Leandro Konder – Hóspede da Liberdade

Do site MUSA RARA – Beatriz Helena Ramos Amaral  escreve sobre Rodolfo Konder –(Natal, 5/04/1938, São Paulo, 1/52014)

………………[foto by Beatriz H. R.Amaral]

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“Há uma ideia de rio que precede  todos
os  rios.  Ele corre à frente do rio real,  é
símbolo e metáfora, jamais nos abando-
na, nem sequer no sono.”

(Rodolfo Konder)

 É na confluência entre a força e a combatividade da ação e as sutilezas e entrelinhas do pensamento que se esculpe o extraordinário legado do escritor, jornalista, tradutor e professor Rodolfo Konder (5.4.1938 – 1.5.2014). Amplo e inspirador, seu legado merece constante revisita, pelas características únicas de que se reveste. A conjugação harmônica entre seus vários ramos constitui rico manancial de estudo, reflexão e conhecimento. Coexistem nas trilhas de Konder fios caudalosos de vida, uma obra literária reconhecida pela crítica, a carreira jornalística, o ativismo político, a defesa intransigente da liberdade, dos direitos humanos e de todos valores que compõem a democracia e a sociedade plural e polifônica de nossa era.

No plano híbrido muito bem fertilizado por vasta cultura e experiência profissional (cinco décadas de jornalismo exercido com ética e coragem em vários veículos da imprensa escrita, falada, no videojornalismo, no Brasil e também no Canadá), Rodolfo Konder desenhou com passos audaciosos e únicos, uma trajetória inigualável no cenário cultural. Trinta e três livros publicados, entre os quais As Portas do Tempo, Palavras Aladas, Hóspede da Solidão (Prêmio Jabuti de 2001), Labirintos de Pedra, Rastros na Neve, Sombras no Espelho, Cassados e Caçados, As Areias de Ontem, Luz e Sombra, Política e Jornalismo, Espelhos Turvos – em mais de trinta anos de produção literária – revelam a habilidade narrativa do contista e cronista em tecer um mosaico (trans)metafórico de memórias re/criadas e entretecidas em feixes polifônicos – fatos reais, pensamentos, ideias, personagens.

A força narrativa de Konder reside na linguagem composta por altas doses figurativas e, conquanto seus textos estejam predominantemente centrados no relato e na análise de acontecimentos quase sempre verídicos – quer sejam históricos, quer sejam pessoais – instaura processos de autorreflexão, em especial sobre ética, dignidade e tolerância, temas de inconteste pertinência e de extrema relevância para todo pensador de nosso tempo, e, concomitantemente, comove o leitor, atraindo-o para a teia densa e plurissignificativa em que ironias, hipérboles, sutilmente desenvolvidas, explodem no jogo estético e estilístico inconfundível que caracteriza sua trajetória de pensador/criador, um traço que se alterna entre o poético, o político e o profético.

A pergunta que reproduz em tantas instâncias é a nossa atualíssima indagação de todos os dias: por que a barbárie ainda tem presença em nosso tempo e por que não se consegue erradicá-la? A indagação de natureza schilleriana, recorrente no pensamento do autor, convive com os recortes pessoais, de cunho quase lírico, com que vai conduzindo o tecido narrativo e dando voz ao estranhamento e às perplexidades com que se defronta sua ótica sensível. Seu texto também se enriquece das frequentes camadas de non sense, as quais dialogam muito bem com as revisitas às reminiscências históricas, os tons extraídos do realismo mágico e as constantes referências a Jorge Luis Borges, uma de suas maiores fontes de inspiração literária.

No rico e privilegiado tear da memória, Rodolfo Konder alimenta o fluxo do rio-palavra, constituindo a singularidade e a própria identidade do narrador. Em diálogo e contraponto, esculpem-se os recortes de caleidoscópicas paisagens do líder sindical (anos sessenta), jornalista, um dos criadores da Anistia Internacional no Brasil (da qual foi presidente e vice-presidente, por dez anos), Diretor da Representação da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em São Paulo, Conselheiro da Fundação Padre Anchieta, Editor-Chefe e apresentador do Jornal da TV Cultura,  Secretário Municipal de Cultural de São Paulo, sempre orientando-se em direção à voz da pluralidade, da multiplicidade de tendências estéticas, idiomas e estilos.

No vibrante plâncton da concretude, Rodolfo Konder foi o primeiro brasileiro a denunciar o caso Herzog, em 1975, lançando luzes claras sobre um lodo de trevas e arbitrariedades que cobria o Brasil, naquela triste década, inserindo sua coragem e seus princípios éticos numa ação bem calibrada e incessante em prol da democracia e da liberdade. Com a audácia de sua conduta, teve papel fundamental no processo de redemocratização do país.

Suas ações éticas e combativas lhe custaram caro. Custaram-lhe a liberdade e dois longos exílios, vividos no México e no Uruguai (1964-1965) e nos Estados Unidos e no Canadá (1976-1978).

Mas o tempo consolidou a trajetória do escritor-jornalista, que jamais cessou as críticas às injustiças cometidas pelas oligarquias. Combateu a tirania e os tiranos, as ditaduras e os ditadores, dando-lhes, em seus primorosos textos, a dimensão de bestialidade que realmente tem. E refinou o pincel estético com que construiu narrativas breves inesquecíveis,  como “A Invasão”, “A cidade de gelo”, O tigre que meditava”, entre centenas de outras. As qualidades estilísticas de seu texto, entre as quais se sobressaem a poeticidade da linguagem e o ritmo preciso, são aliadas da essência de sua obra: a reflexão crítica humanista, o pensamento a serviço da possível reconstrução da história, em direção às portas do futuro.

Konder sempre soube e sempre repetiu que todo maniqueísmo é estreito, nocivo, limitado. Sempre navegou na instabilidade das marés, remando para a frente, no rio-palavra, no rio-memória, na expansão do rio-vida.  Sempre iluminou seus leitores, alunos, admiradores e sua legião de amigos, lembrando que

Durante o que resta da noite, uma vez mais, todos serão um só: homens, animais, pedras – e a montanha, da qual receberão a memória irrevogável de todos os dias já transcorridos e a lucidez bravia de quem constrói a liberdade. De manhã, às margens do Apurimac, junto às suas águas arrojadas, os combatentes dirão: somos este rio.” (“A seita – uma fábula andina).

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Beatriz Helena Ramos Amaral é poeta, contista, ensaísta e musicista. Graduada em Direito pela USP e Música pela FASM. Em 1996, atuou na diretoria da União Brasileira dos Escritores. E-mail: eatrizhramaral@uol.com.br

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