De gripe, infância, amor e desamor –

DE GRIPE, lNFÂNClA, AMOR E DESAMOR
Rubem Braga
A gripe tem alguns momentos bons: aquele em que se sente uma febre leve e um pouco de frio, e se toma um chá quente, e se abandona o corpo na cama e a alma no ar, à toa. Então a gente se desliga de todos os abor­recimentos e problemas do dia, e volta à infância e seu aconchego maternal.
O doente é outra vez um menino, e um ‘menino im­portante porque está doente e, portanto, tem mais di­reitos; tem direito a uma dourada canja de galinha, com o coração, a moela e o fígado e até a pequenina gema que não chegou a ser ovo; tem direito a pedir melado de cana com aipim quente … Não importa que não peça esses tesouros; nem sequer fica triste por não tê los, nem mesmo os deseja; é um adulto, e está sólido na sua soli­dão de adulto já ido e vivido; mas se compraz nessa re­nascença do menino e se deixa embalar, na doçura da febre leve, por essas remotas lembranças.
Mas a gripe é principalmente, e quase sempre, má. Não tem aquele elemento salutar de outras doenças, que é a idéia da morte e seu medo. O doente teve outras gri­pes iguais, sabe que ela passa, não chega a ser uma do­ença, é um aborrecimento. O que tem a fazer é compor­tar-se bem, ter paciência; mas sente a cabeça confusa, ao mesmo tempo vaga e pesada; pensa mal e sonha mal; tem uma série de pesadelos mornos onde o horror é subs­tituído pelo desconforto, e a angústia por uma aflição mesquinha; não são verdadeiros pesadelos, mas sonhos ruins, que nem sequer trazem, no momento de desper­tar, aquele grande alívio da gente sentir que era tudo mentira, e está vivo e salvo.
Não ouso aconselhar uma gripe às pessoas que estão sofrendo alguma crise sentimental. Pode agravar. Uma combinação de vírus de gripe e de amor pode conduzir à paixão ou à pneumonia.
Assim como há alguns remédios para a gripe que só valem quando tomados no começo, assim também a gripe é um remédio para o amor, mas só no fim; nesses casos de amor encruado, que está custando a acabar, embora não tenha mais os delírios dos primeiros tempos, mas ainda sujeito a recidivas intermitentes.
Em casos desses é preciso aproveitar a depressão e a irritação causadas pela gripe, utilizando-as contra a pessoa amada que se quer desamar. O paciente deve cer­car-se de fotografias da pessoa amada, sempre que possí­vel em atitudes alegres, sorrindo; com um pouco de boa vontade se convencerá de que ela está se rindo é dele, de seu amor e de sua gripe.
Irá associando a pessoa a todos os seus momentos de aborrecimento e mal-estar, tendo-a sob o prisma desa­gradável fácil de adotar quando se tem os olhos doloridos à luz, e o nariz entupido; imaginá-la nas atitudes mais prosaicas, perfumar seus cabelos, na imaginação, com allium sativum. Enfim, ir incorporando a imagem da amada à sensação da gripe, e cultivando o desejo de se ver quanto antes livre dessas duas servidões, sentir-se li­berto, andando ao sol, respirando bem.Um amigo meu fez essa experiência, depois me con­tou: “Eu pensei que estava apaixonado por ela, não era nada, era falta de vitamina “C” …

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