TOM STOPPARD e 1968(2)

O “movimento”, como podia ser chamado, localizava-se mais numerosamente num cambiante submundo de acontecimentos artísticos – exposições, shows de música, happenings, leituras de poesia – em endereços mal iluminados em torno de Covent Garden e em outros locais, e aqui a palavra “revolução” adquire, ao meu ver, uma certa substância. Não foi uma revolução social, e nem se limitou a 1968, mas havia a sensação de uma revolução cultural em curso naquele momento.

Infelizmente, também isso me deixava constrangido. Eu adorava a música e a liberdade para me vestir de maneira inventiva, mas não conseguia me acostumar com os diálogos, uma gíria redutiva composta de jargão militante e sabedoria de araque derivada da má compreensão das religiões orientais.

Esta última frase tomei de volta de um personagem da minha última peça, Rock’n’Roll, que começa em 1968. Ironicamente, a pessoa que fala por mim acerca dessa revolução é um marxista, um comunista de Cambridge chamado Max que aparece falando do passado em 1990, quando tem mais ou menos a mesma idade que tenho agora. A seu ver, os anos 50 foram o último período em que a liberdade só chegava depois que você deixava a juventude para trás. Em meados dos anos 60, os jovens já tinham muito mais liberdade do que sabiam usar, mas a confundiram com libertação sexual e liberdade de ficar doidão, de maneira que foi tudo um desperdício – melhor dizendo, desperdiçado numa revolução cultural, e não numa revolução social. “Teatro de rua” é como Max define o período. Alterar a psique era um suposto caminho para a mudança da estrutura social, mas como marxista ele sabia que na verdade as coisas funcionavam ao contrário: mudar a estrutura social era a única maneira de transformar a psique. A idéia de que “faça o amor, não faça a guerra” seja uma palavra de ordem mais prática do que “trabalhadores do mundo, uni-vos” é tão vazia de substância quanto o I Ching.

Eu queria ter conhecido esse homem em 1968. Nos entregaríamos ao constrangimento enquanto contemplássemos o espetáculo. O personagem combatera o fascismo nos cortiços e na Espanha, e quando observasse em tom sarcástico que a sua filha hippie “acha que fascista é um policial a cavalo na Grosvenor Square”, eu poderia ter dito “É isso aí!” ou “Estou de pleno acordo”.

Por outro lado, ele também poderia ter mudado a minha opinião sobre algumas coisas, a começar pela sociedade de que eu me sentia, e ainda me sinto, grato por fazer parte. E os abusos e maustratos? Serão de fato excepcionais ou endêmicos do sistema? E em que ponto o trabalho de edição pode se confundir com uma censura auto-imposta diante de pressões reais ou imaginadas?

Estas são perguntas que eu não me faria em 1968. Mas não fui o único a mudar. A sociedade também mudou. Em 2005, entrevistei um cineasta na Belarus que os órgãos estatais de segurança tinham espancado pelos motivos de sempre, e ele me disse algumas coisas notavelmente parecidas com um monólogo que eu acabara de escrever para um anglófilo tcheco em Rock’n’Roll… “Eu sonho com o que vocês inventaram”, diz Jan a Max. “Vocês podem xingar os governantes de idiotas e criminosos, mas a lei defende a liberdade de manifestação, e se o governo não gostar, que se foda, não pode pôr a mão em vocês…” E o cineasta em Minsk me disse: “O fato de vocês poderem chamar o primeiro-ministro de mentiroso e assassino não é uma virtude dele, é uma virtude de vocês.” Esse meu artigo sobre a Belarus foi publicado quase no mesmo dia em que Walter Wolfgang foi expulso à força da convenção do Partido Trabalhista inglês. Recebi um jubiloso cartão postal de Harold Pinter.

Essa coisa que “nós inventamos”, a autonomia do indivíduo, percebo que ecoa em tudo que já escrevi. Em The Coast of Utopia,5 usei as palavras do próprio Alexander Herzen6 sobre os ingleses oitocentistas: “Eles não dão asilo por respeitar quem lhes pede asilo, mas em sinal de respeito por si mesmos. Inventaram a liberdade pessoal sem formularem qualquer teoria a respeito. Dão valor à liberdade pela liberdade.”

Se eu soubesse em 1968 o que iríamos malbaratar, mais aceleradamente depois de 2001, bem antes da desculpa do 11 de Setembro, eu poderia ter me juntado àquela farra com menos embaraço, com menos a perder. Mas àquela altura tudo que ocorria me parecia frívolo em comparação com as liberdades que inventamos – ou, talvez deva dizer, as liberdades que os ingleses inventaram? Eu tinha 31 anos, vinha ganhando a vida desde os 17, era velho demais, encabulado demais, monógamo demais, medroso demais em relação às drogas, apaixonado demais pela Inglaterra e tenso demais para relaxar e aproveitar a fundo aquilo tudo.

Sir TOM STOPPARD, é dramaturgo e adora  rock’n’roll.

Olhem só:

Na página do British Council.

No Rock.

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