Imagens

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Luis Fernando Veríssimo

Nos 33 anos desde a explosão da bomba no seu colo, o então capitão Wilson Machado teve uma carreira militar normal com promoções sucessivas, chegou a coronel

O Millôr pulverizou a frase feita “Uma imagem vale mil palavras” desafiando: “Diga isso sem palavras”. Mas, em alguns casos, uma imagem, ou uma superimposição de imagens, diz tudo sobre um momento, sem precisar de palavras. Há dias os jornais publicaram, simultaneamente, duas fotos, uma do Marcelo Rubens Paiva na Flip, interrompendo um depoimento que fazia sobre o desparecimento de seu pai, Rubens Paiva, morto pela ditadura militar, até poder controlar a emoção, outra, a do coronel Wilson Machado, um dos ocupantes do Puma em que explodiu, prematuramente, a bomba destinada a causar pânico e mortes no Riocentro, no 30 de abril de 1981. O coronel está rindo na foto. Depois de mais de 30 anos desde o seu desaparecimento, a família do Rubens Paiva continua sem saber onde está o seu corpo. Nos 33 anos desde a explosão da bomba no seu colo, o então capitão Wilson Machado teve uma carreira militar normal com promoções sucessivas, chegou a coronel e certamente chegará a general. A julgar pela sua foto, está em paz com sua vida e sua consciência. Os superiores do coronel, que planejaram e ordenaram o atentado, também não têm com o que se preocupar. Os responsáveis pelo desaparecimento de Rubens Paiva também não. A própria instituição militar já disse que nada de anormal aconteceu nos seus quartéis durante o chamado “período de exceção”. Todos podem rir como o coronel.

O CASO DO PICASSO

No recém-lançado filme de Jorge Furtado, “O mercado de notícias”, um semidocumentário sobre a imprensa brasileira, é lembrada a descoberta há alguns anos de um quadro de Picasso numa dependência do INSS, denunciada pela imprensa como um escândalo, prova da ignorância de servidores que não sabiam o tesouro que tinham na parede, e/ou de desperdício indefensável de dinheiro público. O Picasso do INSS rendeu várias reportagens, e, como se não bastasse a indignação já provocada, o prédio em que estava pegou fogo — ameaçando a preciosa obra! Que, é claro, de preciosa não tinha nada. Era um pôster reproduzindo um retrato de mulher do Picasso como se pode comprar em qualquer loja de museu do mundo, emoldurar e botar na parede gastando muito pouco. Jorge conta o caso do Picasso autêntico que era cópia como exemplo de um hábito reincidente de certa imprensa de ver ou fabricar escândalos onde não há nenhum — e vá esperar retratação quando a denúncia é desmentida. Mas o filme de Jorge, com depoimentos de gente como Mino Carta, Bob Fernandes, Janio de Freitas, Cristiana Lôbo, Renata Lo Prete, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Leandro Fortes, Luis Nassif, Mauricio Dias, Paulo Moreira Leite e Raimundo Pereira, acaba sendo um elogio da nossa imprensa. Se mais não fosse, pela qualidade dos depoentes.

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