Vale a pena, muito: reavaliar Sylvia Plath

post do filme com Gwineth Paltrow

 “Sou habitada por um grito./ Toda noite ele voa/ À procura, com suas garras, de algo para amar./ Tenho medo dessa coisa escura/ Que dorme em mim;/ O dia todo sinto seu roçar suave e macio, sua maldade.

I am inhabited by a cry./ Nightly it flaps out/
Looking, with its hooks, for something to love. / I am terrified by this dark thing/
That sleeps in me; / All day I feel its soft, feathery turnings, its malignity.

( Silvia Plath. The Elm  (excerto) trad. de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo,  2007)

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No inverno de 1963, talvez o mais frio do século, Sylvia Plath, jovem poeta norte-americana radicada na Inglaterra, suicidou-se inalando gás. Pouco tempo antes ela havia rompido com seu marido infiel, o poeta inglês Ted Hughes; seus últimos meses, ela os havia passado escrevendo quatro dezenas de poemas violentos e obcecados com a morte, reunidos depois em “Ariel“.
Pertence a esse conjunto seu célebre “Papai”, um texto no qual ela chega a comparar o pai a um carrasco nazista, algo que, se hoje patenteia um gosto no mínimo duvidoso, parecia então o supra-sumo do revolucionário. A combinação disso tudo e mais um contexto particularmente favorável garantiram a reputação póstuma da autora e de sua obra, que se tornaram objeto (ou, quem sabe, vítimas) de culto, de uma admiração não raro equivocada, de estudos etc.
O contexto favorável em questão era o da emergência do feminismo americano, um movimento excepcionalmente letrado e literário cujas figuras-chave se originavam em boa parte na área de letras. O feminismo precisava de pelo menos uma mártir, e Plath, jovem, talentosa e precocemente desaparecida, havia sido talhada ou talhara-se sob medida para o papel.
Mártires, no entanto, pressupõem geralmente um carrasco e, para tanto, lá estava o viúvo. Hughes reunia todas as pré-condições para ser declarado, sem julgamento, o culpado pelas misérias da vida e pelo fim trágico de sua (ex)-mulher: era homem, fora um marido infiel, era inglês e, de resto, também escrevia, o que o tornava um “competidor”.
A história, contudo, é mais complexa. Plath perdera, aos 8 anos, o pai, e isso não apenas acarretou dificuldades financeiras para a família como se transformou num trauma. Ela sofria de crises de depressão e, numa delas, nos seus tempos de universidade, antes de conhecer Hughes, ela tentara se matar e acabou submetida a meio ano de internação e tratamento.
Há, além disso, o fato de que vários outros poetas americanos mais ou menos contemporâneos de Plath e estilisticamente próximos — por exemplo, John Berryman — também se suicidaram.
O marido, por sua vez, admirava e incentivou sinceramente sua poesia, algo que ela lhe pagou lealmente na mesma moeda. Em termos profissionais, o convívio foi produtivo para ambos. Depois da morte dela, ele cuidou de preservar sua obra e, prudentemente, evitou se estender seja sobre a vida em comum dos dois, seja sobre as causas do desfecho suicida.
Mas, para gerações de feministas e admiradoras em geral da poesia de Plath, ele é o vilão, algo que na cabeça delas parece confirmado pelo suicídio, cinco anos depois, de sua segunda mulher e pelas suspeitas de que ele teria omitido fatos importantes e destruído partes do diário da poeta.
A carreira de Hughes, no entretempo, prosperou e, em 1984, ele chegou ao topo do “establishment” literário britânico, sendo nomeado “poet laureate” (poeta laureado). Três décadas e meia depois daquele inverno, ele finalmente rompeu o silêncio, dando a público uma coleção de seus próprios poemas sobre a história toda, poemas escritos durante anos e que estarão à venda nos EUA, a partir do mês que vem, no livro intitulado “Birthday Letters“.
Pela amostra reproduzida na imprensa americana pode-se, no entanto, deduzir o resto, ou seja, o de que nenhum fato novo e relevante será acrescentado, nenhum eventual enigma elucidado, pois poemas dificilmente se prestam a uma função dessas. Hughes continua em silêncio. Sylvia, por seu turno, segue segura não só em  seu lugar  de grande poeta mas também de mito. (Nelson Ascher) Folha de S Paulo, 1998)

