ROBERTO MACHADO – ENTREVISTA

ENTREVISTA  À REVISTA FILOSOFIA
Interdisciplinaridade para a Filosofia da diferença
Roberto Machado, que foi aluno e hoje é estudioso de Deleuze, explica como filósofo francês usa a união de vários pensamentos e disciplinas, como arte e a ciência, para a construção da singularidade e do pensar diferente

POR PATRÍCIA PEREIRA

 
 
FOTOS: SILVIA CONSTANTI
“Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por meio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados -principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamentoda diferença “

Há uma famosa frase de Foucault que diz que “um dia, talvez, o século seja deleuziano”. Para Roberto cabral de Melo Machado, autor de Deleuze e a Filosofia – já esgotado – e Deleuze, a Arte e a Filosofia, a ser lançado em agosto deste ano, isto não é possível: “Foi uma brincadeira que Foucault fez”, afirma. Machado explica que não tem sentido ser deleuziano, pois, como Nietzsche e Foucault, Deleuze é um filósofo da singularidade, a quem não caberia ter discípulos. Seus escritos devem ser usados, por seus seguidores, como instrumentos para que cada um crie seu próprio pensamento. Machado é mestre e doutor em Filosofia pela Universidade católica de Louvain, na Bélgica, tendo feito seu pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com Deleuze. “Lembro de Deleuze dizendo numa aula que filosofar é passear com um saco e, ao encontrar alguma coisa que sirva, pegar.” hoje, professor titular do Instituto de Filosofia e ciências Sociais da UFRJ (IFcS/UFRJ), Machado diz nesta entrevista que, para Deleuze, há ressonâncias entre a arte, a ciência e a Filosofia, sem que haja prioridade de uma sobre as outras. as três seriam atividades criadoras, com interferências mútuas. ou seja, no “saco” da Filosofia também podem entrar ideias vindas da arte e da ciência. Também aponta como a Filosofia de diferentes pensadores aparece na criação de conceitos por Deleuze: “Deleuze funciona como um dramaturgo que escreve as falas e dirige a participação de cada pensador em sua Filosofia.”

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – O que mais o instiga em Deleuze? O que o motiva a estudá-lo e publicar livros sobre ele?
Roberto Machado – Deleuze foi um dos bons encontros que tive na vida. Admiro-o muito como alguém solitário, distante das disputas acadêmicas e da luta pelo poder, dedicado a seus estudos, preparando intensamente seus cursos, transformando esses cursos em livros maravilhosos que cada vez mais são descobertos por quem quer pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, ele era alguém profundamente comprometido com as questões atuais do mundo, às quais dava respostas originais e muito sugestivas. Fui tocado pela maneira como pensou o socialismo e o capitalismo, a questão palestina, a importância do chamado terceiro-mundo, o movimento de maio de 68, as minorias, as drogas, etc. O que me levou a estudá-lo foi, antes de tudo, o encanto de suas aulas, cheias de sugestões sobre como pensar filosoficamente esses e muitos outros temas. Mas, sobretudo, o desejo de compreender seu pensamento de modo sistemático, pois mesmo notando o quanto suas aulas e seus escritos eram sugestivos, senti necessidade de esclarecer o que possibilitava todas aquelas ideias. Deleuze é um dos filósofos mais complicados que li. Sentia que estávamos maravilhados com o que ele dizia, mas compreendíamos superficialmente seu pensamento. Por isso resolvi estudar sua Filosofia sistematicamente e esclarecer seu modo de pensar em todos os seus livros.

