Sobre Graciliano Ramos, por Rose Prado

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted

Sobre Graciliano Ramos por Rose Prado. (*)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?

Li Graciliano com uns 20 anos.
O primeiro contato foi acachapante, fiquei horrorizada, cheia de poeira, sede, poeira por dentro. Lágrima por dentro que não sou de chorar.
Ainda que o livro seja linear, diz um caminho a pé, seguindo o trajeto imaginado.
Eu sofri. Eu me identifiquei com Graciliano, na busca da água. E com o Menino Mais Velho, o Menino Mais novo. Porque me faltam palavras.
Li como se o livro fosse eu. Sofri com a morte da Baleia. Faltou água pra eu chorar.
E aquele sangue que Sinha Vitória lambia era eu. Porque a vida que levo é seca, tão seca.
A segunda vez, eu já tinha os conceitos, a Literatura, a estrutura. Então não vou falar sobre o estilo de Graciliano, que não carece.
É o relógio, a faca, o sol pontuando, sem sombra, sem trégua.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura “leitura difícil”)

Não acho. E penso nos alunos. Eles lêem bem, sem dificuldade. Aquela que encontram no Rosa.
Mas não acho que aos 18 anos tenham ( alguns sim) a compreensão larga. Ainda não sabem da seca. Seca em nós, viventes.
Concordo com o filósofo Savater que propõe que se peçam leituras adequadas à faixa etária.
No nosso tempo, questionávamos, Meg. Os jovens de hoje carecem (!) de leituras com que se identifiquem.
Quando tinham de ler A hora da Estrela, ficavam desesperados. O texto de Lispector é cheio de nuances quase inacessíveis ao jovem de hoje.
Quando eu lia com eles, junto, dramatizava, explicada. Então, entendiam e iam sozinhos. Gostavam.
Quando ao livro de Graciliano: não têm dificuldade alguma. Lêem com tranqüilidade. Porque, embora Vidas Secas não seja contemporâneo, no sentido de contar a vida deles pra eles, é universal e tanto que compreendem. Por causa da brasilidade, por causa do problema da seca, que eles não sabem ser também a seca existencial. Eles entendem porque conhecem – de ler – a miséria do povo brasileiro.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
É popular sim, não exatamente pop. Popular por apontar a cultura do povo. Mas popular, assim como a Semana Santa, o Carnaval? Não acho que seja, não. Acabou ficando porque é leitura obrigatória do vestibular e das aulas de Literatura. Pode ser popular, poderia, se a Literatura fosse ensinada como devia. Não é.

Como tornar essa leitura popular? Usando metodologias que usassem intertextualidade.Ou mesmo que associasse outras linguagens.

O filme (de Nelson Pereira dos Santos) ajuda o pessoal a entender.

Se eu trabalhasse em escola, faria teatro, leitura em voz alta, filmes, jogos. Aí o livro ficava popular. Do jeito que é só mesmo a obrigatoriedade na escola o faz popular.

Sobre citações:
Quem cita geralmente o faz porque as frases de Machado e Guimarães Rosa já estão na boca do povo. Mas povo aí é palavra perigosa. São letrados de classe-média que ouvem cantar o galo mas não desconfiam que era uma gravação.

Não vejo citações de Graciliano. Porque o livro dele embora de leitura circular não é dado ao ato de despedaçar. O todo é a seca, os passos, o olho no texto, nas pegadas de Fabiano e Sinha Vitória. Não dá pra arrancar pés, olhos, braços, rabo, sangue.

Vidas Secas é um caleidoscópio cuja haste não sai sob pena de destruir o livro.
Não acho que haverá citações de frases .

*Editado

*************************

Obrigadíssima, Rose.

Belíssimo trabalho.

Você é “fera”. 😉

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8 respostas em “Sobre Graciliano Ramos, por Rose Prado

  1. maravilha de texto.
    concordo ineiramente com isto “letrados de classe-média que ouvem cantar o galo mas não desconfiam que era uma gravação.” aliás, muita coisa na educação e da cultura brasileira é tratada assim.

    da mesma maneira , o texto ´lido com muitíssimo prazer. Emoção até na primeira resposta.
    Parabéns

  2. Nem verbos, ou substantivos. No universo sem palavas de Vidas Secas, dá-se o rastro de sangue que nos alimenta.

    Foi assim, não é, Tereza?

  3. Rose, minha dileta amiga, como pôde me emocionar tanto! Suas respostas bem explicam a professora que é, arguta, astuciosa (no bom sentido), preparada, de conhecimento íntimo com a literatura e seus representantes, dotada da virtude que devia ser de todos os professores – capacidade de doação.
    Rose, que vê longe, Rose que se agita, que dramatiza, que se doa infinitamente, você é exatamente o modelo do professor como eu o entendo.
    Nas respostas, as palavras incisivas, as que ninguém disse com tamanha propriedade, você escreveu com sangue e poeira e deixou rastros bem decifráveis ou visíveis. Sem ser nordestina, você soube captar a alma dos personagens em sua íntegra, viveu os problemas angustiantes da fome, do medo da fatalidade, do inevitável espírito de servidão dessa gente desgastada. sofrida.
    Parabéns, Rose, a mais emocionante palavra sobre GR entre todas.
    Magaly

  4. Voce é a fonte d’água. Quem bênção! Eu precisava ouvir isso.

    Mas lhe digo que entender Vidas Secas foi ‘moleza”.
    Mas não sou arguta pra captar a fome e a sede. Essa carência é minha, no Universal que é o livro. E, se me dou ao ensino, é pra ganhar visibilidade das sombras, sob o sol autoritário a quem sirvo – a minha condição de migrante em busca de manancias, sonhos e…do que me falta: eu. Eu me perdi buscando um sangue que me doasse vida. A mim, minhas crianças encroadas, franzinas.
    Vidas Secas é universal e a mim se abre, lenimento. Meus companheiros a seca de viver.
    beijos

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