Filme: Sylvia além das Palavras, 

  “O filme sobre a poeta Sylvia Plath e seu marido Ted Hudghes, dois dos grandes poetas do século 20, expõe o sofrimento da mulher, papel de Gwyneth Paltrow. Pode ser que Sylvia, Paixão além das Palavras seja mesmo um mau filme. São tantos críticos a achá-lo frio e sem graça. Devem ter razão. Mas talvez valha prestar atenção, mesmo assim, à cinebiografia da poetisa Sylvia Plath, realizada pela diretora Christine Jeffs. Ela ou seu roteirista, John Brownlow, possivelmente os dois, viram o velho Sílvia, de Gordon Douglas, com Carroll Baker, nos anos 1960. Aquela Sílvia não tinha nada a ver com esta, mas também era uma mulher da palavra, uma escritora. Uma fictícia, a outra real, as duas Sílvias são vítimas de uma sociedade controlada pelos homens. O filme de Gordon Douglas é melhor. Possui um desenho de cena, uma importância conferida aos objetos, que escapa a Christine Jeffs. Mas ela viu a Sílvia de Douglas, com certeza.
Seu filme conta a história da complicada relação entre dois dos maiores poetas do século 20 – Sylvia Plath e Ted Hughes. Conheceram-se quando, ainda jovens, estudavam na Universidade de Cambridge. O casamento foi marcado pela infidelidade e pela violência. Amargurada, Sylvia se matou aos 30 anos. A Sílvia de Gordon Douglas é um enigma que o detetive interpretado por George Maharis tenta decifrar. Garota, ela adorava os livros, mas era pobre e teve de se prostituir. Violentada por um cliente, tirou dele o dinheiro que lhe permitiu fazer uma carreira como escritora, mas de alguma forma ela morre interiormente. É assim que Maharis a encontra. E tenta retirá-la de entre os mortos.
A Sylvia da neozelandesa Christine Jeffs é a de Douglas sem Maharis. Ao assumir o papel, Gwyneth Paltrow talvez tenha pensado em Nicole Kidman e os produtores numa repetição de As Horas, com a bela atriz como Virginia Woolf, outra suicida. Você pode até falar mal do filme, mas não de Gwyneth. Ela vive Sylvia Plath com sinceridade. E, talvez por ter sido ´liberada´ por Bruno Barreto em Voando Alto, a andrógina atriz de Shakespeare Apaixonado revela sua voltagem erótica em cenas intensas com o ator Daniel Craig, que faz Ted Hughes. Ela você conhece. Ele, pode ser que não – Craig fazia o filho vingativo do gângster Paul Newman em Estrada para Perdição, de Sam Mendes.
Sylvia Plath revelou-se uma das fortes e originais vozes da poesia americana por volta de 1960. Sua morte a transformou num ícone feminista. Ela teria sido vítima do marido. A diretora não repete o erro de Brian Gilbert em Tom & Viv, sugerindo que Vivienne Haigh-Wood não apenas foi levada à loucura por T.S. Eliot, como era melhor poeta do que o marido famoso. Christine não aponta o dedo acusador para Ted Hughes. Ela reconhece que a infidelidade dele produziu a infelicidade no casamento que desestabilizou Sylvia, mas não o transforma em vilão. A compulsão desse homem é motivo de sofrimento para ele próprio.
O filme é falho justamente como retrato de uma poetisa. O universo poético de Sylvia Plath, seu domínio das palavras, tudo isso permanece indecifrável para a diretora. Mas, como retrato triste e amargurado das cenas de um casamento que implode, seu trabalho impressiona e incomoda. Christine não carrega na emoção. Seu filme permanece frio e distante. E a Sylvia de Gwyneth, loira e linda, mas não exatamente platinada como a de Carroll Baker, passa uma insuperável imagem de sofrimento.”
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