FILOSOFIA – Em 1990, o senhor publicou o livro Deleuze e a Filosofia. Em agosto deste ano, irá publicar Deleuze, a Arte e a Filosofia. Em que sentido o segundo livro complementa o primeiro?
Machado – Logo depois que fiz concurso para professor titular da UFRJ, em 1984, com a tese que foi publicada em livro com o título Nietzsche e a verdade, dediquei meus cursos e minha pesquisa à Filosofia de Deleuze. Foi assim, por exemplo, que fiz pós-doutorado com ele no ano letivo de 1985-1986, na Universidade de Paris VIII, onde ele ensinava. Em 1990, publiquei o livro Deleuze e a Filosofia, que é o resultado desses estudos. As principais hipóteses desse livro, há muito esgotado, são as seguintes: 1) O tema central da Filosofia de Deleuze é o pensamento, e o pensamento não é exclusividade da Filosofia: filósofos, cientistas, artistas são pensadores, mesmo que pensem com elementos diferentes; 2) Ao estudar a Filosofia ou saberes não filosóficos, Deleuze busca elaborar o conceito de pensamento diferencial e fazer a crítica do pensamento representativo, aquele que subordina a diferença à identidade; 3) Embora para Deleuze todos os saberes estejam no mesmo nível do ponto de vista da criação de pensamento, é sobretudo por intermédio de uma repetição diferencial de alguns filósofos por ele privilegiados – principalmente Espinosa, Nietzsche, Bergson – que sua Filosofia se constitui como um pensamento da diferença. Depois que terminei meu estudo, Deleuze (que morreu em 1995) ainda escreveu alguns livros. Ora, lendo seus novos livros, ou relendo mais atentamente livros que ele havia escrito sobre a pintura, o cinema e a Literatura, que eu não havia analisado, descobri ser possível mostrar que as hipóteses que eu procurava comprovar levando em conta seus textos sobre filósofos, também podiam ser confirmadas pelos textos não analisados anteriormente. Desse modo, levando em consideração tudo o que Deleuze escreveu, cheguei à conclusão nesse meu novo livro, Deleuze, a Arte e a Filosofia, que a questão central de sua Filosofia, “O que significa pensar?”, tem sempre como resposta a afirmação da divergência e da disjunção. Isto é, o que lhe interessa é, antes de tudo, o estabelecimento da relação entre termos, ou entre séries, como uma diferença que reúne imediatamente o que distingue. Enunciado assim, isso pode parecer enigmático, e realmente a Filosofia de Deleuze é muito complicada. Mas, felizmente, fui capaz de mostrar, no que diz respeito a cada um de seus livros e à totalidade do que ele escreveu, o que isso quer dizer.

NÃO HÁ CONCEITOS ETERNOS. POR ISSO A FILOSOFIA CONTINUA VIVA, SEMPRE SE TRANSFORMANDO, SEMPRE PENSANDO NOVOS PROBLEMAS E NOVAS QUESTÕES: SEMPRE CRIANDO NOVOS CONCEITOS

 

FOTOS: SILVIA CONSTANTI

FILOSOFIA – De acordo com Deleuze, o pensamento não é privilégio da Filosofia. Ele também é produzido pela Arte e pela Ciência. Mas qual seria a diferença entre as três formas de pensar: são estruturas diferentes de produção de pensamento (maneiras diferentes de pensar os mesmos temas) ou formas de pensamento com focos distintos (cada uma se volta para certos temas)?
Machado – Há uma tendência da Filosofia moderna, desde Kant, de distinguir a Filosofia dos outros saberes por uma diferença de nível, o que faz da Filosofia um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação. É essa, por exemplo, a posição do neopositivismo, da Epistemologia francesa, da Filosofia Analítica da linguagem. Diferentemente dessas correntes, a Filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a Filosofia com relação às Ciências e às Artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes produziriam conhecimento e a Filosofia seria uma reflexão sobre esses conhecimentos da Ciência, das Artes, da Literatura. Para Deleuze, a Filosofia é criadora e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Mas isso não significa assimilar os diferentes domínios de saber, pois o poder criador da Filosofia é específico. A diferença é que o objetivo da Ciência é criar funções, o objetivo das Artes e da Literatura é criar agregados sensíveis, sensações, e o objetivo da Filosofia é criar conceitos. Assim, há especificidade dos saberes, no sentido em que cada um responde às suas próprias questões ou procura resolver com seus próprios meios – conceitos, funções, sensações – problemas semelhantes aos colocados pelos outros saberes.

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