Cinema de boca em boca – Inacio Araujo

Le cinéaste américain Samuel Fuller à Deauvill...

Samuell Fuller -Image via Wikipedia

Antologia compila estilo enfático de Inácio Araujo
Coletânea traz textos do crítico de cinema publicados na Folha entre 1983 e 2007
Mais de 280 artigos foram selecionados entre mais de 5.000 títulos e organizados cronologicamente

SILVANA ARANTES – EDITORA-ADJUNTA DA ILUSTRADA

Era um texto de despedida. Em 99 linhas, o crítico de cinema da Folha Inácio Araujo aquilatava a obra do diretor Samuel Fuller, que morrera aos 85 anos.
“Há o cineasta que se admira e há o cineasta que se ama”, afirmava, para desembocar na conclusão: “Amar Fuller e compreender o cinema é quase a mesma coisa”.
Esse adeus em forma de artigo fez de Juliano Tosi, então estudante de jornalismo, um “leitor assíduo” do crítico. A familiaridade com a produção de Araujo o credenciou a selecionar, entre mais de 5.000 textos publicados pelo crítico de 1983 a 2007, os 286 que integram a antologia “Cinema de Boca em Boca”.
“Morte de Fuller é como Perder o Pai”, publicado originalmente em 3/11/97, ocupa a página 381. São 678. “Embora seja a mais óbvia, a ordem cronológica [de edição dos textos] é a mais interessante porque permite notar a linha evolutiva da escrita para jornal”, diz Tosi, organizador do volume.
Não é bem como evolução que Araujo classifica as transformações na relação entre o jornal e seus leitores. “Antes, havia um leitor. Hoje, há um consumidor que se recusa a fazer esforço [de compreensão]. É como se a ignorância fosse uma virtude. Percebo nesse fenômeno uma queda da civilidade.” Se há uma marca no estilo de Araujo, é a ênfase. Enfático na defesa dos filmes que ama como no desapreço pelos que rejeita, ele acumula sentenças ressoantes.
Exemplos: “A pornochanchada é o divã do pobre. Não há mal nisso. Os letrados é que são pudicos”; “”Vertigo” é seguramente o maior filme já feito sobre o cinema”.
Em crítica que se converteu em polêmica com a produtora Conspiração Filmes, asseverou: “A supervalorização do cinema publicitário no Brasil deveria ser tema de um estudo antropológico, antes de cinematográfico.
(…) A pergunta que o espectador de cinema pode legitimamente se fazer ao longo de “Gêmeas” é: afinal, este filme está anunciando o quê?”.

PAIXÃO
Embora dispostos em ordem cronológica, os textos conformam núcleos temáticos na opinião do organizador. Estão lá, em capítulos informais, “a paixão por Howard Hawks, por Hitchcock, pelo cinema japonês e pela nouvelle vague”, avalia Tosi.
A autocrítica, ou a relação de Araujo com o ofício, também poderia fazer parte da lista. Assunto recorrente em suas reflexões, motivou-o a um debate, nas páginas da Folha, com o colunista Marcelo Coelho, rebatendo um artigo deste, em 1992, com “O que Sair por Último, Por Favor Apague a Luz”. Cinco anos mais tarde, em entrevista ao ombudsman Mario Vitor Santos, Araujo define seu papel citando o crítico de artes Rodrigo Naves: “Um crítico só se afirma pelo que defende, nunca pelo que nega”.
O cinema que Araujo afirma é como o de Fuller, cujos filmes “sem heróis, agônicos, têm beleza e poesia que irrompem na tela, levados pela força, consistência e originalidade de seu olhar”. Alguém, enfim, que se aprende a amar, mais que admirar.

***

Retirado de: Folha S. Paulo – Ilustrada

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