num quarto com a janela quase toda fechada. A televisão ligada em um jogo da Copa dos Campeões -Vanzolini é torcedor da Ponte Preta- e uma estante com vários livros.
Ele retira dois volumes, coloca sobre a escrivaninha e diz: “Sente-se aí, leia isso”, com um tom professoral.
É a publicação original do artigo com Williams (dois livros que, somados, passam das cem páginas), feita em 1970. Apesar de não existir realmente o termo no trabalho, ali está um dos marcos (e um dos pais) da teoria dos refúgios.
Se novos sambas não surgirão mais – para Vanzolini tudo já está feito, com uma caixa especial de discos com todas as músicas dele já lançadas- será que algum livro pode surgir, sobre ele próprio?
“Tenho preguiça. Não acho que tenha tanta coisa interessante assim.”
Caso ele resolva falar de música, e disso gosta muito, alguns serão criticados, como o ex-parceiro Toquinho (“é um violonista de primeira, mas faz algumas coisas pelas costas”), Caetano Veloso (“esse não serve para nada”) e Noite Ilustrada (“quando ele aparecia, aborrecia todo mundo”).
Outros tantos, porém, receberão só elogios. Eduardo Gudin, Chico Buarque (“esse eu vi nascer, na casa do meu amigo Sérgio”), Luís Carlos Paraná (“depois da morte dele fiquei meio desiludido em compor”) e Isaías Bueno (“o maior violonista do mundo”).
Ou seja, o “homem de moral”, de frases curtas e diretas, será generoso e ao mesmo tempo duro com aqueles que conviveram com ele ao longo de todos esses anos.

RETIRADO DA FOLHA DE S.  PAULO

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Protocolo de Kioto – o que é isso?

Entenda o que é o Protocolo de Kyoto

 

As metas de Kyoto devem ser atingidas entre 2008 e 2012

Um tratado que possa substituir o Protocolo de Kyoto deve estar, nos próximos anos, no centro do debate internacional sobre como enfrentar o aquecimento global.

O documento, criado em 1997 na cidade japonesa que deu nome ao acordo, estabelece metas para a redução de gases poluentes que, acredita-se, estejam ligados ao aquecimento global e tem data para expirar: 2012.

Segundo o tratado, apenas 30 países industrializados estão sujeitos a essas metas. O Brasil ratificou o acordo, mas não teve de se comprometer com metas específicas porque é considerado país em desenvolvimento.

Leia abaixo repostas a algumas das principais questões envolvendo o protocolo:

O que é o Protocolo de Kyoto?

É um acordo internacional que estabelece metas de redução de gases poluentes para os países industrializados. O protocolo foi finalizado em 1997, baseado nos princípios do Tratado da ONU sobre Mudanças Climáticas, de 1992.

O acordo entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005, ratificado por 36 países do grupo mais ricos do planeta, e limita emissões dos seis gases que provocam o efeito estufa.

Para atingir as metas de cortar as emissões, o protocolo criou três mecanismos: a troca de emissões entre países com metas a cumprir, a implantação de projetos conjuntos para reduzir emissões e o chamado MDL, ou Mecanismo de Desenvolvimento Limpo.

Esse mecanismo permite que os países que têm que cumprir metas invistam na redução de emissões nos países em desenvolvimento em vez de reduzir emissões “em casa”.

Sob o princípio de “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, que reconhece um dever maior dos países ricos pelo combate ao aquecimento global, por terem contribuído mais para ele e por terem mais condições de pagar, o protocolo não fixou metas de emissão para os países pobres e em desenvolvimento.

Quais são as metas?

O Protocolo prevê uma redução total de 5,2% nas emissões em relação aos níveis registrados em 1990. Essa meta deve ser atingida entre 2008 e 2012.

A meta de redução varia de um signatário para outro.

Os países da União Européia, por exemplo, têm de cortar as emissões em 8%, enquanto o Japão se comprometeu com uma redução de 5%. Alguns países que têm emissões baixas podem até aumentá-las.

As metas estão sendo atingidas?

O total de emissões de dióxido de carbono caiu 3% entre 1990 e 2000. No entanto, a queda aconteceu principalmente por causa do declínio econômico nas ex-repúblicas soviéticas e mascarou um aumento de 8% nas emissões entre os países ricos.

A ONU afirma que os países industrializados estão fora da meta e prevê para 2010 um aumento de 10% em relação a 1990. Segundo a organização, apenas quatro países da União Européia têm chance de atingir as metas.

O diretor de Campanhas do Greenpeace no Brasil, Marcello Furtado, diz que como ferramenta política o acordo é “fundamental”. “Já como ação mitigatória, fez muito pouco.”

Por que os Estados Unidos se retiraram do Protocolo?

O presidente americano, George W. Bush, se retirou das negociações sobre o protocolo em 2001, alegando que a sua implementação prejudicaria a economia do país.

O governo Bush considera o tratato “fatalmente fracassado”. Um dos argumentos é que não há exigência sobre os países em desenvolvimento para reduzirem as suas emissões.

Bush disse ser a favor de reduções por meio de medidas voluntárias e novas tecnologias no campo energético.

Os americanos estão isolados nessa posição, e o único outro país desenvolvido a se recusar a assinar o acordo, a Austrália, aceitou entrar no acordo no dia 3 de dezembro deste ano. Hoje 174 países são signatários do acordo.

Kyoto vai fazer uma grande diferença?

A maioria dos cientistas que estudam o clima diz que as metas instituídas em Kyoto apenas tocam a superfície do problema.

O acordo visa a reduzir as emissões nos países industrializados em 5%, enquanto é praticamente consenso entre os cientistas que defendem o corte nas emissões como forma de controlar o aquecimento as mudanças climáticas que, para evitar as piores consequências das mudanças climáticas, seria preciso uma redução de 60% das emissões.

Diante disso, os termos finais de Kyoto receberam, portanto, várias críticas, com alguns dizendo que o protocolo terá pouco impacto no clima e é praticamente inútil sem o apoio americano.

Outros, no entanto, dizem que, apesar das falhas, o protocolo é importante porque estabelece linhas gerais para futuras negociações sobre o clima.

Os defensores de Kyoto dizem ainda que o tratado fez com que vários países transformassem em lei a meta de reduções das emissões e que, sem o protocolo, políticos e empresas tentando implementar medidas ecológicas teriam dificuldades ainda maiores.

E o Brasil e os outros países em desenvolvimento?

O acordo diz que os países em desenvolvimento, como o Brasil, são os que menos contribuem para as mudanças climáticas e, no entanto, tendem a ser os mais afetados pelos seus efeitos.

Embora muitos tenham aderido ao protocolo, países em desenvolvimento não tiveram de se comprometer com metas específicas. Como signatários, no entanto, eles precisam manter a ONU informada do seu nível de emissões e buscar o desenvolvimento de estratégias para as mudanças climáticas.

Entre as grandes economias em desenvolvimento, a China e Índia também ratificaram o protocolo.

O que é o comércio de emissões?

O comércio de emissões consiste em permitir que países compram e vendam cotas de emissões de gás carbônico.

Dessa forma, países que poluem muito podem comprar “créditos” não usados daqueles que “têm direito” a mais emissões do que o que normalmente geram.

Depois de muitas negociações, os países também podem agora ganhar créditos por atividades que aumentam a sua capacidade de absorver carbono, como o plantio de árvores e a conservação do solo.

 FONTE: BBC/PORTUGUESE